Giulietta Masina

Bastidores: A Estrada da Vida

Nunca peço ao ator um esforço de interpretação particular, ou seja, nunca me obstino a fazê-lo dizer meus diálogos num dado tom. O caso de Giulietta interpretando Gelsomina é o único exemplo em que obriguei uma atriz que tem um temperamento exuberante, agressivo, até pirotécnico, a fazer o papel estilizado de uma criatura retraída de timidez, com um clarão de razão e de gestos sempre no limite da caricatura e do grotesco. Isso me demandou um esforço muito grande e nesse caso particular, Giulietta, contrariamente ao que ela fez por Cabiria, precisou de um esforço de interpretação muito grande, porque Gelsomina é uma “interpretação” enquanto “Cabiria” estava muito mais na sua afinação, com sua agressividade, seu temperamento quase um pouco alucinado, sua prolixidade.

Federico Fellini, cineasta, na revista Cahiers du Cinéma (nº 84, junho de 1958; traduzido do francês por Luiz Carlos Oliveira Jr. e publicado na Contracampo; leia aqui). Abaixo, Fellini e Giulietta Masina.

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Poucas e Boas, de Woody Allen

A história de Emmet Ray permite duas certezas: ele tem medo de Django Reinhardt e ama a música. Por isso, não sabe lidar com sua arte: pode amá-la, mas não pode se aproximar do único músico que talvez esteja acima dele.

A condução é de Woody Allen, que se perde propositalmente de Emmet para se lançar ao jazz. Essa personagem é a desculpa para falar do estilo musical que adora. Poucas e Boas é sobre música, o que permite ao protagonista ser um demônio feliz.

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poucas e boas

É sua maneira de ser – entre jogos e mulheres, sem se preocupar com a vida em geral. A música significa algo, engajamento, ou mesmo a produção de uma substância cuja beleza não parece clara a qualquer ouvido, ou a qualquer dono de bar e casa de shows.

Os empresários preocupam-se mais com ele, menos com sua arte. Um deles reclama: certa vez, após noites de bebedeira, o músico desaparece. Deixa o público esperando. O dono do estabelecimento não perdoa e demite o protagonista.

A única mulher que talvez veja beleza em sua música não fala uma palavra sequer. Uma delas deseja estudar a paixão por trás das canções, outra não dá a mínima para cada toque, para esse gesto de paixão, entrega – como fica evidente na sequência final.

Enquanto a América via-se afundada na Depressão, Emmet ainda contava com a sorte: ao tentar fugir de um show, depois de ser avisado que o também músico Reinhardt estava na plateia, ele quebra um telhado e cai sobre uma montanha de dinheiro falso. Pensa que é verdadeiro, compra um carro caro.

Em um dia pouco ensolarado da Depressão, ele brinca com um amigo de conquistar mulheres. Sem querer, como quase tudo em sua jornada, conhece uma garota muda, vivida por Samantha Morton.

poucas e boas2

Ele fala demais, toca demais. Ela deixa ver tudo com sua expressão – ao passo que, como uma criança, será capaz de comunicar o amor. Essa relação é o que o filme tem de melhor. Empresta algo de A Estrada da Vida, de Fellini: a relação entre o beberrão Zampano (Anthony Quinn) com a inocente Gelsomina (Giulietta Masina).

O fato de nunca ter existido não significa que Emmet seja menos real. Poucas e Boas prefere o ambiente, as personagens, sobretudo a música. O próprio Allen aparece – como em um falso documentário, na companhia de supostos críticos – para contar algo sobre esse homem, salientar que, mesmo fictício, ele pode ter uma vida que inclui mais de uma versão para o mesmo fato. Um mistério que nunca existiu.

A estranha vida de Emmet leva-o a tocar violão em frente ao trem em movimento, ou a sacar a arma para matar ratos no lixão, ou mesmo a agenciar meninas quando cafetinava. Fez um pouco de tudo, nunca existiu. Ou, como sugere Allen, resta questionar, sob o risco do banho de água gelada: o que isso tem de tão importante?

(Sweet and Lowdown, Woody Allen, 1999)

Nota: ★★★☆☆

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Seis grandes cineastas inspirados por Federico Fellini

Os grandes cineastas vão além de suas próprias obras: eles seguem vivos nas obras dos outros. Alguém com uma filmografia rica como a de Federico Fellini, dono de um estilo particular, inegável autor, produziu inúmeros adoradores e imitadores. Basta um pequeno detalhe para alguém apontar o efeito “felliniano”.

Os traços de Fellini são conhecidos: as personagens exageradas, as mulheres gordas, as figuras circenses, os mestres de cerimônia, os sonhos, a vida como espetáculo etc. Os cineastas abaixo retiram não tudo, mas algumas características do mestre. Alguns deles, em homenagem, não esconderam a adoração e são aqui lembrados.

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Bob Fosse

Em sua primeira experiência como diretor de cinema, em Charity, Meu Amor (abaixo), Fosse levou Noites de Cabíria a Hollywood, em versão musical, com Shirley MacLaine em papel que havia sido de Giulietta Masina. É sobre a trajetória da sonhadora prostituta que pode ter encontrado o amor de sua vida, que confia demais nas pessoas.

Com sua forma propositalmente fora do lugar, não é difícil encontrar em Cabaret, de 1972, um pouco de Fellini. O mestre de cerimônias de Joel Grey, como as mulheres assimétricas do palco, tem toques fellinianos em excesso. E depois, em 1979, Fosse assume o mergulho na fonte felliniana: com O Show Deve Continuar, faz seu Oito e Meio, sobre um diretor da Broadway tendo de lidar com muitas mulheres, com a companheira oficial, com os produtores, com o novo espetáculo – enfim, com a vida.

abcharity meu amor

Lina Wertmüller

A cineasta italiana foi assistente de Fellini em Oito e Meio e, como Fosse, esculpiu figures exageradas, falastronas, tipicamente fellinianas. O resultado pode ser visto em diferentes sucessos, como Mimi, o Metalúrgico ou mesmo no ótimo Amor e Anarquia.

Mas foi com Pasqualino Sete Belezas (abaixo), de 1975, que a forma do mestre ficou evidente: a personagem covarde, Pasqualino (Giancarlo Giannini), não consegue lidar com as irmãs enquanto finge valentia. São suas lembranças, enquanto tenta sobreviver após ser preso em um campo de concentração, enquanto finge seduzir a grande líder do local.

pasqualino sete belezas

Woody Allen

O cômico americano nunca escondeu ser fã de Fellini. Em mais de um filme, fez declarações de amor evidentes, às vezes até chamadas de cópias. Isso é claro, primeiro, em Memórias, de 1980, quase uma refilmagem de Oito e Meio. Depois, com Celebridades (abaixo), de novo em preto e branco, seu alvo é A Doce Vida.

As semelhanças são gritantes: em cena, Allen elege Kenneth Branagh como o jornalista Lee Simon, cuja profissão – como a de Marcello Mastroianni – serve de porta de entrada ao mundo das celebridades, próximo dos paparazzi (termo cunhado na obra de Fellini) e em festas em que arte e vazio quase sempre se confundem. O universo felliniano pode ser visto, em doses menores, também em outros filmes de Allen.

celebridades

Terry Gilliam

Vários filmes de Gilliam trazem um universo delirante, à beira do teatral, ligado ao sonho. O diretor já declarou se inspirar em Fellini. Essa fonte pode ser vista em obras variadas como As Aventuras do Barão de Münchausen, Medo e Delírio e até mesmo em O Pescador de Ilusões (abaixo), com Robin Williams e Jeff Bridges.

Os closes explosivos, as personagens malucas, o circo deformado de Medo e Delírio, ou a estação que se torna parte de um sonho, com dança, em O Pescador de Ilusões. Mesmo com sua forma particular, há interferências do genial italiano por ali.

o pescador de ilusões

Paolo Sorrentino

A ligação evidente, claro, está em A Grande Beleza (abaixo). Seria, como alguns afirmaram à época do lançamento, outra releitura de A Doce Vida. Faz sentido, já que ambos falam da sociedade italiana ao mesmo tempo bela e podre, com personagens centrais desiludidas, entre festas, gente rica, em mil e uma excentricidades.

Sorrentino rejeita o naturalismo. Algumas de suas personagens chegam ao grotesco, como o político ao centro de Il Divo, Giulio Andreotti, também vivido por Toni Servillo, o perfeito Jep Gambardella de A Grande Beleza.

grande beleza

Wes Anderson

A associação a Fellini pode parecer estranha. Após o curta Castello Cavalcanti (abaixo), de 2013, essa dúvida passou. O trabalho de sete minutos leva claramente ao universo felliniano, àquela pequena cidade italiana, de gente pacata, de senhores fãs de carteado, de meninos curiosos como os de Amarcord, sobre a infância de Fellini.

Em outros filmes como Moonrise Kingdom ou A Vida Marinha com Steve Zissou, é interessante observar como Anderson movimenta a câmera em direção às personagens como Fellini fazia, com a intenção de salientar uma frase estranha, até banal. Como algumas das melhores personagens do mestre, as de Anderson são cômicas por natureza.

castello cavalcanti

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Dez grandes personagens ingênuas

Algumas são geniais, incapazes de enxergar a maldade. Vivem em um universo próprio e chegam ao mundo sem explicação, como seres divinos – como é o caso de Kaspar Hauser, do maravilhoso filme de Werner Herzog.

Podem ser exploradas justamente por serem ingênuas e geralmente, ao fim, conseguem dar a volta por cima. Há casos de personagens ingênuas que terminam como heroínas, ou simplesmente sem caber neste mundo. São feitas à base da ficção, enquanto parecem reais e estranhas, como parece ser o caso de Mozart em Amadeus, de Milos Forman.

Oferecem, em todos os casos, um novo olhar sobre a civilização, ao passo que oferecem também algo estranho para mostrar a estranheza dos outros. Fazem com que a lógica seja outra, enquanto clamam aos outros um novo ponto de vista.

Jefferson Smith (James Stewart) em A Mulher Faz o Homem

a mulher faz o homem

Cabíria (Giulietta Masina) em Noites de Cabíria

noites de cabiria

Rosemary Woodhouse (Mia Farrow) em O Bebê de Rosemary

o bebê de rosemary

Joe Buck (Jon Voight) em Perdidos na Noite

perdidos na noite

Kaspar Hauser (Bruno S.) em O Enigma de Kaspar Hauser

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Carrie (Sissy Spacek) em Carrie, a Estranha

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Chance (Peter Sellers) em Muito Além do Jardim

muito além do jardim

Wolfgang Amadeus Mozart (Tom Hulce) em Amadeus

amadeus

Macabéa (Marcelia Cartaxo) em A Hora da Estrela

a hora da estrela

Edward (Johnny Depp) em Edward Mãos de Tesoura

edward mãos de tesoura

A Trapaça, de Federico Fellini

Tanto em A Estrada da Vida quanto em A Trapaça, ou mesmo em Noites de Cabíria, as personagens terminam sozinhas. Dos três, em A Trapaça vê-se o pior cenário: um homem machucado, largado pelos comparsas à beira da estrada, lutando para pedir ajuda.

Ao falar sobre esse filme, Federico Fellini disse que é imoral contar uma história conclusiva. Como se sabe, o neorrealismo italiano rompeu com a lógica típica do conhecido “realismo romântico fechado” hollywoodiano. Os filmes não precisavam mais “se fechar”.

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E, dos filmes fellinianos, A Trapaça está entre os mais cruéis, sem ser necessariamente o típico exemplar neorrealista. Ao fundo, ecos da religião, como se viu em A Estrada Vida, com o homem arrependido, em desgraça, em busca do perdão.

Ou o jeito quase santo, feliz, não necessariamente ligado à imagem imaginada para uma prostituta, em Noites de Cabíria. Fellini suaviza, faz o feio belo, traz partes de uma vida miserável para depois entregar certa redenção: suas personagens – antes do maravilhoso A Doce Vida – não são corrompidas por inteiro.

Por isso, resiste a esperança nas expressões de Augusto, o bandido bonachão, que resiste tanto à bondade quanto à maldade. Ele é um homem dividido: consegue aplicar golpes em pessoas miseráveis, em A Trapaça, e ainda assim parecer um bom pai.

Essa dualidade marca a fita de Fellini, com Broderick Crawford, famoso ator de filmes americanos. Era necessário um ator mais velho para o papel e, não por acaso, mais de uma vez sua personagem fala de idade ao longo da história.

Ele e outros tentam ser livres. “Quando se é jovem, a coisa mais importante é ser livre, é mais importante do que o ar que se respira”, Augusto explica para outra personagem, Picasso (Richard Basehart).

Importante, também, mostrar a vida comum por trás do grupo de trapaceiros, para assim chegar ao lado humano da história: a filha inocente de Augusto e a mulher desconfiada de Picasso, Iris, vivida pela musa de Fellini, Giulietta Masina.

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E, assim, à impossibilidade de ser livre, ou à ironia da total liberdade que o encerramento parece anunciar: a imobilidade do homem quase morto, cujo desfecho Fellini não deixará o público saber. Ou o desfecho que resta, pois não há filme inconclusivo, mas sim uma história sem conclusão.

O problema de Picasso é estar dividido como os outros. Sua mulher apenas desconfia que ele seja um trapaceiro. Quando aparece com o bolo de dinheiro fruto de um crime, ela solta um olhar de dúvida. Com pouco, Masina extrai muito.

Começa com o crime contra duas senhoras em uma região afastada, local em que persistem a religiosidade, a inocência e o desejo de enriquecer. Fellini explora a ideia de que nem todos são santos: a cobiça sobrevive por todos os lados, o que talvez alivie o pecado dos trapaceiros. Todos partilham os mesmos desejos.

Ao oferecer aos camponeses um tesouro, os bandidos também anunciam a necessidade de pagar por algumas orações a um morto enterrado no local, cuja ossada faz companhia ao ouro e às joias do velho caixote. O golpe está pronto.

A certa altura, na última ação de grupo, Augusto sente-se tocado pela presença de uma menina com paralisia, de muletas. Não diz muito, ou nada, mas o público entende o que quer dizer. Talvez não deseje ir em frente, aplicar o golpe, faturar com crentes e miseráveis. Sua natureza, como a da personagem de Humphrey Bogart em O Tesouro de Sierra Madre, é mais forte. Ele termina na miséria, rumo ao ouro e à morte. Sozinho, à espera da salvação.

(Il bidone, Federico Fellini, 1955)

Nota: ★★★★☆

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