ganhador do Oscar

Bastidores: Lawrence da Arábia

Fiquei obcecado por esse homem, e isso foi ruim. Um verdadeiro artista devia ser capaz de pular num balde de merda e sair cheirando a violetas, mas passei dois anos e três meses fazendo aquele filme, e foram dois anos e três meses pensando em nada além de Lawrence, e eu era ele, era assim dia após dia, foi ruim para mim, pessoalmente, e prejudicou minha atuação posterior.

Peter O’Toole, em declaração a Gay Talese, no perfil Peter O’Toole de volta à terrinha, publicado no livro Fama & Anonimato (Companhia das Letras).

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Meu Filho é Meu Rival, de Howard Hawks e William Wyler

O problema do protagonista de Meu Filho é Meu Rival, cuja direção é assinada por Howard Hawks e William Wyler, é não se despregar do passado. Ele tenta e sempre fracassa.

Ao fim, em um instante pequeno, à maneira do cinema clássico, fica clara sua “volta por cima”, quando a personagem busca se redimir. É o momento em que Barney Glasgow (Edward Arnold) bate o sino de sua empresa, em uma festa, como se estivesse na fazenda. Misto de industrialização e selvageria. O homem grita sem parar e avisa a todos que, se não vierem comer, o alimento será dado aos cães.

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O mundo em questão é dividido entre o pai, tragado ao passado, e seu filho, sempre de olho no futuro. Ambos se apaixonam pela mesma mulher, ou pela mesma imagem. Barney um dia amou a cantora de bares Lotta (Frances Farmer). No entanto, preferiu deixá-la para se casar com a filha de um poderoso homem de negócios.

O mundo dá voltas. Chega Richard (Joel McCrea), o filho, a modernização em pessoa. Ele apaixona-se por Lotta, filha da cantora de mesmo nome. Se na época do pai belas mulheres cantavam sobre balcões, as novas querem progredir, têm ambição.

Tão importante à história, a dama é interpretada nos dois tempos pela mesma atriz. No bar do passado, ela canta “Aura Lee”, e os homens param para ouvi-la – e vê-la. Caem como cairiam, depois, aos encantos de Marilyn Monroe em qualquer um de seus filmes de palco, bares e plateias – com selvagens à espreita.

Farmer não deixa curvas ou sexo à mostra. É mais contida, tem olhar penetrante, exala desejo. Dá para entender por que pai e filho começam a guerrear. De tempos diferentes, não resistem à mesma mulher.

Hawks teria feito a maior parte do filme, brigou com o produtor Samuel Goldwyn e deixou a produção. Wyler, outro grande cineasta, assumiu a empreitada. A sequência mais interessante, sem dúvida, é a dor bar, quando Arnold, Farmer e o sempre coadjuvante Walter Brennan (ganhador do Oscar pelo papel) brigam com um bando de homens, lançando bandejas contra vidros e contra tudo ao redor.

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Com fotografia de Rudolph Maté e Gregg Toland, Farmer é filmada em contra-plongée (de cima para baixo), com os homens em posição inferior a ela, no mesmo bar. Trata-se de um plano não muito comum aos tempos de cinema clássico, quando não se revelava o teto dos ambientes em que a história ocorria.

Pouco depois, Toland teria posição de destaque nos créditos finais de Cidadão Kane, de Orson Welles, também com sequências em que se vê o teto dos ambientes. Difícil pensar em dois diretores de fotografia tão bons em um filme como Meu Filho é Meu Rival, hoje quase esquecido. Maté havia trabalhado com Carl Theodor Dreyer na obra-prima O Martírio de Joana D’Arc e faria A Dama de Shangai, mais tarde, justamente com Welles – dessa vez no terreno do noir.

Nem sempre a reunião de gênios resulta em grandes obras. Restam alguns bons momentos, talvez grandes. E um deles, sem dúvida, está na virada final, no sorriso ao mesmo tempo cínico e explicativo do protagonista. Representa a derrota de alguém como Glasgow, figura inseparável da América, do meio dos poderosos, como seria Charles Foster Kane.

(Come and Get It, Howard Hawks e William Wyler, 1936)

Nota: ★★★☆☆

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Gente como a Gente, de Robert Redford

A família americana de Gente como a Gente tem suas representações. Há o filho atormentado e culpado, o pai bondoso de palavras certas, a mãe feita às aparências. Cada um gera diferentes reações no espectador.

Chegam ao psiquiatra, à confissão, à exteriorização de um problema quando alguns gostariam de ocultá-lo. Essa intromissão de Robert Redford, a partir da obra de Judith Guest, conquistou corações, mentes e alguns importantes prêmios no início dos anos 80.

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À sua maneira, mostra a chegada da classe média ao divã, a revelações que lhe parecem caras. Gente como a Gente tem diversos defeitos e custa a decolar: aposta em emoções contidas como o próprio clima, deixa um ar de passagem e a verdadeira tragédia, por sua vez, é lembrança.

Como descreveu Pauline Kael, “folhas de outono e emoções de inverno”. A família ao centro caminha em círculos: uma classe pronta a discutir sobre Bolsa de Valores, coisas caras e felicidade familiar. Algo deve mudar e parte do filho, Conrad Jarrett (Timothy Hutton), atormentado e culpado pela morte do irmão, aos poucos explicada.

O pai aparentemente correto, meio impotente, é interpretado por Donald Sutherland. Difícil não se render à sua pequenez, porque ela, diz Redford, reduz tudo a algo bom. É apaziguador, descontraído, repreendido pela mulher, Beth, quando diz a uma amiga – em uma das festas chiques que frequentam – que o filho é analisado por um psiquiatra. Não poderia haver algo mais íntimo àquelas pessoas ao pé de escadarias verdes.

A família perdeu as rédeas após a morte do filho mais velho, louro, representação imediata do descendente esperado. O melhor na natação, o preferido da mãe e espelho ao mais jovem. Sem essa imagem, a família tenta criar outra, mas dá vez às máscaras. Conrad, verdadeiro protagonista, tem outra observação: tudo vai mal a começar por ele, suicida que ainda sente falta do hospital onde estava internado, no qual as máscaras eram descartadas.

Mais tarde, o pai resolve se voltar, também, ao psiquiatra. E Beth, vivida por Mary Tyler Moore, por consequência passa à odiada do espectador. É a mãe que não consegue amar o filho como amava o outro. Surgem estranhamentos e, à medida que o rapaz impõe um abraço, é ela que desmorona, perde o rumo.

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As dores dessa família separada estão em um filme de gente comum, como o próprio título evidencia. O sol pouco aparece, os jovens – dirigidos com talento por Redford – correm do frio e de si próprios e os amigos da família conversam em público o que só pode, acreditam, ser dito em público. Redford, com o texto de Alvin Sargent, expõe controle, mas fracassa ao tentar penetrar essas pessoas.

Acerta ao se aproximar de Conrad, ainda que ajudado pelos esperados flashbacks, nos encontros com o médico (Judd Hirsch) que se torna amigo e, claro, confidente. Ao colo do menino recai a humanidade que se espera dos pais. Aos poucos, Calvin (Sutherland) tenta despertar de seu sono, deixa lágrimas ao fim, quando é tarde demais para se tornar o centro de Gente como a Gente.

Curioso o momento em que Calvin sugere ir ao cinema com Beth, mas termina em uma das festas que costumam frequentar. O casal não escapa ao esperado. O cinema pode ser real demais para ambos.

(Ordinary People, Robert Redford, 1980)

Nota: ★★★☆☆

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Cavalgada, de Frank Lloyd

Como a Jane Marryot de Cavalgada, Diana Wynyard sofre o tempo todo. Sofre quando o marido vai à guerra, no continente africano, no início, e mais tarde quando o filho segue às trincheiras da Primeira Guerra Mundial.

Ao fim do conflito, em 1918, ela está entre a multidão em festa nesse filme luxuoso de Frank Lloyd. Mesmo triste com uma perda familiar, ainda consegue agitar a mão, como se restassem motivos para comemorar a vitória de seu país, a Inglaterra.

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A nação vem antes da família. Os fatos históricos, por consequência, cercam as personagens. Os seres em cena são apenas peças de um drama sem muita profundidade: compõem um quadro desajeitado, pouco humano, como coadjuvantes.

Ainda o choro de Jane, da mãe desconsolada: sem situações realmente convincentes, essa dor não será capaz de agarrar o público. Cavalgada, vencedor do Oscar de melhor filme, prioriza o material histórico (ainda que nem sempre convincente) com pinceladas de vida, com saltos no tempo que colocam as personagens em situações conhecidas.

Vai de 1899 a 1933. Passa pela Guerra dos Boers, pela morte da rainha Vitória, pelo naufrágio do Titanic e pela Primeira Guerra. Jane vive com o marido Robert (Clive Brook) e os filhos. Seu mordomo (Herbert Mundin) também luta na guerra. Ao retornar, deixa a grande casa para abrir um bar com a mulher (Una O’Connor).

Os criados têm uma filha, Fanny (Ursula Jeans), que dança entre as pessoas, em rua abarrotada, em festa, quando seu pai, embriagado, é atropelado pela carruagem. Seu jeito não deixa mentir: mais tarde ela tornar-se-á cantora e dançarina.

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As duas famílias, de diferentes classes, voltam a se cruzar: o filho de Jane, Joe (Frank Lawton), apaixona-se por Fanny. Encontram-se quando o jovem fardado prepara-se para lutar na Primeira Guerra, à medida que a menina caminha para o sucesso.

Talvez ela não seja a nora desejada por Jane. E talvez não haja tempo para que esse amor seja prolongado, devido ao tempo conflituoso. As voltas do drama são conhecidas, há sempre algumas coincidências, quase tudo é previsível.

O excesso de personagens não deixa o filme parecer pesado, e talvez explique a dificuldade de penetrar as personagens, sobretudo Jane. É a mãe que sofre ao menor som do lado de fora: chora, reclama do tempo de guerra, pede paz.

A interpretação de Wynyard é artificial. Outras, de atores inclinados à comédia, como Mundin e O’Connor, são superiores, mas não ajudam muito quando precisam migrar ao drama. A mescla de gêneros é semelhante à de pessoas, com até certa liberdade.

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Ao fim da Primeira Guerra, o mundo não é o sonhado pelos vitoriosos: a câmera passa pelas festas regadas ao jazz, aos decotes femininos (permitidos nesse período anterior ao Código Hays), à visível aproximação entre pessoas do mesmo sexo – o que não atrai a recatada Jane, que afirma preferir passear no zoológico.

Lloyd visita tipos variados, humanos, ainda assim distantes. São maiores que a História, que as nações, algo que o diretor parece não enxergar. Os melhores momentos ocorrem em fusões de imagens, para representar a orgia do mundo: nas imagens dos soldados abatidos mescladas à música, no espetáculo de morte.

A cavalgada do título é a da História: década a década, o espectador vê homens em seus cavalos, pela floresta, a representar a passagem do tempo, à qual o conflito é inevitável. Mesmo com tanta morte, o fim soa irônico: Jane e Robert brindam à vida.

Nota: ★★★☆☆

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Bastidores: O Filho de Saul

O despontar de uma piedade absurda e deslocada é o tema deste filme de ficção, porque só um impulso, uma emoção, ou melhor, um paroxismo anímico dessa natureza parece concebível naquela circunstância. Além do recurso à poiesis [criação artística] em um marco histórico estrito, ou seja, uma ficção que ultrapassa por completo o documentário, László Nemes, seu diretor, um estreante de 38 anos, ambientou a trama no cenário mais recôndito, maldito e indescritível do devir humano. Mas nunca vemos esse espaço de tal modo a podermos percorrê-lo, desenhá-lo em nossas mentes, porque é mostrado fora de foco, em uma gama de verdes e ocres neutralizados no cinza, e porque a passagem de um ambiente a outro é sempre vertiginosa e caótica. Nem sequer os gritos e golpes nas portas da câmara – abafados sob as palavras que os personagens trocam – nos permitem captar pela audição as dimensões do lugar.

José Emilio Burucúa, escritor e professor de história moderna (El País, 12 de fevereiro de 2016; leia aqui o texto completo).

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