Giuseppe Tornatore

Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore

A opção pelo cômico quase não deixa ver a crítica à religião presente em Cinema Paradiso. O espectador fica com o riso ao encarar o padre-censor que, a cada beijo visto nos filmes, levanta o sino para que a cena seja cortada. O olhar abobalhado e o jeito indolor de Leopoldo Trieste contribuem para esse efeito.

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A sala de cinema é o contraponto à igreja. A ela a criança não cansa de seguir, passando de espectador assíduo a pequeno ladrão de restos de película, de invasor da sala de projeção a seu funcionário. Na igreja, feito coroinha, o menino dorme. Não tem graça. A igreja oferece salvação e pede obediência; o cinema agarra pelas emoções e em troca não pede nada mais do que um pouco de atenção, de olhar – e devolve o impossível.

Ao padre-censor, o cinema é um negócio: quando o projecionista Alfredo (Philippe Noiret) permite que uma parte do público, do lado de fora, também assista ao filme por meio da projeção na parede de uma casa, o padre manda um de seus funcionários cobrar “apenas” meia-entrada dos que se acotovelam para assistir à obra.

O pacto do cinema é direto, sem firulas ou promessas: o que se tem é a ficção. No fundo, os pagantes sabem que é mentira, mas não cansam de rir ou chorar. Não estranha que, até certa altura, o padre seja o administrador do cinema: condutor de certo “rebanho”, ele sabe o poder que as luzes na tela podem ter sobre os seres humildes da vila.

Em momento esclarecedor, o diretor Giuseppe Tornatore reproduz a imagem de uma santa no interior da sala de cinema. Ao fundo se vê a luz do projetor, como se saísse do corpo da imagem religiosa. A ideia é clara: a estátua pode projetar sua ilusão. Em outro momento, quando o cinema pega fogo, a mesma santa é revelada entre chamas. Outra vez se recorre ao paralelo: o objeto sacro, do qual saíam as luzes, morre com o cinema.

Na mescla entre comédia e drama, o filme fica mais “fácil”. Vence o filtro da memória, da nostalgia: toda a história é vista a partir de um homem que relembra sua infância, depois sua puberdade. O passado volta quando ele, na cidade grande, é avisado da morte de seu melhor amigo, justamente o projecionista da pequena cidade.

Sua memória resgata os pequenos tipos. Alguns sequer têm nome. É difícil não se enxergar no público daquele antigo cinema, naquele passado que fala, sem rodeios, de quem se apaixonou, sofreu, viu o mundo por outros olhos sentado na poltrona da sala escura. O que dá força ao filme de Tornatore é a idealização de certa simplicidade, a que busca as caricaturas para reforçar ora o drama, ora a comédia.

À sua maneira, Cinema Paradiso é um grande filme falso no qual se vive à ideia de que o passado é sempre ingênuo, de que não dói porque, no fundo, há sempre a “magia” do cinema a cercar a realidade, a nutri-la de figuras que exalam só amor e bondade. Não são poucos os homens que soam idiotas em seus papéis, como nas ótimas comédias à italiana.

Em geral, o povo da pequena cidade é compreendido a partir de seu comportamento na sala de cinema: estão ali os meninos que se masturbam enquanto assistem à aparição de Brigitte Bardot, os homens que se arrepiam quando Vittorio Gassman ousa beijar as costas nuas de uma mulher, ou a figura repugnante que cospe nos espectadores do espaço inferior. São reproduzidos segundo o olhar de alguém que viveu entre eles, que “aprendeu” a ver o cinema com eles: ao cineasta que relembra sua juventude, essa história será sempre algo no tom da música de Ennio Morricone: o som do próprio passado.

O filme eleva os sentimentos com a ajuda da música. Os caminhos são sempre os mais fáceis. Dá para resistir à história de uma criança que ama o cinema e que se infiltra na sala de projeção até ficar amiga do velho amável que ali trabalha, homem que talvez não tenha se casado porque estava preso demais àquele ofício e, por consequência, à sétima arte? Ainda no início, será justamente o segundo que despertará o passado no primeiro. Retorna a infância, retornam os amores. O passado é o cinema e tudo o que representa.

(Nuovo Cinema Paradiso, Giuseppe Tornatore, 1988)

Nota: ★★★☆☆

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Lembranças de um Amor Eterno, de Giuseppe Tornatore

Qualquer sinal de reviravolta beira o alívio, ao público, ao longo da caminhada sentimental de Amy Ryan (Olga Kurylenko). Seu universo vira de cabeça para baixo quando o amante, um professor de astronomia, constrói para ela outra realidade.

Nesse trabalho de Giuseppe Tornatore, Lembranças de um Amor Eterno, o amante tenta seguir vivo, por certo tempo, após sua morte: é um drama sobre a impossibilidade de apenas se despedir, ou de apenas se fechar no próprio fim e aceitar o vazio.

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Pois as personagens, os amantes, preferem o discurso que remete às estrelas e seus mistérios, aos seres que nascem para o outro, à necessidade de os humanos criarem narrativas – e também charadas – para combater a constatação de que são pequenos pontos perdidos no meio do nada. É, sobretudo, sobre criar um significado.

Anunciar a morte é pouco. Despedir-se também. O amante é idealizado: busca outro caminho mesmo face à morte. E confunde a moça com seu “amor eterno”. Tornatore insiste tanto nos mesmos caminhos que sua obra não demora a enjoar. Por isso, qualquer sinal de mudança gera o citado alívio que não chega.

Ou mais: prefere andar em círculos, o que não deixa de produzir o mesmo resultado enfadonho. Para tentar se desviar do mesmo, insere questões que envolvem a família dos amantes. É a velha maneira de o falecido mostrar o caminho à amada, “torturada” a viver nesse mundo agora sem muito significado, e a buscar significados.

Ao mesmo tempo em que tenta decifrar os recados e obedecer às muitas mensagens (cada uma em seu tempo) do companheiro, a bela ao centro corre de um lado para outro, entre seus trabalhos, estudos, também aos pontos em que o amante vivia.

Longo caminho de Tornatore em busca da repetição, da melancolia da perda, do amor que sai atrás de um sentido quase à força: quando o mundo ao redor não tem qualquer sentido, essas pessoas são obrigadas a criar algo “maior”.

Seu cansativo trabalho é embalado por essa ideia: é moldado às mensagens adultas de superação, de luto, ao passo que também não dispensa os contornos extraordinários do homem especial (vivido por Jeremy Irons) que recusa a banalidade da morte.

Antes de morrer, ele criou um roteiro – com a participação dos amigos vivos – para que Amy continuasse a receber suas mensagens em vídeo e pelo celular. É como se continuasse em carne – ao mesmo tempo em que Tornatore faz o espectador crer na possibilidade desse homem reaparecer a qualquer momento.

Não aparecerá. O filme é dela, com seu luto e maneira cambaleante. Ao mesmo tempo em que tenta terminar seus estudos em astronomia, Amy trabalha como modelo e dublê em filmes. É o amante que explica sua condição: ela busca vestir outras máscaras, e não pode evitar que seu momento de dor seja ocultado.

Nua, a certa altura Amy serve de molde a uma obra de arte. Ao chorar e se movimentar, com o corpo preso à borracha, ela pode ter colocado todo o trabalho a perder. Mas ocorre o oposto: o artista vê nesse “defeito” algo verdadeiro e definitivo. As emoções são impressas, e não escapam à aparente matéria sem vida.

(La corrispondenza, Giuseppe Tornatore, 2016)

Nota: ★★☆☆☆

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