Gene Hackman

Bastidores: Operação França

Operação França foi filmado em Nova York durante cinco semanas ao longo do inverno de 1970 e 1971. O produtor Philip D’Antoni acreditava que Bullit tinha feito sucesso por causa de sua eletrizante sequência de perseguição pelas ruas de São Francisco, e insistiu com Friedkin para que incluísse uma no filme também. Friedkin concordou, filmando a vertiginosa perseguição entre um carro e o metrô de superfície que tornou Operação França merecidamente famoso. Foi uma filmagem difícil, e Friedkin estava frequentemente instável e deprimido.

Peter Biskind, escritor, em Como a Geração Sexo, Drogas e Rock and Roll Salvou Hollywood (Editora Intrínseca; pg. 214). Abaixo, William Friedkin durantes as filmagens, ao lado dos atores Gene Hackman e Roy Scheider.

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Homens reclusos (e as narrativas de Aurora e A Conversação)

O espectador não tem acesso às motivações do protagonista de Aurora, de Cristi Puiu, interpretado pelo próprio diretor. E sua personagem talvez nem seja tão reclusa quanto pareça.

Lá pelas tantas, entre movimento contínuo e poucos diálogos, traz à lembrança outro recluso, o protagonista de A Conversação, vivido por Gene Hackman. Apesar de viverem em seus universos particulares, eles, apáticos e silenciosos, são apresentados ao espectador de maneiras diferentes. E, por isso mesmo, os filmes em questão expandem o olhar às possibilidades da narrativa e da estética cinematográfica.

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aurora

A personagem de Aurora não deixa saber aonde vai, o que faz, por que mata um casal a certa altura, já na metade das três horas de duração – para muitos críticos, uma eternidade desnecessária. O de Coppola deixa saber tudo, ainda que recluso: as pessoas que vigia, os objetivos de seu trabalho, até mesmo a possibilidade de romper com a fé (o momento em que quebra a santa) para não se sentir mais fraco, ou “grampeado”.

A abertura de Aurora ecoa seu título: é manhã quando o espectador vê Viorel (Puiu) acordar, ao lado de uma mulher que pode ser sua esposa, ou não. A menina que percorre a casa pode ser sua filha, ou não. Nada é muito certo. Em seguida, o protagonista vai para outra residência, em reforma, local que talvez seja sua verdadeira moradia.

Encontra-se com várias pessoas em diferentes locais. Sai para comprar munições, fala sobre armas. Conserta sua espingarda e a aponta ao próprio corpo, indicativo de que talvez deseje se suicidar, cansado do universo vazio e sem luz que o cerca.

Talvez Viorel viva mais de uma vida, ao contrário do Harry Caul de A Conversação: tem mais de uma mulher, mais de uma casa, mais de uma profissão. Harry vive para o trabalho, para comunicar aos outros o incomunicável sem seus aparelhos eletrônicos.

Pela ótica de Coppola, Harry deixa ver tudo, ainda que silencioso, quando seus inimigos e outros farsantes começam a persegui-lo e contra ele retornam suas próprias armas: no fim abarrotado de tensão e paranoia, Harry será grampeado. Destrói sua moradia para encontrar o grampo. Em vão. Termina com a música, o item que lhe resta.

Por isso mesmo deixa ver mais. A música confere-lhe um pingo de sensibilidade. Harry, no fundo dos olhos, é fraco, por isso mesmo humano. Tem delírios, talvez tenha visto algo mais, ou descoberto o que não deveria: uma trama de assassinato.

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Essa personagem faz as descobertas com o espectador. Ambos descobrem juntos. Ao contrário de Viorel, que sabe de tudo e não divide nada. É a opção de Puiu, a emissão de um vácuo a ser preenchido pelo público: ao mesmo tempo em que se “vê” cada passo e os detalhes de seu cotidiano, nada se sabe sobre o assassino silencioso.

Nenhum dos dois filmes enquadra-se a um gênero. São realistas. Pertencem a países e correntes cinematográficas diferentes: o novo cinema romeno, a Nova Hollywood.

Aurora prefere a distância, a câmera vigilante, o espectador ora ou outra na sala ao lado, a esperar o movimento de Viorel por cômodos aos quais não se tem acesso. Em uma cena angustiante, Puiu volta a câmera ao teto, como se tentasse indicar o trajeto percorrido pela personagem.

Ambos os filmes são alimentados por personagens separadas por décadas, distantes da câmera, cada uma à sua forma. Analisar como são compostas é um interessante exercício de cinema, de composição de vidas, de narrativa e mesmo de suspense.

(Idem, Cristi Puiu, 2010)
(The Conversation, Francis Ford Coppola, 1974)

Notas:
Aurora: ★★★☆☆
A Conversação: ★★★★★

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Basquete Blues, de Steve James

Transpor a barreira do gueto é a principal dificuldade dos dois jovens negros apresentados em Basquete Blues. O esporte praticado por ambos serve de pano de fundo. O drama, com os problemas emocionais e certa politicagem, ganha a frente.

Os jovens sonham com a NBA. O sonho de se tornar, quem sabe, um novo Isiah Thomas ou Michael Jordan. Para ambos, e para muitos outros, é a oportunidade de ascensão. O documentário acompanha por anos essa busca. O resultado é magnífico.

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O trabalho de Steve James pretende aprofundar uma questão íntima à sociedade americana, espelhada em seu cinema: a fixação pelo sucesso, pela vitória, e pela derrota – à qual é importante mergulhar quando se pensa na vitória seguinte.

Muitos filmes saíram em busca desse material. E, ao rejeitarem a perda, transformaram a ficção – que não deve ser diminuída, é verdade – em uma ideia “real”, a ser perseguida ou tomada como exemplo. A imagem da vitória, da redenção.

As várias vezes em que os técnicos gritam com seus jovens, ou quando parecem carrascos em quadra, andando de um ponto ao outro, dão ao filme de James algo irreal: vê-se nesses homens uma forma observada em filmes ficcionais. Não é necessário ir longe para recordar o Gene Hackman de Momentos Decisivos, por exemplo.

É o jeito do técnico mandão e militarista. Os jovens são outra coisa: quase sempre tímidos, sonhadores, depois levados à triste realidade, aos contornos que não incluem a tão esperada vitória e o sucesso no fim do túnel – não da maneira sonhada.

Portanto, antes das relações com o basquete, o filme de James leva à relação com a vitória e a perda, com os moldes de uma sociedade, com as diferenças entre ricos e pobres, entre brancos e negros, entre comunidades, sob o trauma de apostar e perder.

Em quadra, alguns minutos mudam uma vida toda. Na arquibancada, o pai de um dos garotos recebe o representante de uma faculdade, interessado em arrebanhar seu filho. Os meninos, William Gates e Arthur Agee, são promessas de sucesso no basquete.

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Durante anos, ao acompanhá-los, James registra também diferentes olhares: antes, ainda próximos à infância, eles não escondem o jeito sonhador, o fã pregado aos cartazes das estrelas, aos lances na televisão. O espetáculo ronda essas cabeças. Depois, ao fim, Gates vem à tela para confessar não ter mais sonhos. Mudou tudo para ele.

É também o custo da vida adulta, da desilusão. O espectador, durante essas trajetórias, será questionado sobre as regras do sistema e se este é justo. O filme não traz respostas fáceis. Evidente, no entanto, que os jovens atletas só conseguiram ultrapassar a barreira do gueto e frequentar uma faculdade após se tornarem bons jogadores.

A não deixar escapar, ao fim, o olhar de dúvida de Arthur, um entre muitos momentos preciosos, quando está prestes a aceitar a proposta de uma universidade. Ainda que tentem escapar do basquete, este não escapa desses jovens de jaquetas coloridas.

Basquete Blues é extraordinário em sua busca pelos detalhes, pelo que parece trivial e, por consequência, pelo que constitui a verdadeira essência desses meninos. Entre um lance e outro, eles mostram força ou imaturidade. Não precisam recorrer às palavras.

(Hoop Dreams, Steve James, 1994)

Nota: ★★★★★

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Gene Wilder (1933–2016)

Entre inúmeros momentos para lembrar Gene Wilder, um não foge à mente. Pequeno, é verdade, se levados em conta o tamanho do ator, a presença, os tantos filmes – nem todos marcantes – que imortalizaram sua imagem. Wilder, em pequeno papel em Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas, de 1967, é um rapaz covarde que tenta provar bravura à companheira.

Namoram na varanda quando assistem à ação da gangue dos Barrow: o carro de Eugene (Wilder) está sendo levado a apenas alguns metros e ele resolve agir. Com a namorada, segue os criminosos, depois decide retornar. É tarde. O bando – Warren Beatty, Faye Dunaway, Michael J. Pollard, Gene Hackman e Estelle Parsons – sequestra o casal.

São momentos engraçados em um filme sobre criminosos. Wilder, nesse misto, serve de forma esplêndida: não pode mostrar fraqueza, tampouco a prometida bravura. E o bando, que adora se divertir, sacode-se à volta do novo casal nesse balaio de gatos. Momento grande, precioso.

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bonnie e clyde

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20 grandes filmes, há 40 anos

À época, em 1975, um filme como Tubarão poderia parecer estranho. Mais tarde, seria quase regra. Tornar-se-ia, então, a maior bilheteria de seu ano, o primeiro filme a ultrapassar 100 milhões de dólares em ingressos nos Estados Unidos. Algo mudava.

Spielberg apontou ao retorno das grandes produções, o cinemão de entretenimento. Apenas dois anos depois viria Guerra nas Estrelas. A história seguinte é conhecida. Em 1975, Tubarão dividia espaço com outros grandes filmes, de autores já com carreira consolidada, como John Huston, e outros próximos de grande sucesso, como Milos Forman. Ano de filmes extraordinários, inesquecíveis, como provam os 20 abaixo.

20) O Homem que Queria Ser Rei, de John Huston

Bela aventura de Huston com uma dupla incrível à frente, Michael Caine e Sean Connery, exploradores que desejam se dar bem em terras distantes.

o homem que queria ser rei3

19) Dersu Uzala, de Akira Kurosawa

História de amizade entre um militar e um homem da tribo Goldi. Depois de tentar o suicídio, Kurosawa foi convidado pelos soviéticos para fazer esse belo filme.

dersu uzala

18) A História de Adèle H., de François Truffaut

Amor e sofrimento, com a mulher, Adèle, filha de Victor Hugo, em busca do homem que ama, em meio à guerra, com a extraordinária direção do francês Truffaut.

a história de adele h

17) O Importante é Amar, de Andrzej Zulawski

Começa com uma filmagem, quando a atriz (Romy Schneider) fica paralisada em cena e não consegue dizer “eu te amo”. Zulawski explora a relação entre arte e vida real.

o importante é amar

16) Xala, de Ousmane Sembene

Crítica aos novos poderosos na África independente (ou nem tanto), com um encerramento bizarro e a personagem que crê estar impotente após o terceiro casamento.

xala

15) Pasqualino Sete Belezas, de Lina Wertmüller

A trajetória de um fraco mafioso, Pasqualino, que termina em um campo de concentração, sob as ordens de uma líder alemã gorda e que o trata como um rato.

pasqualino sete belezas

14) Um Lance no Escuro, de Arthur Penn

O cinema com mistério, em seu lado marginal, sobre dublês e estrelas decadentes, enquanto Gene Hackman é o detetive em busca de uma ninfeta desaparecida.

um lance no escuro

13) Picnic na Montanha Misteriosa, de Peter Weir

Outra bela produção cheia de mistério, a comprovar o então bom momento do cinema australiano. Aborda o desaparecimento de algumas garotas em uma montanha.

picnic na montanha misteriosa

12) Tubarão, de Steven Spielberg

Após alguns filmes originais, entre eles o incrível Encurralado, Spielberg entrega esse arrasa-quarteirão. Nenhum filme sobre tubarão, depois, conseguiria o mesmo resultado.

tubarão

11) Um Dia de Cão, de Sidney Lumet

Entre comédia e tragédia, Lumet oferece esse belo retrato da sociedade da época, na qual assaltantes humanizados dão corpo às imagens que a mídia tanto deseja.

um dia de cão

10) A Honra Perdida de Katharina Blum, de Volker Schlöndorff e Margarethe von Trotta

Poderosa crítica à imprensa, que persegue a protagonista, a estranha e distante Katharina Blum. Ela está apaixonada por um suspeito de terrorismo procurado pela polícia.

a honra perdida de katharina blum

9) Lilian M: Relatório Confidencial, de Carlos Reichenbach

Uma história marginal com uma protagonista impensável: em suas andanças, Maria torna-se Lilian, passa do campo à cidade, e revela um país de cabeça para baixo.

lilian m

8) Jeanne Dielman, de Chantal Akerman

A impressão é de que nada ocorre. Por algum tempo, vê-se apenas a mulher em seu espaço: na cozinha, fazendo comida, ou trabalhando, recebendo homens por ali.

jeanne dielman

7) Barry Lyndon, de Stanley Kubrick

Épico frio, extraordinário, que começa com um embate de armas, com o aventureiro a quem tudo dá errado para dar certo. Depois, o oposto: tudo dá certo para dar errado.

barry lyndon

6) Saló ou Os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini

Obra de choque, testamento de seu autor, assassinado por um garoto de programa pouco antes de o filme estrear. Mescla tortura, jovens inocentes e fascistas.

saló ou os 120 dias de sodoma

5) O Espelho, de Andrei Tarkovski

A mulher espera pelo marido, fora de casa, sobre a cerca. Tarkovski consegue uma das mais belas imagens do cinema, com as lembranças de um homem sobre a infância.

o espelho

4) Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni

O diretor italiano explora novamente a identidade, com o repórter que vê a oportunidade de mudar de vida ao assumir o nome de um homem morto, em um hotel distante.

profissão repórter

3) Um Estranho no Ninho, de Milos Forman

Texto afiado, com Jack Nicholson explosivo e um ambiente nem sempre fácil de abordar: o hospital psiquiátrico. É mais trágico que engraçado, e pode levar às lágrimas.

um estranho no ninho

2) A Viagem dos Comediantes, de Theodoros Angelopoulos

Obra grande em diferentes sentidos, com Angelopoulos a abordar a história da Grécia. Tem alguns dos planos-sequência mais extraordinários do cinema moderno.

a viagem dos comediantes

1) Nashville, de Robert Altman

O típico filme-coral de Altman, com mais de 20 personagens, com uma cidade em festa, com a política ao fundo e ecos de tempos passados: o assassinato em local público.

nashville

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