George C. Scott

Ava Gardner e eles

O gosto de Ava por matadores, milionários e toda uma gama de homens inapropriados era notório. Ela acreditava que a liberdade sexual era prerrogativa da mulher. Suas histórias de amor levaram seu último marido, Frank Sinatra, à beira do suicídio; seu amante Howard Hughes até as raias da loucura; e quase levaram George C. Scott a cometer um crime passional.

Peter Evans, biógrafo de Ava Gardner. Abaixo, a estrela com Frank Sinatra.

frank sinatra e ava gardner

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20 frases inesquecíveis de 20 ganhadores do Oscar

Basta pensar em algumas frases e os filmes vêm logo à cabeça: “Eu sou o rei do mundo!”, dita por Leonardo DiCaprio em Titanic, por exemplo, ou “A vida é como uma caixa de chocolates…”, de Tom Hanks em Forrest Gump. São textos que todos conhecem e talvez sem o mesmo poder se retirados de seus contextos.

Com a aproximação da festa do Oscar, o blog relembra frases marcantes de antigos vencedores da principal estatueta da noite: melhor filme. A lista passa por décadas da história da festa – e do cinema – para mostrar o quanto algumas falas sobrevivem ao tempo. E o quanto algumas, um pouco esquecidas, merecem agora devido destaque.

“Eu quero ficar só.”

Greta Garbo em Grande Hotel (1932)

grande hotel

“Contemple os muros de Jericó, não tão espessos como aquele que Josué derrubou com a corneta, porém mais seguros. Não tenho corneta, mas como tenho bom coração, você vai receber o melhor pijama.”

Clark Gable, dividindo o quarto com Claudette Colbert, em Aconteceu Naquela Noite (1934)

aconteceu naquela noite

“Vovô diz que hoje a maioria das pessoas é movida pelo medo. Medo do que comem, medo do que bebem, medo de perder o emprego, medo do futuro, medo de perder a saúde, medo de guardar dinheiro, medo de gastá-lo. Sabe o que o vovô mais odeia? Aqueles que lucram explorando o medo. Assustado, você compra aquilo de que não precisa.”

Jean Arthur, para James Stewart, em Do Mundo Nada se Leva (1938)

do mundo nada se leva

“Tara! Lar. Eu vou voltar para casa. E pensarei em alguma maneira de trazê-lo de volta. Afinal, amanhã é outro dia.”

Vivien Leigh no encerramento de E o Vento Levou (1939)

e o vento levou

“De todos os bares do mundo, ela tinha que entrar logo no meu?”

Humphrey Bogart em Casablanca (1942)

casablanca

“É engraçada a carreira de uma mulher; pense nas coisas de que você tem que se livrar, quando está no topo da escada, para ter mais liberdade de movimento. Mas quando faz isso esquece que vai precisar delas quando voltar a ser uma mulher. Há uma carreira que todas as mulheres têm em comum, gostem ou não, por serem mulheres. E mais cedo ou mais tarde, temos que exercê-la.”

Bette Davis em A Malvada (1950)

a malvada

“Você não entende! Eu poderia ter classe. Podia ter sido um competidor. Eu poderia ter sido alguém, ao invés de um vagabundo, que é o que eu sou.”

Marlon Brando, para Rod Steiger, em Sindicato de Ladrões.

sindicato de ladrões

“As pessoas que dizem que fazem amor o tempo todo são mentirosas.”

Louis Jourdan em Gigi (1958)

gigi

“Pode haver honra entre ladrões, mas não entre políticos.”

Peter O’Toole em Lawrence da Arábia (1962)

lawrence da arábia

“Eu vendi flores. Não me vendi. Agora que você me transformou em uma dama, não consigo vender mais nada.”

Audrey Hepburn, para Rex Harrison, em Minha Bela Dama (1964)

ÒMy Fair LadyÓ and ÒThe Great RaceÓ will screen at the Academy of Motion Picture Arts and SciencesÕ Linwood Dunn Theater in Hollywood on Friday, March 27, and Saturday, March 28, respectively. Screenings will begin at 8 p.m. The programs are presented by the AcademyÕs Science and Technology Council in conjunction with its ÒDressed in Color: The CostumesÓ exhibition, which includes costumes from both films. Pictured: Audrey Hepburn and Rex Harrison as they appear in MY FAIR LADY, 1964.

“O povo me segue porque segue tudo o que se move.”

Robert Shaw, como Henrique 8º, em O Homem que Não Vendeu Sua Alma (1966)

o homem que não vendeu sua alma

“Eu amo a guerra, que Deus me ajude, amo de verdade. Mais do que minha vida.”

George C. Scott em Patton – Rebelde ou Herói?

patton

“Mantenha seus amigos por perto e seus inimigos, mais perto ainda.”

Al Pacino em O Poderoso Chefão – Parte 2 (1974)

o poderoso chefão2

“Eu sinto que a vida se divide entre o horrível e o miserável.”

Woody Allen em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977)

noivo neurótico

“Podem torturar meu corpo, quebrar meus ossos, podem até me matar. Eles terão meu cadáver, mas não a minha obediência.”

Ben Kingsley em Gandhi (1982)

gandhi

“O progresso baseia-se mais no fracasso do que no sucesso.”

Kevin Costner em Dança com Lobos (1990)

dança com lobos

“Gostaria de conversar com você, mas tenho um velho amigo para jantar.”

Anthony Hopkins, para Jodie Foster, no encerramento de O Silêncio dos Inocentes (1991)

silêncio dos inocentes

“É uma coisa infernal matar um homem. Você tira tudo o que ele tem e tudo o que ele poderia ter um dia.”

Clint Eastwood em Os Imperdoáveis (1992)

imperdoáveis

“Poder é quando temos justificativa para matar e não matamos.”

Liam Neeson, para Ralph Fiennes, em A Lista de Schindler (1993)

a lista de schindler

“Só conheci um homem com o qual não queria lutar. Quando eu o conheci, ele já era o melhor “cut man” do ramo. Começou treinando e empresariando nos anos 60, mas nunca perdeu o dom.”

Morgan Freeman, sobre Clint Eastwood, na abertura de Menina de Ouro (2004)

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Dez personagens que resumem os horrores da guerra

A guerra é sempre um mal. No cinema, algumas figuras ajudam a resumir esse mal em grandes filmes e interpretações – às vezes de forma caricata, às vezes doentia. Abaixo, uma lista de personagens esculpidas à base da loucura, com atores incríveis dando vida a homens cujo motor, em tela, estava na morte e nos problemas da guerra. Respiram o conflito e o personificam. À lista.

10) General Paul Mireau (George Macready), em Glória Feita de Sangue

George Macready

9) Amon Goeth (Ralph Fiennes), em A Lista de Schindler

ralph fiennes

8) Tamura (Eiji Funakoshi), em Fogo na Planície

Eiji Funakoshi

7) Sargento Barnes (Tom Berenger), em Platoon

tom berenger

6) Sargento Zack (Gene Evans), em Capacete de Aço

gene evans

5) Nick (Christopher Walken), em O Franco Atirador

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4) Dr. Strangelove (Peter Sellers), em Dr. Fantástico

peter sellers

3) General George S. Patton Jr. (George C. Scott), em Patton: Rebelde ou Herói?

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2) Sargento Hartman (R. Lee Ermey), em Nascido para Matar

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1) Coronel Bill Kilgore (Robert Duvall), em Apocalypse Now

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Nascido para Matar, de Stanley Kubrick

De um lado para o outro, do fundo à frente, o sargento Hartman (R. Lee Ermey) não sai do lugar. A câmera de Stanley Kubrick percorre aqueles espaços em seu encalço, enquanto ele movimenta-se. Tudo é simétrico e frio. Nada sai do lugar.

É a preparação dos jovens soldados, transformação de homens em assassinos, como os causadores da morte de Kennedy e de outros. Fanáticos com rifles nas mãos em Nascido para Matar, quando Kubrick impede o entendimento sobre o humano e prefere mostrar a passagem do homem à máquina de matar, sem dualidades, sem paixões.

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Primeiro, a preparação. Depois, a guerra. A primeira parte, assim, é mais fria, também mais íntima. À segunda, uma definição: são apenas negócios. E essa observação vem do soldado Hilário (Matthew Modine).

Contra as previsões, ele é o protagonista da história. Está entre a crueldade de Hartman – a chave dos “negócios” – e o infantilismo de Leonard Lawrence (Vincent D’Onofrio) e sua aparência da bondade. Como o próprio Kubrick indicará, o Exército e seus meios existem para desviar o homem de sua natureza, ou mesmo para fazê-la explodir. A primeira parte, durante o treinamento, é inclinada ao desvio; a segunda, à revelação.

Nem todos os filmes de guerra ousaram uma divisão como essa. Kubrick corta a obra como se cada parte existisse isolada. No entanto, há um diálogo nem sempre claro entre ambas. O treinamento antecipa a guerra.

A primeira é sobre repetição. A segunda, sobre o indefinido. Em ambas há soldados aflitos, frente ao mal em suas diferentes formas. Qualquer um dos casos revela o mais humano em meio àquilo em que o humano desaparece: sua capacidade de matar e de ser cruel quando menos se espera. O que assusta não é ver Hartman gritar com seus súditos, mas ver o quanto Hilário ainda pensa antes de espancar Lawrence.

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Ele nada pode fazer senão ser parte da linha de montagem. É a condição de todos, revelada cedo, nos créditos, quando os cabelos são cortados. À frente de seus beliches, os soldados estão presos à posição, aos mandos, e aprendem a gritar.

Aqui, homens pouco falam, às vezes falam sozinhos, colocam nomes em armas, às vezes estão presos – no lugar mais escuro, como aquela grande sala e seus pilares, à noite, às poucas luzes de fora – como seres condenados a matar.

A prisão das prisões: o local em que Lawrence será menos um homem do que uma máquina, em que Hartman seguirá como sempre foi – mesmo quando parece, aos outros, ser diferente – e onde Hilário pagará o preço por desafiar a ordem, ao negar amor a uma figura religiosa. É coerente em meio ao mal. Mas Hartman insiste em afirmar a possibilidade de se cultuar Deus por ali. Dá para entender.

O alojamento dos jovens fuzileiros é sempre o mesmo: não importa o local em que Hartman esteja, surge sempre no mesmo lugar. Anda em círculos, enquanto a câmera produz imobilismo, a aparência de algo, apenas aparências. Ele tem frases marcantes, inesperadas, um verdadeiro homem mal não porque seja assim, mas porque se profissionalizou. Os negócios da guerra.

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A vítima natural é Lawrence: gordo, desajeitado, com um rosto levemente inclinado a rir – um sorriso que nunca chega a explodir e que provoca, por isso, a ira de quem observa, de quem deseja entendê-lo. Kubrick quase permite sentir pena dele e, por sorte, liberta aquele demônio. A situação não chega ao drama.

Quando fala sozinho, desperta a atenção de Hilário, que percebe no companheiro a evolução do mal. Estranhamente, ele desenvolve um bom desempenho com o rifle, pouco a pouco seu único amigo, a quem dá o nome de uma mulher.

Nessa primeira parte, os rapazes terão de aprender a amar à medida que odeiam o diferente. É o que envolve o treinamento: amar a morte. Mas como é possível, se ambas as coisas nunca parecem se encontrar? Nesse meio insano, Kubrick leva a resposta à segunda parte, quando a padronização desaparece. Os jovens não estão mais com seus cabelos raspados, com seus rifles na cama, com seus lençóis arrumados.

Na guerra, odeia-se a tudo com gestos de amor, com certa paixão. Faz-se pose por ali, com coletes recheados de balas, com armas potentes, enquanto as mulheres do outro lado do mundo são objetos sexuais. São usadas e cuspidas. Ao fim, a ironia: a mulher também se revela na vingança, como a atiradora, e de prostituta passa à guerreira. Não precisa dizer muito para demonstrar ideologia e morrer por uma causa, o que talvez os rapazes de Hartman não possam entender.

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Para Kubrick, o Exército produz assassinos e estes certamente colocarão seus rifles contra os próprios americanos. O mal está dentro, diz o diretor, sem apresentar surpresas além de imagens de grande impacto – sobretudo na primeira parte, uma aula de cinema doentio, com tipos diferentes e em choque constante.

Para cada Lawrence existe um Hartman. Um poderia ser a máquina perfeita caso o outro não fosse tão “perfeito” à sua função. Não se pode negar: Hartman é o que melhor representa a guerra, justamente por não estar nela, mas por carregá-la. Faz pensar em alguns malucos anteriores, como George C. Scott em Patton – Rebelde ou Herói? e Gene Evans em Capacete de Aço, homens que personificam a guerra, que não precisam estar no campo de batalha para fazer o espectador entendê-la.

A cada grito, a cada maneira involuntariamente engraçada, Hartman traz o pior do ser humano: sua capacidade em se entregar ao profissional, à forma encomendada, àquele jeito que não permite nada mais do que um homem vazio e repetitivo, alguém que não pode ser imaginado longe daquele local, longe de sua função. É sempre o mesmo, de um lado para o outro, como uma máquina.