filme de alienígena

Guerra dos Mundos, de Steven Spielberg

Sem perceber, os terráqueos são mais perigosos que os alienígenas. São eles que expelem o corpo estranho encravado no planeta Terra, visitantes que estavam por aqui, talvez há milênios, à espera da hora certa para atacar. Em um dia como qualquer outro, em Guerra dos Mundos, eles dão vez ao levante. Contra o pai de família, contra todos.

Há correria, explosões, ataques, raios e os veículos com três pernas guiados pelos mesmos alienígenas, sobre cidades e campos, detonando o que há pela frente. Os terráqueos, ainda assim, contam com uma natureza que não aceita o corpo estranho, que sofre por algum tempo e depois o cospe: os homens são uma doença silenciosa.

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Pois os alienígenas desejam tirar algo da Terra. Alimentam-se de pessoas e usam o sangue para irrigar a natureza, a nova vegetação que depois esfarela. Algo dá errado. Os visitantes perdem a vez, saem de cena. Os humanos, após alguns dias, terminam vencedores. Derrotam o outro graças à genética que não permite ao visitante sobreviver aqui.

Steven Spielberg, a partir do roteiro de Josh Friedman e David Koepp, da obra de H.G. Wells, fez um filme, para muitos, incompreendido. Difícil aceitar a ausência de clímax, de uma resolução em que o homem precisa derrotar esse “corpo estranho” pela força bruta, pelo heroísmo, não exatamente pelo que lhe é intrínseco.

Não se trata de encontrar o ponto fraco, de injetar um vírus na nave inimiga e atacar, com todo aparato bélico à disposição, os alienígenas. Não se trata, tampouco, de entender o outro. Boa parte de Guerra dos Mundos acertadamente se dá a distância, pelo olhar do protagonista, o pai, homem comum que corre com os filhos para sobreviver.

Essa corrida deixa ver o que ele tem de pior: sua natureza estampa a imaturidade de alguém ainda um pouco jovem, que gosta de carros turbinados, beisebol, com boné e jaqueta, que perdeu a mulher e os filhos e viu a família cair na mão de outro homem, o americano sério e adulto, pai de família esperado, imagem de segurança.

À frente está Ray Ferrier, interpretado por Tom Cruise. É outra aposta acertada: na tela como na vida, o astro recusa-se a envelhecer. É, na tela, feito da natureza que não recusa seus vínculos, suas necessidades, sua busca por proteção aos filhos. Corre ao mesmo tempo para protegê-los e levá-los de volta à mãe. É como se quisesse devolvê-los logo à mulher, o ponto final em que estarão salvos, e assim retornar à independência.

Em outra batalha alienígena, Spielberg não deposita fé nos humanos. Os visitantes não cabem nos nativos. Acordaram para pouco reinado, para sobreviver por alguns dias. O primeiro em cena, na primeira parte do filme, brota do asfalto. A rachadura corre entre as pernas de Ray. Chega aos prédios. Chega à igreja cujo cume despenca. O mal repousava ali, talvez por séculos, abaixo do símbolo religioso, sem ninguém perceber.

O vilão brota para atacar os homens. Sem preferência, atira contra todos, e todos na sua mira se convertem em pó. Não deixam sequer ver o sangue. A religião, salvaguarda, abrigava sob seus pilares, seu prédio, o inimigo implacável, desconhecido, apontado por alguns como qualquer coisa para ser explicado – o iraquiano, o invasor, ou apenas o outro.

Guerra dos Mundos é um grande filme sobre vagar às cegas. O que salva é o que não pode ser visto, o que não se explica por orações ou qualquer força que, dizem as lendas, moveriam montanhas. Ao mesmo tempo, os homens revelam repugnância ao derramar o fanatismo que enxergam nos outros – ou nos visitantes, ou nos iraquianos.

A vida na Terra pode ser letal em suas pequenas partes, em gotículas, em células. Spielberg celebra a ciência contra as respostas fáceis da religião, contra o esperado confronto final. Os alienígenas não são mais bondosos, tampouco os vilões de rosto definido. Na filmografia do cineasta, aproximam-se do monstro com garras que emerge do fundo do mar contra os homens da superfície: indiferentes à humanidade, essas criaturas deixam ver o inesperado – para o bem ou para o mal – naqueles que resolvem enfrentá-las.

(War of the Worlds, Steven Spielberg, 2005)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
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Bastidores: Alien, o 8º Passageiro

Criado pelo artista suíço H.R. Giger, Alien é não apenas uma grande obra do ponto de vista do desenho virtuosista de seu criador, nem apenas do design complexo que mistura corpo e máquina, mas uma verdadeira teoria explicativa da condição humana e da cultura no estágio em que a experimentamos hoje. Alien é uma das mais poderosas imagens da nossa era tecnológica e pós-humana, que se coloca como amplo questionamento sobre nosso corpo humano em seu devir-máquina. Alien é uma metáfora da cultura tanto quanto do cinema, assim como do lugar daquilo que chamávamos há pouco tempo de subjetividade. A capacidade de ainda nos impressionarmos tanto com essa imagem não é sinal apenas da competência do artista e do cineasta, mas também de que ainda podemos ter esperança na condição humana.

Marcia Tiburi, em sua coluna na revista Cult (edição 141, de novembro de 2009; lei texto completo aqui), na ocasião do aniversário de 30 anos da obra de Ridley Scott.

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