Folha de S. Paulo

Bastidores: Central do Brasil

Aos poucos, fomos entendendo que o aperto dos vagões superlotados, bem como de seus acessos e dos cubículos de suas casas, nos levou a apertar o quadro do cinema usando lentes mais fechadas. Como se todos estivessem espremidos em seus próprios mundos.

Quando Dora (Fernanda Montenegro) se aproxima de Josué (Vinícius de Oliveira) e os dois avançam na direção do centro do Brasil, as lentes generosamente vão abrindo seus ângulos como se a abrangência panorâmica dessas lentes abrisse também o coração dos personagens.

Walter Carvalho, diretor de fotografia de Central do Brasil, na Folha de S. Paulo (Caderno Ilustrada, 30 de outubro de 2018; pg. C4; leia aqui).

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Terra em Transe, 50 anos

Por ser um filme sem concessões, caótico, polêmico, feito sem a intenção de agradar a quem quer que seja, a ele e ao autor são lançadas as maiores acusações, reacionárias no mais amplo sentido da palavra. A visão do grande público brasileiro está condicionada, parada no tempo, acostumada à linguagem simplista, estacionada no E o Vento Levou. Enquanto isso, Terra em Transe marca a divisão de duas épocas, e sua tentativa de criar uma linguagem nova chega a chocar, não é aceita de imediato. As acusações são iguais àquelas dos velhos professores de Carlos Drummond de Andrade, quando o rejeitavam. Pela mesma experiência passou Oscar Niemeyer, alvo do mesmo reacionarismo. O certo é que o filme não deixa de ser discutido e, como matéria de debate, Glauber Rocha coloca a velha questão: se o cinema deve ficar estagnado ou deve prosseguir inovando ou investigando. Terra em Transe é mais um marco na história do cinema, e principalmente no Terceiro Mundo quem quiser fazer cinema terá de enfrentar o desafio  de meu diretor.

Luiz Carlos Barreto, coprodutor e diretor de fotografia de Terra em Transe, no famoso debate ocorrido no Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro, em 18 de maio de 1967. A fala de Barreto foi reproduzida no jornal Folha de S. Paulo, em matéria, no dia seguinte ao debate. O filme havia estreado pouco antes, no dia 3, no Festival de Cannes.

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Bastidores: A Regra do Jogo

O filme de Renoir é atravessado por uma leveza ao mesmo tempo cômica, absurda e inconsequente, cujo travo vai sendo postergado até o final. São as maneiras de uma civilização e de um grau de liberdade que ali chegam ao paroxismo. Os personagens reunidos num castelo correm uns atrás dos outros, guiados pelo desejo nem sempre correspondido. O racismo não distingue classes. O antissemitismo se manifesta entre os empregados. A morte ronda, mas sua representação alusiva comporta uma graça comum aos desencontros amorosos: são esqueletos e fantasmas num teatrinho montado para a diversão dos convidados, sob os tiros das caçadas ao fundo.

Bernardo Carvalho, escritor e jornalista, no jornal Folha de S. Paulo (Caderno Ilustríssima, 19 de março de 2017; leia aqui o texto completo). O filme de Jean Renoir foi lançado em 1939 e aparece com frequência em listas dos melhores de todos os tempos.

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Bastidores: O Franco Atirador

O que me surpreende que nenhum crítico haja notado não é o conteúdo fascistoide (ridículo), racista e historicamente absurdo do filme. É que o sr. Cimino é um diretor de péssima qualidade, não tem a menor noção de desenvolvimento, de organicidade. Não sabe estabelecer uma personagem.

Paulo Francis, jornalista e escritor, no jornal Folha de S. Paulo (8 de abril de 1979). O artigo foi reproduzido no livro A Segunda Mais Antiga Profissão do Mundo (organização de Nelson de Sá; pg. 110).

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Hector Babenco (1946–2016)

Sou estrangeiro no Brasil, e o meu estímulo para fazer cinema é uma pergunta que procuro responder a cada filme que faço, a cada nova aventura que invento. Eu talvez tenha feito cinema por achar que esse era o único espaço que me restava para poder expressar minha formação intelectual. Havia desde o início uma busca pelo significado do belo, não no sentido babaca, organizado, do belo, mas a procura da arte, da obra não-repetida. Talvez minha formação venha de muito mais longe, de um pai que nunca deu certo na vida e que me contava histórias maravilhosas quando eu era menino. Reproduzir essa capacidade dele de inventar histórias, que foi o melhor que ele me deixou, através de filmes – talvez minha motivação primal venha daí.

Hector Babenco, cineasta, em entrevista ao caderno Mais!, da Folha de S. Paulo, ao lado dos também cineastas Cacá Diegues e Arnaldo Jabor (abril de 1995). Abaixo, no set de Ironweed, de 1987, com Meryl Streep.

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