filmes surrealistas

Dez filmes delirantes com personagens aprisionadas

Filmes surrealistas ou do gênero terror apostam, ora ou outra, em personagens aprisionadas a algum local, ou a alguma condição. Não raro, o surreal também abarca o horror. Os resultados podem ser surpreendentes, como mostram alguns filmes da lista abaixo, de países e tempos variados, de diretores diferentes entre si.

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O Processo, de Orson Welles

Os labirintos de Kafka servem à perfeição ao realizador de Cidadão Kane. O resultado é um de seus melhores filmes, sobre um rapaz que é acusado sem saber do que se trata a acusação. Nesse meio, talvez seja culpado. Todos são culpados de algo, alguns já nascem assim. Um pouco futurista, um pouco no terreno do terror.

O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel

Os criados deixam a grande casa com pressa. Os burgueses veem-se sozinhos e presos, por dias, para em seguida assistirem à própria degradação. Por algum motivo inexplicável, não conseguem mais escapar da casa. Os dias passam. Vem o mau cheiro, a selvageria, o inesperado, a necessidade de sobreviver à reclusão.

Repulsa ao Sexo, de Roman Polanski

A bela e jovem Catherine Deneuve logo se tornaria uma estrela, nos anos 60, época em que realizou o ousado filme de Polanski. Na trama, a moça é deixada sozinha em seu apartamento após a irmã sair em viagem. Sexualmente reprimida, ela é “atacada” pelos delírios e investe contra as forças que desejam penetrar seu espaço.

O Enforcamento, de Nagisa Oshima

A intenção era matar o condenado à morte, colocado na forca e visto pela plateia à espera de seu fim, no Japão. Mas o coreano em questão sobrevive. O que fazer, então, com essa execução fracassada, a cerimônia que não deu certo? Na obra-prima de Oshima, os carrascos com supostos bons modos deliram, presos, à volta do condenado.

Imagens, de Robert Altman

O mestre Altman teria bebido na fonte de Quando Duas Mulheres Pecam, de Ingmar Bergman, para compor esse filme original e exigente, sobre uma mulher que passa a ter delírios, em uma casa afastada. Por ali, ela, vivida por Susannah York, recebe estranhas visitas – ou imagens -, como a do namorado morto e a de uma criança.

O Homem de Palha, de Robin Hardy

Policial católico investiga o desaparecimento de uma menina em uma ilha na Escócia. O local é propriedade particular de uma espécie de bruxo hippie, vivido por ninguém menos que Christopher Lee. O suposto paganismo – ou a libertinagem – confronta o policial quadradão e impotente, que entra na ilha para não mais deixá-la.

Alice, de Claude Chabrol

Grande filme nem sempre lembrado do mestre francês, com a musa Sylvia Kristel. Inspirado em Lewis Carroll, aborda a entrada de uma mulher à grande casa que encontra, por acaso, enquanto viaja de carro. Embrenha-se no espaço verde, ultrapassa os muros, conhece a casa – e desses ambientes demora a escapar.

Hausu, de Nobuhiko Ôbayashi

Delirante, entre a comédia e o horror, sobre uma menina que viaja, nas férias, para a casa da tia. Com as amigas, vê-se presa ao local. Coisas estranhas acontecem: esqueletos dançam, o piano ganha vida, um gato observa, espíritos rondam o local. Espera-se qualquer coisa desse grande filme japonês, à exceção do convencional.

Anticristo, de Lars von Trier

A morte do filho, no início, é paralela ao gozo sexual, à penetração. O agitador Lars é pouco chegado às concessões. Para muitos, seu filme soa indigesto, com cenas fortes, incluindo momentos de mutilação. Animais ganham voz. Homem e mulher, o casal, são presos à floresta, ao local chamado de Éden, e terminam em inevitável embate.

Mãe!, de Darren Aronofsky

Mais um casal isolado. É a nova aposta de Aronofsky no campo das representações religiosas, na casa-planeta convertida em labirinto, em prisão, ou na mulher que não entende as estranhas visitas ao local. O marido, um deus permissivo, estranho, deixa que o local seja povoado por convidados. Tudo, claro, descamba ao horror.

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A Trilogia do Ser Humano, de Roy Andersson

Situações impensáveis dão o tom surreal da chamada Trilogia do Ser Humano, do diretor sueco Roy Andersson. Suas personagens – a maioria de passagem – estão sempre envolvidas em estranhos dilemas, entre absurdo, graça e tragédia.

O diretor nunca se rende por completo à aleatoriedade. Ao contrário, sabe o que deseja criticar, sabe seus caminhos – mesmo quando os três filmes mais parecem uma junção monstruosa de pequenas situações sobre o ser humano ridicularizado.

canções do segundo andar

Ao que parece, em Canções do Segundo Andar, Vocês, os Vivos e Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência a aparente falta de sentido é o que o define melhor: é da subversão da atitude esperada que brota algo verdadeiro.

Paradoxal, por isso, também forte e inesquecível. O que ajuda a conferir o suposto realismo é o uso incessante da profundidade de campo. Suas imagens ao mesmo tempo se propõem a tudo revelar, ao mesmo tempo não escapam à falsidade.

No primeiro, Canções do Segundo Andar, Andersson explora o absurdo do mundo materialista e do poder. A cidade retratada está paralisada, os carros não andam. Um homem queixa-se que andou muito, que precisa chegar à homenagem a um militar e, ao tomar um táxi para tentar ser mais rápido, vê-se preso ao mesmo lugar.

O absurdo da trilogia de Andersson vai sendo sintetizado a cada pequena parte: explora seres imobilizados, cheios de sonhos, massacrados por coisas menores ou maiores, cercados por fantasmas perseguidores e que às vezes dividem histórias em um só plano.

canções do segundo andar2

O tal militar homenageado é velho e senil, o homem mais poderoso entre todos, dono de milhares de metros quadrados de terra – mas preso a uma cama com cerca de metal.

A ironia não para por aí: quando os outros militares entram na sala para lhe prestar homenagem, a única coisa que ele consegue fazer é retornar ao nazismo: levanta o braço como se saudasse Hitler, com adoração cega e automática.

O filme termina com um homem em meio a um amontoado de crucifixos, enquanto fantasmas, ao fundo, vêm em sua direção. Entre eles, o espírito de uma menina com os olhos vendados, oferecida como sacrifício em outra sequência, a mais forte do filme e talvez da trilogia, quando é lançada a um desfiladeiro.

O cineasta celebra assim o fim da pureza. Vive-se sob os sinais do deus mercado, o sinal da religião nesse mundo moderno – no qual os engravatados golpeiam-se com chibatas e consultam a bola de cristal para saber o futuro.

vocês os vivos

Vocês, os Vivos segue com as amostras delirantes de Andersson, com os lamentos de pessoas diferentes, com imobilismo e, claro, com sonho. Começa com o barulho do trem, com o homem que acaba de acordar; termina com os aviões que sobrevoam a cidade, observados pelas personagens e talvez destinados ao bombardeio.

Se em Canções do Segundo Andar o poeta enlouquece ao fazer poesia e o mágico não pode terminar seu truque sem machucar a cobaia, a obra seguinte expõe o homem que, em sonho, é exterminado na cadeira elétrica – enquanto o público come pipoca – após não conseguir cumprir um truque: retirar a toalha de mesa sem derrubar os talheres.

Há também a menina que sonha em se casar com um guitarrista, na típica pequena casa convertida em trem, com o público do lado de fora, na janela, a saldar a felicidade que só pode ser sonho: o que é simples e belo, e que não perde o movimento.

Essa beleza simples, menos real na estética do que nos pequenos sinais, retorna na terceira e talvez melhor parte da série de Anderson. Um Pombo Pousou fecha esse mundo de absurdos com outras pequenas histórias e o caminhar de dois vendedores.

um pombo pousou sobre o galho

Eles carregam produtos para festas de aniversário: uma máscara, um saco de risadas e dentaduras de vampiro. Devido à ausência do riso, argumentam que o mundo ao redor precisa de alegria. Terminam como o poeta: não encontram espaço.

Um Pombo Pousou é como os anteriores: às vezes à beira do banal, cheio de desconforto. Começa com três mortes: a morte direta, o enfarte; a morte que não chega, a da senhora que se agarra ao tesouro cobiçado pelos filhos; e a morte que revela o pior dos outros, quando as pessoas não sabem o que fazer com a refeição do morto.

A série relata os dramas menores aos quais todos estão condicionados: a humanidade como uma junção de absurdos, explorados em grandes espaços, ou simplesmente a ilusão de grandeza a partir da câmera que quase nunca se movimenta.

um pombo pousou sobre o galho2

As brincadeiras do diretor escondem um terreno frio, às vezes à beira do terror, com seus corredores estranhos, com suas personagens de rostos brancos (talvez mortas), como se toda a vida se resumisse à reflexão do passado, em algo que se perdeu, o que faz pensar em outro filme de Andersson, Giliap, seu fracasso lançado em 1975.

Parte dessa obra o embrião da trilogia, como se as personagens explicassem mais sobre a existência quando caladas, quando impossibilitadas de mostrar sentimentos, enquanto tentam escapar de um hotel e nem sempre conseguem.

Na pequena grande trilogia de Andersson, é o pombo que assiste à humanidade, não se sabe em que estado, com todos os seres (atores) como parte do mesmo espaço, de passagem por pequenas e estranhas histórias da vida cotidiana.

Notas:
Canções do Segundo Andar: ★★★★☆
Vocês, os Vivos: ★★★☆☆
Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência: ★★★★☆

Dez grandes filmes com universos delirantes

O universo delirante está ligado aos cenários, à representação dos atores, aos cortes, ao roteiro, aos efeitos especiais – e, às vezes, à junção de tudo isso. A lista abaixo traz dez filmes que mais parecem delírios, ou sonhos, e com atmosferas poderosas.

Vai de Resnais a Roger Corman, de Godard a Raoul Ruiz. Obras que revivem grandes autores (Kafka, Proust) para falar do passado ou mesmo para levar ao futuro difícil e ditatorial – às vezes não muito diferente do tempo das obras, como se vê em Alphaville. A lista poderia ir além, mas se detém a dez grandes filmes.

O Ano Passado em Marienbad, de Alain Resnais

O caminhar pelo grande castelo evoca muitas perguntas, enigmas, enquanto o casal discute sobre um possível encontro no mesmo local, no ano anterior.

o ano passado em marienbad

O Processo, de Orson Welles

O próprio diretor interpreta o advogado e, para o papel do suposto culpado, está Anthony Perkins, perseguido pelo sistema e suas regras.

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A Orgia da Morte, de Roger Corman

Talvez a melhor obra de Corman, sobre moribundos tomados pela peste e o grande castelo do Príncipe Próspero e suas orgias regadas a rituais satânicos e libertinagem.

a orgia da morte

Alphaville, de Jean-Luc Godard

O cineasta francês recorre ao tempo sem tempo, passado e futuro, com traços de filme noir, de ficção científica e o contraste entre Eddie Constantine e Anna Karina.

alphaville

As Margaridas, de Vera Chytilová

Político sem parecer ser, a obra livre de Chytilová é uma das mais importantes da nouvelle vague tcheca e traz duas mulheres em uma jornada psicodélica.

as margaridas

Satyricon, de Federico Fellini

Na Roma de Fellini, o profano surge em todos os cantos. O tom é de libertinagem, com a jornada de dois garotos por um mundo sempre próximo de explodir.

satyricon

Alice, de Claude Chabrol

A adaptação de Chabrol para Alice no País das Maravilhas resultou em uma obra original, com a sempre excitante Sylvia Kristel como a mulher presa a um castelo.

alice

Eraserhead, de David Lynch

Lynch ganhou o status de surrealista devido a obras como Eraserhead, que coloca em cena suas obsessões e monstruosidades, ao mesmo tempo em seu universo de horror.

eraserhead

O Tempo Redescoberto, de Raoul Ruiz

O mergulho nos delírios ou lembranças de um escritor dá vez a uma obra original a partir de Proust. O emaranhado de situações não deixa saber qual é o início e o fim.

o tempo redescoberto

Holy Motors, de Leos Carax

Considerado um agitador, Carax compõe um filme às vezes bizarro, às vezes existencial, sobre um homem que vive muitas vidas em apenas um dia.

holy motors