filme francês

Nocturama, de Bertrand Bonello

Entre bombas e explosões, uma estátua queima em Paris. Não qualquer uma: é a estátua dourada de Joana D’Arc, a pensar na luta, na liberdade, no gesto feminino. Quem a encara antes de atear fogo é uma das garotas que participam dos atos terroristas apresentados pelo filme de Bertrand Bonello. A estátua, na imperfeição do talho, na composição da face, parece reter lágrimas. A menina observa-a, como se a compreendesse.

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Seu grupo, em Nocturama, mais um filme extraordinário de Bonello, decide praticar atos terroristas em Paris. A obra conversa com a atualidade, em tempos de explosões em estádios, de chumbo em casas noturnas. Mas Bonello revela os revoltados de dentro, jovens de classe média que se unem para abalar a ordem, dar um recado, não necessariamente para matar.

Mais tarde, indagam-se sobre quantos teriam morrido com seus atos. Primeiro estão livres, em andanças, sob a montagem alternada, de um lado para outro: pelo metrô, pelas ruas, pelo interior dos carros, pelas portas que não deveriam atravessar, armados para matar alguém e, no caso da garota citada, próxima à estátua atingida pelas chamas.

Das ruas seguem a uma loja de departamentos. São cercados – e vestidos, levados a consumir com o furto, por diversão – por produtos de luxo. Marcas, beleza sem vida, manequins que terminam por refletí-los: alguns bonecos possuem as mesmas roupas que as personagens, em estranha e consciente mescla que resulta na inutilidade dos atos em questão: ao tentarem se livrar das amarras do sistema, terminam como sempre foram.

Há, portanto, distância incalculável entre a estátua da mártir e o boneco feito em linha de produção, para a linha de produção: cada forma morta tem sua representação própria e, frente aos jovens, servirá aos questionamentos aos quais Bonello conduz o público. Não estranha que o filme tenha sido rejeitado por tanta gente, pois não diz a que veio.

Seria, sob o julgamento fácil, um filme sobre terrorismo. Mais parece um filme sobre niilismo, descrença, sobre questionar o modelo vigente: em diálogo com a amiga e cúmplice, um dos jovens arquitetos dos atos dá indicações de seus impulsos. Eles conversam sobre política em uma lanchonete. “Qual a sua teoria?”, pergunta a menina. “Basicamente, o século 20 demonstra que a democracia perfeita cria problemas, e só pode ser julgada por seus críticos, não pelas suas consequências”, responde. Em seguida, conclui: “observamos que a civilização tem as condições necessárias para a ruptura da sociedade”.

Cerca-se pelo mal-estar. Da tensão das ruas, dos atos, do tempo contado no relógio, do celular que reproduz a comunicação em imagens – não poderia ser diferente – desses tempos atuais. Jovens matadores decididos a explodir o mundo, ou parte da capital que, diziam alguns, aspirava à liberdade plena. Jovens de roupas coloridas, não tão distantes de crianças.

Por isso o filme assusta tanto: é da reprodução do medo que se fala. Primeiro, o medo do que vem pela frente; depois, o medo da morte, a madrugada no interior da loja, quando a maior parte – ou todos – entende que não há saída. Está presa àquilo que deveria combater, talvez sem enxergar, ou entregue a suas benesses: um templo de consumo.

Um deles, interpretado por Finnegan Oldfield, convida um casal de mendigos para o interior do loja. Enquanto Paris pega fogo, do lado de fora, os pobres esbaldam-se sob a imagem de uma marca qualquer, sob a facilidade de tomar e consumir. O momento em que banqueteiam faz pensar em Viridiana, de Buñuel, com o falso sentimento de acesso ao paraíso dos ricos.

Os jovens terroristas acompanham as novidades pela televisão. Aguardam o amanhecer. O filme oferece, em momentos, o retorno ao passado, a um fato ocorrido há horas ou, depois, há instantes. A narrativa de Bonello oferece o mal em diferentes pontos de vista, enquanto a música é cortada por tiros, ao passo que o fim é iminente.

(Idem, Bertrand Bonello, 2016)

Nota: ★★★★☆

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Custódia, de Xavier Legrand

A família está aos cacos, assiste ao próprio fim: a mãe não consegue abraçar o homem que antes chamava de marido, o filho pequeno coloca-se ao lado do pai à força, a filha adolescente acredita que fugir seja o melhor a fazer. A família ainda luta para se manter, ainda que isso, em Custódia, de Xavier Legrand, seja quase impossível.

Começa na sala da juíza, à meia-luz, entre créditos, onde tem início mais um dia de trabalho, outro caso. Em seguida, em novo espaço, os rostos impassíveis e os argumentos que se chocam, dos advogados, inviabilizam a escolha de um lado. O espectador assiste ao teatro dos bons modos, das mentiras, não sabe ao certo em que ponto reside a verdade.

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O que torna difícil, por sinal, a continuidade: ao não entender ao certo essas pessoas, na impossibilidade de penetrá-las, o público, em algum limite, pode esperar por qualquer coisa. Será assim até certa altura do filme: um jogo de olhar distanciado.

O drama aposta, antes, em suposições, em pistas, em relatos que se cruzam: a história começa quando muito já ocorreu, no ponto em que o público fixa-se como o juiz, obrigado a ver de fora, a tentar analisar os lados sem saber, ainda, o que ocorre nos encontros exteriores, nas visitas do pai, nas saídas do filho, até mesmo nas intenções da adolescente.

Dói porque revela, pouco a pouco, o que não se quer: talvez o pai fosse mais humano, sob a forma avantajada de Denis Ménochet, mas talvez seja justamente o que se espera. Ou não. Resta respingos de dúvida, esse “benefício” que mais maltrata do que adula. O homem migra do gigante às lágrimas ao monstro que, em doses parcas, toma forma.

A mãe, interpretada por Léa Drucker, é ainda mais distante. Ela não quer o filho com o pai. O menino também não quer passar o fim de semana com o homem. A decisão judicial é outra, baseia-se na impressão que o pai transmite no encontro a portas fechadas com as autoridades: antes do gigante que cai em lágrimas ou cresce como monstro existe um homem contido, que ama o filho, que ainda não aceitou o fim da família.

Custódia é sobre peças que não se encaixam senão à força, à base das pequenas mentiras do menino (nem sempre funcionam, ou nunca), aos gestos silenciosos, aos movimentos sob o escuro do quarto, no dia seguinte, momento em que o terror retorna, e ainda pior – momento em que o pai, agressivo, armado, bate à porta do apartamento.

Talvez funcione como alerta à cegueira da Justiça: grita, e cada vez mais alto, sobre a necessidade de enxergar a vida como é, do lado de fora, longe das paredes frias do tribunal, da sala pouca iluminada da juíza, das falas prontas e aparentemente assertivas dos advogados. É preciso chegar – e aí reside o grande desafio – à vida como ela é.

E à frente se constata o pior: nem mesmo os buracos de bala, na porta de madeira, dão conta de revelar quem realmente são essas pessoas. Não se chega aos piores, aos monstros, ainda que seja tentador – ao som do choro de mãe e filho, na banheira – acusar o homem de louco e encarcerá-lo. Nele há desespero, descontrole, e amor.

Há ainda o menino, o ponto fraco, a vítima maior. Entre o fogo cruzado, a criança tenta evitar mais problemas para a mãe e aceita o fim de semana com o pai. A qualquer sinal de mentira, o homem enfurece, e o garoto, lentamente, comprime a musculatura da face, deixa ver as lágrimas, ainda que em silêncio. A proximidade de seu rosto, no interior do carro, remete às personagens infantis dos irmãos Dardenne, àquele cinema físico banhado por detalhes, suspiros, pequenos movimentos em que o drama é iluminado sem exagero.

Destaque para o pequeno Thomas Gioria, de cabelo louro lançado aos olhos, às vezes tomando o protagonismo de Custódia. Está por ali desde o início, quando sua carta é lida pela juíza, e termina ao fundo do corredor criado entre um apartamento e outro, à mira da vizinha que acionou a polícia para conter o pai enfurecido e armado. Mãe e filho, observados, não serão mais os mesmos.

(Jusqu’à la garde, Xavier Legrand, 2017)

Nota: ★★★★☆

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Bastidores: A Bela e a Fera

Quanto mais tento escutar o trabalho do filme mais me apercebo que a sua eficácia é de ordem íntima, confessional e realista. Um filme não é um sonho que se conta, mas um sonho que nós sonhamos todos juntos.

Nada exige mais a verdade do que a ficção. A beleza é apenas acidental, senão é o comboio que parte a uma certa hora e chega a uma certa hora.

Jean Cocteau, cineasta, realizador de A Bela e a Fera. As falas citadas foram retiradas da verbete dedicada ao diretor no Dicionário dos Cineastas, de Georges Sadoul (Livros Horizonte; pg. 68). Abaixo, o ator Jean Marais recebe a maquiagem para se transformar na Fera.

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Bastidores: A Regra do Jogo

Léon Morin – O Padre, de Jean-Pierre Melville

Acreditar em Deus não é uma escolha, é um sentimento. Pelo menos é o que argumentam – ou o que descobrem – as personagens de Léon Morin – O Padre, de Jean-Pierre Melville. No caso da protagonista, Barny (Emmanuelle Riva), é sentir um ardor que revela, o que a faz correr à companhia do padre para relatar seu sentimento.

Para ela, antes uma ateia francesa vivendo em uma pequena cidade sob a ocupação alemã, durante a Segunda Guerra Mundial, a descoberta parece algo até mesmo racional: ao padre, ela revela que a descoberta da fé não fez acontecer nada. Pelo contrário, “tudo parou”. Talvez nesse ponto, nesse pequeno diálogo perdido, esteja o sentido do filme de Melville.

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Como sentimento, a fé surge de maneira abrupta, abate, leva, o que com certeza tem ainda mais peso em um período sombrio como o retratado aqui. A partir do livro de Béatrix Beck, Melville conta a chegada da mulher a esse sentimento, a esse estado de paralisia, ainda na metade do filme. O interlocutor é a personagem-título.

O padre surpreende. Diz o que não se espera, contribui à mudança da mulher. O que ele não esperava era justamente a mudança dela. Fosse outro, acolheria a ovelha, comemoraria a conversão. Mas Morin é mais racional do que parece, e a fé, em seu caso, está calcada em sentimentos incontornáveis, algo preso à própria natureza do ser.

“Esta garota está doida”, observa ele, rapaz pouco chegado a expressões fortes. O filme todo, ou quase, concentra-se no embate entre ambos, homem e mulher, padre e ateia. Cada lado, aos poucos, move-se ao impensável: ela à religiosidade, ele à dificuldade de aceitar a mudança dela – talvez por não ser algo típico de sua natureza.

Talvez por ser ela, em pele, a mulher combativa, a típica personagem moderna que confronta sem perder sua característica natural. E por serem tempos, aqueles, de resistência: para fora da igreja, a guerra batia à porta de todos, a França era uma nação tomada e sua instituição, reconhece o padre, havia perdido parte de seus fiéis camponeses.

Barny entra na igreja, certo dia, no início dessa história, apenas por divertimento. Deseja, no alto de sua descrença, um padre a afrontar. Escolhe a cabine de Léon Morin, talhado por um impassível – e por isso improvável, em outra curva curiosa – Jean-Paul Belmondo. Longe do vigarista, do pequeno bandido que viveu, por exemplo, em Acossado.

O primeiro encontro de ambos, no confessionário, é filmado parcialmente sem divisões por Melville. Em suas aparentes diferenças, estão unidos, partes do mesmo universo. Melville oferece equilíbrio pelo embate. Mais tarde, após a conversão da mulher, serão filmados em plano e contraplano, divididos sempre pela tela do confessionário.

A mulher faz do cristianismo uma forma de embate. Morin transforma-a. Para uma amiga que flerta com os inimigos, ela diz que uma cristã “não tem direito de aceitar essa amizade [com os alemães]”. “É melhor uma França morta que em pecado mortal”, continua Barny. Entregar-se ao invasor equivale a se prostituir.

Enquanto Morin ouve uma amiga da protagonista, o espectador ouve apenas a segunda. Seus pensamentos, suas conclusões sobre a beleza do padre e o quanto isso pode ser errado. Mas Cristo era belo também, conclui ela. E Morin é um belo servo de Deus. A voz como recurso narrativo oferece cumplicidade, o espaço ao qual apenas o espectador tem acesso, como no primeiro filme de Melville, O Silêncio do Mar.

Sentimentos inexplicáveis, para além da religiosidade. Como a estranha atração pelo oficial nazista em O Silêncio do Mar, o que se desenrola entre a camponesa e o padre não é totalmente explicado. Ela sonha com o beijo dele. Ele vai embora ao perceber o amor dela. O amor pelo padre escapa à racionalidade. É como aceitar a existência de Deus.

(Léon Morin, prêtre, Jean-Pierre Melville, 1961)

Nota: ★★★★☆

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Emmanuelle Riva (1927–2017)

Jovem e Bela, de François Ozon

A jovem e bela protagonista não expressa sentimentos com facilidade. Sua frieza incomoda. Em sua primeira experiência sexual, com um belo rapaz alemão, à beira-mar, ela volta o olhar para o céu, para o lado; vê a si mesma, como se outra parte de seu ser a encarasse, a fizesse sentir vergonha. Talvez seja o momento em que descobre a ausência do prazer.

Ou, em Jovem e Bela, de François Ozon, não sentir o prazer que esperava sentir. Vive naquele amor de verão sua primeira decepção: o mundo ao redor, afinal, não é belo ou colorido como uma casa de bonecas, os irmãos mais novos não são tão inocentes quanto parecem, as mães e os padrastos não são corretos como deveriam.

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A mesma jovem que vive, ou não, esse amor de verão, uma adolescente um pouco sem rumo, prefere radicalizar: torna-se prostituta aos 17 anos. Vivida por Marine Vacth, Isabelle torna-se Léa, cresce alguns centímetros com o scarpin, veste terninho, solta os cabelos, diz ter 20 anos. É a garota dos desejos – e sonhos – de muitos homens mais velhos. Faz sucesso.

A verdadeira – sabe-se lá se existe, ou quem é – usa roupas de colegial, jeans, jaqueta um pouco longa, prende os cabelos e, perto da mãe e do padrasto, parece sempre menor, encolhida, às vezes criança. Vacth segue o conselho de Ozon: mantém-se em silêncio para provocar esse choque, para abrir essa possibilidade de transformação.

A referência à Bela da Tarde de Luis Buñuel vai muito além do título: como a musa Catherine Deneuve, a adolescente de Ozon conserva duas características: prostitui-se na parte da tarde e não esconde a indiferença em relação aos outros e aos seus sentimentos (parece ser má, mas talvez seja apenas fria e direta, ou real).

Isabelle busca mais do que dinheiro em suas investidas na prostituição. Ao seu psicólogo, mais tarde, confessa sentir prazer no perigo que a profissão carrega, a aventura que a leva sempre a um novo quarto, a um novo homem, ao inesperado. Não se trata apenas de buscar prazer ilimitado e com dinheiro; para Isabelle, a prostituição permite viver fora de seu “círculo perfeito”, o da aparente família perfeita.

E, nesse ponto, faz pensar de novo na personagem de Deneuve na obra de Buñuel: a menina rica, casada com um médico correto, em uma grande casa, que passa suas tardes em um bordel discreto, em Paris, para escapar da vida monótona e realizar suas fantasias. Mas no mundo de Isabelle permite-se ainda maior esconderijo. Graças à internet, os encontros são marcados a distância. Dispensa-se o ambiente do bordel.

Na ausência dos sentimentos da protagonista, Ozon oferece personagens secundárias frágeis, a começar pela mãe, interpretada por Géraldine Pailhas. A mãe tenta entender a opção da filha, tenta resolver seu “problema”, às vezes levando o espectador ao caminho mais cômodo e o retirando do mistério da personagem central. Ozon expõe uma normalidade ilusória. Como bem sabe Isabelle e o espectador de Jovem e Bela, a mãe também esconde segredos.

(Jeune & jolie, François Ozon, 2013)

Nota: ★★★☆☆

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