filme sobre Holocausto

Paraíso, de Andrey Konchalovskiy

Os mortos relatam suas experiências à câmera. Justificam alguns de seus atos, acompanhados por expressões de dor e arrependimento. O interessante recurso narrativo às vezes soa cansativo e aos poucos consegue dar mais profundidade a Paraíso.

A protagonista é a russa Olga (Yuliya Vysotskaya), presa ao ajudar crianças judias na França ocupada e levada depois a um campo de concentração. Mulher forte que talvez sonhe com um paraíso possível em meio à dor: frente a frente com Deus, ela talvez tenha dúvidas se é ou não digna do reino dos céus.

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Evidente que a passagem será reservada para poucos. Olga é vítima. Presa, é interrogada pelo capitão da polícia francesa e tenta comprar a liberdade de um amigo por meio de seu corpo, seu sexo, em uma cena incrível na qual ergue a saia para a autoridade. A câmera, posicionada ao alto, dá a ideia de vigilância, de intrusão.

O capitão (Philippe Duquesne) terá vida curta. Além de que vive com a mulher e com o filho pequeno, dele se sabe pouco. O diretor Andrey Konchalovskiy escreveu o roteiro de Paraíso com Elena Kiseleva e confere algum peso à personagem, um francês corrompido que tenta não enxergar os problemas à sua volta.

Interessante notar que, nas andanças com o filho, eles param em frente a um grande formigueiro. A imagem dá destaque às formigas, às pequenas partes vivas e em movimento nesse mundo em guerra, à sombra do Holocausto. Mundo no qual algumas pessoas serão menos que insetos, e no qual quase tudo é reduzido a partículas.

As formigas, as toneladas de metal, os vários óculos que formam uma montanha, as malas abertas, empilhadas, das vítimas judias levadas aos campos de concentração. Após a morte do capitão por forças de resistência, Olga será levada a um desses locais.

As sequências do campo de concentração são fortes. A fotografia em preto e branco, de Aleksandr Simonov, revela a bagunça, o desajuste, o desespero das mulheres cercadas por grades, madeira, homens violentos e cães, mulheres que precisam saquear cadáveres para vestir novos calçados e até para tomar um pouco de sopa.

À miséria Konchalovskiy retorna não para apresentar mais um entre tantos filmes sobre o Holocausto. Paraíso leva à situação de duas pessoas diferentes – uma autoridade nazista e a mulher presa – que, a certa altura, precisam aceitar a própria morte.

Olga reencontra Khelmut (Christian Clauss), rapaz de descendência aristocrática que tenta descobrir casos de corrupção entre trabalhadores e internos do campo de concentração. Ambos trocaram momentos e tiveram um breve romance na Itália, em algum verão passado, e voltam a se encontrar no pior lugar do mundo.

As personagens são construídas de forma ambígua, a começar por ele. Em suas confissões à tela, como se falasse a um velho filme com defeitos – e como se Deus estivesse a captar esses relatos em película –, ele não esconde adoração ao nazismo.

Para ele, o paraíso sonhado pelos nazistas viria com o extermínio dos judeus, sendo o sangue um estágio para se chegar a um mundo melhor. Guerras vêm e vão, diz um homem. No fundo, ao também aceitar o próprio fim, o som do vento que abre a janela, os fantasmas que o perseguem na floresta, depois o barulho das bombas, é como se Khelmut enfim reconhecesse que a ideia de paraíso é o devaneio de um louco.

Entre o policial francês, a mulher presa e o oficial alemão, Konchalovskiy constrói um filme de diferentes olhares, sobre o sentimento de um fim inevitável e sobre como os relatos – sinceros, sem floreios – fazem das pessoas muito mais do que partículas.

(Ray, Andrey Konchalovskiy, 2016)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
O Filho de Saul, de László Nemes

O Filho de Saul, de László Nemes

É natural pensar em descrença. O cenário contribui. Em um campo de concentração mantido pelos nazistas, o homem tem de guiar judeus às câmaras de gás, depois retirar seus corpos, limpar o local. O pior trabalho do mundo, no pior dos ambientes.

A descrença não vem. Tem-se o oposto em O Filho de Saul. Mesmo à beira da morte certa, já que os trabalhadores judeus também seriam exterminados, o protagonista Saul (Géza Röhrig) ainda deseja dar um enterro digno ao filho, com rituais religiosos.

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É o mais importante no extraordinário filme de László Nemes: o humano, mesmo nos piores momentos, não se desprega da ideia de continuidade, seguindo seus próprios e necessários rituais, sem se limitar ao ambiente físico que o rodeia.

Para comprovar a dor – e à oposição à crença de Saul –, o diretor compõe uma obra física, realista, com pouca profundidade de campo, com a câmera colada à personagem. Os outros, por isso, são pessoas de passagem, vozes e corpos ao lado.

Interessa a situação de Saul, seu drama, sua caminhada, com suas costas cortadas pelo vermelho que forma um “x”, como se estivesse sempre marcado: ainda que não morra imediatamente, ser executado, ali, é apenas questão de tempo.

O espectador percebe. Palavras não são necessárias. O roteiro pende ao físico, o que faz de algumas tramas – a possível fuga, a compra de soldados com objetos valiosos – ações secundárias. Não é para encontrar uma história, mas para se deixar levar pela personagem central – que tampouco se explica, sem origem definida.

O único elo com Saul é o filho. No entanto, alguém lhe diz que o garoto encontrado na câmara, à beira da morte, talvez não seja quem o protagonista imagina. O homem ao centro, a andar em círculos, talvez o tenha adotado nesses instantes finais. O filho – de sangue ou não – é a morte da própria humanidade. E não há dor maior do que ela.

A situação agiganta-se sem que se recorra a novos contornos: o que Saul precisa é desviar dos outros, das outras tramas, do trabalho sem fim e talvez até da salvação para entregar o filho a Deus. A vida que resta resume-se quase toda a um corredor escuro, apertado, a ser percorrido. O público, em O Filho de Saul, aperta-se com ela nessa jornada insana, nunca injustificada. O que está em jogo é uma crença.

Mais tarde, enquanto observa a porta da cabana que serve de esconderijo aos judeus, Saul verá outra criança. Verdadeira ou não, corrobora a ideia de Nemes: no Holocausto, qualquer ideia de liberdade é ilusória. A ideia do filme está estampada, faz doer: não há outro caminho senão o da morte, como anunciava a letra vermelha nas costas, ou como era possível observar nos últimos suspiros do filho, no interior da câmara de gás.

(Saul fia, László Nemes, 2015)

Nota: ★★★★★

Veja também:
Ilha do Medo, de Martin Scorsese