Gêmeos Mórbida Semelhança

O Amante Duplo, de François Ozon

Sabe-se que do olhar da protagonista vem algo incerto, labiríntico, obscuro, e que do ventre que dói poderá nascer alguma coisa que não pareça humana em O Amante Duplo. Uma vida, é certo, será expelida, como a de um alienígena ou um monstro.

Em um filme sobre um irmão rejeitado, também sobre o conflito de irmãos, essa vida estranha que brota do ventre, que perfura a carne, será a representação perfeita do outro que renasce para ocupar seu lugar de direito. Da delicada Chloé vem o outro que não nasceu porque foi devorado por ela quando ambos dividiam o ventre da mãe.

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As camadas são representadas por reflexos. Espelhos surgem a todo momento. A moça multiplica-se, à medida que seu escolhido amante – depois namorado, depois futuro marido – ganha um irmão gêmeo. Dois homens diferentes sob a forma de um só: um deles é psiquiatra, o outro psicanalista, cada um em seu espaço, com suas manias, enquanto a protagonista – em visita a eles – busca a resposta para sua dor no ventre.

O primeiro é Paul, o segundo é Louis. Ambos são interpretados por Jérémie Renier. O primeiro usa óculos, tem o cabelo lançado à testa, apaixona-se pela menina que deveria tratar. Quebra a conduta ética que sua profissão exige, mas antes diz à mesma que não pode continuar com as sessões de terapia frente a frente, olho no olho.

De Paul ela retira um caso de amor, o sexo sem emoção tingido às sombras, nas noites em que encara seu gato ao mesmo tempo em que o amante deita-se sobre seu corpo. O olhar da protagonista diz muito sobre sua situação, seu íntimo: ao que parece, não sente prazer; ao que parece, aguarda o outro, o gêmeo que possa levá-la ao gozo, romper sua frigidez.

O outro, claro, é Louis, o gêmeo sedutor sem óculos, de cabelo ao alto, moderninho, que agarra a moça por trás e desliza uma das mãos – sem sensibilidade – à sua vagina, à cata de algo um pouco animal. Desenha-se o outro lado do homem que pode – e deve ser – o outro lado da menina: o duplo do amante, Louis, nada mais é que o seu duplo, irmã ou irmão que perdeu e que agora aflora em seu corpo, que no ventre bate à porta.

Talvez seja um irmão, o que explica a opção pelo cabelo curto (em uma sociedade que explora sinais para diferenciar seus gêneros). E, na contramão do sexo comportado que antes praticava com Paul, ela resolve assumir, na relação, papel ativo, usando um vibrador para satisfazer o mesmo amante, que por sinal se deixa levar.

Para matar o outro que tenta tomar seu lugar, irmão que carrega no ventre, Chloé precisa matar um de seus amantes. Um fornece-lhe a relação esperada, o outro o sexo selvagem, o inesperado. Sem surpresas, boa parte do filme de François Ozon, a partir do livro de Joyce Carol Oates, é a representação do que ocorre na mente da protagonista, seus delírios e desejos. Suas passagens pelas exposições de arte, no museu em que trabalha, resumem seus estados, como os pilares brancos que se metamorfoseiam em troncos de árvore.

O filme de Ozon, já se disse, tem algo de Gêmeos – Mórbida Semelhança, de Cronenberg, no qual as personagens entram em processo de fusão. Em O Amante Duplo, a protagonista interpretada pela bela Marine Vacth procura uma médica para tentar se curar das dores no ventre. Em sequência curiosa, a imagem de sua vagina funde-se à de seu olho, movimento entre a invasão e a expulsão, entre o interno e o externo.

Vacth é misteriosa, um pouco frágil, nunca dominadora em excesso. Dá mais pistas do que no filme que fez antes com Ozon, Jovem e Bela, no qual interpretava uma prostituta. Ela encara seu gato ou a projeção do gêmeo do companheiro enquanto faz sexo. Seu olhar penetrante reproduz medo, incerteza, espera: é a causadora e a vítima dessa intriga, menina atacada pela gêmea(o) que ainda carrega, que a segue, que não se reduz ao feto.

(L’amant double, François Ozon, 2017)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Jovem e Bela, de François Ozon

Identidade, duplos e os labirintos da alma (em 22 filmes)

O reino de máscaras e cópias encontra no cinema um espaço privilegiado. São muitos os filmes que fazem essa abordagem, com personagens divididas, a confrontar o outro, estranho e não raro inerente. A lista abaixo traz filmes de diferentes épocas, alguns baseados em autores famosos, levando o espectador a labirintos e sem respostas fáceis.

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O Grande Gabbo, de James Cruze e Erich von Stroheim

O diretor Stroheim interpreta a personagem-título, ventriloquista que entra em confronto com seu próprio boneco, Otto, sua outra face, seu contato com o mundo feito de festas e amores, de sequências musicais nos palcos da Broadway. Dois lados de um mesmo homem, cujo embate poderá levá-lo à miséria, também à loucura.

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O Médico e o Monstro, de Rouben Mamoulian

A clássica história baseada no livro de Robert Louis Stevenson. Fredric March ganhou seu primeiro Oscar como Henry Jekyll e o oposto, o senhor Hyde, o homem e o monstro, sob os cenários e a câmera subjetiva utilizada na abertura – e segunda a qual todos os espectadores também se tornam parte daquele homem, ou daquela criatura.

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O Homem que Nunca Pecou, de John Ford

Filme menos lembrado do mestre Ford, com Edward G. Robinson em papel duplo: o funcionário padrão que nunca chega atrasado ao trabalho, também o bandido mais temido na cidade. Claro que as duas figuras a certa altura se encontrarão, e claro que a provável troca de papéis gerará situações curiosas. Vale a descoberta.

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Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock

Após não conseguir salvar a mulher amada, o detetive de James Stewart vê a possibilidade de transformar “outra” mulher na anterior. Aos poucos, ele descobre que se trata da mesma. Obra-prima de Hitchcock com Kim Novak na pele da loura misteriosa Madeleine Elster e, depois, na da morena Judy Barton.

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Quando Duas Mulheres Pecam, de Ingmar Bergman

O próprio Bergman considerava Quando Duas Mulheres Pecam – ou Persona, como é também conhecido – um de seus filmes mais completos. É o encontro de duas mulheres, depois isoladas em uma ilha, a atriz Elisabet Vogler (Liv Ullmann), que emudeceu, e a enfermeira falante Alma (Bibi Andersson), em um poderoso jogo de máscaras.

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O Segundo Rosto, de John Frankenheimer

Homem poderoso contrata uma organização para simular sua própria morte. Ele deseja mudar de vida e se tornar mais jovem. Na nova roupagem, com seu segundo rosto, ganha a forma do galã Rock Hudson. No entanto, a mudança trará consequências. O grande thriller de Frankenheimer banha-se no clima da Guerra Fria.

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Peppermint Frappé, de Carlos Saura

O título refere-se à bebida servida nos encontros das personagens. Saura aproxima-se de Buñuel, do surrealismo, com seus tambores de Calanda, e explora uma história às raias do absurdo. É sobre um homem impotente que tenta transformar uma mulher em outra, a morena em loura atraente, a exemplo do já citado Um Corpo que Cai.

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Partner, de Bernardo Bertolucci

Baseado em O Duplo, de Dostoievski, é o filme do cineasta italiano que mais se aproxima do clima político de 68, com seus jovens contestadores e a estrutura que flerta com Jean-Luc Godard. O estudante ao centro, interpretado por Pierre Clémenti, tem suas convicções abaladas quando passa a ser confrontado por seu duplo.

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Performance, de Donald Cammell e Nicolas Roeg

Antes dos extraordinários A Longa Caminhada e Inverno de Sangue em Veneza, Roeg dividiu com Cammell a direção desse filme conectado com seu tempo, sobre um gângster (James Fox) que, em fuga, pinta o cabelo e termina na grande casa de Turner (Mick Jagger). Com doses de psicodelia, eles começam a se fundir.

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Irmãs Diabólicas, de Brian De Palma

A história de uma mulher que perdeu sua irmã siamesa após a separação dos corpos. Fica a cicatriz, a marca do rompimento em um filme curioso do arquiteto De Palma, sempre se banhando no universo de Alfred Hitchcock. Há o voyeurismo nas sequências da janela, quando a jornalista observa um assassinato, e também a dupla personalidade.

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Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni

A personagem de Jack Nicholson, repórter desiludido, vê a oportunidade de mudar de vida: ela assume a identidade do homem no quarto ao lado, em um hotel, em um ponto remoto do globo. Antonioni volta ao campo da identidade nesse belo filme. O encerramento é inesquecível: a câmera percorre o quarto e atravessa as grades da janela.

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Três Mulheres, de Robert Altman

O filme de Altman deve algo a Quando Duas Mulheres Pecam, de Bergman, e insere ainda uma terceira figura feminina. Aborda a relação de duas mulheres (Shelley Duvall e Sissy Spacek) quando passam a trabalhar juntas em uma casa de repouso e quando uma tenta se tornar a outra. Altman, em grande momento, propõe um enigma.

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Gêmeos – Mórbida Semelhança, de David Cronenberg

Os gêmeos de Cronenberg compartilham a mesma profissão e a mesma ciência: a ginecologia. Mas ambos expõem suas diferenças, o que aumenta o clima destrutivo, ajudado pela mulher entre eles, a misteriosa Geneviève Bujold. Um dos grandes trabalhos do diretor de Videodrome: A Síndrome do Vídeo e Marcas da Violência.

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A Dupla Vida de Véronique, de Krzysztof Kieslowski

A ideia é curiosa: todas as pessoas teriam um duplo em algum lugar do mundo. A protagonista e sua cópia são vividas por Irène Jacob. Ainda no início, uma consegue ver a outra, em um ônibus, enquanto a segunda fotografa seu duplo sem saber. O resultado é mais um trabalho exemplar de Kieslowski, aqui em sua primeira incursão pela França.

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Clube da Luta, de David Fincher

Incluir o filme de Fincher nesta lista é correr o risco de revelar muito. Seu protagonista é alguém sem caminho (Edward Norton), que descobre na violência um novo sentido para a vida. E descobre que essa busca pode, a certa altura, ganhar proporções inimagináveis – enquanto segue atormentado pela figura de Brad Pitt.

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Cidade dos Sonhos, de David Lynch

Duas mulheres, uma loura e uma morena, faces da mesma moeda, na Hollywood delirante de Lynch. Ao que parece, começa como sonho, com a chegada de uma jovem atriz (Naomi Watts) a Los Angeles e os problemas de outra (Laura Harring), que sofreu um acidente e perdeu a memória. Para muitos, o ponto alto da carreira do diretor.

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Adaptação, de Spike Jonze

Outro sobre o mundo do cinema. Aborda as relações de um roteirista (interpretado por Nicolas Cage, e que pode ser o próprio Charlie Kaufman) com seu duplo, seu gêmeo que sempre aparece para soltar palpites sobre sua vida. Detalhe: o roteiro desse filme inventivo é assinado por Charlie Kaufman e um inexistente Donald Kaufman.

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O Rabo do Tigre, de John Boorman

O protagonista, um empresário, descobre que seu duplo vive pelas ruas e representa o outro lado do sistema capitalista em questão: é seu gêmeo que foi deixado para trás, que, diferente dele, não teve as mesmas oportunidades. A aparência kafkiana dá espaço à abordagem social. O duplo retorna para atormentar o protagonista endinheirado.

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O Homem Duplicado, de Denis Villeneuve

Muitos cinéfilos consideram o filme incompreensivo, com passagens absurdas, como o encerramento com a aranha gigante no interior do quarto. Os tons pastéis salientam um clima de sonho, a cercar o público de dúvidas. E o protagonista, vivido por Jake Gyllenhaal, almeja ser como seu duplo, um ator de vida movimentada.

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Viva a Liberdade, de Roberto Andò

Político atingido por pressões de todos os lados decide desaparecer. Seu partido, na Itália, decide colocar seu irmão gêmeo no seu posto. O que poderia ser um desastre torna-se uma vitória: o outro fala o que vem à mente e logo se torna um sucesso com o eleitorado. E, como costume, há uma (dupla) interpretação acertada de Toni Servillo.

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O Duplo, de Richard Ayoade

Jesse Eisenberg serve bem à personagem, rapaz impotente que tenta se aproximar de uma bela moça (Mia Wasikowska), no trabalho, e que passa a ser atormentado por seu duplo. A cópia representa tudo o que ele não é, e talvez tudo o que sonhasse ser. Mais uma adaptação direta de O Duplo, de Dostoievski, e em um universo surreal.

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Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro González Iñárritu

Ator tenta provar que pode dar a volta por cima, com uma peça séria na Broadway, enquanto é atormentado pelo passado: a personagem que ele viveu no cinema, o herói Birdman, retorna para cobrá-lo, para salientar sua fraqueza nesse labirinto de atores, parentes, nesse meio em que todos tentam se entender e no qual tudo parece efêmero.

birdman

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Peppermint Frappé, de Carlos Saura
O Grande Gabbo, de James Cruze e Erich von Stroheim

Os 100 melhores créditos de abertura da história do cinema

Quem nunca se emocionou com os créditos iniciais de um filme não conhece o sabor da cinefilia. Apenas a enunciação da obra já faz muitos cinéfilos tremerem na cadeira. Parte do show, tais créditos, somados à trilha e às imagens, também ajudam a compreender o filme. Na lista abaixo, vários casos servem de exemplo.

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Imaginar alguns filmes de Alfred Hitchcock ou Otto Preminger sem os títulos de Saul Bass é impossível. Emoção igual dá-se com o nome de Antônio das Mortes, quando explode na tela, ainda na abertura de O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, ou com as letras em rosa para o terror O Bebê de Rosemary. Exemplos não faltam. As ausências, por sua vez, existem (sempre) por causa do espaço. Aos 100.

Fausto, de F.W. Murnau

fausto

O Testamento do Dr. Mabuse, de Fritz Lang

Diabo a Quatro, de Leo McCarey

diabo a quatro

Rebecca, A Mulher Inesquecível, de Alfred Hitchcock

rebecca

Contrastes Humanos, de Preston Sturges

contrastes humanos

Cidadão Kane, de Orson Welles

cidadão kane

Mulher de Verdade, de Preston Sturges

Pacto de Sangue, de Billy Wilder

pacto de sangue

O Segredo da Porta Fechada, de Fritz Lang

o segredo da porta fechada

O Pior dos Pecados, de John Boulting

o pior dos pecados

Os Sapatinhos Vermelhos, de Michael Powell e Emeric Pressburger

sapatinhos vermelhos

Hamlet, de Laurence Olivier

hamlet

A Grande Ilusão, de Robert Rossen

a grande ilusão

Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder

crepúsculo dos deuses

Depois do Vendaval, de John Ford

depois do vendaval

A Morte Num Beijo, de Robert Aldrich

a morte num beijo

O Grande Golpe, de Stanley Kubrick

o grande golpe

12 Homens e uma Sentença, de Sidney Lumet

12 homens e uma sentença

Almas Maculadas, de Douglas Sirk

almas maculadas

A Marca da Maldade, de Orson Welles

a marca da maldade

Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock

um corpo que cai

Anatomia de um Crime, de Otto Preminger

anatomia de um crime

Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais

hiroshima meu amor

Intriga Internacional, de Alfred Hitchcock

intriga internacional

A Tortura do Medo, de Michael Powell

a tortura do medo

Amor, Sublime Amor, de Jerome Robbins e Robert Wise

Bonequinha de Luxo, de Blake Edwards

bonequinha de luxo

Lawrence da Arábia, de David Lean

lawrence da arábia

Viver a Vida, de Jean-Luc Godard

viver a vida

A Pista, de Chris Marker

la jetée

O Sol é para Todos, de Robert Mulligan

o sol é para todos

Lolita, de Stanley Kubrick

lolita

O Que Teria Acontecido a Baby Jane?, de Robert Aldrich

o que teria acontecido a baby jane

O Leopardo, de Luchino Visconti

o leopardo

Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos

vidas secas

O Beijo Amargo, de Samuel Fuller

o beijo amargo

Os Reis do Iê-Iê-Iê, de Richard Lester

os reis do ie ie ie

007 Contra Goldfinger, de Guy Hamilton

goldfinger

Doutor Fantástico, de Stanley Kubrick

doutor fantástico

Banda à Parte, de Jean-Luc Godard

bando à parte

Os Guarda-Chuvas do Amor, de Jacques Demy

o guarda-chuvas do amor

São Paulo, Sociedade Anônima, de Luiz Sergio Person

são paulo sociedade anônima

O Segundo Rosto, de John Frankenheimer

o segundo rosto

A Primeira Noite de um Homem, de Mike Nichols

a primeira noite de um homem

Week-End à Francesa, de Jean-Luc Godard

Rebeldia Indomável, de Stuart Rosenberg

rebeldia indomável

A Noite dos Mortos-Vivos, de George A. Romero

a noite dos mortos vivos

O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski

o bebê de Rosemary

Se…, de Lindsay Anderson

se...

A Piscina, de Jacques Deray

a piscina

O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha

o dragão da maldade contra

Sem Destino, de Dennis Hopper

sem destino

Meu Ódio Será sua Herança, de Sam Peckinpah

meu ódio será sua herança

El Topo, de Alejandro Jodorowsky

el topo

O Conformista, de Bernardo Bertolucci

o conformista

O Mensageiro, de Joseph Losey

o mensageiro

A Longa Caminhada, de Nicolas Roeg

Aguirre – A Cólera dos Deuses, de Werner Herzog

aguirre

São Bernardo, de Leon Hirszman

são bernardo

O Espantalho, de Jerry Schatzberg

o espantalho

Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia, de Sam Peckinpah

traga-me a cabeça de alfredo garcia

A Conversação, de Francis Ford Coppola

a conversação

Tubarão, de Steven Spielberg

tubarão

Nashville, de Robert Altman

nashville

Um Estranho no Ninho, de Milos Forman

um estranho no ninho

Rede de Intrigas, de Sidney Lumet

rede de intrigas

1900, de Bernardo Bertolucci

1900

Eraserhead, de David Lynch

eraserhead

O Despertar dos Mortos, de George A. Romero

o despertar dos mortos

Touro Indomável, de Martin Scorsese

touro indomável

Agonia e Glória, de Samuel Fuller

agonia e glória

Carruagens de Fogo, de Hugh Hudson

carruagens de fogo

Desaparecido, de Costa-Gavras

desaparecido

O Veredicto, de Sidney Lumet

o veredicto

Nostalgia, de Andrei Tarkovski

nostalgia

Aos Nossos Amores, de Maurice Pialat

aos nossos amores

Pauline na Praia, de Eric Rohmer

pauline na praia

Veludo Azul, de David Lynch

veludo azul

Gêmeos, Mórbida Semelhança, de David Cronenberg

gêmeos mórbida semelhança

Nikita – Criada para Matar, de Luc Besson

nikita

Os Imorais, de Stephen Frears

os imorais

O Jogador, de Robert Altman

o jogador

O Pagamento Final, de Brian De Palma

o pagamento final

Assassinos por Natureza, de Oliver Stone

assassinos por natureza

Los Angeles – Cidade Proibida, de Curtis Hanson

los angeles cidade proibida

Tudo Sobre Minha Mãe, de Pedro Almodóvar

tudo sobre minha mãe

Quase Famosos, de Cameron Crowe

quase famosos

O Homem Que Não Estava Lá, de Ethan e Joel Coen

o homem que não estava lá

Cidade dos Sonhos, de David Lynch

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Elefante, de Gus Van Sant

elefante

Caché, de Michael Haneke

caché

Marcas da Violência, de David Cronenberg

marcas da violência

Quem Quer Ser um Milionário?, de Danny Boyle

quem quer ser um milionário

Vincere, de Marco Bellocchio

vincere

Watchmen: O Filme, de Zack Snyder

A Separação, de Asghar Farhadi

a separação

Tabu, de Miguel Gomes

tabu

Frances Ha, de Noah Baumbach

frances ha

Praia do Futuro, de Karim Aïnouz

praia do futuro

O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson

o grande hotel budapeste

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Os 70 melhores longas de estreia da História do Cinema

Mapas para as Estrelas, de David Cronenberg

A velha estrela de cinema não se conforma com as recusas. Contorce-se, chora, pede ajuda a uma espécie de guru a quem as estrelas recorrem quando precisam se recuperar. De quebra, é assombrada pelo espírito da mãe morta.

Outras personagens, em Mapas para as Estrelas, também são assombradas por outros espíritos. Hollywood, cujo cenário não havia sido invadido antes por David Cronenberg, é uma terra de monstros, como em um filme de terror.

mapas para as estrelas

Nesse sentido, não parece se diferenciar dos outros trabalhos do cineasta. O que interessa a Cronenberg é a podridão por trás das belas casas, da riqueza, do sucesso, da falsa imagem da bondade, dos gestos em público. As estrelas – algumas mais famosas, outras mais ricas – estão sempre sob o efeito da maquiagem.

Não estranha, por isso, ver a atriz no banheiro, no vaso sanitário, com problemas intestinais. Cronenberg descortina a vida nas grandes mansões, invade as conversas banais no banco de trás dos carros – com os motoristas que sonham em fazer sucesso e agem como idiotas – e os efeitos destrutivos do sonho.

Tudo leva à inevitável tragédia, àquele ponto final em que ela mescla-se à esperança que não existe mais: quando a câmera recua, os jovens permanecem deitados e as estrelas – de mentira, nos créditos – tomam a tela.

Não há esperança: tudo é falso, e todos estão tomados pelo desejo de morte. Todos estão fora do controle, fingindo controlar – e bem – suas próprias vidas, seus dramas, seus passados – levados à tela na forma de espíritos.

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A certa altura, lembra Cidade dos Sonhos, de Lynch. Mas Cronenberg prefere os efeitos trágicos, os detalhes reais. Permanece algo repetitivo, também o vazio que toma a vida de todos, nos encontros em grandes mansões, nas conversas à toa.

Los Angeles não aparece muito. Em seu pouco, é feia. Os estúdios são locais mecânicos, de puro trabalho, sem arte. Suas pessoas são simples. Falam aos outros como se sempre tivessem horror à vida, como se nada importasse.

Falam como se fossem donas de tudo, como se não houvesse vez à humanidade. A terra do cinema explode em cinismo: em cena, os suspeitos de sempre.

Há a menina aparentemente sonhadora e ingênua, que acabou de retornar à cidade. Ela é interpretada por Mia Wasikowska, o anjo transformado em monstro, a Alice do filme de Tim Burton. É a personagem mais interessante. Tem uma cicatriz do lado esquerdo do rosto e a certa altura sua marca é confundida com a maquiagem verdadeira.

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Em Hollywood, ela começa a trabalhar para a estrela Havana Segrand (Julianne Moore), cuja mãe, por coincidência ou não, morreu em um incêndio. Nesse mapa traçado por Cronenberg, as coisas aos poucos se confundem, mas as coisas certamente não se dão ao simples acaso. Na cidade das redes, o acaso não existe.

Ao chegar à cidade, a menina ingênua contrata um motorista, vivido aqui por Robert Pattinson. Nessa terra, nesse mapa, há sempre um pobre homem a conectar o espectador à realidade, à margem, também em busca do sucesso: ele é, aqui, o Joe Gillis dos tempos atuais, em busca de sua Norma Desmond.

A menina Agatha (Wasikowska) pode ter se apaixonado por ele. Terá de enfrentar o temperamento inconstante de Havana, também de confrontar sua antiga família, a tragédia passada, o jovem irmão – igualmente perturbado – que sobreviveu a um ato louco cometido por ela, quando colocou fogo em sua casa.

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A ligação maior, diz Cronenberg, não se dá entre a menina e a antiga família, mas entre ela e Havana. Enquanto Agatha expressa o anjo por trás do monstro, a outra é o oposto. E se a menina é transformada ao longo do filme, não é difícil entender o motivo.

Mapas para as Estrelas é diferente de outros filmes de Cronenberg. O amargor, contudo, continua intacto. Suas personagens – como em Gêmeos – Mórbida Semelhança ou mesmo em Cosmópolis – escondem-se em templos, com suas próprias regras, com a beleza que se desfaz, sem pressa.

Nota: ★★★★☆

Os dez melhores filmes de David Cronenberg

Com a aproximação da estreia do ótimo Mapa para as Estrelas, vale relembrar os melhores filmes de um cineasta genial, David Cronenberg. Das estranhezas da primeira fase, sempre mesclando carne e máquina, à brilhante visão da loucura americana em Marcas da Violência, sua carreira tem mais altos do que baixos. Ou talvez nenhum baixo digno de nota. O melhor dele, na visão do blogueiro, segue abaixo.

10) Scanners – Sua Mente Pode Destruir

Obra cheia de caminhos, sobre cabeças que explodem e sobre um homem em busca da verdade em sua sociedade vigiada, o que o diretor voltaria a abordar.

scanners

9) Senhores do Crime

Basta a sequência da luta na sauna para ter ideia da grandeza da obra, que dá a Viggo Mortensen talvez sua melhor atuação no cinema.

senhores do crime

8) eXistenZ

O jogo dentro do jogo, sem dar pistas sobre o que é real e o que não é. O objeto que faz jogar é feito de carne, move-se, e invade a mente dos jogadores.

eXistenZ

7) A Mosca

Sucesso de bilheteria, o filme colocou Cronenberg às portas do cinemão, com Jeff Goldblum fazendo um físico que se transforma em monstrengo.

a mosca

6) Um Método Perigoso

Freud e Jung têm seus momentos tensos, também de admiração, nessa obra apaixonante: o encontro de grandes pensadores em um mundo à beira do colapso.

2011, A DANGEROUS METHOD

5) Marcas da Violência

A vida interiorana, perdida, não durará muito: o homem, aqui, sempre é aterrorizado pelos demônios que retornam, e tem de revelar sua verdadeira identidade.

marcas da violência

4) Gêmeos – Mórbida Semelhança

Envolve medicina, sexo, diferentes personalidades, com um mergulho poderoso na relação dos irmãos vividos por Jeremy Irons.

gêmeos

3) Mistérios e Paixões

O vendedor pode ser um agente secreto, e tem em sua máquina um monstro que lhe entrega as missões. Poderosa adaptação da obra de Burroughs.

mistérios e paixões

2) Videodrome – A Síndrome Do Vídeo

Mais do que sobre a era do vídeo, é sobre a televisão. Sobre manipulação, com as doses de sexo típicas do diretor, e, de quebra, com as insinuações de Deborah Harry.

videodrome

1) Crash – Estranhos Prazeres

Obra-prima dos anos 90, sobre um grupo de pessoas que recria famosos acidentes de carro e se deixa envolver em relações perigosas.

crash