fim do mundo

Melancolia, de Lars von Trier

As personagens olham constantemente ao alto, às estrelas, em busca de Melancolia, o planeta que pode se chocar com a Terra. Alguns – como o marido da mulher sofrida de Charlotte Gainsbourg – garantem que nada ocorrerá, como alguns cientistas. Não bastam as afirmações: na internet, correntes dizem o oposto: o fim do mundo é certo.

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Abaixo, em terra, os humanos vivem momentos de incerteza, não mais do que de frente ao inescapável, o próprio fim. Quando se reconhece tal estado, a vida fica insuportável. O cenário para dividir o término, a colisão de planetas, em Melancolia, de Lars von Trier, é uma bela e luxuosa casa afastada, cercada por campos verdes.

O filme é estruturado em duas partes. A primeira pertence a Justine (Kirsten Dunst), no dia de seu casamento, perante parentes inconstantes e dúvidas que cercam o matrimônio; a segunda centra-se na sua irmã, Claire (Gainsbourg), com a outra para cuidar, depressiva, na mesma casa – e com um planeta em direção à Terra, para pôr fim à humanidade.

A primeira é sobre rituais, sobre gestos esperados segundo a lógica caótica de von Trier: nada pode ficar pior do que parece até isso ser possível. E é o que se confirma: não bastam as brigas entre pai e mãe, a roupa suja lavada em público, à mesa farta e cara; é preciso alguma piração da noiva, confronto com a vida que lhe serviu e a que lhe aguarda.

O casamento desarranja-se, o ritual de continuidade perde o sentido. Dá tudo errado, mas não se pode falar do inesperado. Chamam a atenção os pequenos atos de Justine, ao encontro da liberdade no dia que representaria seu novo laço, seu novo começo, ou sua nova prisão. É abatida pela melancolia da vida em que alguns – ou a maioria – aceitam vestir os papéis de sempre, com belos figurinos, taças e talheres caros.

Ela olha para o céu e vê uma estrela brilhante pouco antes de chegar à sua festa de casamento. O planeta aproxima-se, atrai, reflexo de sua depressão: no capítulo seguinte, ela deitará na mata, nua, sob a luz desse planeta, à sombra da própria morte. Seu desejo vai ao encontro do fim da raça humana: seu mal-estar carrega o semblante do tesão.

Caída, morta-viva, ou nem tanto, será assistida pelo seu oposto: diferente da irmã, Claire teve um casamento, um filho, viveu o ritual da continuidade para não acabar, crê, daquela forma sem significado. Desespera-se quando percebe a proximidade de Melancolia, seu tamanho e brilho cada vez maiores, e, sobretudo, ao descobrir que seu marido, antes tão cheio de certezas, estava errado. Claire ainda acredita. Ao olhar para o céu, e como todos por ali, enxerga o próprio fim. Ou sua condição, seu tamanho, sua fraqueza.

Aos macacos de 2001: Uma Odisseia no Espaço, o monólito alienígena mostra as estrelas, a luz do que pode ser um caminho ao descobrimento e ao fim de uma espécie. Von Trier é mais amargo. Sua humanidade como projeto fracassado apresenta-se primeiro a partir de um casamento que, apesar de todos os problemas, ainda permite fingir, aprender a não ver o que há de mais grosseiro entre pessoas bonitas. Há sempre um criado para buscar as malas e roupas jogadas na entrada da grande casa.

A noiva, uma nova Ofélia à espera do afogamento, desiste dos gestos de amor ao belo companheiro, de dizer o que esperam dela, de fornecer slogans para a próxima campanha publicitária do chefe asqueroso. Será contrária, naquela noite, à propaganda que até então a rodeou: sua civilização não resiste às aparências.

A arte antecede o caos. As pinturas e o grafismo expostos no início concretizam-se depois: a noiva amarrada à natureza, o cavalo que sucumbe à dor, a mãe com o filho no colo pouco antes de o mundo acabar. Na cabana imaginária feita para “proteção”, Justine aceita seu destino, Claire desespera-se, ao passo que seu filho, a criança, mantém-se de olhos fechados. Melhor não saber o que se passa ao redor.

(Melancholia, Lars von Trier, 2011)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick

O Tempo do Lobo, de Michael Haneke

A proximidade do presente é assustadora. À beira da linha do trem, pessoas ainda brigam por água, por algumas cabras, atiram contra cavalos para comer sua carne e, após a perfuração do pescoço do animal e o sangue que jorra, a chuva oferece a ideia de purificação. Michael Haneke faz assim um filme sobre o fim de certa civilização.

Ao longo de diversas situações, o espectador sabe pouco, um observador a certa distância dos fatos. Tudo é tão real que assusta: as pessoas não explicam por que estão ali, para onde desejam ir, do que fogem, a que recorrem, no que creem. Ao centro de O Tempo do Lobo, uma mulher e seus dois filhos tentam sobreviver.

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O espectador perguntará, a certa altura, o que ocorreu com o mundo, ou com a Europa: uma doença devastadora? Uma guerra? Alguém fala em contaminação da água. À beira da linha, eles esperam o trem que talvez não chegue nunca, ou que talvez tenha chegado com mais pessoas entre um e outro corte temporal. Surgem novas personagens. A selvageria de alguns explode em pequenos gestos, em poucos diálogos.

Estão confinados, antes, à escuridão. Quase não há sol. O filme é cinzento, próximo do preto e branco. O verde da natureza e o marrom das árvores secas chegam a tranquilizar. Um garoto vaga por perto, sem nunca se misturar ao grupo, alguém disposto a furtar para sobreviver, coberto da cabeça aos pés por roupas largas, com um gorro.

O futuro é o presente, diz Haneke: fosse este um filme ambientado em um continente pobre, ou em um país em guerra, ninguém suspeitaria do futuro que aponta. É das possibilidades que fala, é o horror que toca, maneiras de se ver pouco, ou o suficiente: uma história sobre pessoas perdidas em um espaço que conhecem, cercadas por tipos que acreditavam conhecer: os homens logo se convertem em animais selvagens.

A protagonista, Anne Laurent (Isabelle Huppert), fugiu para o campo com o marido e os dois filhos. O filme tem início com sua chegada à casa de campo, ao refúgio, local tomado por outra família. O problema está instalado, é antigo: a briga pela propriedade, o que faz pensar em algum velho faroeste sobre homens armados e crianças assustadas.

O invasor atira contra o marido de Anne. A face da mulher, suja de sangue, antecipa o que vem em seguida: o horror será feito pelo choque silencioso, mais do que pelos gritos; será formatado à base do rosto que talvez não entenda o peso dos problemas que agora recaem, nesse universo em que o mínimo é o máximo: nesse tempo de lobos, será preciso trocar objetos por água, o corpo por alimentos.

Os cães selvagens atacam em silêncio, são vistos a distância. O pássaro tenta escapar do casebre em que a família esconde-se, termina preso ao peito de seu dono, o filho de Anne, e, após morrer, recebe um pequeno funeral sobre o feno. Os sinais religiosos não escapam: ao fim, o mesmo menino lança-se ao sacrifício, na fogueira sobre os trilhos, talvez para tentar corrigir os problemas desse mundo estranho do qual é parte.

O mal está suspenso no efeito opaco. Haneke não poupa, não explica. Faz um filme misterioso que não chega a ser o mais brutal de seus trabalhos, nem o mais ambicioso. Como em outras de suas obras, insere o horror no espaço do real, das pessoas comuns, das famílias autodestrutivas. Se em obras contundentes como O Sétimo Continente o horror via-se preso a pequenos espaços, em O Tempo do Lobo o diretor volta-se ao grupo, à relação com estranhos, à sociedade vítima de suas necessidades básicas.

O campo visto do interior do trem, nas imagens do fechamento, talvez indique a saída. O objetivo, contudo, não é encontrar um desfecho de conciliação, um enigma a ser decifrado e algum alívio. Haneke muda o trajeto, foge do esperado. Sua locomotiva leva a lugar algum. Suas personagens começam e terminam em uma viagem de destino incerto.

(Le temps du loup, Michael Haneke, 2003)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Vídeo: o cinema de Michael Haneke

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen

O pequeno Alvy Singer está paralisado. Seu problema atingiria outras personagens de Woody Allen, em filmes posteriores: o universo está se expandindo, o mundo vai acabar e talvez não valha a pena seguir vivendo. À observação do garoto, ao lado da mãe inconformada, o médico tem a resposta certeira: o jeito, então, é aproveitar a vida.

Alvy Singer é Woody Allen. É mais que uma relação entre criador e personagem. Qualquer um que saiba o mínimo sobre Allen reconhece logo seu pessimismo, sua desesperança em relação à espécie humana: o garoto travado tem, em sua infantilidade, em jeito estreito de encarar a vida, o reflexo do criador adulto.

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noivo neurótico noiva nervosa

Sem parecer piegas, ao fim de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa o diretor oferece o remédio ao amargor: enquanto assiste aos ensaios de sua primeira peça, Alvy vê seu antigo relacionamento dar certo, ao contrário do que ocorreu na “vida real”. A ficção permite tudo (ou quase), incluindo a felicidade do casal protagonista.

Ao longo do filme, em pequenas situações cômicas, a personagem faz a alegria do espectador com digressões e mau humor: por que viver em uma cidade, não em outra; por que não entrar na sala para assistir o filme de Ingmar Bergman que começou há dois minutos; por que se incomodar tanto com a presença de supostos intelectuais.

Enquanto se assiste à vida de Alvy Singer – e aqui tudo leva a ela –, Annie Hall (Diane Keaton) impõe-se. Apesar do título original, o filme não é necessariamente sobre ela. É sobre ele. A personagem feminina aponta aos feixes de irracionalidade do protagonista: representa os “ovos” que ele precisa empunhar para crer ser uma “galinha”.

É necessário explicar: trata-se da piada que vem à tona na cena final, quando Allen (ou Alvy) despede-se de Keaton (ou Annie) em uma esquina qualquer de Nova York. Segundo ele, pessoas apaixonadas, em relacionamentos, são como loucos com ovos nas mãos. Podem, dessa forma, acreditar em um universo paralelo, em galos e galinhas.

Todos os apaixonados seriam um pouco assim, como Alvy. Não enxergam. Sofrem enquanto vagam solitários, desesperados. Na busca por explicação, a personagem questiona pessoas pela rua, qualquer uma, sobre o que fazer em seguida.

É importante a opinião de terceiros, como é o caso do casal com a receita da felicidade: ela diz não ter qualquer ambição, revela ser uma pessoa vazia; ele diz o mesmo. O problema, diz Allen, é pensar muito, acreditar na expansão do universo.

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Noivo Neurótico, Noiva Nervosa é o trabalho mais premiado e celebrado do cineasta. Representa uma ruptura com seus filmes anteriores, flertes com o pastelão, com piadas de um universo nitidamente irreal, referências que vão da literatura russa à distópica.

O passo dado por Allen é ambicioso, ao cravar os pés na realidade sem perder a visão do absurdo, ao romper a barreira que separa o criador de seu público: várias vezes ele volta-se à tela, fala à câmera, clama entendimento sobre a própria vida. Em outros momentos, assiste ao próprio passado, às intermináveis brigas entre pai e mãe.

O momento em que Alvy conhece Annie é especial. Jogam tênis em uma estufa em Nova York, encapsulados pela modernidade, na frieza da metrópole, longe do sol excessivo de Los Angeles, tão repelido por Allen.

Ao deixarem a estufa, ela puxa conversa. Ele oferece carona, mas não tem carro; ela tem carro, mas age como se não tivesse. Encaminhados à união ideal, quem sabe, enquanto pensam em excesso, claro, como toda personagem interessante de Allen. Falam sobre qualquer coisa para não se renderem ao silêncio.

É um filme apaixonado e, à contramão, tomado pela racionalidade, pelo homem que não consegue escapar à sombra da mulher que ama, ao mesmo tempo obrigado a reconhecer seus “ovos”. Alvy é massacrado pela rotina e dependente dela – o que inclui o jeito meigo e inesquecível da companheira Annie Hall, ou Diane Keaton.

(Annie Hall, Woody Allen, 1977)

Nota: ★★★★★⤴

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13 filmes sobre relacionamentos em crise

Cinco filmes recentes sobre pessoas em situações extremas

Alguns filmes não precisam de vilões de carne e osso. Com situações extremas, levam o espectador ao medo e à aflição. Nessas obras, os minutos são valiosos e cada passo em falso pode custar a vida de diferentes personagens.

E nem sempre precisam de supostas “histórias reais”, ou retratar um universo possível: como se vê na lista abaixo, é possível supor situações extremas e ainda questionar o espectador sobre lidar com a morte a partir da ficção livre.

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127 Horas, de Danny Boyle

Após ter o braço preso a uma rocha, em estranha obra do acaso e não menos da infelicidade, rapaz tenta se libertar e acaba mergulhando na própria imaginação. No filme de Danny Boyle, ele terá de tomar uma medida desesperada para sobreviver.

127 horas

A Aventura de Kon-Tiki, de Espen Sandberg e Joachim Rønning

A história é verdadeira: em 1947, um pesquisador tentou provar que a Polinésia tinha sido ocupada antes pelos povos da América do Sul e não pelos do oeste. Para tanto, lançou-se com outros aventureiros em uma expedição cheia de contratempos e situações arriscadas.

Kon-Tiki

4:44 – O Fim do Mundo, de Abel Ferrara

O filme do mestre Ferrara explora o fim do mundo a partir de situações íntimas, de um casal que – como o resto do planeta – sabe o dia e o horário do apocalipse e tem de lidar com esse mal. Eis a situação extrema final e inescapável: a própria morte.

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Gravidade, de Alfonso Cuarón

Astronauta tem como pior inimigo sua condição: está perdida no Espaço, local em que a vida é impossível, ou quase. Cada pequeno gesto ou minuto vale contra ou a favor da mulher vivida por Sandra Bullock – cuja situação de desespero tem ecos existenciais.

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Everest, de Baltasar Kormákur

O realizador de Sobrevivente volta a tratar de um caso real, dessa vez sobre um grupo de alpinistas no pico mais alto do planeta. Sua conquista carrega obsessão e contra as personagens estão tempestades, avalanches, o frio e a falta de oxigênio.

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Kingsman: Serviço Secreto, de Matthew Vaughn

Começa com “Money For Nothing”, de Dire Straits, quando um grupo de espiões invade uma base inimiga no Oriente Médio. Termina com “Slave to Love”, de Bryan Ferry, a balada romântica de 9 Semanas e Meia de Amor, momento em que o herói, também espião, prepara o champanhe para alguns momentos com uma princesa.

São as misturas de Kingsman: Serviço Secreto, de Matthew Vaughn, cuja pretensão não é ser levado a sério, mas divertir. Abusa-se dos clichês, brinca-se o tempo todo.

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Há, por exemplo, jovens treinados para ser espiões, um vilão infantil que deseja acabar com a maior parte da raça humana, um cientista sequestrado, uma vilã com lâminas nas pernas e outras tantas coisas vistas em outros muitos filmes.

Não há limites para essa brincadeira: toda a emoção lançada na tela está na precisa direção, na maneira como Vaughn abusa da violência, do sangue e de um protagonista que não pede para ser amado pelo espectador.

É um daqueles jovens de periferia, chato, que usa boné e jaqueta, que tem uma mãe que se relaciona com o homem errado e cuja irmã pequena chora enquanto essa mesma mãe – na frente da televisão, claro – só dá atenção para o namorado imoral.

O jovem é Eggsy (Taron Egerton), filho de um espião morto em combate. Mais tarde, um parceiro de seu pai, Harry Hart (Colin Firth), sente a obrigação de ajudar o garoto e o coloca em treinamento na agência secreta Kingsman, escondida atrás de uma loja de ternos caros, vendidos para homens diferentes de Eggsy.

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Se por um lado há contornos de James Bond, por outro não se limita a ser politicamente correto. Em Kingman, até os líderes mais influentes do mundo – incluindo o presidente americano – aceitam as propostas do vilão interpretado por Samuel L. Jackson.

Sua ideia para destruir a raça humana – o “câncer do planeta” – chega a ser interessante: ele cria um chip para celular que promete internet gratuita à população e esconde um sinal capaz de transformar pessoas pacatas em seres violentos.

A melhor sequência do filme passa-se nos Estados Unidos, em uma igreja cheia de fiéis conservadores, na qual o pastor diz palavras de ordem. O local serve de teste para o sinal do vilão. Não poderia haver ambiente mais curioso para tanta violência: entre socos, facadas e tiros, Hart mata um a um, todos que cruzam seu caminho.

A mensagem é certeira: no futuro, diz o filme, a tecnologia torna-se fanatismo e as pessoas correm o risco de retornar às origens. Ou seja, à selvageria. E a salvação proposta pelo vilão, por sinal, inclui a solução bíblica: uma arca na qual serão guardadas algumas pessoas, os escolhidos para repovoar o mundo.

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Mas esses escolhidos pagam o preço: em suas cabeças são implantados chips que podem explodir, e, em Kingsman, certamente irão – sempre como brincadeira.

A parte final, com “Slave to Love”, faz pensar se toda essa bagunça valeu a pena, se é possível sair do cinema com algo. Talvez sim, talvez não. O que não se pode ignorar é a diversão, sem que se esqueça de algumas questões sérias – tratadas de passagem.

Não deixa de ser o típico produto que atualmente domina as salas de cinema, mas com um pouco mais do que prevê a embalagem. Devido ao estado atual de algumas grandes produções feitas para a tela grande, chega a ser raro.

Nota: ★★★☆☆