Gelsomina

Bastidores: A Estrada da Vida

Nunca peço ao ator um esforço de interpretação particular, ou seja, nunca me obstino a fazê-lo dizer meus diálogos num dado tom. O caso de Giulietta interpretando Gelsomina é o único exemplo em que obriguei uma atriz que tem um temperamento exuberante, agressivo, até pirotécnico, a fazer o papel estilizado de uma criatura retraída de timidez, com um clarão de razão e de gestos sempre no limite da caricatura e do grotesco. Isso me demandou um esforço muito grande e nesse caso particular, Giulietta, contrariamente ao que ela fez por Cabiria, precisou de um esforço de interpretação muito grande, porque Gelsomina é uma “interpretação” enquanto “Cabiria” estava muito mais na sua afinação, com sua agressividade, seu temperamento quase um pouco alucinado, sua prolixidade.

Federico Fellini, cineasta, na revista Cahiers du Cinéma (nº 84, junho de 1958; traduzido do francês por Luiz Carlos Oliveira Jr. e publicado na Contracampo; leia aqui). Abaixo, Fellini e Giulietta Masina.

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As Maravilhas, de Alice Rohrwacher

Não é difícil saber muito sobre as personagens de As Maravilhas. São, sem segredos, brutas ou ternas. Entre elas, no filme de Alice Rohrwacher, está a jovem Gelsomina (Maria Alexandra Lungu). Tem o mesmo nome da mulher humilde, pequena, de A Estrada da Vida, de Fellini: nascida para sofrer nas mãos de um homem grande, bruto.

No filme realista e mágico de Rohrwacher, o bruto é o pai. Ele não deixa a filha escapar. Sua visão é estreita: naquela velha terra entre abelhas e caçadores não tão distantes, o melhor é ficar por ali, resistir, contra as “maravilhas” do mundo externo.

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as maravilhas

Mas Gelsomina entenderá o contrário: aos poucos, será iluminada pela ideia de fugir, pela fantasia ligada a tudo o que pode estar além dos muros imaginários. Suas fantasias têm início quando, na companhia do pai e das irmãs mais jovens, assiste à gravação de um programa de tevê chamado No País das Maravilhas.

O pai, Wolfgang (Sam Louwyck), acredita que tudo não passa de bobagem: o verdadeiro mundo a se apegar está a alguns metros à frente, na terra, na família, nas colmeias de abelha que, aqui, sintetizam a família ou seu oposto.

Na verdade, sintetizam o desejo do pai, e se revelam a alienação contra qual Gelsomina deverá lutar para viver. Ela não pode terminar presa àquelas ações intermináveis, resumidas em trocar baldes, trabalho braçal, em impedimentos constantes.

A menina sonha, e por isso não pertence àquele meio. O olhar que recai nela é o do artista. Há algo deslumbrante aí: as pessoas só podem escapar, diz Rohrwacher, quando entendem a necessidade de criar mundos imaginários, ou quando se lançam ao sonho.

A realidade é chata, com abelhas, suas colmeias, atividades repetitivas. Ao mesmo tempo, toda essa chatice revela-se necessária: a família precisa trabalhar para viver, precisa se adaptar às novas leis, precisa encontrar meios para se aliviar.

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Quando o programa de televisão vai àquela região distante, com a intenção de descobrir as “maravilhas” de um universo supostamente perfeito, a jovem Gelsomina não pode deixar de sonhar. Ele olha à bela atriz e apresentadora do programa (Monica Bellucci) e automaticamente se deixa levar pelo sonho: vê a verdadeira princesa.

Contra a vontade do pai, a menina coloca a família na corrida pelo prêmio do programa. À frente, ele assistirá sua gravação, olhará à pequena televisão que serve à equipe técnica, a pequena caixa que o deixará enquadrado, sem palavras.

O que há por trás daquela “mágica” – o que talvez Gelsomina não possa entender por completo – revela apenas mais dor. É a interpretação, à qual a pequena protagonista não se deixa lançar. Aqui, as irmãs e um jovem menino adotado são sempre espontâneos, como os pais e os outros, o que surpreende os artistas e produtores da cidade grande.

Ao mesmo tempo em que revela o choque entre pai e filha, entre o bruto e a jovem sonhadora, As Maravilhas questiona o quanto a fábrica de sonhos da televisão pode ser enganosa, fria, falsa – e o quanto ela ainda pode despertar desejos.

Benéficos ou não, esses sonhos abrem portas, revelam a mudança, como mensagem no ouvido da jovem Gelsomina, que tenta tocar as luzes entre sombras, enquanto procura escapar daquele local afastado e opressor.

Nota: ★★★★☆

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