filme de terror

A Carruagem Fantasma, de Victor Sjöström

À rua ou por cômodos pobres, as personagens trocam de roupas como trocam de estados: um figurino esfarrapado logo indica toda a podridão do universo em destaque em A Carruagem Fantasma, obra-prima de Victor Sjöström. Quando nega a ajuda de uma salvacionista, a personagem principal apela justamente ao figurino: rasga-o com alegria.

Das roupas esfarrapadas – ou dos esfarrapados, mendigos alcoólatras – segue-se ao espírito. Do realismo à mágica, não de um ao outro, mas juntos, unidos. As fusões de imagens, nessa história de idas e vindas no tempo, passada em noites de ano novo, cercada de mistério e tons místicos, levam ao encontro de humanos com fantasmas.

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Ao centro há um homem bêbado que foi preso, que perdeu a mulher e as filhas pequenas, que perdeu, sobretudo, a consciência e a bondade. Pode parecer piegas. O cinema muda retira tal peso, a suposta vulgaridade conferida ao drama, ou ao dramalhão. O crítico e historiador Georges Sadoul não considera A Carruagem Fantasma o melhor feito de Sjöström. Aponta “sua predicação moralizante, salvadora e antialcoólica”.

Sadoul, sobre o Sjöström ator, diz que “assemelha-se aos filmes que realizou: um pouco pesado e talvez desajeitado, mas profundo, possante, viril, impregnado de uma profunda e diversificada humanidade”. Difícil discordar. O peso, nesse caso, não é demérito. Sjöström deixa senti-lo no homem errante, embriagado, gozador, alguém mau.

Ele é deixado pela mulher comum, correta, forte. Alguém boa demais para alguém transformado, possuído pelo inexplicável. Inclinado à selvageria da qual sofre o casal de outro grande filme do cineasta, O Fora-da- Lei e sua Mulher, em seu encerramento. O frio, o isolamento, a pobreza – os problemas repetem-se à sombra da carruagem que se aproxima.

É quando o cineasta sueco lança-se ao mágico: a carruagem tem a função de buscar o espírito dos mortos e é guiada pela própria Morte. Na verdade, o espírito de um homem converte-se nesse ser de foice e corpo coberto pelo tecido, de rosto escondido. Espírito que morre à meia-noite de ano novo e, a partir de então, passa um ano no ofício.

A história é relembrada pelo próprio protagonista, David Holm, interpretado por Sjöström. Os acontecimentos concentram-se naquela noite de ano novo, enquanto Holm conta a história do ano anterior, quando um amigo morreu, o mesmo que lhe relatou a lenda da carruagem. Nada é por acaso. As peças logo se encontram. O terror tem humanismo.

Holm não precisa ser explicado. O espectador não precisa vê-lo sendo preso, mas apenas encarcerado. Não precisa do momento de seu primeiro gole, ao se deixar levar pela bebida. Ou mesmo o problema de seu irmão, que, também alcoólatra, matou um homem. O universo de Holm esfarela à medida que, relembrada pela Morte, sua história avança.

Como adiantam as primeiras cenas, há uma figura feminina importante. Jovem santificada pelas imagens de Sjöström e pela ausência de maldade. Nesse meio de imperfeições, ela (Astrid Holm) adoece depois de conhecer Holm, por quem está apaixonada. Pobre menina bondosa que amou o homem errado e está disposta a salvá-lo, capaz de tentar uni-lo, mais tarde, à antiga mulher, que fugiu do campo à cidade.

A mesma moça costurou a roupa de Holm, deu-lhe abrigo. A surgir nos momentos problemáticos e dar ao ambiente algum equilíbrio, alguém a dialogar com a morte. Ela, quase um fantasma, deixa o próprio corpo; e Holm, destinado a se tornar o próximo na fila da carruagem, mas ainda obrigado a encará-la, revê a vida de tropeços.

A Carruagem Fantasma fica entre o social e o fantasmagórico, e por isso é difícil de definir. É também uma história de amor impossível, sobre seres que só podem se tocar – e se compreender, e ver a bondade e o erro – quando convertidos em espírito, ou Morte.

(Körkarlen, Victor Sjöström, 1921)

Nota: ★★★★★

Veja também:
O Fora-da-Lei e sua Mulher, de Victor Sjöström
O Fora-da-Lei e sua Mulher, um dos favoritos de Ingmar Bergman

It: A Coisa, de Andy Muschietti

Todas as crianças em cena – algumas mais, outras menos – têm problemas com adultos. Vivem, por causa deles, o medo diário, e são incompreendidas. São abusadas, deixadas de lado, contrariadas. Estão aos cantos, em universo próprio, para encontrar o que negam talvez nos pais, nos adultos, com os quais se limitam a trombar: a face do mal.

A essas crianças, ou pré-adolescentes, em It: A Coisa, é mais fácil enxergar o mal no palhaço, personificação, pelo imaginário, que leva aos problemas, à maldade direta. Mal pelo mal, talvez, ou medo pelo medo. O palhaço Pennywise (Bill Skarsgård) tem os traços da alegria e da maldade em um só, e ambas características não raro se confundem.

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O problema dos palhaços com seu público-alvo, as crianças: podem gerar graça e medo em semelhante intensidade, podem ser convidativos para uma brincadeira ou mesmo para um ato de crueldade. Figura perfeita ao medo, ao macabro, a partir do imaginário não de um, mas do grupo de amigos – entre eles uma menina – que divide seus problemas.

Como contar ao outro o drama que vivem em casa, como crescer com a impotência e o trauma que carregarão para o resto da vida? As perguntas poderiam persistir, ser evocadas e levadas à frente no filme de Andy Muschietti, não fosse a insistência em criar algo que declina à mais baixa sucessão de sustos e momentos de medo.

Há, ao menos, a fidelidade a esse sentimento, ainda que seja fácil reproduzi-lo quando se tem algumas peças no tabuleiro: crianças, palhaço, esgotos, porões escuros, portas rangendo, casas aos pedaços e toda uma atmosfera anterior, a dos anos 80, momento em que a tecnologia ainda não havia ocupado certo espaço na vida dessa garotada.

Preserva-se o aspecto de um tempo perdido, com a cara dos filmes dos anos 80, nas histórias de adolescentes fujões, aventureiros, camaradas, que procuram fora de suas casas a razão do medo – e uma forma de enfrentá-lo – que talvez esteja no interior das mesmas, ao contrário do que se espera da família ideal, da boa família americana.

Ainda que o filme não ajude, tais questões são inescapáveis. Pennywise, o palhaço de cabeça avantajada escondido atrás de balões vermelhos e da própria história da cidade, em fotos antigas, também tem muito a explicar. Mais que as crianças, a própria cidade – pequena, simples, acolhedora – talvez não tenha superado seus medos.

O que explica o fato de o palhaço retornar de geração em geração para assustar os pequenos, para bagunçar a realidade – distorcida, estranha, à qual não se tem acesso – dos adultos. Os mais velhos e malvados têm seus motivos para ser como são, para amedrontar os filhos, ou simplesmente para deixá-los à mercê do medo: eles também conheceram Pennywise.

O palhaço, por sua vez, não é construído. Não é uma personagem concreta, sequer tem vida. É apenas a livre expressão do medo, a surgir nos momentos inesperados. Ou, como deixam ver os deslizes da narrativa, justamente nos esperados. It: A Coisa tenta gerar medo sem ultrapassar o susto, as aparições relâmpago do vilão, os ataques do monstro de mil dentes. Quem paga para levar sustos, não para assistir ao filme, certamente será entretido.

(It, Andy Muschietti, 2017)

Nota: ★☆☆☆☆

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Raw, de Julia Ducournau

O Alerta Vermelho da Loucura, de Mario Bava

O protagonista de O Alerta Vermelho da Loucura assume seus problemas desde o início. A personagem é uma assassina, rapaz belo com roupas belas, sob as cores e os exageros da época, no início dos anos 70 – as boates ao som de música eletrônica, o figurino e os gestos das modelos atraentes que desfilam por seu ateliê.

Esse homem atormentado – que mata mulheres vestidas de noiva para retornar ao dia em que sua mãe morreu e talvez descobrir os motivos dessa morte – conversa com o espectador, confessa-se. Como, por sinal, fazia o protagonista de Ensaio de um Crime, de Luis Buñuel. O filme de Mario Bava descende da obra do mestre espanhol.

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Antes dos assassinatos há um rapaz atormentado, efeminado, de olhar penetrante, em dúvida. Não esconde a impotência. Curiosamente, a afetação de Stephen Forsyth age a favor do bom resultado final. O assassino, John, adora seu trem de brinquedo, sua caixa de música, as flores sob as quais enterra algumas mulheres, os vestidos de noiva.

Como o Archibaldo de la Cruz de Ensaio de um Crime, ele mantém um incinerador em seu castelo e gosta de se aproximar de suas manequins, sente prazer pelas formas femininas que pode controlar. Talvez as únicas. John sofre com fantasmas femininos, o da mãe e o da mulher, Mildred (Laura Betti), que a certa altura passa a atormentá-lo.

“O tempo desfigura as coisas”, diz a freira que estoura na tela, depois da imagem das pernas da mulher morta, em Ensaio de um Crime. A observação cabe ao John de Mario Bava: o tempo fez com que ocultasse o próprio crime, restando lembranças da criança atormentada, o menino que não suporta ver a mãe casada com outro homem.

Observador, pensativo, ou mesmo preso a seus delírios, como outras tantas personagens. Bava não se importa em repetir, em prestar homenagem. Como Archibaldo ou mesmo Norman Bates, seu assassino volta o olhar aos insetos. John observa uma mosca, sua falta de consciência sobre a morte: reitera assim a banalidade do crime.

E, como o Bates de Alfred Hitchcock, John precisa, a certa altura, ser a própria mãe: coloca o véu branco na cabeça e investe, com faca em punho, contra suas amantes de ocasião. A certa altura, Bava não se contenta apenas com um filme sobre assassinatos. Recai sobre a trama o espírito da mulher, representação da presença feminina que atormenta.

Na verdade, Mildred é espírito desde o início. No primeiro diálogo com John, no café da manhã, enquanto ele cita com ironia a notícia do jornal, sobre a morte de uma mulher em lua de mel, ela adianta o que vem pela frente: ficarão juntos até que a morte os separe. Ou mais: seguirão juntos mesmo após a morte dela.

Em alguns momentos, John é visto do alto, entre suas manequins, seus vestidos de noiva. Bava constrói sequências inesquecíveis com seus adornos datados, um pouco cafonas. O ateliê é o que restou da mãe, o espaço sem vida que contrapõe os ambientes externos e verdes da mansão, nos quais as modelos vivas são fotografadas.

O sentido de impotência do protagonista esbarra na comédia. O diretor italiano tem consciência dessas alterações, do quanto o esmagamento de sua personagem central produz algo um pouco engraçado. Aos poucos, o controlador e assassino perde o controle. Sucumbe. Viverá a eternidade à sombra do espírito feminino.

(Il rosso segno della follia, Mario Bava, 1970)

Nota: ★★★★☆

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A Mulher na Lua, de Fritz Lang

Boa Noite, Mamãe, de Severin Fiala e Veronika Franz

Um dos principais méritos de Boa Noite, Mamãe é tratar crianças como crianças. Não significa que sejam naturalmente más. Ao contrário, a frieza desse filme de terror permite que se retire o véu comum, de bondade, que sempre recai sobre elas.

Ao escancarar isso, resta mais frieza que sangue: a maneira como os protagonistas, irmãos gêmeos, vivem em um mundo particular, embrenhados entre a floresta e a casa branca e fria, desconfiados do que pode alterar aquela realidade.

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Creem somente no que ouvem do outro, em tom menor, próximo ao ouvido. Nesse caso, é Lukas (Lukas Schwarz) quem fala a Elias (Elias Schwarz). Idênticos, são como um só: entre orações à beira de velas e cruzes, ou adeptos ao mal extremo.

Os diretores Severin Fiala e Veronika Franz, também autores do roteiro, exploram a crítica religiosa. Os meninos acreditam mais em suas vozes internas, em sua necessidade de confirmação, em seus pesadelos, menos no que parece óbvio.

Passam a desconfiar da mulher que vive com eles naquela bela casa. Acreditam que não seja a mãe verdadeira. A mulher retorna com o rosto enfaixado após uma cirurgia estética. Volta um pouco estressada. O pai dos meninos não vive mais ali.

O filme trabalha com o paralelo entre a maldade dos garotos e o ambiente asséptico, a beleza e a monstruosidade. Antes de chegarem a casa, na abertura, os meninos brincam na mata. Caminham sobre o solo em movimento, a instabilidade da terra sobre a água.

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Na casa, guardam insetos em um aquário. O filme, logo, aponta às criaturas do subsolo, àquilo que aos poucos emerge – como no pesadelo, no qual os mesmos insetos brotam da barriga da mãe, como se a impostora desse à luz seres repulsivos.

Pessoas com o rosto coberto por faixas são, no cinema, naturalmente monstruosas. E a máscara, sem esforço, aponta ao sofrimento, à dor. Nesse contexto, outra oposição: a mãe logo se torna algoz, os meninos logo surgem como supostas vítimas.

A dúvida sobre a identidade da mulher também diz muito sobre a perseguição àquilo dotado do menor sinal de diferença: os meninos passam a desconfiar da mãe porque simplesmente aprenderam a desconfiar, ou a ouvir o outro, duplo que não pode mentir.

A obra tampouco pretende colocar a mãe ao lado do espectador, fazer com que suas dores sejam compreendidas. Prende-se ao lado físico dela, enquanto o público acompanha os gêmeos em suas andanças, no fechar das persianas, na escuridão.

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Em um momento a explicar o todo, entram em um esconderijo com milhares de ossos pelo chão – outro contraponto entre o mundo externo, com luz, e as sombras. Aos garotos, a mãe explica que precisa de repouso, que não pode se expor ao sol.

O terror é movido à desconfiança, ao menor sinal de dúvida. Não se trata da dúvida como motor do senso crítico, mas da dúvida como repelência ao diferente, que pode colocar em perigo a estabilidade dos meninos, no paraíso em que vivem, e de quebra retirar de ambos a desejada imagem da mãe.

Pois dela, nos pesadelos, brota o monstruoso. Mãe sem rosto que caminha pela floresta, em um filme curioso, nunca descartável, que prefere a imaginação ao sobrenatural. Suas doses de violência, à frente, são até difíceis de encarar.

Nota: ★★★☆☆

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Oito filmes recentes sobre a difícil relação entre mãe e filho

Horror em Amityville, de Stuart Rosenberg

O pai esconde-se atrás da barba avolumada, do ar um pouco selvagem. Seu olhar profundo não deixa saber o que quer, e às vezes o público perde-se tentando entender se o efeito deve-se à limitação do ator ou à necessidade de uma composição ambígua.

Não chega a ser um problema em Horror em Amityville. Se nele resta dúvida, no papel da mulher não há qualquer problema: Margot Kidder é a mãe mais jovem do que parece, com saia xadrez, perturbada pelos fenômenos estranhos de sua nova casa.

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O filme de Stuart Rosenberg repete algumas fórmulas: mistura um pouco de O Exorcista (nos rostos que levam ao filme de gênero, na explosão do medo nas personagens) com Psicose (sobretudo na trilha de Lalo Schifrin).

A casa na qual passa a viver a família Lutz foi palco de um assassinato no passado. Um ano antes de se mudar para lá, um homem matou a tiros seu pai, sua mãe e seus irmãos enquanto dormiam. Um espírito, ou mais de um, ainda continua por lá.

Esse espírito leva a acontecimentos estranhos: a certa altura, moscas ocupam um dos quartos enquanto o padre, sozinho, tenta escapar; mais tarde, o lodo do porão passa a sair pelo vaso sanitário, sinal de que a sujeira antes escondida será revelada.

Vêm à frente situações esperadas: portas que rangem, que estouram sozinhas, janelas que caem sobre a mão das vítimas, além de cadeiras que se movem.

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Do lado de fora, a casa parece ter vida: suas janelas simulam grandes olhos. Esses espaços ganham luzes, e mais tarde a casa será tingida de vermelho pela câmera. Rosenberg prefere o exagero, a obviedade, enquanto alguns detalhes – como as folhas vermelhas da árvore – já dariam conta da representação do sangue.

Mesmo perturbado, às vezes fora de controle, George (James Brolin) ainda busca forças para se livrar dos espíritos e salvar sua família. Kathy (Kidder) demora a agir. Ao fim, descobre algo misterioso, enigma que certamente deixará perguntas ao espectador.

Horror em Amityville abre espaço ainda para personagens secundárias, novas tentativas de causar medo e que nem sempre funcionam. É o caso do padre vivido pelo veterano Rod Steiger, atacado mais de uma vez pelo espírito perseguidor.

A igreja não consegue salvar seus fiéis. O padre termina paralisado, sem visão. A família terá de encontrar meios próprios para se sobreviver. A dor desses seres artificiais nunca chega a atingir o espectador. Há pouco mais que gritos e correria.

Nota: ★★★☆☆

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