George Clooney

Gravidade, de Alfonso Cuarón

A instabilidade não precisa ser explicada. O cenário é o espaço e a vida ali é impossível. A personagem, uma mulher solta entre a escuridão, cápsulas apertadas, fios soltos sobre estações espaciais, precisa sobreviver a esse espaço em Gravidade, de Alfonso Cuarón.

Falta oxigênio em alguns momentos. Para retornar ao planeta, ela salta de estrutura em estrutura, estação em estação, e todas as máquinas ao lado se dissolvem com extrema facilidade. A mulher, ou o humano em questão, luta para desviar, para escapar, enquanto o filme revela-se existencial a partir de seu visual claustrofóbico.

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Ryan Stone (Sandra Bullock), a mulher em cena, é uma astronauta em primeira missão, chamada aqui de doutora. Sua pesquisa, no espaço, não fica muito clara. E não importa. Sua nave é atingida por detritos gerados pela explosão de um satélite. Outros astronautas são mortos. Na sua companhia – e não por muito tempo – fica Matt Kowalski (George Clooney), em última missão, mais tarde o guia espiritual da heroína.

Não há espaço alto ou baixo no filme de Cuarón. É difícil ter referências sobre distâncias ou quedas. A experiência visual consiste em deixar o público sem caminhos, sem lados, em uma história sem heróis e vilões, no curto espaço de tempo que separa vida e morte.

O filme é sobre uma mulher em busca da gravidade, da vida, dos próprios passos. O que ajuda na profundidade de seu drama: Ryan Stone conta ao companheiro Kowalski, a certa altura, que perdeu sua filha pequena. A menina sofreu uma queda e morreu. A morte, descobre ela, pode parecer – ou apenas parecia, até então – banal.

No espaço, Stone escolhe viver. Ou nascer. O visual de Cuarón leva a pensar mais na vida do que na morte. E a mulher que tinha tudo para ser um homem – “meu pai queria um menino”, confessa ela – insiste em ser mulher. Uma mãe, sobretudo, que precisa viver para chegar a Terra e contar a história maravilhosa pela qual passou.

Contar histórias. Parece ser essa a busca total, o significado da vida. É como Kowalski faz o espaço parecer simples: ele conta histórias a todo o momento, e não consegue terminar uma delas quando são atingidos pelos detritos espaciais, ainda no início do filme. O homem experiente, o elo mais forte da cadeia, morre e deixa que a história siga com a mulher, o elo mais fraco que precisa lutar pela vida, provar força.

Gravidade questiona o motivo de tanta luta por sobrevivência. Para o homem, o astronauta experiente, morrer parece fácil; para a mulher – que, naquele espaço, naquela profissão, está nascendo – há medo, tristeza, falta de oxigênio. Carrega peso e, ao mesmo tempo, fragilidade. Stone é perfeita para o filme porque não tem experiência na função.

Na corrida pela vida, os mais fortes chegam primeiro. Tentam vencer o tempo, a falta de ar, tentam chegar ao local quente e acolhedor, barrar o frio. Precisam ser gestados. Já existem antes de nascer, antes de caminhar com as próprias pernas, no encontro com a gravidade.

Não há simulador que dê conta dessa corrida pela vida, descobre a mulher em cena. O papel do astronauta experiente é lhe dar caminhos, servir à figura paterna, resgatá-la da escuridão e do esquecimento pela corda que liga o corpo de ambos. Ele dá o primeiro passo rumo à salvação, à aventura que será levada à frente por ela.

Em boa parte do filme, o espectador está sozinho com a heroína. Ao fim, o prazer é vê-la sustentar o próprio peso, à medida que a câmera de Cuarón, de baixo para cima, registra o corpo em movimento, o estranhamento ao sentir a gravidade. A natureza, à frente, é o desafio seguinte. A aventura está apenas começando. Viver é sobreviver.

(Gravity, Alfonso Cuarón, 2013)

Nota: ★★★★★

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Jogo do Dinheiro, de Jodie Foster

O poder de Kyle Budwell (Jack O’Connell) não tem origem apenas em sua arma ou no colete com bombas colocado em seu refém. Mais do que esses itens, tem a seu favor o motivo que o levou até ali: Kyle apostou alto em ações e perdeu tudo.

Os argumentos do rapaz falido serão revelados durante um programa de televisão chamado Money Monster, do qual vem o homem que veste seu colete com bombas, sob a mira de sua pistola, o apresentador Lee Gates (George Clooney).

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jogo do dinheiro

Não leva muito tempo para que fique clara a confusão do enredo: em Jogo do Dinheiro, de Jodie Foster, Kyle é menos vilão do que vítima. Semanas antes, ele resolveu seguir uma dica de Gates, que posa de guru das finanças enquanto faz piadas.

Com argumentos tentadores para vender ações e enriquecer alguns à medida que empobrece outros, o apresentador terá de duelar contra o desesperado Kyle, cuja nova condição dá-lhe argumento maior, difícil de dobrar: é vítima direta, palpável, desse show que materializa a sociedade do dinheiro sintético, encoberta pelo espetáculo.

O mais interessante no filme de Foster, portanto, é a relação entre homens, no ponto em que Gates deixa de ser apenas a imagem sólida do americano que deu certo – ou que faz dar certo – da televisão, belo homem de meia idade e bom vendedor.

O garoto é o oposto: perdeu a vida ainda cedo e, nesse jogo, ou nesse programa, usa a violência para se igualar ao outro, ou para superá-lo. Como se vê mais tarde, sua intenção não era colocar tudo pelos ares, mas colocar às claras uma fraude.

O sistema é o grande fraudador, parece dizer o rapaz no início da obra, quando invade o programa de tevê. Se por um lado a crítica é inerente, por outro o roteiro sai em busca do vilão de carne e osso, papel que resta ao dono da empresa cujas ações foram compradas por Kyle, não ao apresentador do show – ainda que indiretamente culpado.

O filme de Foster erra ao optar por mais voltas, mais personagens para além dos limites do estúdio. Erra ao apontar o dedo para um homem, não ao sistema. Ainda que emocionante, falta-lhe a coragem de obras como Margin Call – O Dia Antes do Fim.

Tão perigoso quanto o sistema financeiro é o espetáculo televisivo. A aproximação é tamanha que fica difícil separá-los. Por consequência, a mistura desemboca na dança de Gates, no sistema complexo representado como algo fácil e até divertido.

Nota: ★★★☆☆

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Sete filmes sobre o mundo louco da televisão

A lista abaixo vai além da televisão. O meio de comunicação é a deixa para invadir o mundo moderno: gente com uma câmera no interior da cabeça, ou que teve a vida toda gravada, por décadas, sem saber da farsa. Há vilões e seres estranhos, pessoas que fazem tudo pelos sonhados números de audiência ou apenas para conquistar o sucesso e colocar o rosto na tela. O espetáculo pode ser repulsivo.

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Rede de Intrigas, de Sidney Lumet

É provavelmente o filme mais famoso a abordar a caixa de imagens. Ao centro, um homem (Peter Finch) enlouquece e se torna o novo profeta do horário nobre. A ele é dado muito poder, o que se torna um problema. Ao vivo, fala demais e faz sucesso: diz verdades que o público deseja ouvir, também os podres de seu próprio meio.

rede de intrigas

A Morte ao Vivo, de Bertrand Tavernier

Uma famosa editora (Romy Schneider) é seguida por um homem (Harvey Keitel) com uma câmera no interior da cabeça. Ela assina um contrato para ter seus últimos dias registrados por uma emissora de tevê, em um reality show. Mais tarde, quando ela tenta fugir, o homem com a câmera persegue-a e termina descobrindo seu lado humano.

a morte ao vivo

O Rei da Comédia, de Martin Scorsese

Tem ganhado adoradores com o passar dos anos e não fez o sucesso merecido na época de seu lançamento. Além de Robert De Niro, o elenco conta com Jerry Lewis em papel sério. Apesar do título, é drama. Narra a história de Rupert Pupkin (De Niro), que sequestra um apresentador de televisão para tomar seu lugar e ter sua noite de fama.

o rei da comédia

O Show de Truman, de Peter Weir

Todos os passos de Truman (Jim Carrey) são registrados pela câmera. Seu mundo – uma pequena cidade tipicamente americana – é um estúdio de televisão. Ele é vigiado. Não fossem os naturais desvios humanos, a insistência em escapar do roteiro moldado para sua vida, Truman terminaria como desejavam os produtores: um alienado.

o show de truman

Reality – A Grande Ilusão, de Matteo Garrone

O vendedor de peixes Luciano (Aniello Arena) sonha em participar da versão italiana do programa Big Brother. À medida que cresce sua expectativa em relação ao show, ele passa a acreditar que está sendo constantemente vigiado por seus realizadores. A consequência é uma personagem à beira da loucura.

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O Abutre, de Dan Gilroy

O protagonista, interpretado por Jake Gyllenhaal, transforma-se em grande vilão quando descobre uma maneira de ganhar muito dinheiro: captar imagens de acidentes e crimes em Los Angeles. O belo filme de Gilroy questiona a falta de limites do jornalismo quando se busca, a qualquer custo, bons números de audiência.

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Jogo do Dinheiro, de Jodie Foster

Mesmo com pouca ousadia, o filme de Foster gera boas doses de emoção e tem um roteiro ágil. Narra os momentos em que o apresentador Lee Gates (George Clooney) é feito refém por um rapaz (Jack O’Connell) que perdeu tudo na Bolsa de Valores ao seguir uma de suas dicas, em um programa de nome sugestivo: Money Monster.

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Trumbo – Lista Negra, de Jay Roach

Na Hollywood de Trumbo – Lista Negra, existem figuras exóticas, estranhas, como Hedda Hopper e John Wayne. A direção de Jay Roach salienta o que há de pior nesses seres: próximos ou não dos verdadeiros, ambos deixam claro quem são.

Estão do lado oposto da batalha, o lado errado, como inimigos de Dalton Trumbo, o roteirista comunista. Estão a serviço do extremismo, como o inimigo fácil, pronto para ser odiado. Nesse sentido, logo se vê a cilada do filme.

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Para escapar dela talvez valha a pena recorrer a outro filme sobre o macarthismo, que trata o drama de forma adulta e lega ao inimigo a imagem real, de antigas gravações da época. Fala-se aqui de Boa Noite e Boa Sorte, de George Clooney.

O filme de Roach prefere o risco de recriar esses inimigos, seguidores de Joseph McCarthy. Trumbo, sabe-se, tornou-se um dos Dez de Hollywood, perdeu o contrato com seu estúdio, foi preso e depois teve de escrever roteiros sob pseudônimos.

Ao contrário dos outros, Trumbo é cínico e um pouco sábio, diz o oposto do que se espera para surpreender – ou apenas para parecer dúbio. Ainda que a interpretação de Bryan Cranston impressione, a direção de Roach não permite arroubos.

De inimigos manjados e heróis ainda mais, o filme leva ao clima da época, entre os anos 40 e 50, quando os Estados Unidos e a União Soviética travam uma guerra ideológica. O cinema logo se torna um problema, ou mesmo uma solução: é o espaço para se projetar a imagem do país, a ideologia a ser levada ao público.

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O grande veículo de massa, como mostra o filme, não pôde correr o risco de estar sob a influência de textos de autores como Trumbo, ainda que insistissem em heroísmo. Como se sabe, Trumbo lutou na Segunda Guerra, ao contrário de Wayne.

Aos supostos patriotas, o risco aproximava-se de um vírus mortal, de uma substância alienígena típica de filmes B. O cinema reserva-se ao cinema. Por isso, ironicamente, o protagonista usará um argumento que se aproxima do cinema para justificar o erro dos outros: após anos apontando o risco dos comunistas, nada aconteceu. Foi instalado apenas um clima, um estado contínuo de ficção e histórias irreais.

Muitos punidos para nada, e por nada. A vida americana seguiu como sempre foi, ou quase. A pior parte deve-se aos amigos de McCarthy: para darem vez à caça, chegaram até a rasgar a Constituição Americana. No filme, a vilania de Helen Mirren, como Hopper, ou de David James Elliott, como Wayne, revolta e constrange.

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Não estranha que termine com a vitória do protagonista. Após algumas batalhas, vê-se a amarga volta por cima, mas sem a forma “redonda” das velhas vitórias dos filmes clássicos americanos, com patriotas prontos para abater inimigos.

Em uma das melhores cenas, Trumbo observa a reação de alguns presidiários que assistem a um filme de John Wayne. Se na vida real ele não esteve no campo de batalha, a Hollywood da época encarregou-se de resolver o problema.

Essa terra de ficção cria suas lendas e varre para longe o que não lhe interessa. Por algum tempo, o trabalho de Trumbo só era possível se escondido, problema real quando se pensa nos créditos de um filme e nos produtores covardes.

Nota: ★★★☆☆

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