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Os Iniciados, de John Trengove

O jovem iniciado aos poucos ocupa o centro da história, embrenha-se devagar, ousa questionar o ritual que o cerca: quer saber qual a utilidade e o motivo para colocar alguns jovens no meio da mata, por duas semanas, enquanto sentem a dor da circuncisão. Seu questionamento, sabe o espectador, faz todo sentido.

Os outros, claro, logo o reprimem: é um jovem da cidade grande, de Joanesburgo, provavelmente viciado na vida moderna, distante dos antigos rituais africanos. Fala-se aqui do processo de “crescimento” desses meninos, expostos à dor e ao isolamento para saírem “homens de verdade” dessa experiência – como creem os mais velhos.

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O jovem em questão não é o protagonista de Os Iniciados, de John Trengove. O questionamento que faz atinge em cheio outro entre eles, mais velho, agora feito guia para o iniciado nesses dias de suposta descoberta: Xolani (Nakhane Touré), homossexual que todo ano volta àquele retiro para trabalhar.

Sua orientação sexual é segredo. Escondê-la é pré-requisito para sobreviver nessa sociedade patriarcal pregada às tradições, à crença de que os verdadeiros “machos” precisam sentir o corte na pele para entender o que é o mundo adulto. Xolani, ou apenas X, representa o esconderijo abalado pelo rapaz mais novo, Kwanda (Niza Jay).

A história de Xolani, ainda que oculta, surge nos detalhes, na forma de ser: é alguém que decidiu fugir, à sombra da personagem que criou a si mesmo: o mestre incumbido de levar os meninos às descobertas. O pai do novo garoto, por sinal, é quem diz para Xolani que o filho precisa ser “mais homem” e, dessa lição, crê, amadurecer.

Outros iniciados desfilam, e se excluem, com seus guias. Um deles, Vija (Bongile Mantsai), mantém um caso com Xolani. Ambos se encontram ainda no início, em uma sala, distante dos iniciados de corpos pintados de branco, enrolados em mantas brancas. O casal gay consome o sexo no chão de um cômodo enquanto a câmera registra o ato de outro espaço, reproduzindo o que mais parece a visão de um intruso, do desconhecido.

Opções como essa revelam o quanto esse amor, ou essa relação, constrói-se de maneira estranha, sem jeito, abrupta, um pouco animal. O que se espera desses guias – e dos jovens iniciados – está por ali, na pele, no confronto que o sexo reproduz: são homens de verdade, brutos, iniciados em um contato proibido.

Não se trata de pensar apenas no ritual em questão, da tribo e do grupo em questão; a história poderia ser transferida a qualquer outro lugar. Velha história sobre homens isolados, com seus rituais e crenças, confrontados pela natureza que não conseguem deter. Chama a atenção, no caso, a força empreendida por Kwanda, que com tão pouco é capaz de incomodar os outros, justamente por compreender a inutilidade daquela provação.

Os garotos e seus guias mais velhos estouram aos poucos a couraça que separa o espaço ritualístico, fechado, do mundo verdadeiro de desejos verdadeiros – à medida que Trengove fixa-se na expressão de dor e fúria de cada um, como se andassem em círculos, para confirmar a alienação às velhas tradições.

Kwanda exige dos amantes, Xolani e Vija, a coragem para serem quem realmente são. O jovem não precisa de palavras. Sua pele marcada pela tinta branca torna-lhe o ator para o papel errado, alguém que deseja escapar, que fala o que os outros não conseguem, ou não fala nada. Pena que esse tipo de batalha nem sempre termina bem.

(Inxeba, John Trengove, 2017)

Nota: ★★★☆☆

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Moonlight: Sob a Luz do Luar, de Barry Jenkins

A relação gay em Ben-Hur

Nos especializamos nos subtextos… sem dizer uma palavra sobre ele. O melhor exemplo disso para mim foi escrever Ben-Hur. Ben-Hur e Messala, um judeu, o outro romano, se conhecem desde a juventude. Brigaram por política e se odiariam pelas próximas três horas. Não é muita coisa para fazer um filme de três horas, mesmo para um épico como Ben-Hur. O diretor, William Wyler, perguntou o que eu ia fazer. “Quero tentar uma coisa. Digamos que eles se conheçam há muito tempo. Foram amantes e agora se reencontraram, e o romano quer reatar o romance. Messala, que é Stephen Boyd, quer começar de novo com Ben-Hur, que é Charlton Heston. Sei lá por quê. É um romano.” Willie ficou me olhando, incrédulo. Falei: “Não vou falar nada. Nem uma palavra. Não será declarado, mas ficará claro que Messala é apaixonado por Ben-Hur.” Willie disse: “Gore, isto é Ben-Hur. O subtítulo é Um Conto de Cristo”. Aí ele disse: “Bem, é melhor do que o que temos. Vamos tentar”.

(…)

[Wyler] Perguntou se eu tinha falado com alguém. Disse que não. Ele disse: “fale com Boyd, o Messala. Não diga nada a Heston. Pois ele desmoronaria. Deixe ele comigo”. Heston achou que fazia um machão, com a cabeça sempre erguida. Stephen Boyd interpretou as duas coisas. Alguns olhares são óbvios.

Gore Vidal, escritor, um dos roteiristas de Ben-Hur, mas não creditado. A declaração está no documentário O Outro Lado de Hollywood (Rob Epstein, Jeffrey Friedman, 1995). Apesar de o roteiro adaptado do livro de Lew Wallace ter sido assinado apenas por Karl Tunberg, ele passou por outras mãos, como as de Christopher Fry e as do próprio Vidal. Abaixo, Boyd e Heston em cena famosa.

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Dez clássicos com subtexto gay

Moonlight: Sob a Luz do Luar, de Barry Jenkins

Em três tempos, Chiron fala pouco. Ou apenas ouve e deixa que os outros falem por ele. Há sempre alguém a falar muito, com palavras que não raro atingem o protagonista em cheio: o amigo traficante, o colega de escola e, principalmente, a mãe viciada.

Todos, em algum momento de Moonlight: Sob a Luz do Luar, explicitam o drama do protagonista, a cada episódio sob um nome, batizado pela palavra das ruas nesse grande filme sobre o sentimento de um jovem negro e homossexual nos Estados Unidos.

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Sublinha-se: os Estados Unidos à beira de Donald Trump, tomados por um discurso nacionalista e de segregação. O filme de Barry Jenkins, ainda assim, acerta ao duelar com as explosões do drama, e na política sequer precisa tocar. A relação é entre negros, no gueto, no espaço em que eles não se entendem, ou no qual tendem a se estranhar.

Pois Chiron (vivido por Alex R. Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes em três diferentes épocas, ou capítulos) terá de viver à mira desse suposto problema: os outros dizem que ele é diferente e o perseguem. É perseguido já em sua aparição.

No início, o espectador conhece Juan (Mahershala Ali), pai espiritual do protagonista. Juan é um bom homem, um traficante que não gosta que usem drogas nas proximidades de sua “boca” e que adota Chiron ao perceber o garoto isolado dos outros.

Juan oferece ao protagonista uma forma de libertação, o mergulho no oceano que o mesmo ouve atento, mais tarde, para mergulhar em seu passado. A passagem não vem à toa, ao fim, quando o protagonista segue à casa do melhor amigo e amante: o som do mar o atrai ao que passou, ao garoto que um dia foi, de corpo azul, à luz da lua.

Essas pequenas passagens “poéticas” não escondem as intenções de Jenkins: são muitos os momentos em que o criador prefere a representação à explosão do fato. Como no momento em que opta em mostrar a mãe (Naomie Harris) aos gritos, na porta do quarto, sob as luzes fortes que demarcam as transformações da casa de Chiron: o espaço no qual ele vive, seu isolamento, suas pequenas ações diárias, e o espaço de sua mãe.

As questões sociais estão todas ali. Mas, quando opta em encurtar passagens e apresentar closes sem o uso do som, com olhares penetrantes à câmera, é de sentimentos que ele fala: a surpresa ao descobrir as coisas como são, o choque de realidade.

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Contra a palavra dos outros, todos que tanto falam, Chiron terá de aprender a confiar. Não será fácil. Juan mobiliza seu corpo pelas águas do mar, pede que ele tenha confiança. Mais tarde, na adolescência, será golpeado pelo companheiro, devido às ordens irracionais de outros jovens, à estranha necessidade de violência gratuita.

A cada expressão que volta à câmera, é como se Jenkins alimentasse as desesperanças do menino: os sentimentos de se crescer nesse meio, sendo homossexual e repelido, são os piores possíveis – o que explica a transformação de Chiron no terceiro ato.

Torna-se grande. Não apenas adulto. Seus músculos saltam. A transformação pode ser uma resposta à imagem anterior: o garoto pequeno, magro, que sofria nas mãos dos outros. Depois de preso, Chiron retorna às ruas para se transformar em seu pai espiritual: torna-se um traficante e passa a viver em Atlanta, não mais em Miami.

Certo dia seu telefone toca. É o antigo caso amoroso – o único homem que teve em toda a vida, como confessará mais tarde. O retorno à sua antiga cidade leva ao reencontro, à conversa amigável que pouco a pouco se inclina à revisão dessa vida em três atos. Moonlight revela a sensibilidade dos brutos, o impensável: o protagonista deixa ver o mesmo rapaz de antes, seu interior e sua grandeza.

(Moonlight, Barry Jenkins, 2016)

Nota: ★★★★☆

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Docinho da América, de Andrea Arnold

Carol, de Todd Haynes

As mulheres saem em viagem com diferentes intenções no filme de Todd Haynes. Para Carol, é a oportunidade de fugir de sua vida de prisões, do marido e da família moralista. Para Therese, é a maneira de se descobrir, o que leva à sexualidade.

Ainda que o filme seja visto pelo olhar da segunda, é a primeira que fornece todas as mudanças: é ela que fará Therese (Rooney Mara) ver o mundo de outra forma, o que sua paixão pela fotografia – e depois seu trabalho – apenas representará.

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Antes dela, há os trenzinhos, as bonecas na loja de departamento na qual Therese trabalha: a amostra do velho mundo de curvas perfeitas, em que “todos” são destinados às formas da porcelana, ou a girar, rumo ao mesmo destino, ao mesmo lugar.

É nessa loja, em Carol, que ambas se veem pela primeira vez. Não é um olhar qualquer. Para Haynes, será difícil dizer quem se sente mais atraída. E são sensações diferentes: enquanto Carol sabe o que deseja, Therese parece saber pouco, experimentar.

O ambiente ao redor dá tom ao drama, com uma história que começou há muito tempo, com Douglas Sirk e seus incríveis melodramas feitos para a Universal, entre eles Tudo o Que o Céu Permite, no qual a mãe de família (Jane Wyman) é impedida pelos filhos de namorar um jardineiro jovem e ganha uma televisão de aniversário.

Na tela da televisão, em Carol, em importante sequência passada em um almoço, a personagem-título assiste à imagem do poder, à imagem masculina. A sociedade, então pautada em grande parte pela televisão, reproduz a voz do homem.

Assim, a relação entre duas mulheres só poderia estar condenada. É contra essa sociedade que as personagens devem lutar, principalmente Carol, interpretada por Cate Blanchett, ao mesmo tempo desafiadora e disposta a ceder aos outros.

Espécie de Anna Karenina, forte e destinada a amar a filha pequena – como qualquer mulher. Levada, em partes, a desafiar a ordem, mas obrigada a recuar quando o marido une provas contra ela, devido à relação com Therese, para assim ter a guarda da menina.

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Ao mesmo tempo em que amplia as possibilidades desse mundo feito às aparências, Carol é também para Therese o caminho inevitável à repressão: tudo o que a rodeia – suas festas, seu meio, as intermináveis cerimônias – remetem ao atraso.

Em momento exemplar, Haynes filma Carol em uma festa, pelo lado de fora da casa, enquanto a personagem conversa com outra mulher em uma janela. Quando a outra fala sobre fumar escondida do marido, Carol afasta-se para o espaço da outra janela.

Soluções simples e visualmente interessantes, em um drama forte, que não precisa mais que alguns movimentos e expressões, ou às vezes o silêncio, para entregar o necessário sobre as mulheres ao centro. Filme feminino, delicado, sobre se libertar.

Mais interessante é a ótica de Therese, o ponto central. A obra de Haynes, com ela, coloca-se nesse momento de mudança – o que explica o final feliz. É com a jovem que o espectador fará perguntas, que encontrará a fonte do sofrimento: é alguém que tenta entender seus sentimentos enquanto se depara com as regras da sociedade em questão.

Não é de estranhar que Therese oferece, sem esforço, a imagem da mulher emancipada: diz à companheira, a certa altura, que sempre esteve sozinha entre a multidão, destinada, em outro caso, à vida medíocre de tantas outras, felizmente no caminho contrário.

(Idem, Todd Haynes, 2015)

Nota: ★★★☆☆

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Os filmes de Todd Haynes

Oito grandes filmes que terminam com portas fechando

De dentro para fora ou o oposto, para se sentir preso ou para ver a prisão dos outros. São assim as cenas da lista abaixo, de filmes variados, dirigidos por gênios da sétima arte. Certamente há milhares de obras com encerramentos semelhantes. A lista é apenas um apanhado rápido, de grandes filmes que seguem na memória do cinéfilo.

O Testamento do Dr. Mabuse, de Fritz Lang

Lang teve tempo de dirigir essa grande produção antes de fugir da Alemanha nazista. Seu filme mostra muitos problemas da época: como o nazismo e seu líder, Mabuse é onipresente. Suas forças agem como um vírus, um fantasma perseguidor, e o final mostra que a loucura segue viva em outro homem enclausurado.

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Interlúdio, de Alfred Hitchcock

O mestre do suspense, ao fim de Interlúdio, seu melhor filme dos anos 40, não precisa mostrar a morte do vilão. Prefere a sutiliza da porta fechada e, pouco antes, o caminhar do nazista (Claude Rains) ao covil dos comparsas, na bela mansão. O herói (Cary Grant) não lhe deu espaço em seu carro ao salvar a amada indefesa (Ingrid Bergman).

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Rastros de Ódio, de John Ford

Para alguns, o maior filme de Ford. Começa com a imagem da porta que se abre, do homem (John Wayne) que retorna da Guerra Civil e é recebido pela família. Mais tarde, ele encontra nova tragédia: os índios matam e raptam seus parentes. Ele sai em busca de justiça, da pequena sobrinha (transformada em índia) e, ao fim, volta ao isolamento.

rastros de ódio

Estranho Acidente, de Joseph Losey

O mestre Losey volta a trabalhar com um roteiro de Harold Pinter depois do magistral O Criado e explora um curioso jogo de desejos e relacionamentos sob o verniz de belos ambientes. O encerramento leva ao esconderijo: o pai de família (Dirk Bogarde) retorna para sua mansão e o espectador ainda ouve o som do acidente de carro.

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Os Rapazes da Banda, de William Friedkin

Antes de alcançar fama mundial com Operação França e O Exorcista, Friedkin dirigiu esse drama intimista sobre um grupo de amigos gays que se reúne para comemorar o aniversário de um deles. Após muitas discussões, jogos e velhas histórias, Michael (Kenneth Nelson) pede que seu companheiro apague a luz antes de sair.

os rapazes da banda

O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola

É o momento em que, ao olhar da mulher (Diane Keaton), o marido (Al Pacino) assume o posto de chefão da máfia, da família, e recebe os comparsas para ter a mão beijada. Leva à escuridão e à não menos genial música de Nino Rota, além de confirmar a ideia geral de Coppola: uma obra sobre salas fechadas, apenas para alguns convidados.

o poderoso chefão

Kramer vs. Kramer, de Robert Benton

Drama belo e sincero, às vezes feito apenas de olhares, como no momento em que Ted (Dustin Hoffman) conta com a ajuda do pequeno filho Billy (Justin Henry) para fazer o café da manhã. Eles aguardam a chegada da mãe, que deverá levar o menino embora. Após um diálogo revelador, o elevador fecha-se e a obra chega ao fim.

kramer vs kramer

O Jogador, de Robert Altman

No reino de Hollywood, os criminosos saem pela porta da frente. Aqui, o protagonista (Tim Robbins) é um produtor de cinema perseguido por um roteirista vingativo, alguém que precisa se salvar. Na cena final, antes de caminhar para sua mansão, ele confere a barriga da mulher grávida e anuncia assim a chegada do herdeiro. Ele venceu.

o jogador

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