Gran Torino

Sully: O Herói do Rio Hudson, de Clint Eastwood

Com Sully: O Herói do Rio Hudson, Clint Eastwood volta ao homem experiente. Ou, antes, apenas ao homem. É o fator humano que salvou 155 pessoas da morte – Sully incluído – no pouso de um avião, em janeiro de 2009, sobre as águas do rio Hudson.

O diretor havia contado outras histórias sobre homens experientes, pessoas que representam uma história apenas à força do olhar, algo quase inexplicável. O pistoleiro que deixa sua quarentena em Os Imperdoáveis, o treinador que se vê “obrigado” a preparar uma mulher para os ringues em Menina de Ouro, o velho conservador que ajuda uma família oriental em Gran Torino (todos vividos pelo próprio Eastwood).

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O herói da vez não quer ser herói – como outros homens do cinema de Eastwood. Não quer dizer que não seja. Apenas não deixa evidente, ou fácil. Talvez por isso Sully não seja a experiência de emoção esperada, o que não o impede de ser exemplar.

Chama a atenção o controle do diretor veterano, a “pequena” grande história que, nas mãos de outro, poderia ser apenas uma “grande” história. O que o imaginário reproduz salta das telas da televisão, de comentaristas e jornalistas tentando explicar o tal “milagre do Hudson”. E nem isso se evita: talvez seja mesmo um milagre, quem sabe?

Algumas poucas passagens da vida de Chesley “Sully” Sullenberger (Tom Hanks) vêm à tona: a juventude em seu voo sobre campos verdes, para a pulverização, ou mesmo seu pouso bem sucedido com um avião de guerra. A história de vida volta em pequenos pedaços nesses dias de interrogatório: antes de se deixar levar pelas perguntas dos outros, Sully questiona a si mesmo – em sonhos ou devaneios.

O passado talvez dê conta de dizer – ainda que em pequenos recortes – quem ele é, ou por que chegou àquele ponto em que não se reconhece: não pode dizer a si mesmo que é um herói, muito menos assumir o peso do fracasso. Tem em sua conta 155 vidas.

E como explicá-lo em tempo tão parco? A habilidade de Eastwood comprova-se nas escolhas, da vibração da cabine do piloto à tensão em ter de se explicar às câmeras, sob o risco de revelar a fragilidade que ninguém espera desse novo herói americano.

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Pois Sully será confrontado por computadores. Cálculos indicam que talvez ele pudesse ter pousado em algum aeroporto próximo. Ele diz o contrário: sua experiência em voos credenciou-o a tomar outra decisão, e a de pousar no Hudson, ele diz, foi a mais acertada àquele momento, após o choque de aves com as turbinas do avião.

Os especialistas do governo têm suas dúvidas, abrem investigação. De um lado os algoritmos, de outro o piloto experiente. A história de Sully leva a esse confronto incontornável, a saber, entre o que pode ser calculado e o que depende essencialmente do homem experiente que precisa pensar rápido e evitar a tragédia.

O espectador reconhece sua grandeza em seu recuo, também, mas em seu modo de agir com destreza, em seu susto, por exemplo, quando uma mulher resolve abraçá-lo – simplesmente porque é Sully. Tom Hanks prova ser a escolha ideal para essa história de dias, horas, de minutos no interior daquela cabine, em uma escolha arriscada.

Chama a atenção como Eastwood recorre aos pequenos efeitos em meio àquilo que poderia ser carregado de drama e parecer o mesmo. O acidente dispensa o espetáculo. Sully e seu parceiro, vivido por Aaron Eckhart, são pessoas comuns.

(Sully, Clint Eastwood, 2016)

Nota: ★★★★☆

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Sniper Americano, de Clint Eastwood

Os soldados tratam Chris Kyle como lenda. Em conflitos no Oriente Médio, após os atentados de 11 de setembro, ele teria matado mais de 100 inimigos. Esses números não assustam o próprio Kyle, que segue como sempre foi em Sniper Americano.

Suas reações dão a impressão de que o próprio não suporta o peso do heroísmo: na guerra, o que vale é cumprir seu dever. Do alto dos prédios, com sua arma voltada às vítimas e inimigos em potencial, Kyle executa seu trabalho com perfeição.

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Clint Eastwood, a partir do roteiro de Jason Hall, apoia-se nessa personagem que não deixa ser penetrada. Até o encerramento não é fácil entender o jovem caipira que sonhava em ser caubói e se transformou em atirador, vivido por Bradley Cooper.

Sua desculpa está sempre na defesa do país, o que torna o encerramento irônico: ao enviar homens para o outro lado do planeta, os Estados Unidos teriam produzido assassinos e seres descontrolados, viciados em guerra.

A impressão é que Kyle é produto da obsessão, de um treinamento, algo que passa pela religião e chega ao culto às armas: desde cedo, o pai fez questão de lhe dar um rifle para caçar, também uma Bíblia a ser colocada ao lado de seus soldadinhos de ferro.

O protagonista é feito à base desse material forte, e cresce dentro do esperado: bebe com o irmão em sua típica caminhonete, com as roupas de caubói, e ainda tem de encontrar sua companheira com outro homem após retornar de um rodeio.

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Esse mundo comum também guarda estranhezas: Kyle, na forma como Eastwood apresenta-o, será sempre produto do meio, dessas contradições, ao mesmo tempo o americano comum e reprovável, real, às vezes interessante, às vezes louco.

Como se vê nas sequências passadas na guerra ou em família, com mulher e filhos, ele alterna situações imprevisíveis com outras comuns, como se o soldado ideal não pudesse ser o pai de família esperado. Difícil habitar os dois mundos.

O filme de Eastwood é patriota sem ser tolo: não deixa se intoxicar pela bandeira ao apresentar uma guerra dura, com o homem certo mas problemático.

No começo, o diretor leva o espectador a uma situação extrema, quando Kyle depara-se com uma criança carregando uma bomba, a ser lançada contra os americanos. Essa desumanização a distância permite que os inimigos não sejam facilmente julgados.

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Ao contrário: na linha de frente estão sempre os americanos, para o bem ou não. Nessa mesma sequência inicial, ele não deixa saber sobre a escolha de Kyle e corta para o passado, para o protagonista quando criança, aprendendo a atirar com o pai.

Forma-se ali – no tiro, no corte, no som da bala que atravessa o tempo – o elo para Eastwood questionar se a formação do soldado é ou não anterior ao simples desejo de se alistar, à sua ida ao encontro da vocação.

O que se tem é a formação do americano fiel, defensor que não aceita ser a ovelha e tampouco o lobo. Nasceu, lembra o pai, para ser um cão pastor, para defender os outros, não se inclinar a ninguém. Sempre há conflito, enquanto a religiosidade passa pelo fundo – como em Menina de Ouro e Gran Torino.

O tiro da abertura leva direto ao passado: como se vê, Kyle será capaz de matar uma criança se necessário, e será capaz de torcer por outra, para que não seja morta.

Não dá para acusar o protagonista de desumano. Ao mostrar o que há de justo e ao mesmo tempo perverso nesse homem, o diretor também questiona o quanto é prematuro julgar o atirador pelo resultado de seu trabalho: a morte ou as vidas que salvou.

Nota: ★★★☆☆