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Bernardo Bertolucci (1941–2018)

(…) durante muito tempo abordei cada plano como se fosse o último, como se fossem me tirar a câmera assim que eu o tivesse filmado. Eu tinha, portanto, a sensação de roubar cada plano, e nesse estado de espírito é impossível refletir em termos de “gramática” ou até mesmo de lógica. Ainda hoje, não preparo nada com antecedência, não faço nenhuma decupagem prévia. Geralmente tento sonhar durante o sono com os planos que vou filmar no dia seguinte no set. Com um pouco de sorte, consigo. Senão, quando chego ao set de manhã, peço para ficar um pouco sozinho e passeio no cenário com meu visor. Olho através dele e tento imaginar os personagens se mexendo e dizendo suas falas. É um pouco como se a cena já estivesse lá, mas invisível ou impalpável, e que eu tentasse adivinhá-la, materializá-la.

Bernardo Bertolucci, cineasta, em declaração a Laurent Tirard em Grandes Diretores de Cinema (Editora Nova Fronteira; pgs. 153 e 154).

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Ermanno Olmi (1931–2018)

Milos Forman (1932-2018)

Fazer cinema é como amar: você tem que sentir um frio na barriga a cada nova paixão. Eu não sinto mais essa sensação. Então não há o que contar. E, no meu caso, se não há desejo, não há como dar prosseguimento ao tipo de obra que eu construí, centrada no embate entre o indivíduo e as instituições.

(…)

Para fazer um filme, você precisa de tempo para entender o que ele representa, como narrativa, como linguagem, como gesto político. Não tenho mais esse tempo. Estou velho. Não houve problemas com Hollywood, até porque, nos EUA, onde vivo como cidadão naturalizado americano, ninguém jamais será tratado como artista excluído se tiver ideias minimamente rentáveis, por mais polêmicas que sejam. A questão comigo hoje é mais do que cansaço. É a sensação de que não há mais interesse pela verdade individual. Ninguém mais quer se debruçar sobre o ponto de vista de um autor e dissecar seus sentimentos. E cinema para mim é compartilhar verdades minhas e trocá-las pelas verdades dos outros, a verdade do espectador, do crítico.

(…)

Tecnologia nenhuma é difícil de dominar quando você entende da técnica do cinema. Mas de nada adianta um parque tecnológico sofisticado se você não tiver uma boa história para contar. Esse é o paradoxo estético do cinema.

Milos Forman, em entrevista ao jornal O Globo (junho de 2014; leia a entrevista completa aqui). Abaixo, o cineasta nos bastidores de Um Estranho no Ninho, que lhe rendeu o primeiro Oscar de melhor diretor.

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Mike Nichols (1931-2014)

O benefício da ausência

Todos acham que é preciso muito dinheiro para fazer filmes. No fim, quanto mais dinheiro você tem, menos consegue fazer com ele. Para mim, sempre foi uma benção não ter dinheiro suficiente, porque aí eu precisava compensar isso com o trabalho de câmera, com ideias, com abstrações. É uma das coisas mais lindas que se podem fazer no cinema: inventar uma imagem quando não se pode pagar por ela.

Wim Wenders, cineasta alemão, no documentário Edgar G. Ulmer – o Homem Fora das Telas, de 2004, sobre o cineasta Edgar G. Ulmer (imagem), que trilhou uma carreira maldita em Hollywood, trabalhando sempre em produções de baixo orçamento.

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Pina, de Wim Wenders

Bastidores: O Franco Atirador

O que me surpreende que nenhum crítico haja notado não é o conteúdo fascistoide (ridículo), racista e historicamente absurdo do filme. É que o sr. Cimino é um diretor de péssima qualidade, não tem a menor noção de desenvolvimento, de organicidade. Não sabe estabelecer uma personagem.

Paulo Francis, jornalista e escritor, no jornal Folha de S. Paulo (8 de abril de 1979). O artigo foi reproduzido no livro A Segunda Mais Antiga Profissão do Mundo (organização de Nelson de Sá; pg. 110).

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Michael Cimino (1939–2016)

Stroheim segundo Jean Renoir

Ele me ensinou muita coisa. O mais importante desses ensinamentos talvez seja que a realidade só passa a ter valor quando submetida a uma transposição. Em outras palavras, só é artista aquele que consegue criar seu pequeno mundo. Não é nem em Paris, nem em Viena, nem em Monte Carlo ou Atlanta que vivem os personagens de Stroheim, de Chaplin, de Griffith. Eles vivem no mundo de Stroheim, de Chaplin, de Griffith.

Mais tarde, tive a honra de ter Stroheim como intérprete de A Grande Ilusão. Ele fez tudo para me fazer esquecer que ele havia sido um dos profetas de nossa profissão. Sou-lhe grato por isso, mas menos que pelas lições essenciais que ele me dera, vinte anos antes.

Jean Renoir, cineasta, em texto escrito no início de 1959 e reproduzido no livro O Passado Vivo, reunião de artigos do próprio Renoir (Editora Nova Fronteira; pg. 117). Abaixo, Stroheim, Jean Gabin e Pierre Fresnay dividem a cena em A Grande Ilusão.

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