filme sobre Tiradentes

Joaquim, de Marcelo Gomes

Até certo ponto, Joaquim José da Silva Xavier mais parece um explorador frustrado, menos um futuro revolucionário. Descobriu tesouros no fundo de um rio e não teve direito a eles. As pedras verdes e brilhantes que retira das águas, entre as rochas, ficariam para a coroa portuguesa. A essa altura, Joaquim sente-se explorado.

O diretor Marcelo Gomes logo o encaminha à transformação, à tomada de consciência. O filme termina com o homem a explodir, faminto, com a boca cheia, devorando a carne aos olhos de uma classe privilegiada que, como ele, queria a saída dos portugueses. Toda a riqueza aos locais, desejavam – a começar por Joaquim.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Antes da personagem histórica – e, sobretudo, do filme histórico – há um universo de sons e figuras estranhas, de sujeira e desleixo. A bela fotografia de Pierre de Kerchove salienta as imperfeições, esse realismo das fardas sujas, da escrava que busca piolhos entre os cabelos longos do protagonista, o futuro Tiradentes.

Gomes aposta no tempo suspenso, no gotejar de características que formam a personagem. Ainda que a passagem do explorador ao homem consciente da necessidade de revolução não convença por completo, Joaquim hipnotiza com a negação do típico filme histórico calcado em figuras míticas, falas pomposas, seres limpos. Retira algo de A Última Ceia, o grande filme sobre escravidão de Tomás Gutiérrez Alea.

No filme do cubano, as cabeças são expostas no encerramento; no de Gomes, a de Joaquim é exibida ainda na abertura, com a narração que logo subverte a ideia do herói tão explorada em anos de História, em sala de aula, a ecoar o mito que deixava escapar o homem: a narração de alguém que confessa sua derrota, sob as partículas de água da chuva arremessadas à lente. O efeito indica o que vem a seguir.

O filme começa com um Joaquim (Júlio Machado) selvagem (e não termina muito diferente) entre mato, bois e escravos, entre cercas, à espera de alguma viagem e de uma promoção, enquanto se relaciona com a escrava Preta (Isabél Zuaa).

Uma escrava – e uma mulher – será a responsável pela transformação do protagonista. Não deixa de ser curioso. A atração física e a troca de olhares, a aproximação ao corpo, ocultam o amor de Joaquim pela mulher. E ele, não contente com o corpo que só toma às vezes, não sendo diferente de outros homens, deseja então comprá-la.

O dono não quer vender. A escrava é abusada. Em uma cena forte, Gomes filma o ato como se um animal estivesse sobre um cadáver. Mais tarde, ela mata o abusador e foge. Descobre antes de Joaquim a necessidade da revolta ao se unir a um quilombo. Detalhes e palavras a mais são desnecessários para resumir casos e mudanças.

Joaquim é sobre uma personagem suja, faminta e indesejável, obra sensorial a partir dos ambientes que lhe dão corpo. Longe de decifrar Tiradentes. As criações de Gomes – como os homens em estranha amizade de Cinema, Aspirinas e Urubus, ou a Verônica que termina em frente ao oceano, sozinha, em Era uma Vez Eu, Verônica – não se deixam penetrar facilmente. Seu Joaquim é um ser errante, alguém pronto para devorar a carne e ser devorado. Ou decapitado.

(Idem, Marcelo Gomes, 2017)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Entrevista: Júlio Machado

Entrevista: Júlio Machado

O que primeiro chama a atenção em Júlio Machado é a energia. A forma de falar, de se expressar, o sorriso constante. Nunca é falso. Ao contrário, é perceptível seu interesse em interagir com o público, em mergulhar na história de Tiradentes, ou de seu Joaquim, e mesmo a paciência com cada um dos fãs que querem tirar uma foto com o ator.

Humano demais e, por isso, distante de sua personagem carrancuda (é o primeiro protagonista do ator no cinema), Júlio falou com o Palavras de Cinema após uma sessão de Joaquim e de um bate-papo com o público, em Jundiaí, no projeto Moviecom Arte. O assunto da entrevista, claro, é o filme de Marcelo Gomes, representante brasileiro na mostra principal do Festival de Berlim em 2017, sobre o período de formação da consciência de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Como você define Joaquim, o filme?

Joaquim é uma crônica do cotidiano do período colonial. A preocupação do filme foi sempre a de traçar um perfil, com as características daquela sociedade. Então a pesquisa e um estudo sobre o que compunha o modo de vida daquelas pessoas foram fundamentais para isso. Por outro lado, [é sobre] a tomada de consciência política daquele homem, daquele anti-herói, e não daquela figura engessada dos livros de história, que é o Tiradentes, mas o homem pré-Tiradentes. São essas duas estruturas que definem o filme.

Quer dizer, desde o início a ideia era mais o humano que o mito.

Exato. [A ideia] era fugir do mito histórico, de tudo o que já se falou sobre ele, de tudo o que já foi representado em dezenas de filmes, inclusive brasileiros, sobre ele. A ideia do Marcelo [Marcelo Gomes, o diretor] era se voltar ao homem.

Como o Marcelo Gomes chegou até você?

Através da Maria Clara Escobar, que faz a produção de elenco do filme e que é uma cineasta também, supertalentosa, mas que neste projeto, com o Marcelo, ficou com a produção de elenco. E ela chegou até o meu nome. E certa vez me mandou um e-mail, perguntando se eu tinha interesse de me colocar à disposição do Marcelo Gomes para fazer um teste para o filme. Eu falei: “Uau! Claro!”. Eu já adorava o cinema do Marcelo e falei que estava totalmente à disposição. Ele chegou até mim através da Maria Clara, e ela nos apresentou. Nós fizemos alguns encontros ao longo de dois meses, até ele se decidir qual elenco ia querer. E foi assim, uma pesquisa da produção.

Você, quando entrou no personagem, pensava estar dentro de Tiradentes ou preferia imaginar que vivia um homem comum? Como era sua consciência em relação a isso?

Agora é o Júlio… em situação emprestada do Joaquim e reagindo. O humano é a gente mesmo. O que eu pudesse emprestar de mais autêntico para o personagem é o que interessava. Então eu não pensava muito no mito Tiradentes. Era um ser humano… E outra coisa que eu acho interessante: nesse trabalho nós evitamos uma abordagem psicológica dos personagens, a compreensão, por exemplo, de um arco dramático dentro dele e dentro da história. A preocupação voltou-se principalmente para uma preparação física, de relação com aquela natureza selvagem. Os aspectos físicos foram determinantes em nossas composições. Não tinha muito racionalismo. A ideia era se colocar ali, naquele cenário. Andar por uma cidade histórica mineira já altera seu corpo, suas sensações, e a gente investiu nesse trabalho: como é o corpo reagindo em uma ladeira de pedras, no garimpo, em um lugar de sol o dia todo. Foi um processo absolutamente orgânico.

E o filme é extremamente sensorial, você sente esse universo.

Essa era outra preocupação. Dentro dessa tentativa interessava tudo que dissesse respeito àquele contexto e principalmente esse tempo que é muito diferente do nosso tempo contemporâneo, até do ponto de vista da dramaturgia. O roteiro de escola hollywoodiana, de grandes estúdios, eles são absolutamente dinâmicos para manter a atenção do espectador, com pontos de virada, e têm uma espécie de receita para manter essa atenção. E aqui a ideia era criar essa atmosfera, essa ambiente.

É até interessante você dizer isso, porque o encerramento de Joaquim, se pensarmos na forma do roteiro americano, é totalmente anticlímax.

Totalmente. E isso está na conta da ousadia e da coragem do Marcelo Gomes. Ele não está fazendo um filme de estúdio no qual tem de responder a determinadas exigências e tem essa característica. Por isso o Marcelo é um artista ímpar: ele faz questão de fazer um cinema com assinatura, é autoral. E em condições que foram possíveis. Não é um estúdio, com um investimento alto, te dando caminhos, mas um artista com o investimento possível querendo assinar sua própria obra. A coragem e a ousadia dele de não responder a anseios pré-concebidos.

E se a gente pensar no sentido histórico, do personagem Tiradentes, ele chega a ser subversivo, não é?

Eu acho que tudo é político na vida. E eu compreendi que estética também é política. Com o filme, a gente não pretende fazer o vômito de um discurso teórico e racional. Através desses estados, desses silêncios, desse tempo dilatado, que teoricamente seria o tempo das Minas no século 18, criamos platôs sensoriais que nos comuniquem. E isso, acho, é absolutamente político e amplia a percepção para as ideias. A pessoa que se submete a uma experiência estética não convencional sai mais aberta não apenas para as próprias experiências sensórias, mas também às ideias que virão.

Como é a forma de trabalhar de Marcelo Gomes?

Absolutamente pautada pela cumplicidade diante da obra. Ele tem o talento de escolher pessoas que estão convictas de que querem contar aquela história daquela maneira. Ele faz um longo processo de seleção desse elenco para ter certeza de que essas pessoas estarão engajadas. E ele faz isso de maneira sutil e delicada. Afeto é o que define o modo de trabalhar do Marcelo. E o profundo senso de inquietação diante de nossa realidade social e política, dessa direta conexão com a realidade de nosso país, inclusive com o nosso tempo. O artista tem que ler o seu tempo, falar sobre seu tempo. E é nisso que o Marcelo investe com afeto e é por isso que consegue resultados tão bons.

Vendo um filme como esse é impossível não falar de política.

É impossível. E foi maluco porque a gente não esperava que no momento em que o filme foi lançado estivéssemos passando por tanta revelação, por tanta movimentação na política. O filme começou a ser gerado há sete anos através do convite de uma produtora espanhola. E é uma feliz coincidência que ele saia agora, nesse momento em que as coisas estão se refletindo de modo tão contundente.

Veja também:
Mostra apresenta a arte de Jerzy Skolimowski