filme sobre política

Segredos do Poder, de Mike Nichols

Sentir-se intoxicado pelos sinais da vida americana não é difícil em Segredos do Poder, de Mike Nichols. A começar pela expressão do candidato à corrida presidencial, o governador Jack Stanton (John Travolta), moldado ao jogo de aparências.

Um filme sobre política feita por políticos, homens de um mundo novo e estranho da propaganda. Há sempre o excesso, a dificuldade de esconder os pecados: há sempre alguma mulher a denunciar o candidato, a acusá-lo de sexo fora do casamento.

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Claro que ele rebaterá a acusação. Usará fieis escudeiros para buscar provas contrárias, ou para descobrir algo que possa acabar com a corrida do concorrente. No campo do poder vale tudo, mas Nichols não joga com o suspense ou com o drama.

Prefere a comédia, o jeito irônico do protagonista reservado, o candidato, e sobre o qual pesam dúvidas. Não é fácil acusá-lo. Ele mantém distância. Nichols faz uma radiografia do real, porque a verdade é sempre ocultada, sempre submetida à propaganda.

Até o fim, o sorriso falso de Travolta (perfeito para o papel) deixa perguntas. Seria apenas uma interpretação? Ou seria alguém que acredita no próprio papel a ponto de sequer perceber ser um canastrão, produto barato do marketing político?

Como A Grande Ilusão, de Robert Rossen, Segredos do Poder é contado pelo olhar de um jovem idealista. Ao político reserva-se a dúvida. Ao jovem, não se espera nada senão a ética, a maneira como se move em desespero, como se põe ao lado do espectador e oferece, sem surpresas, a segurança do olhar sóbrio (e talvez ingênuo).

Ao que parece, Henry (Adrian Lester) é escolhido para integrar a campanha de Stanton porque é negro, além de neto de um importante líder negro. É um estrategista de campanha, profissão à qual se lançam as raposas, não homens como ele.

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O protagonista tenta se convencer de que o candidato realmente vale a luta: não quer embarcar nessa candidatura apenas para produzir e vender um produto; quer, antes, ter certeza de que o produto pode ser vendido sem que precise esconder defeitos.

Tudo indica que ele não sabe muito sobre a engrenagem das coisas, e que ainda crê naquele homem sorridente, no meio da noite, sozinho, comendo uma rosquinha em uma lanchonete cercada por luzes verdes, em meio à escuridão. É a essa lanchonete que o mesmo jovem negro segue, à contramão dos outros escudeiros, para ter o prazer de encontrar ali o homem simples, não o candidato viciado em palanques.

E Stanton pode oferecer esse lado, o que talvez denuncie a ilusão que lança sobre si mesmo: ele realmente crê na personagem que moldou durante décadas, que vestiu e da qual não se separou mais. Personagem que preparou para ser o novo presidente.

Diferente, assim, do Broderick Crawford de A Grande Ilusão, o caipira convertido em governador e que não esconde, em suas passagens por bastidores, ser um político sem qualquer escrúpulo. Stanton é de outra estirpe: é a propaganda viva.

Stanton é estranho, pacato, típico americano médio e camarada, casado com a “mulher perfeita” encarnada por Emma Thompson, a única que não precisa mais acreditar em seus discursos. Em um filme em que quase tudo é falso, colorido e desagradável, a companheira é material obrigatório ao candidato e possível presidente.

(Primary Colors, Mike Nichols, 1998)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
O Homem Que Queria Ser Rei, de John Huston

Oito filmes recentes sobre a política feita por políticos

Há filmes em que a política é feita por gente comum, em relações cotidianas, greves e revoluções. E há aqueles em que a política serve quase sempre como manutenção do poder, quase nunca às causas nobres. A lista abaixo se situa nesse campo.

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As salas fechadas e os conluios de bastidores dão o tom dos filmes, de países e diretores diferentes – alguns inclinados à comédia e até ao suspense. Presidentes, senadores, ministros – todos com seus segredos e pecados em evidência.

W., de Oliver Stone

Depois de abordar alguns momentos conturbados dos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e a morte do presidente John Kennedy, Oliver Stone leva à tela uma das figuras mais controversas da política recente: George W. Bush. Mesmo sem o vigor de suas obras passadas, como Platoon e Nascido em 4 de Julho, o filme tem momentos interessantes e engraçados, como o “batismo” do jovem Bush na universidade.

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Il Divo, de Paolo Sorrentino

Homem aparentemente pacato, o senador italiano Giulio Andreotti mais parece um vampiro. Articulador de bastidores, sempre de fala lenta, ar sinistro. Difícil não pensar em Nosferatu, o monstro sem alma. O papel cabe a Toni Servillo, fiel colaborador do cineasta. O filme – como a personagem – não é fácil, sobretudo porque o político nunca se assume um vilão. Sorrentino oferece uma figura repulsiva e distante.

il divo

Tudo Pelo Poder, de George Clooney

Uma sequência resume a briga pelo poder e a política nos tempos atuais: um assessor entra no carro do líder vivido por Clooney e, sem acompanhar o diálogo no interior, o espectador já sabe o que ocorreu: ele foi dispensado. Nesse jogo de bastidores cheio de tramoias, passado na corrida pelas eleições americanas, há um assessor (Ryan Gosling) que sabe demais e que, a certa altura, deverá deixar o idealismo de lado.

tudo pelo poder

O Exercício do Poder, de Pierre Schoeller

Nesse filme extraordinário, o ministro dos Transportes da França encara diferentes desafios. O acidente de ônibus com crianças é apenas o início de seu “inferno astral”, que ainda inclui a guerra de egos com outro ministro, as pressões para privatizar terminais de trem e a morte de seu motorista em uma estrada ainda não inaugurada. O talentoso Olivier Gourmet dá o tom ideal para essa personagem sob pressão.

o exercício do poder

Lincoln, de Steven Spielberg

O diretor de A Lista de Schindler reconstitui as articulações de Abraham Lincoln para aprovar a emenda que possibilitaria o fim da escravidão. Apesar de traços de bondade e justiça em excesso nos trejeitos de Daniel Day-Lewis, o filme é lúcido na amostragem das negociações para a compra do voto dos políticos da oposição, os democratas. Passa-se durante a Guerra Civil, com um Tommy Lee Jones na medida.

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O Palácio Francês, de Bertrand Tavernier

Interessante filme sobre o poder do discurso político, a partir da situação de um tal Arthur Vlaminck (Raphaël Personnaz), que da noite para o dia se torna responsável pelos textos do ministro das Relações Exteriores da França. O talentoso Tavernier explora as bobagens do político distante das falas públicas, em suas repetições e exageros – com o olhar do jovem que passa a conviver nos bastidores.

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Viva a Liberdade, de Roberto Andò

A trama central pode parecer batida: homem assume o posto de seu gêmeo quando este, um político influente, sai de cena. O problema – ou não – é que o novo líder fala o que vem à mente, o que, em seu caso, passa a ser positivo. E muda a própria imagem dos outros a respeito do irmão sumido, como da própria política: o que vence é a espontaneidade, a liberdade para dizer o que quiser. Na política, algo raro.

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Getúlio, de João Jardim

Como Lincoln, faz-se em salas fechadas, com acordos, pressões. Por outro lado, é sobre perdas. É sobre a solidão do presidente, que prefere a tragédia e assim entrar para a história à possibilidade de sair algemado – como visto em seus pesadelos – do Palácio do Catete. Como Getúlio Vargas, Tony Ramos tem boa interpretação. Nele, vê-se a fragilidade do poder, a impotência do líder que se suicida para se eternizar.

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