gêmeos

O Amante Duplo, de François Ozon

Sabe-se que do olhar da protagonista vem algo incerto, labiríntico, obscuro, e que do ventre que dói poderá nascer alguma coisa que não pareça humana em O Amante Duplo. Uma vida, é certo, será expelida, como a de um alienígena ou um monstro.

Em um filme sobre um irmão rejeitado, também sobre o conflito de irmãos, essa vida estranha que brota do ventre, que perfura a carne, será a representação perfeita do outro que renasce para ocupar seu lugar de direito. Da delicada Chloé vem o outro que não nasceu porque foi devorado por ela quando ambos dividiam o ventre da mãe.

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As camadas são representadas por reflexos. Espelhos surgem a todo momento. A moça multiplica-se, à medida que seu escolhido amante – depois namorado, depois futuro marido – ganha um irmão gêmeo. Dois homens diferentes sob a forma de um só: um deles é psiquiatra, o outro psicanalista, cada um em seu espaço, com suas manias, enquanto a protagonista – em visita a eles – busca a resposta para sua dor no ventre.

O primeiro é Paul, o segundo é Louis. Ambos são interpretados por Jérémie Renier. O primeiro usa óculos, tem o cabelo lançado à testa, apaixona-se pela menina que deveria tratar. Quebra a conduta ética que sua profissão exige, mas antes diz à mesma que não pode continuar com as sessões de terapia frente a frente, olho no olho.

De Paul ela retira um caso de amor, o sexo sem emoção tingido às sombras, nas noites em que encara seu gato ao mesmo tempo em que o amante deita-se sobre seu corpo. O olhar da protagonista diz muito sobre sua situação, seu íntimo: ao que parece, não sente prazer; ao que parece, aguarda o outro, o gêmeo que possa levá-la ao gozo, romper sua frigidez.

O outro, claro, é Louis, o gêmeo sedutor sem óculos, de cabelo ao alto, moderninho, que agarra a moça por trás e desliza uma das mãos – sem sensibilidade – à sua vagina, à cata de algo um pouco animal. Desenha-se o outro lado do homem que pode – e deve ser – o outro lado da menina: o duplo do amante, Louis, nada mais é que o seu duplo, irmã ou irmão que perdeu e que agora aflora em seu corpo, que no ventre bate à porta.

Talvez seja um irmão, o que explica a opção pelo cabelo curto (em uma sociedade que explora sinais para diferenciar seus gêneros). E, na contramão do sexo comportado que antes praticava com Paul, ela resolve assumir, na relação, papel ativo, usando um vibrador para satisfazer o mesmo amante, que por sinal se deixa levar.

Para matar o outro que tenta tomar seu lugar, irmão que carrega no ventre, Chloé precisa matar um de seus amantes. Um fornece-lhe a relação esperada, o outro o sexo selvagem, o inesperado. Sem surpresas, boa parte do filme de François Ozon, a partir do livro de Joyce Carol Oates, é a representação do que ocorre na mente da protagonista, seus delírios e desejos. Suas passagens pelas exposições de arte, no museu em que trabalha, resumem seus estados, como os pilares brancos que se metamorfoseiam em troncos de árvore.

O filme de Ozon, já se disse, tem algo de Gêmeos – Mórbida Semelhança, de Cronenberg, no qual as personagens entram em processo de fusão. Em O Amante Duplo, a protagonista interpretada pela bela Marine Vacth procura uma médica para tentar se curar das dores no ventre. Em sequência curiosa, a imagem de sua vagina funde-se à de seu olho, movimento entre a invasão e a expulsão, entre o interno e o externo.

Vacth é misteriosa, um pouco frágil, nunca dominadora em excesso. Dá mais pistas do que no filme que fez antes com Ozon, Jovem e Bela, no qual interpretava uma prostituta. Ela encara seu gato ou a projeção do gêmeo do companheiro enquanto faz sexo. Seu olhar penetrante reproduz medo, incerteza, espera: é a causadora e a vítima dessa intriga, menina atacada pela gêmea(o) que ainda carrega, que a segue, que não se reduz ao feto.

(L’amant double, François Ozon, 2017)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Jovem e Bela, de François Ozon

Paterson, de Jim Jarmusch

A alegria de Paterson é contida sob o rosto arredondado de Adam Driver, sob uma interpretação que valoriza o mínimo. Ele acena ao espectador com felicidade ao ouvir as histórias dos outros, os passageiros que tomam seu ônibus durante cinco dias da semana, que cruzam seu caminho e falam de assuntos variados.

No decorrer de Paterson, de Jim Jarmusch, as histórias dos outros, sempre diferentes, oferecem uma saída contra as repetições do dia a dia. E nem mesmo o cineasta mudará alguns diálogos ou enquadramentos; tudo se move como se fosse igual, do momento em que o protagonista levanta da cama às suas idas ao bar, à noite.

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A emoção causada por essas pequenas histórias indicam a escolha de Paterson pela poesia: ele escreve-as porque enxerga beleza no mínimo – por exemplo, no diálogo entre dois amigos, quando um deles confessa ter conhecido uma mulher interessante e conquistado o número de seu telefone, ou no de dois estudantes que falam sobre um imigrante italiano anarquista que morou naquela mesma cidade, justamente Paterson.

Escreve-as em mente, ainda na caminhada ao trabalho. E logo coloca as palavras em seu caderno, pouco antes de ser interrompido pelo fiscal da garagem de ônibus, cheio de problemas. Paterson pergunta para ele, mais de uma vez, se está tudo bem. E o mesmo acaba enumerando seus obstáculos, para a surpresa do protagonista.

Jarmusch leva à aparência de que nada ocorre enquanto ocorre tudo. Seu roteiro não deixa ver com clareza algum ponto de virada na primeira parte, o que poderia levar o filme a outro caminho. Não há, pelo menos não na forma esperada. Pode ser um exercício de paciência àqueles ligados ao cinema de confrontos e reviravoltas.

Seu poeta urbano escreve para escapar da repetição. Jarmusch, quase em um clima cômico, oferece sempre o igual. E esse efeito não chega a ser avassalador. O cineasta trabalha com a realidade, com as expressões esperadas, com um protagonista que pode, a distância, não oferecer qualquer atrativo além do bom companheiro para uma cerveja no bar, ou para uma conversa sobre um assunto qualquer em um banco de praça.

Ora ou outra, com a mulher ou com uma pessoa qualquer, a conversa chega à poesia. No fim, quando Paterson não tem coragem de dizer que é um poeta – ou quando não acha prudente fazê-lo por não ter mais as poesias no caderno, sendo então incapaz de lê-las –, ele o faz por se julgar alguém comum demais, preso a uma vida pequena.

É o sentimento de um homem sem poesia: nada pode ser pior a alguém que precisa dela. E Paterson, contra a repetição, tem apenas as palavras. Não se trata de desmerecer a vida com a mulher, as conversas de bar, as idas ao cinema. Mas tudo o que compõe esse cotidiano não faz sentido – ou não tem o mesmo peso – sem a poesia.

Escreve-as contra as formas repetitivas expostas pela mulher (vivida pela iraniana Golshifteh Farahani), com seu preto e branco constante, ou contra as pessoas que se repetem todos os dias em seu caminho, seja ao trabalho, seja ao bar como refúgio noturno para a cerveja. E, não à toa, Jarmusch insere gêmeos em diferentes momentos de sua obra, indicativo de que tudo se duplica aos olhos do herói silencioso.

Repetitiva é também sua profissão. E em uma das melhores sequências o ônibus quebra. O espectador descobre em Paterson um sinal de desespero, com um problema real para resolver – algo raro. Ele, que não usa celular, tem de recorrer ao aparelho de um dos passageiros. Por alguns instantes, vê-se a personagem como o centro das atenções, não mais como o motorista solitário ou o poeta desconhecido.

Mais de uma vez ele recorre ao seu refúgio, às cachoeiras de sua cidade. Senta no banco do parque e observa. Encontra palavras, poesia. Seu rosto é apenas aparentemente vazio. Driver, um ator grandioso, sabe como gestar esse poeta oculto. Comunica o máximo com pequenos sinais. Um rosto de esperança e felicidade.

(Idem, Jim Jarmusch, 2016)

Nota: ★★★★☆

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