filme sobre racismo

Infiltrado na Klan, de Spike Lee

Estar do outro lado não é fácil. Causa estranheza, dor de consciência, como mostra o franzino entregador de pizza de Faça a Coisa Certa, do fim dos anos 1980: seu empregador, um ítalo-americano, prefere louvar brancos famosos em seu comércio, em um bairro negro. Fotos de negros não têm espaço na sua pizzaria. O conflito está dado.

O entregador de pizza é justamente Spike Lee, também na função de ator. Até o dia em que corre a história, ele e outras personagens dão de ombros aos famosos e ilustres da parede, do quilate de um Frank Sinatra. Na maior parte, o clima cômico oculta o pior, o conflito.

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Dor semelhante pode ser vista no protagonista de Infiltrado na Klan, policial negro entre maioria branca, ao mesmo tempo parte do todo, ao mesmo tempo de fora. Policial que chega ao emprego como o primeiro negro do local, de cabelo black power à moda da época, duelando com os cortes rentes ao couro, à maneira militar.

Atravessa a linha e, pouco a pouco, constata o esperado: vive em país de divisões, obrigado, por exemplo, a investigar os Panteras Negras. É o homem certo para o serviço: a mando dos brancos, terá de se infiltrar entre seus pares para transmitir o discurso de seu líder, para muitos um palavreado subversivo, cheio de ideias perigosas.

Curiosamente, o mesmo policial vê-se de olhos cheios – entre seus pares, aqueles que pode ter como amigos, ou aquelas que pode ter como companheiras, pessoas às quais se sente abraçado – enquanto ouve o discurso do líder negro. Spike Lee utiliza rostos de deslumbramento – à contramão das faces brancas de ódio e deboche, figuras feitas à comédia e moldadas ao repúdio – para conquistar o público.

Dá certo. Infiltrado na Klan tem lado, claro. Spike Lee é politizado e seu filme vem na rabeira da saída dos supremacistas brancos de suas casas, ou cavernas, fruto da ascensão de Donald Trump nos Estados Unidos. É sobre estar do outro lado – entre policiais, entre membros da Ku Klux Klan -, como no anterior Faça a Coisa Certa.

Depois de passar um tempo no arquivo da polícia, encostado, e investigar os Panteras Negras, seu protagonista, Ron Stallworth (John David Washington), tem um momento de iluminação: se a KKK divulga-se em jornal da cidade, não valeria ligar e tentar descobrir algo? No telefone, finge ser branco e abre caminho à investigação.

O tom cômico é importante para Spike Lee, ainda que o desfecho seja inevitavelmente trágico. A história segue à realidade, imagens verdadeiras dos conflitos recentes em sua nação. Talvez precise ser contada parcialmente engraçada para se compreender o cerne da questão: para a farsa, nada mais que a farsa.

Pois os brancos armados são sempre idiotas. Boçais que acreditam na separação, na “América grande outra vez”, na limpeza étnica. Um deles, David Duke (Topher Grace), diz que consegue identificar a voz de um negro, mas conversa com um o tempo todo acreditando ser um branco. Aos heróis fica o trote, brincadeira como forma de vencer o ódio.

A linguagem cinematográfica é usada de maneira esquemática: enquanto um líder conta histórias de injustiça e como os negros são tratados nos Estados Unidos, os membros da KKK assistem O Nascimento de uma Nação, de Griffith, obra abertamente racista sobre o avanço dos cavaleiros brancos aos vilões negros, nos tempos da Guerra Civil.

Vibram como crianças em matinê e, a cada volta ao lado certo, ao encontro dos negros, Spike Lee transita abertamente entre drama e comédia trágica. A ironia não poderia ser maior. A equivalência é apenas cinematográfica. O resultado é outro: a história contada pelos vencedores de ontem é agora desmascarada pelo cineasta negro.

Seu protagonista policial dá vez a uma nova cruzada em um país que, à época, nos anos 1970, e ainda hoje, não fez as pazes com o passado. O rapaz cruza a linha para ver como funciona a engrenagem do outro lado e descobre que, policial ou não, é preciso estar pronto para a guerra. O mal permanece à porta, o ódio continua por ali.

(BlacKkKlansman, Spike Lee, 2018)

Nota: ★★★☆☆

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Loving, de Jeff Nichols

O casal central se expressa em silêncio, como se tivesse vergonha. O espectador também sentirá vergonha ao longo de Loving, sentimento em tom baixo, como todo o filme, o mais contido do diretor Jeff Nichols, de O Abrigo e Amor Bandido.

Ao centro está Richard (Joel Edgerton), que frequentemente inclina a cabeça, como se quisesse fugir, e Mildred (Ruth Negga), que em poucos momentos acena à felicidade ao receber alguma boa notícia. Eles formam um casal interracial que desafia a Justiça dos Estados Unidos, nos anos 60, época em que um relacionamento do tipo era crime.

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A disposição do cineasta em evitar os excessos dá resultado: as linhas gerais já dão conta do interesse, e a vergonha que a projeção oferece tem seu poder. Estranha sensação essa, a de ver pessoas comuns em papéis que não lhes cabem, os de fugitivos, de criminosos, enquanto nada fizeram. Ódio e medo dominam a cena.

As personagens não pedem atenção. Presas ao silêncio, elas ignoram o espectador. Richard e Mildred não sabem lidar com a situação. Silenciam ou nada falam além de “isso não está certo”, da parte dele. O que realmente impressiona é o olhar dela, seu repúdio, seu encolhimento na cela da prisão, depois seu desejo de voltar para casa.

Loving é também sobre pessoas que desejam retornar à sua terra. Condenados a passar 25 anos fora do Estado da Virginia, Richard e Mildred decidem regressar quando um dos três filhos do casal é atropelado no subúrbio de Washington, em bairro tomado pelos veículos, pelo som da cidade grande, a atingir os ouvidos da mulher, à noite.

Sentimento de não pertencer. Ainda assim, ficam na cidade por anos. Ela como dona de casa, ele como homem da construção civil. Pessoas simples. Após o acidente com a criança, Richard volta do trabalho e encontra as malas prontas. É a mulher que sempre tomas as decisões, a força em silêncio aos poucos gestada nesse belo drama.

Compram nova briga com a justiça. Ele às vezes se detém, paralisa-se, enquanto ela vai à frente com seu silêncio e contingência. A cada carro veloz que cruza a paisagem de terra e verde, Richard mostra-se atento; e a cada outro veículo que o segue, ou sinal de intolerância, ele arma-se antes com o olhar, de novo com incompreensão.

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Filme de personagens, menos de situações. Ainda que Nichols leve à questão real e histórica (eles existiram), o que interessa são suas reações no espaço íntimo, ou como esse mesmo espaço é quebrado, por exemplo, pelos policiais que chegam à noite, ou pelo fotógrafo que espera o melhor momento para clicá-los.

A imprensa, os advogados, muito menos a justiça são bons ou adequados: todos desejam algo do casal, seja a promoção ou a simples amostra de poder e confrontação que o amor, tão simples, pode assumir. O casal torna-se essa anomalia silenciosa, feita de sentimentos, homem e mulher sentados na frente da televisão, aos risos.

O diretor procura mostrar esse momento como realmente foi, com o mesmo enquadramento da fotografia da revista Life, com as mesmas pernas cruzadas de Richard e o máximo da expressão mínima de ambos. Ainda que os fatos verdadeiros sejam de grande valia, são esses momentos grandiosos que alimentam a obra.

(Idem, Jeff Nichols, 2016)

Nota: ★★★☆☆

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Gregory Peck, 100 anos

No recente Trumbo – Lista Negra, o famoso roteirista e sua família divertem-se enquanto assistem a uma sequência clássica de A Princesa e o Plebeu (abaixo). É o momento em que Joe Bradley (Gregory Peck) finge perder a mão ao colocá-la no boca de uma estátua, enquanto leva a bela princesa Ann (Audrey Hepburn) ao desespero.

A leveza e segurança de Peck tornam a cena extraordinária, com a elegância típica de cavalheiros de seu tempo. Peck faz parte do último time de verdadeiros cavalheiros do cinema, antes de explodir a geração rebelde, com Brando e James Dean.

a princesa e o plebeu

Em seu primeiro filme, Quando a Neve Voltar a Cair, de 1944, já era possível ver toda a segurança do astro, todos os traços que se veria em outros filmes. O segundo, As Chaves do Reino, rendeu-lhe a primeira indicação ao Oscar, o que lhe tornaria astro.

Veio uma sucessão de bons filmes: Quando Fala o Coração, Virtude Selvagem, Duelo ao Sol, A Luz é para Todos, Céu Amarelo e Almas em Chamas – todos nos anos 40. A década seguinte levou-lhe a produções variadas como A Princesa e o Plebeu.

Provou versatilidade ao encarar o duro capitão Ahab de Moby Dick, na famosa versão de John Huston, o que de certo parecia estranho aos espectadores – às espectadoras, sobretudo – que ainda recordavam o estreito e brincalhão jornalista Joe Bradley.

Ator versátil, capaz de ser o homem mau ou o amante confiável, e que ainda não tinha um Oscar. Alguns atores esperaram a vida toda e não ganharam, como Richard Burton (indicado sete vezes), outros se contentaram com o honorário, como Peter O’Toole.

o sol é para todos

O de Peck estava para chegar, e seria por sua personagem mais conhecida, Atticus Finch, o advogado honesto que defende um negro inocente contra a sociedade branca e racista. Em um dos momentos marcantes, um homem cospe em seu rosto.

A direção calculada de Robert Mulligan, com personagens condenadas e absolvidas antecipadamente, não retira a beleza de O Sol é para Todos (acima). Muito se deve à atuação de Peck, ajudada pela distância tomada pelo cineasta: a história é contada pelo ponto de vista das crianças, o que ajuda a aceitar esse suposto homem correto e incorruptível.

Finch tornar-se-ia sinônimo de heroísmo, de heróis sem capa e espada. Décadas mais tarde, ocuparia o primeiro lugar entre os maiores heróis do cinema americano na lista do Instituto Americano de Filmes – à frente de Indiana Jones e James Bond.

Filmes como O Sol é para Todos fixaram a imagem de Peck como o homem acima de qualquer suspeita, feito de palavras, de alma aberta contra os intolerantes.

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