filme sobre prostituição

Uma Galinha no Vento, de Yasujiro Ozu

No pós-guerra de Yasujiro Ozu, vê-se a mulher com o filho pequeno, boa parte do tempo sem o marido, tentando sobreviver, logo levada a se prostituir. Está isolada. Seu drama é exposto a cada segundo, o que torna Uma Galinha no Vento um filme diferente de outros do grande cineasta japonês, inclinado aos efeitos do coletivo, menos aos do individual.

Em O Anticinema de Yasujiro Ozu, Kiju Yoshida observa a singularidade da fita, a maneira como Ozu “aderia claramente aos modos de representação que uniformizavam as individualidades, coisa a que ele tanto tinha se oposto”. O drama da mulher e, depois, o de seu marido (praticamente isolados) é o que move a obra.

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A protagonista surge na companhia do filho pequeno. Quando a criança fica doente, ela faz dívidas e, para pagá-las, adere à prostituição. O marido está longe, foi lutar na guerra. A mulher aguarda sua repatriação. Por todos os lados, escombros, grandes esqueletos metálicos que contrapõem as pequenas casas e os sinais da vida comum.

Tais imagens, por sinal, apontam à forma conhecida de Ozu, maneira como compõe algo maior a partir de planos fixos de paisagens de um Japão em transformação: as grandes fábricas servem de fundo aos bairros simples, de pessoas simples, de deslocamentos humanos e crianças brincando entre os espaços que separam moradias.

Por ali, alguém chega à porta, quase entra na casa. Sem bater. É de tamanha naturalidade que remete à maioria dos filmes do diretor, com pessoas que já se conhecem. Contudo, a tranquilidade logo é quebrada: este não é um filme sobre a comunidade, sobre o grupo, sobre amigos e famílias de vários membros, sobre os costumes de gente que se toca a cada olhada ou escapada ao redor. À mulher impõe-se uma jornada de dor, a paisagem desagradável entre destruição e retorno ao progresso, à medida que tenta sobreviver com o filho nas costas.

Vêm os médicos, as más notícias, a amiga que culpa suas escolhas, as meninas que observam o movimento da rua a partir da janela e indicam, sobretudo, o desejo do mesmo Ozu em se embrenhar no coletivo, na sociedade que rodeia. A opção é estranha, deslocada, mas não chega a atrapalhar esse drama forte. O efeito individual ainda predomina.

As mulheres têm esperança. Seguem em frente. “Eu queria poder viver sem preocupações”, diz a protagonista à amiga, enquanto contemplam o espaço à frente, o Japão que se ergue passada a derrota. Logo o marido retorna. Ele dorme quando a mulher chega em casa. O filho não o reconhece. A sequência guarda tristeza: não há exatamente um entrosamento, uma demonstração de amor, ainda que sobressaia o alívio.

A protagonista de rosto arredondado, vivida por Kinuyo Tanaka, confessa – sem o uso das palavras, apenas às lágrimas, à maneira como tomba – o ato de prostituição. O marido fica consternado, sai à rua, busca respostas sem pensar nas próprias perguntas: no fim das contas, vai ao prostíbulo em que a esposa trabalhou; na companhia de uma jovem prostituta, outra vez não encontra as respostas a essa escolha.

O pior do filme não está na escolha da mulher, mas no ato monstruoso do marido, a certa altura, ao consumir o sexo com a companheira como se esta fosse um objeto qualquer, a ser usado. Torna-se um homem que se limita à indiferença, ao ato direto, ao nada: é, em suma, o reflexo maior desse tempo desumano, de caos e escombros.

A lata que cai pela escada, com barulho intenso, é a representação desse mesmo mundo que se desfaz, que desmorona, que se transfere ao objeto barulhento e sem vida, de lata, do qual se contempla todo o movimento, todo o tempo, do primeiro ao último degrau. Efeito raro no cinema de Ozu, como também aponta Yoshida.

O filme é de tristeza indescritível. Pode-se se concordar que o diretor não se serve da estrutura dramática – tampouco da leveza ao captar a vida das famílias, de pais e filhos, de irmãos e irmãs – de seus melhores filmes. Ainda assim, essa jornada de seres isolados, entre restos, não permite desviar os olhos.

(Kaze no naka no mendori, Yasujiro Ozu, 1948)

Nota: ★★★★★

Veja também:
Os Irmãos da Família Toda, de Yasujiro Ozu

Ádua e Suas Companheiras, de Antonio Pietrangeli

Salta à frente, primeiro, a ternura. A maneira como vivem e se relacionam quatro mulheres em um novo negócio, um restaurante. O antigo ruiu: elas eram prostitutas, atuavam em bordéis antes da lei proibi-los na Itália. Fosse outro filme ou abordagem, talvez elas tivessem retornado logo ao antigo. No entanto, gostaram do novo. Transformaram-se.

Nos poucos dias em que vivem à frente do restaurante, quando têm poder maior e trabalham mais, ainda estarão à sombra de um homem em Ádua e Suas Companheiras. Há por trás um patrocinador, o verdadeiro dono do restaurante. Criminoso de ternos e carros caros, ele deseja maquiar ali um novo prostíbulo. À espera de clientes, as mulheres ficarão nos quartos, no andar superior do restaurante, em local afastado.

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Ádua é Simone Signoret, a mais velha e experiente entre elas. Em momento marcante, ela lembra seus dias de prostituta na guerra, quando homens faziam fila para tê-la nos braços. Em outro momento, a personagem de Emmanuelle Riva, Marilina, recorda que a idade de Ádua pesa contra ela e que no passado a mulher perdeu um filho.

Mulheres como Ádua carregam a história na forma, uma prostituta com ternura, por isso mesmo da estirpe de figuras inexistentes como a Cabíria de Federico Fellini. Não precisam contá-la. Apenas alguns indicativos, algumas frases perdidas entre brigas, dão conta de preencher o que o espectador precisa: Ádua viveu uma vida de problemas e deseja mudar.

Ao restaurante ela segue com três amigas, também prostitutas: a já citada Marilina, a corpulenta Milly (Gina Rovere) e a desavisada Lolita (Sandra Milo). Pouco a pouco, sob a direção precisa de Antonio Pietrangeli, que entre seus roteiristas tem Ettore Scola, é possível ver o que move essas mulheres, ao passo que a Itália transforma-se.

A começar pelo moralismo. Como em Rua da Vergonha, de Mizoguchi, as leis indicam a transformação, e para muitos a prostituição não é mais aceita como trabalho. Mas as mulheres precisam encontrar formas para sobreviver. Ao fim, o filme indica o pior: para muitas, o fechamento das “casas de tolerância” representou a saída à sarjeta, sob a chuva.

A prostituição não terminaria. As mulheres em cena tentam sobreviver a ela. O restaurante, o véu do novo prostíbulo, é a forma de resistência encontrada. E elas não precisam declarar as delícias dessa nova vida difícil, da cozinha à mesa dos clientes. O filme não esconde os caminhos sinuosos, o trabalho árduo. O que se vê é apenas a nova porta.

E a forma de Pietrangeli leva à Itália passada, ainda feita de prédios que se erguem, de homens honestos e, sobretudo, de prostitutas que buscavam na Igreja – como Cabíria – uma forma de redenção, além de deixarem ali algumas lágrimas. Tem mais a ver com o Fellini anterior a A Doce Vida, com a ternura que não exclui a tragédia.

Signoret e Riva lançam-se à tela como italianas. Não possuem as expressões das mulheres típicas àquele ambiente. Ainda assim conseguem a adaptação, a malícia, a explosão e, claro, a inocência de figuras comuns a essa Itália pós-guerra. A personagem de Signoret, como no famoso Almas em Leilão, reconhece que seu tempo passou.

Seu amante, o malandro vendedor de carros vivido por Marcello Mastroianni, mostra que ainda é possível se enganar. E que a mulher forte seria vencida pelo círculo vicioso e masculino de seu meio: o belo amante não deixaria escapar a menina mais nova; o espaço das prostitutas, a rua, seria então seu destino final, pior que qualquer bordel.

(Adua e le compagne, Antonio Pietrangeli, 1960)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Divinas Divas, de Leandra Leal
Rua da Vergonha, de Kenji Mizoguchi

Klute, O Passado Condena, de Alan J. Pakula

O que atrai Bree Daniels à prostituição é a possibilidade de interpretar e assim mostrar força. Nesse jogo, pensa ela, talvez com razão, não vence quem paga, o cliente, mas quem convence ter desejo e faz do corpo o produto perfeito, das palavras a arma que os homens talvez não encontrem, na vida comum, com tanta facilidade.

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A moça que não leva o nome ao título do filme poderia ocupá-lo facilmente. Klute, O Passado Condena é mais dela, menos da personagem-título, o investigador interpretado por Donald Sutherland (alguém que entrega sempre o oposto, a não interpretação). Bree vive sob a máscara da grande cidade; tenta ser atriz e só consegue sê-la como prostituta.

O beco em que se encontra ultrapassa a trama de assassinato que percorre o filme de Alan J. Pakula: é sobre prostituição, sobre a arte de viver para interpretar nesse ofício, não sobre um assassino em série que mata garotas de programa. É também sobre o espírito liberal de seu tempo, um filme nitidamente da Nova Hollywood, sujo, despojado, sempre a perder o controle sobre as personagens e deixar pontas soltas, a escapar da suposta trama.

É aqui que a prostituta chega ao divã. Não se sabe se é o primeiro filme em que uma prostituta procura uma psicóloga para se compreender melhor. E a resposta da outra, sendo então a figura paga para ouvir, colocando Bree como contratante, não a contratada, é a mais sincera possível: não há poção mágica para resolver problemas psicológicos.

O problema de Bree é explicado nessa mesma sessão de psicoterapia: mesmo com o empoderamento de sua interpretação, ela tem reservas em relação ao corpo. Ao oferecimento do objeto. Ainda assim, confessa que passou a gostar “porque não me fez sentir sozinha”. A aparição do investigador Klute muda tudo: Bree não poderá comprá-lo com o corpo. Sua interpretação terá de ser ainda mais convincente.

Klute chega a Bree enquanto procura por um homem desaparecido. A prostituta teria recebido algumas cartas obscenas do procurado. A investigação leva a crer na existência de outro homem, um assassino, também responsável por matar outras duas garotas de programa. Não é difícil concluir que Bree é a próxima da lista.

Pakula mantém o tom seco a cada nova cena. Em alguns momentos, enquadra as personagens do alto, como se estivessem sob vigia. Os créditos de abertura remetem à ideia de vigilância, com o gravador e as vozes, com as confissões – na verdade, interpretações – da protagonista, ao telefone. “As inibições são boas, pois é tão bom superá-las”, declara.

Das inibições sofre Bree ao se apaixonar por Klute. O filme não chega à confissão desse amor. Sua heroína nega-se até o fim. Na investigação que auxilia, com o investigador, ela sente-se correta demais, do lado limpo da história. Confessará, no plano final, em narração, que sua fuga poderá durar pouco. Poderá retornar a Nova York rapidamente. Não se escapa de seu meio natural quando se é autêntica.

Em seu meio, precisa se sentir suja. Pakula entrega a Jane Fonda uma de suas grandes cenas, talvez a maior de sua carreira, o momento em que, perdida, caminha entre pessoas, em uma festa, na qual beija um homem qualquer – com prazer, ou interpretando, não se sabe -, para depois, entre música alta, terminar ao lado de seu cafetão (Roy Scheider).

Não se pode negar a própria natureza. O assassino teria negado a sua. O homem engravatado, o poderoso sob a luz da janela de vidro, a ver e agarrar a cidade grande do alto do prédio, precisa se esconder. Vive outro tipo de interpretação. Nega a própria natureza e se destrói, ou destrói as mulheres que o fazem ver seu pior lado.

Klute é um grande filme sobre esconderijos. O gravador, na abertura e ao longo do filme, vem a confirmar a necessidade de expor esses esconderijos. Confissões, gravadas ou não, aos amantes de ocasião (clientes) e à psicóloga. “Por uma hora, sou a melhor atriz do mundo, a melhor trepada do mundo”, afirma Bree, a atriz, à sua ouvinte, na sessão de psicoterapia.

(Klute, Alan J. Pakula, 1971)

Nota: ★★★★☆

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Os 20 melhores filmes sobre prostituição

Jovem e Bela, de François Ozon

A jovem e bela protagonista não expressa sentimentos com facilidade. Sua frieza incomoda. Em sua primeira experiência sexual, com um belo rapaz alemão, à beira-mar, ela volta o olhar para o céu, para o lado; vê a si mesma, como se outra parte de seu ser a encarasse, a fizesse sentir vergonha. Talvez seja o momento em que descobre a ausência do prazer.

Ou, em Jovem e Bela, de François Ozon, não sentir o prazer que esperava sentir. Vive naquele amor de verão sua primeira decepção: o mundo ao redor, afinal, não é belo ou colorido como uma casa de bonecas, os irmãos mais novos não são tão inocentes quanto parecem, as mães e os padrastos não são corretos como deveriam.

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A mesma jovem que vive, ou não, esse amor de verão, uma adolescente um pouco sem rumo, prefere radicalizar: torna-se prostituta aos 17 anos. Vivida por Marine Vacth, Isabelle torna-se Léa, cresce alguns centímetros com o scarpin, veste terninho, solta os cabelos, diz ter 20 anos. É a garota dos desejos – e sonhos – de muitos homens mais velhos. Faz sucesso.

A verdadeira – sabe-se lá se existe, ou quem é – usa roupas de colegial, jeans, jaqueta um pouco longa, prende os cabelos e, perto da mãe e do padrasto, parece sempre menor, encolhida, às vezes criança. Vacth segue o conselho de Ozon: mantém-se em silêncio para provocar esse choque, para abrir essa possibilidade de transformação.

A referência à Bela da Tarde de Luis Buñuel vai muito além do título: como a musa Catherine Deneuve, a adolescente de Ozon conserva duas características: prostitui-se na parte da tarde e não esconde a indiferença em relação aos outros e aos seus sentimentos (parece ser má, mas talvez seja apenas fria e direta, ou real).

Isabelle busca mais do que dinheiro em suas investidas na prostituição. Ao seu psicólogo, mais tarde, confessa sentir prazer no perigo que a profissão carrega, a aventura que a leva sempre a um novo quarto, a um novo homem, ao inesperado. Não se trata apenas de buscar prazer ilimitado e com dinheiro; para Isabelle, a prostituição permite viver fora de seu “círculo perfeito”, o da aparente família perfeita.

E, nesse ponto, faz pensar de novo na personagem de Deneuve na obra de Buñuel: a menina rica, casada com um médico correto, em uma grande casa, que passa suas tardes em um bordel discreto, em Paris, para escapar da vida monótona e realizar suas fantasias. Mas no mundo de Isabelle permite-se ainda maior esconderijo. Graças à internet, os encontros são marcados a distância. Dispensa-se o ambiente do bordel.

Na ausência dos sentimentos da protagonista, Ozon oferece personagens secundárias frágeis, a começar pela mãe, interpretada por Géraldine Pailhas. A mãe tenta entender a opção da filha, tenta resolver seu “problema”, às vezes levando o espectador ao caminho mais cômodo e o retirando do mistério da personagem central. Ozon expõe uma normalidade ilusória. Como bem sabe Isabelle e o espectador de Jovem e Bela, a mãe também esconde segredos.

(Jeune & jolie, François Ozon, 2013)

Nota: ★★★☆☆

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8 Mulheres, de François Ozon

Manon – Anjo Perverso, de Henri-Georges Clouzot

A mulher não se deixa decifrar. O homem, ao contrário, não esconde quase nada em Manon – Anjo Perverso, de Henri-Georges Clouzot: é alguém apaixonado. Adicionada a essa diferença está a época, o pós-guerra, com miséria por todos os cantos.

E Clouzot, após a história da guerra, após uma viagem de navio, após um crime e outros problemas, ainda encontra tempo para lançar os amantes no deserto, ao fim. Ou seja, em outra miséria. O drama do filme retorna: o amor só leva ao pior.

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Os amantes, Manon e Robert, encontram-se nos dias finais da ocupação alemã nas França. Ele luta pelas tropas francesas, com apoio americano, e ela é acusada de colaboracionismo. Na verdade, descobrirá o espectador, ela estava alheia à questão política: queria apenas dançar com alguns homens de farda, levar uns trocados.

Manon, interpretada por Cécile Aubry, vive sob o efeito dessa cegueira, levada pelos sonhos e pelo desejo de recomeçar: quer bastante dinheiro, estar em festas, dançar a noite toda, vestir roupas caras. Quer a vida que o amor dos tempos do pós-guerra não podem lhe proporcionar. Fica entre o amor ao mundo e o amor ao homem.

Do outro lado, o ator Michel Auclair, como Robert, não esconde ser movido pelas emoções e não aceita o caminho mais fácil. É fraco, sim, ao contrário dela: é o mesmo homem com a metralhadora em mãos ou a companheira ao lado.

Quando Manon é detida pelos franceses e colocada sob o olhar de Robert, ele termina apaixonado pela prisioneira, e se deixa entregar com facilidade. A paixão súbita é um dos pontos baixos da obra de Clouzot. Será assim o tempo todo: tudo rápido e intenso, cada escapada e mudança do casal como se fossem as últimas.

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Há sempre peso nesse amor, com frases de efeito, textos que correrão pela mente do rapaz, ao fim, enquanto carrega um cadáver, ainda apaixonado.

Amor louco, que o consome a ponto de aceitar ser um criminoso para estar com a companheira. Tal história foi contada inúmeras vezes. A diferença é que Clouzot sequer se preocupa em dar mais cinismo à situação. Sua Manon é difícil de definir. Parece malvada e se altera com rapidez.

Nos belos bordéis que não eram tratados como bordéis, Manon será vista como uma “criança”. Isso explica seu fascínio: nunca parece capaz de fazer o que faz, não poderia ser mais que um anjo perverso sem deixar ver sua carne. E deixa.

Quando seu seio quase aparece, ao fim, enquanto é carregada por Robert, não é difícil imaginar que seu encanto acabou: o que ela tinha de proibido está entregue, ou quase. Ela está morta, para a satisfação do homem, que agora pode tê-la com exclusividade.

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Ainda sobre a cena do bordel, um velho homem deixa o local e esbarra em Robert ao sair. Fica bravo ao perceber que há mais pessoas por ali, clama por mais discrição. Impera o silêncio, o bom comportamento, em contraponto às ruas sujas e toda a miséria. Nem mesmo a cafetina chamará o local de bordel.

Essas mutações sintetizam o espírito de Manon, a personagem, contra a face de seu companheiro imutável. Clouzot consegue grandes sequências enquanto o casal foge e tenta sobreviver – entre bombas, entre a multidão no trem, entre a areia do deserto.

O amor resiste à guerra e à miséria, o que pode parecer inocência de Clouzot, a partir da obra de Abbé Prévost. Nesse meio, Manon desestabiliza o companheiro, e talvez seja mais carnal do que parece. Ele, sofrido, está destinado a carregá-la, viva ou morta.

Nota: ★★★★☆