Francesco Rosi

Seis grandes filmes que discutem moradia e urbanização

A terra, a casa, o espaço das memórias. A especulação, as ações políticas, o Estado que não dá oportunidade àqueles que não possuem um teto. Os filmes da lista abaixo – de tempos, países e cineastas diversos – tratam, entre outras coisas, de todas essas questões. Grandes filmes que não perderam o fôlego e continuam atuais.

Vinhas da Ira, de John Ford

Clássico que valeu a Ford seu segundo Oscar (ele ainda ganharia mais dois). É sobre a saga de uma família que perdeu a fazenda em vivia e teve de cair na estrada, em busca de outro local para morar. À frente da caravana há inimigos e exploradores da mão de obra alheia. Em atuação sincera e marcante, Henry Fonda encabeça o drama.

As Mãos Sobre a Cidade, de Francesco Rosi

Um daqueles filmes fundamentais para compreender o cinema político italianos dos anos 60. Rosi evoca a história de um político sem escrúpulos interpretado à perfeição por Rod Steiger, que usa seu poder para demarcar a cidade a favor da especulação imobiliária. No entanto, seu reinado vê-se abalado após um acidente com vítimas.

Cathy Come Home, de Ken Loach

O diretor britânico sempre foi favorável às minorias. Aqui, em um de seus primeiros trabalhos, realizado para a televisão, ele apresenta a saga de uma família em busca de moradia e suas dificuldades. Filmado com grande realismo, possui sequências cortantes e momentos de raro humanismo, com câmera livre e à beira do documentário.

O Quarto da Vanda, de Pedro Costa

Às aparências, o português Pedro Costa está mais interessado em ouvir relatos do que tratar de questões como a moradia. Por outro lado, esta não escapa ao universo em foco: surge ao fundo, nas paredes que resistem, ou na imagem de tratores que destróem as casas em que viviam algumas pessoas, em uma favela, Vanda entre elas.

Aquarius, de Kleber Mendonça Filho

Em um tempo em que políticos brasileiros são descobertos em maracutaias envolvendo prédios embargados, Aquarius comprova sua atualidade, sua urgência. Na tela, Sonia Braga brilha como a resistente dona de um apartamento de frente para o mar, cobiçado por especuladores imobiliários com outros planos para o local.

Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

O Brasil, de novo. E de novo com um exemplar de cinema potente, político e atual. Discute-se dessa vez a ocupação de prédios privados antes sem utilização. O trabalho de Caffé, apesar de tomar lado, não pretende dar uma resposta fácil sobre certos e errados nesse filme de momentos fortes, em uma mistura de ficção e realidade.

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Oito grandes filmes sobre os bastidores da política

De um lado a política dos palanques, da propaganda escancarada; de outro, os truques e conchavos de bastidores, ambiente em que homens e mulheres revelam-se ao público. Os oito filmes abaixo se embrenham nesses bastidores para fazer vazar a podridão da política partidária, feita de interesses e da busca desenfreada pelo poder.

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A Mulher Faz o Homem, de Frank Capra

A América idealista de Capra era feita de homens como Jefferson Smith (James Stewart), herói incorruptível que se torna senador e, em Washington, confronta o interesse dos poderosos. A atuação de Stewart é comovente, resistindo por horas no centro da arena política, no Senado, e tentando provar que ainda existem homens honestos.

a mulher faz o homem

Cidadão Kane, de Orson Welles

O magnata da imprensa Charles Foster Kane (Welles) resolve se envolver com política. O homem que cria guerras em seus próprios jornais vê-se em meio a um caso de chantagem quando, às vésperas da eleição, seu principal concorrente ameaça revelar a existência de sua amante. Ele decide manter a candidatura e paga um preço alto.

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A Grande Ilusão, de Robert Rossen

Caipira é convertido em líder político, ganha visibilidade e se torna governador. Visto pelo olhar de um jornalista, o grande filme de Rossen conta a trajetória de altos e baixos de Willie Stark (Broderick Crawford). Aparentemente honesto, no início, Stark passa a usar táticas escusas para seguir no poder e, ora ou outra, corre aos braços do povo.

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Júlio César, de Joseph L. Mankiewicz

Produção cheia de astros e adaptada da obra de Shakespeare. Mostra como Júlio César (Louis Calhern) foi traído por Brutus (James Mason), acompanhado por um cínico Cassius (John Gielgud), depois vingado pelo leal Marco Antonio (Marlon Brando). Os discursos de Mason e Brando – dois dos melhores atores de todos os tempos – são os pontos altos.

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Tempestade Sobre Washington, de Otto Preminger

O presidente dos Estados Unidos tem problemas quando indica seu novo secretário de Estado (Henry Fonda), acusado de inclinações comunistas em plena Guerra Fria. Entre tantas tramas de bastidores, a situação precisa sufocar o outro lado e, a certa altura, revive o passado homossexual de um senador, interpretado por Don Murray.

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O Caso Mattei, de Francesco Rosi

A queda do avião que matou o engenheiro Enrico Mattei (Gian Maria Volontè) foi considerada, em 1962, um acidente. Alguns discordam: teria sido um atentado. O grande diretor Rosi concorda com a segunda versão. Sua obra acompanha o engenheiro sem nunca se aproximar demais, em tom documental. Poderoso filme político dos anos 70.

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O Exercício do Poder, de Pierre Schoeller

O ótimo Olivier Gourmet interpreta o ministro dos Transportes da França, durante alguns dias em que deverá enfrentar obstáculos. Entre um problema e outro, ele encontra uma breve amizade em seu novo motorista. A imagem da abertura é uma metáfora das mutações políticas: uma bela mulher nua flerta com um crocodilo e é engolida pela fera.

o exercício do poder

No, de Pablo Larraín

A campanha pelo “não”, no Chile, mostra como o bom humor venceu a ditadura instalada por anos no país latino, com a chegada de Augusto Pinochet ao poder. O protagonista é um publicitário (Gael García Bernal), não um combatente político ou o líder de algum grupo de oposição. As propagandas levadas à tevê são um bom retrato da época.

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15 grandes filmes que sintetizam o clima político dos anos 60

Os movimentos de renovação do cinema, nos anos 60, trouxeram também uma forte abordagem política. Alguns cineastas deixaram ideologias às claras em obras extraordinárias e contestadoras, sem que renunciassem ao grande cinema em nome do panfleto. A lista abaixo traz 15 filmes que captam o espírito da época, com temas ainda atuais. Comunismo, anarquismo, maoísmo e outras correntes podem ser vistas em fitas de autores como Rosi, Bertolucci, Godard e Saraceni.

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Os Companheiros, de Mario Monicelli

O cotidiano dos trabalhadores de uma pequena cidade muda com a chegada de um professor terno e idealista, interpretado na medida por Marcello Mastroianni. Obra-prima de Monicelli, que se firmou como um dos principais cineastas do chamado cinema político italiano, sempre entre o tom cômico e o trágico.

os companheiros

As Mãos Sobre a Cidade, de Francesco Rosi

O cineasta havia realizado, antes, o extraordinário O Bandido Giuliano. Em seguida, com As Mãos Sobre a Cidade, mantém pleno diálogo com seu tempo, ao abordar as tramoias de um político corrupto em prol da especulação imobiliária. Há grandes sequências de embates e manipulação. Continua tristemente atual.

as mãos sobre a cidade

Antes da Revolução, de Bernardo Bertolucci

Perfeito retrato do jovem que vive um impasse político: tenta se distanciar da burguesia ao mesmo tempo em que vê com receio os comunistas de então. Primeiro filme importante de Bertolucci, após o interessante A Morte. Para alguns estudiosos, antecipa a discussão e o clima que tomaria conta do mundo com o Maio de 68, na França.

antes da revolução

O Desafio, de Paulo César Saraceni

Obra fundamental do cinema novo brasileiro. Como Antes da Revolução, apresenta o impasse de um jornalista, impotente devido ao golpe de 1964. À época, alguns diálogos foram censurados pela Ditadura e, mais tarde, com a abertura política, tais trechos tiveram de ser dublados, evocando as frases originais que constavam no roteiro.

o desafio

A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo

A independência da Argélia ainda era recente quando o filme estreou. Muitas das pessoas que participaram da obra, não-atores, viveram o evento real. Não por acaso, esbarra no documentário, com imagens granuladas e interpretações naturalistas. Um documento sobre a resistência do povo argelino contra as forças francesas.

a batalha de argel

Despedida de Ontem, de Alexander Kluge

Ao lado de O Jovem Törless, de Volker Schlöndorff, é um dos filmes que deu origem ao conhecido novo cinema alemão. Nesse caso, a abordagem política não se desprega do passo a passo da protagonista, uma moça que vai da Alemanha Oriental para a Ocidental e encontra obstáculos, terminando sempre como vítima de todos à sua volta.

despedida de ontem

A Chinesa, de Jean-Luc Godard

Talvez o principal filme a retratar o espírito de 68 – e que curiosamente o antecede. Com sua música “Mao Mao”, de Gérard Guégan, com seus jovens de discursos constantes – e cortantes – empunhando o Livro Vermelho, ao mesmo tempo com um clima de improvisação e liberdade. Importante para entender a radicalidade da época.

a chinesa

A China Está Próxima, de Marco Bellocchio

O título, de novo, faz referência ao regime chinês. Na história, ele sai de uma pichação na parede da sede do Partido Comunista. Ao centro há um rapaz que assessora um homem milionário de carreira política e seu irmão, ligado ao grupo maoísta. Alguns momentos aproximam-se da comédia. Um grande Bellocchio.

a china está próxima

Terra em Transe, de Glauber Rocha

Com Eldorado, o país fictício em que se desenrola uma trama política manjada, Rocha faz um claro paralelo com o Brasil. O enredo é conhecido: o político populista é colocado a escanteio, ao passo que o poder termina na mão do líder autoritário e recheado de símbolos da Igreja. O protagonista assiste à transformação e depois adere às armas.

terra em transe

Partner, de Bernardo Bertolucci

As filmagens da obra de Bertolucci ocorreram na mesma época dos atos de Maio de 68. Membros de seu elenco e equipe aproveitavam as horas vagas para viajar à França e se engajar nas fileiras dos protestos. A obra bebe na fonte de Godard e é inspirada em O Duplo, de Dostoievski. Em cena, o enfant terrible Pierre Clémenti.

partner

Memórias do Subdesenvolvimento, de Tomás Gutiérrez Alea

Considerado o maior filme cubano já feito. Reflexão sobre um homem que se divide entre ir embora da ilha, quando estoura a revolução, ou continuar por ali e assimilar as mudanças. Realizado sob o regime de Fidel Castro, ainda assim consegue ser crítico. O protagonista vê-se sozinho depois que a família migra para os Estados Unidos.

memórias do subdesenvolvimento

Se…, de Lindsay Anderson

Em 1968, devido aos protestos políticos, o Festival de Cannes foi cancelado. No ano seguinte, a Palma de Ouro terminou nas mãos de Anderson. Em um colégio interno conservador, um grupo de alunos rebela-se contra seus superiores e, ao fim, promove um ataque contra o poder, representado principalmente pela Igreja.

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A Piada, de Jaromil Jires

Pequena obra brilhante da Nová Vlna (a nouvelle vague tcheca), que não passou despercebida ao olhar dos censores soviéticos. Por muito tempo não constou na filmografia de seu diretor. Entre passado e presente, aborda a história de um homem expulso do Partido Comunista Tcheco e condenado a “serviços militares” forçados.

a piada

Dias de Fogo, de Haskell Wexler

Mais conhecido pelos seus trabalhos como diretor de fotografia, Wexler foi um artista politicamente engajado e chegou a realizar um documentário sobre o golpe de 64 no Brasil, lançado em 1971. Seu Dias de Fogo capta o momento de transformações nos Estados Unidos, em 68, entre as primárias do Partido Democrata e a ebulição das ruas.

dias de fogo

Z, de Costa-Gavras

Mescla o tom de documentário ao suspense policial. Ganhador do Oscar de filme estrangeiro, trata do caso Lambrakis, o político liberal assassinado na Grécia no início dos anos 60. Os poderosos trataram o caso como acidente, ainda que a morte tenha ocorrido em meio a uma multidão. Filme de resistência, poderoso do início ao fim.

z costa-gavras

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Os cinco melhores filmes de Michael Cimino

Lembrado sempre como um dos responsáveis por afundar a Nova Hollywood após o fracasso de O Portal do Paraíso, Michael Cimino tem uma carreira relativamente curta e brilhante. Fez um filme esperto de estreia, ganhou o Oscar pouco depois e logo viu-se no buraco.

Ainda assim, havia quem apostasse em seu talento: em 1985, o produtor Dino De Laurentiis resolveu financiar O Ano do Dragão, esquecido por alguns, lembrado por muitos. O resultado é um dos melhores policiais dos anos 80.

Cimino parecia não se preocupar com os outros, ou com o público: fazia filmes da forma como gostava, épicos sobre a sociedade americana, sobre seus erros, e filmes dominados por homens, revoluções, guerras e bandidagem. Abaixo, um pouco desse diretor fantástico, em seus cinco melhores trabalhos.

5) O Siciliano (1987)

Difícil imaginar que alguém teria coragem de retornar à história de Salvatore Giuliano após a obra-prima de Francesco Rosi. Pois Cimino encarou a empreitada. O resultado é interessante e tem o americano Christopher Lambert vivendo o revolucionário siciliano, com seus amores e escapadas, com suficiente distância para parecer um mito – e com Cimino fazendo o necessário para que isso fosse possível. Baseado no livro de Mario Puzo.

o siciliano

4) O Último Golpe (1974)

Após escrever o roteiro de Magnum 44, Cimino viu a possibilidade de dirigir seu primeiro filme, justamente com um dos famosos machões da época: Clint Eastwood. Logo nas primeiras sequências é possível atestar o gosto do cineasta por grandes sequências e pelo duelo entre homens. O protagonista vivido por Clint une-se ao jovem em fuga de Jeff Bridges e ambos embarcam em um grande assalto.

o último golpe

3) O Ano do Dragão (1985)

A obra foi acusada de racista, com o sempre difícil Mickey Rourke de cabelos pintados em terra oriental, tendo de colocar toda a polícia – carregada por sua fúria – no encalço da máfia. O filme troca a terra dos caubóis por Chinatown. Ali, o policial e protagonista é quase um xerife que tenta evidenciar o poderio americano. Cimino ainda voltaria a trabalhar com Rourke no interessante Horas de Desespero.

o ano do dragão

2) O Portal do Paraíso (1980)

O fracasso desse grande filme nas bilheterias fez com que fosse retirado das salas, reeditado em versão mais curta. Apenas mais tarde retornou com toda sua grandeza, com Cimino novamente colocando o dedo na ferida. Os americanos são mostrados como carrascos na busca pela limpeza étnica, quando poderosos homens do Wyoming investiam armas e capangas contra os imigrantes.

O portal do paraíso

1) O Franco Atirador (1978)

O ponto alto da carreira do diretor rendeu-lhe o Oscar. No filme, as mulheres são sempre coadjuvantes, sempre estão aos cantos. Valem mais as intenções masculinas, a guerra feita por homens. Há também o jogo de roleta russa, responsável por colocar os dois amigos frente a frente no fim do filme, com direito a uma quase declaração de amor de um para o outro. Ao estilo de Cimino.

o franco atirador

Não encontrou seu filme favorito de Michael Cimino? Não se preocupe: listas são sempre pessoais e, aos olhos alheios, sempre imperfeitas. Deixe seu recado, com seu filme favorito do cineasta.

E, para quem não viu, abaixo está a entrega do prêmio Oscar de melhor diretor para Michael Cimino e também a vitória na categoria de melhor filme. Detalhe: o prêmio foi entregue por Francis Ford Coppola, que perderia no ano seguinte ao concorrer por seu trabalho em Apocalypse Now. No caso do prêmio de melhor filme, a ironia não poderia ser maior: quem entregou a estatueta foi John Wayne, encarnação da velha Hollywood.