Grande Depressão

Entre Dois Fogos, de Anthony Mann

A bela advogada aconselha o bandido a deixar a vida criminosa. A outra, sua companheira, apoia-o na escapada. A certa altura de Entre Dois Fogos ambas estarão ao lado do protagonista: elas representam a luta dele contra si próprio, luta difícil.

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Uma leva à moralidade, ao rapaz heroico, ao passado, e diz ter se interessado pelo homem agora perdido, precisando de ajuda. A outra, mais atraente, revela mais: faz juramentos ao espectador, em narração, como se seu destino estivesse dado, como o do homem ao lado: é uma voz de lamentação, de perda.

O filme de Anthony Mann não é um noir autêntico. O protagonista não quer se destruir, sequer tem consciência da destruição. Nenhuma mulher revela-se perigosa ou traidora. Os bandidos são acessórios.

Ao centro, Dennis O’Keefe é Joe, homem comum, decidido a escapar da prisão. Fica claro, apesar de tudo, que tem boas intenções. O cinema tem o estranho poder de aliviar certas figuras. Como explicará a advogada Ann (Marsha Hunt), ele teve um passado de glória, foi considerado herói em outros tempos. Nessa América estranha, ora às sombras, ora à luz, em algum ponto o protagonista perdeu-se, foi preso.

Perto dele estão Ann, para dizer que vale a pena esperar a liberdade, e Pat (Claire Trevor), para estimular sua escapada. Enquanto é contaminado pelo perigo da segunda, vê-se carregado pelo jeito sábio da primeira.

O anti-herói é como um velho pistoleiro decidido a colocar a vida em risco para acertar as contas com os vilões, ou para libertar a mulher inocente. Há nele alguém duro e verdadeiro, nem sempre fácil de ver: é o homem que não se encaixa em um país supostamente vitorioso, como boa parte das personagens do cinema noir.

Não por acaso, Ann fala de homens como seu pai, que venceram os tempos difíceis da Depressão. O cinema da época – com Bogart, Cagney e Robinson – é composto de um grupo de desviados, bandidos, e de alguns que ainda lutavam para mudar – como o protagonista de Heróis Esquecidos, de Raoul Walsh, e um pouco como Joe.

Esse anti-herói é o perdedor que sobreviveu à guerra, não à cidade. A narração da companheira dá o tom da fatalidade. A tragédia é incontornável. Entre Dois Fogos é sobre morrer por amor. Joe demora a entender isso. A certa altura, um homem que matou a própria mulher é morto pela polícia. Perdeu o amor, e perdeu tudo.

(Raw Deal, Anthony Mann, 1948)

Nota: ★★★★☆

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Pecado sem Mácula, de Anthony Mann

Irene, a Teimosa, de Gregory La Cava

A distância é pequena entre o depósito de lixo e os espaços frequentados pelos mais ricos em Irene, a Teimosa, comédia clássica que une o controlado William Powell à mimada e bela Carole Lombard.

O roteiro não deixa mentir: “A prosperidade está na esquina”, diz a personagem de Powell, Godfrey, mendigo convertido em mordomo. Como um homem chique que a certa altura precisa tocar a barba de Powell para ter certeza que se trata de um desvalido, o espectador tem motivos de sobra para duvidar de sua imundice.

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Ela passa rápido. E Powell, à vontade, estará a circular em festas de gente poderosa, gastona, de pessoas exageradas que riem e bebem sem parar, que enxergam gnomos em suas manhãs de ressaca, que precisam de conselheiros para dizer o óbvio. É essa pouca distância entre o lixo e o luxo, sobretudo quando o ridículo põe-se do lado esperado, que faz de Irene, a Teimosa um perfeito exemplo do cinema de sua época. Ou o perfeito exemplo do espírito americano de sua época.

O mendigo em questão sabe o que é viver no lado oposto. Antes de ser o homem pobre de barba saliente, Godfrey era rico. Perdeu tudo e, com um novo terno, mais uma vez entre os abastados, encontra a deixa para recuperar seu dinheiro e empreender.

Vencer a distância entre lados será possível, claro, pois se trata do cinema hollywoodiano dos anos 30, em plena Grande Depressão, quando sonhos eram vendidos sem qualquer vergonha. O amontoado de latas e sujeira a céu aberto cede espaço para a passagem de moças ricas montadas em brilhantes vestidos de cetim.

Na Hollywood em questão, a menina ao centro, Irene (Lombard), podia se sentir atraída pelo homem errado (o mendigo) sem correr o risco de errar (afinal, ele é fino demais). É só uma questão de esconderijo, de voltas que levam ao esperado, sabe o público.

A comédia do diretor Gregory La Cava tem leveza e infantilidade, é ágil, com sofisticação e amostras da bobagem de um grupo no qual o mais interessante é o mordomo – como prova o amor da menina inocente, capaz de enxergar sua grandeza. E não será a única a se apaixonar por Godfrey. Lombard, com carne saliente, com seus pulinhos sobre a cama e forma fantasmagórica ao ser rejeitada, lega ao cinema clássico uma imagem tão poderosa quanto a de Jean Arthur nas comédias de Capra.

A química entre o casal é perfeita, também entre todos em cena: entre o pai nervoso com as contas da casa e sua mulher gastona e burra, entre as filhas, cada uma como um tipo de mulher (a loira e a morena), entre diferentes classes sociais.

Por curioso que pareça, Irene, a Teimosa não chega a ser uma história de amor ou farsa completa. A mudança, com a transformação do lixão em casa de shows, ao fim, dá o tom de esperança, como se fosse possível escapar da sujeira, superar a Depressão que recaia sobre todos.

Em meio à comédia de regras próprias, feita à forma da screwball desse mesmo tempo, o filme não pede para ser levado a sério. Supera a relação entre o casal, que termina mesmo como brincadeira, quando Irene não tem mais dúvida sobre sua paixão, quando Godfrey tem todas as dúvidas sobre esse relacionamento. A essa altura, esse é o menor dos problemas: o amontoado de lixo transforma-se em festa.

(My Man Godfrey, Gregory La Cava, 1936)

Nota: ★★★★☆

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A Felicidade Não se Compra, de Frank Capra

Uma Mae West para King Kong

Em King Kong, de Peter Jackson, a ironia está nas ações do grande macaco, que faz de tudo para salvar e proteger a garota loura. Ela representa a modernidade, a atriz de cabelo curto, louro, uma das inúmeras candidatas a nova Mae West, durante a Depressão. Ele, a criatura, é o passado intocado, selvagem, livre e preso ao seu reino.

A garota termina a bordo de um navio com homens estranhos, no qual exploradores misturam-se a figuras do cinema, no qual um diretor faz tudo – contra todos – para chegar à Ilha da Caveira, cenário ideal para um filme jamais realizado.

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Mesmo com tanta ação, o melhor dessa versão de King Kong é a abertura, da imagem do primeiro macaco, no zoológico, à civilização que não deu certo, à velha imagem da modernidade mesclada à miséria: carros por todos os lados, gente pobre e com fome, grandes prédios que mais tarde servirão à escalada do macaco gigante.

Fala da evolução das espécies – ou, a depender do ponto de vista, da involução. Do macaco ao homem pelas ruas, do zoológico em que animais servem à distração do povo aos palcos do teatro e às telas do cinema. E se chega então à bela Ann Darrow.

Esse mundo de prédios tem mais movimento que a mata fechada e habitada por criaturas gigantes da Ilha da Caveira: Jackson sai-se melhor com o período em que os homens estabelecem-se como reis de um espaço quadrado, o mesmo em que Kong será perseguido por aviões e mais tarde abatido.

Entre os homens e Kong, na ilha misteriosa, impõe-se primeiro a barreira da névoa, sob o aspecto livremente falso dado ao filme pelo cineasta. Tenta, de todas as formas, recriar o clima do cinema clássico nesse cinema moderno cheio de barulho, com o peso em cada pequeno detalhe do som, ou mesmo em cada estrondo.

O diretor é melhor com criaturas digitais do que com humanos que tentam fingir emoção e entrosamento. O romance entre eles não funciona. O amor pelo macaco (ou do macaco) é mais interessante, mais real. A versão de Jackson, mesmo exuberante, termina como um rascunho falso de um filme divisor de águas feito nos anos 30.

Seu melhor está na frágil Ann (Naomi Watts), em seu olhar amedrontado à grande fachada – não tão grande, é certo, mas aqui ampliada e cheia de brilho – do teatro burlesco no qual mulheres carnudas entram pela porta da frente. É o momento em que a protagonista é vista pelo diretor de cinema através do reflexo da porta.

A moça servirá ao consumo dos seres que ocupam o alto da cadeia de poder, tanto na grande cidade quanto na selva: primeiro, à câmera do cineasta que deseja fazer o filme que ninguém fez; depois, ao grande macaco que domina a ilha fora do mapa.

Ao mesmo tempo verdadeira, simples, ao mesmo tempo exótica em seus gestos à câmera, no navio. A moça terá de interpretar para sobreviver: para entreter o público do cinema e do teatro, e para entreter o grande macaco que, em seu templo, observa-a.

Jackson utiliza um mar de recursos tecnológicos para reproduzir espaços que não se tocam, e entre os quais se impõe a muralha de madeira erguida pelos nativos da ilha, entre o total animal e a civilização. Esses mortos-vivos veem em Ann a parceira perfeita para Kong, a lourinha que é o próprio material cinematográfico.

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Os 100 melhores filmes dos anos 30

Adeus às Armas, de Frank Borzage

Com a bela nos braços, ao fim, o protagonista de Adeus às Armas observa a felicidade com tristeza. Sua palavra final resume o drama: “paz”.

Pois o amor do casal central só pode existir enquanto houver guerra. O amor verdadeiro, em ambos, não combina com aquele clima infernal, de bombas, aviões, luzes no céu e, para completar a desesperança, dos amigos – dele e dela – sempre amargos.

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O protagonista é Gary Cooper. Seu cabelo impecável quase não sente os efeitos do conflito: ele é bagunçado pela falta da companheira, não pelos efeitos do combate. E ela, Helen Hayes, mantém distância da realidade.

Á época, nos anos 30, sua forma não deixava ver quase nada, nem a sujeira do sangue, ou o delírio para além da pele pálida, do rosto pouco mutável. Como outras de sua época, detém a forma pequena, a da menina de cabelos ondulados da Depressão.

Em Adeus às Armas, a partir da obra de Ernest Hemingway, o diretor Frank Borzage pretende construir um mundo maior do que realmente é. É, sobretudo, uma guerra íntima, na qual as distâncias quase não existem frente ao amor central.

A cena inicial dá a ideia dessa confusão entre falsa profundidade, quando o estúdio, com suas miniaturas, representavam a grandeza dos campos de batalha – ou tentavam. Deixa ver certa falsidade, enquanto o homem deitado, à frente, surge como um gigante.

Todo o filme equilibra-se nessa falsidade, ainda que a guerra seja apenas o pano de fundo, a substância para que o amor ganhe consistência, para que o homem tenha para onde correr quando aceita ser um desertor, ou para que a mulher tenha seus motivos para procurá-lo quando ele vai lutar nos campos de batalha.

Não por acaso, o diretor aposta nos planos-sequência, justamente para dar a aparência de grandeza. Chega a brincar com os espaços, quando retira sua câmera do pequeno teatro de marionetes e a volta ao lado oposto, a novos e grandes ambientes.

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Em uma sequência brilhante, o espectador assume a visão do tenente Frederic Henry (Cooper), momento em que é levado para seu quarto, após ser atingido por uma bomba. A câmera apresenta o teto da capela, a falsa ideia de profundidade da arquitetura.

Catherine Barkley (Hayes) surge no fim dessa passagem. A moça reencontra o companheiro e se aproxima de seu rosto, beija-o, jogando escuridão sobre a imagem. A dualidade da sequência está exposta: o amor só sobrevive em meio à escuridão.

Por isso a paz é ilusória, a felicidade também. A luz da janela volta-se à perda, ao resto daquele universo, aos cacos espelhados pelo melodrama de Borzage. Não estranha que tenha arrebanhado corações e mentes. É a história de amor por excelência.

A combinação estranha de Cooper e Hayes funciona. O cinema clássico pulsa a cada instante, capaz de encenar a grande guerra nos estúdios, de iludir não apenas com a força do cenário, das sequências e do ritmo da edição. A ilusão maior está nesse amor impossível, alvo do fluxo do conflito, na contramão do pessimismo geral.

(A Farewell to Arms, Frank Borzage, 1932)

Nota: ★★★★☆

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