Friedrich Wilhelm Murnau

Os dez melhores filmes de todos os tempos segundo Jean-Pierre e Luc Dardenne

Os talentosos irmãos belgas são lembrados por grandes filmes realistas e já colecionam duas Palmas de Ouro – por Rosetta e A Criança. A lista abaixo foi publicada pelo Instituto Britânico de Filmes (veja aqui), na eleição dos Melhores Filmes de Todos os Tempos, em 2012, que ouviu críticos, cineastas e outros profissionais ligados à sétima arte. A lista está em ordem de lançamento, não de preferência.

Aurora, de F.W. Murnau

História de amor sobre um homem que luta para reconquistar a mulher após tentar matá-la. De repente, nesse ato de reconquista, ambos se vêem pela cidade, por bondes, entre carros. Obra máxima de Murnau.

Tempos Modernos, de Charles Chaplin

Comédia sobre a mecanização do mundo e a exploração dos trabalhadores. “Carlitos nas engrenagens é como o filme passando pelas engrenagens da câmera”, observa Luc no episódio de Chaplin Today para Tempos Modernos.

Alemanha, Ano Zero, de Roberto Rossellini

A história de uma criança entre os escombros da Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial. O encontro com a miséria é inevitável nesse filme forte de Rossellini, neorrealista e realizador de Roma, Cidade Aberta.

Os Corruptos, de Fritz Lang

Pérola noir de Lang sobre um policial em busca de vingança, em uma rede que envolve corrupção e mafiosos. Glenn Ford tem um grande momento, mas quem rouba a cena é Lee Marvin, como o bandido Vince Stone.

Rua da Vergonha, de Kenji Mizoguchi

Retrato da prostituição no Japão, tema antes visitado por Mizoguchi no também extraordinário Mulheres da Noite. Em seu último filme, o mestre japonês mostra os dramas envolvendo mulheres de um bordel.

Rastros de Ódio, de John Ford

Como um homem amargo que aprendeu a odiar os índios, John Wayne retorna para casa e logo vê sua família ser destruída. É quando sai pelo mundo em busca das sobrinhas raptadas, na companhia de um rapaz.

Desajuste Social, de Pier Paolo Pasolini

Primeiro longa-metragem de Pasolini. O cenário é a periferia italiana, na qual se vê a personagem-título, cafetão obrigado a fazer mudanças em sua rotina quando sua fonte de renda, uma prostituta, é atropelada.

Dodeskaden, de Akira Kurosawa

Filme do mestre japonês sobre o cotidiano de um grupo de favelados. Está por ali, por exemplo, um menino com deficiência intelectual que dirige um bonde imaginário. Chegou a ser indicado ao Oscar de filme estrangeiro.

Loulou, de Maurice Pialat

Outra bela obra que dá espaço a seres à margem. Dessa vez um tipo vagabundo interpretado por Gérard Depardieu, com quem Nelly (Isabelle Huppert) termina envolvida. Filme livre e delicioso de Pialat.

Shoah, de Claude Lanzmann

Para muitos, o melhor filme já feito sobre o Holocausto. Obra extensa (566 minutos) que dá voz a sobreviventes, testemunhas e algozes, sem uma única imagem de arquivo. Brilhante estudo sobre a força da memória.

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O Pão Nosso de Cada Dia, de Friedrich Wilhelm Murnau

Em seu trabalho, um bar movimentado de Chicago, a garota da cidade observa uma foto do campo, com árvore e ovelhas. Ela sonha com algo diferente do ambiente em que vive: a metrópole de trens cortando a paisagem da janela, de propagandas de shows vistas pela mesma, da turba descontrolada pelas ruas e que invade seu trabalho.

Em O Pão Nosso de Cada Dia, a mulher da cidade não é a mesma de Aurora, filme anterior do diretor Friedrich Wilhelm Murnau, no qual um camponês é seduzido por uma dama da metrópole e quase termina matando a esposa para ficar com ela. Tomado pela consciência, ele arrepende-se e tenta reconquistar a amada.

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Murnau chega a mostrar uma mulher sedutora, de olho no dinheiro do protagonista, ainda no início de Pão Nosso. Mas é passageira. Interessa mesmo a garçonete Mary (Mary Duncan), que conhece Lem (Charles Farrell) no mesmo bar, o rapaz de passagem pela cidade para vender as colheitas de trigo de sua fazenda.

Lançado em 1930, já no período sonoro do cinema, o filme ainda é mudo. Murnau conserva o silêncio a despeito da urbanização, dos aglomerados e, depois, das máquinas que colhem o trigo, ou da arma do pai voltada ao filho. Como em Aurora, as imagens são grandiosas. As cenas da cidade, em estúdio, dão conta da loucura e do movimento da metrópole. Seus seres ou estão cheios de ingenuidade ou se revelam animalescos.

O campo não é amigável como Mary imaginava. Casada com Lem, ela muda-se para a fazenda e passa a trabalhar nas plantações de trigo. Os homens que se apresentam ali também não são muito diferentes dos homens da cidade, que se alvoroçavam sobre ela no balcão do bar e brigavam por um assento. A protagonista não é aceita pelo pai do amado (“mulheres da cidade não são confiáveis”) e repele os machos que se aproximam e cujos olhares deixam ver suas intenções (“homens são todos iguais”).

Para Murnau, não se trata de explicar as personagens a partir do espaço em que vivem. E, ao recorrer novamente à mulher da cidade, talvez esteja se desculpando pela forma como construiu a vilã de sua obra anterior, quase uma feiticeira.

A mulher continua a ser o motivo dos conflitos nos filmes de Murnau: é diferente, incompreendida, confronta os donos do espaço. É atraente e engraçada sem esforço. É humana pela face frágil ou combatente. Reúne características que a colocam em posição diferente se comparada a Janet Gaynor, quase santificada, ainda no filme anterior.

A mulher sonha com um paraíso, com um lugar distante do espaço de prédios e metal, do meio em que é partícula entre tantas. Ou talvez deseje apenas sentir o que não poderia, antes, na metrópole: a liberdade. E é justamente o que entrega Murnau na sequência espetacular em que a moça pula a cerca e corre pelos campos de trigo, ainda com malas na mão, enquanto é perseguida, em tom de brincadeira, por Lem.

Enquanto é erguida nos braços pelo homem, enquanto a câmera move-se em busca dessa corrida. E logo o casal toma distância. É possível, ao fundo, ver a casa na qual a moça passará a viver com o marido. Ainda são tratados como crianças até o momento em que o rapaz é confrontado justamente pela imagem da casa, simples e de madeira, na qual apresentará sua mulher aos pais, como se previsse os problemas.

Murnau é um dos maiores diretores do cinema. Migra da pureza à monstruosidade com naturalidade e controle dos atores, e mescla tais características com perfeição, por exemplo, na figura do pai (David Torrence). Traz ali algo primitivo, como se a personagem tivesse saído de Nosferatu ou Fausto, filmes fantásticos que realizou na Alemanha.

Entre paraíso e inferno, tanta bondade e tanto sofrimento, o cinema não exige tantas explicações. O espectador entende rapidamente quem é Mary, quem é Lem, quem são todos os homens que ocupam aquela fazenda. Estão acabados. São imortais. Por motivos que às vezes fogem à compreensão, o espectador segue hipnotizado pelas figuras que não precisam emitir, com som, uma palavra sequer.

(City Girl, Friedrich Wilhelm Murnau, 1930)

Nota: ★★★★★

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