filme brasileiro

Stefan Zweig, dentro e fora do Brasil

Primeiro o homem dentro, embriagado pelo “país do futuro”, que se entrega a uma bela prostituta negra de seios fartos, alta, como o sonho de qualquer estrangeiro que se colocou a pensar nessa nação sul-americana. Depois o homem fora, que observa um canavial em chamas enquanto pensa em sua Alemanha sob a mão forte de Hitler.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Os dois homens são um, a mesma personagem, o escritor Stefan Zweig, judeu que veio para o Brasil quando os nazistas chegaram ao poder. O primeiro mescla-se aos brasileiros, parece brasileiro, vicia-se por aqui em Lost Zweig. É mais enérgico. O segundo prefere certa distância, e todo o recuo que proporciona vem acompanhado pela paciência que transmite, pela dor, pelo pensamento em Stefan Zweig: Adeus, Europa.

Assistir aos filmes de Sylvio Back e Maria Schrader é perceber o abismo que separa as composições de homens que, em algum ponto, pretendem ser o mesmo. Assusta perceber que a fraqueza de um, na obra de Back, resulta em uma quase caricatura, enquanto o silêncio do outro, na de Schrader, reveste-se de grandeza.

Os problemas ou as soluções nem sempre têm a ver com a interpretação dos atores. Não se pode falar em fracasso em um caso ou no outro. O que interessa, nesse paralelo, é confirmar que a tentativa de se aproximar de uma cinebiografia típica, no caso de Back, resulta em algo frágil que mais olha ao Brasil do que à personagem.

Por outro lado, ao apostar em algumas passagens da vida da personagem, no caso de Schrader tem-se uma compreensão maior de quem foi esse pensador tomado pela melancolia, que em exílio nem sempre esteve no Brasil, e que se serviu de um refúgio para encontrar a própria morte quando a paz não era possível de maneira alguma.

O filme de Back toma a parte (a personagem) pelo todo (a situação do mundo naquele momento e o refúgio do intelectual); o de Schrader toma o todo pela parte e, em sua aparente pouca ambição, conduz o espectador ao interior da personagem calada, que sofre pelo olhar, à menor expressão, ao passo que descobre novos ambientes.

Nem um nem outro pretende revelar o verdadeiro Stefan Zweig – e é importante que o espectador não o procure. Em Lost Zweig, é interpretado por Rüdiger Vogler, cuja caracterização deixa ver um homem de ficção feito ao drama, à dor, que tenta parecer torto à medida que range os dentes com o som de uma buzina que não para de tocar.

No filme seguinte, de 2016, a personagem central fica com Josef Hader, dessa vez em sentido oposto: sua caracterização necessita de pausas, de tempo para que o público penetre-a, para que pense o que ele pensa, por exemplo, enquanto assiste àquele canavial em chamas – ainda que o paralelo com a Europa em fogo, a essa altura, seja evidente.

Para perdoar Back vale se desviar à própria nação, ao Brasil convertido em marca, ou em clichê, o da era Getúlio Vargas. Por ali, Zweig rende-se à beleza das mulatas cariocas, depara-se com Orson Welles envolvido pela multidão nas filmagens de seu É Tudo Verdade, tenta explicar aos poderosos que não pode escrever sob encomenda.

Um cartão-postal invertido, mas conhecido, sai do jogo manjado de Back, ainda que seja prazeroso retornar ao tempo mítico retratado. Neste, Zweig está dentro, entregue, seja ao país ou ao drama. Deixa-se ver. Oposto à personagem fechada de Schrader, que observa a vegetação à frente como refúgio não desbravado.

Partir do mesmo homem, aqui, serve para enxergar diferenças, reparar o quanto alguém como Stefan Zweig – poderia ser outro – pode ser múltiplo e, em um caso ou outro, longe do verdadeiro. Não se trata de comparar os filmes, mas de colocá-los lado a lado para se compreender a impossibilidade de tocar o homem em destaque.

A empreitada de Back surge amarrotada, sem jeito, sem emoção. Mais parece um olhar aos vícios do Brasil. A de Schrader apela conscientemente ao efeito menor, com direção consciente, como se vê na opção em filmar a abertura e o fechamento em um único plano, com a câmera parada, sem corte. Cabe tudo ali, elegante e eficaz.

A primeira é sobre o homem de fora que permanece dentro, dono de um drama que aponta tanto aos seus problemas quanto aos do Brasil. Vargas, que queria se confundir com o própria nação, é o fantasma do autoritarismo que continua a perseguir Zweig. O momento em que o presidente é cercado pelas crianças que gritam seu nome e empunham bandeiras é o reflexo de líderes nacionalistas, ou fascistas.

A segunda prefere o homem que, mesmo dentro, segue fora, calado, alguém que sofre porque não tem as palavras – e a crítica – que esperam quando o assunto é o nazismo. Eis um desses mistérios que mais explicam do que atrapalham a personagem em questão: é pela falta das palavras que se observa o quanto o escritor está encurralado.

(Idem, Sylvio Back, 2002)
(Stefan Zweig: Farewell to Europe, Maria Schrader, 2016)

Notas:
Lost Zweig:
★★★☆☆
Stefan Zweig: Adeus, Europa: ★★★★☆

Foto 1: Lost Zweig
Foto 2: Stefan Zweig: Adeus, Europa

Veja também:
Vídeo: É Tudo Verdade e a passagem de Orson Welles pelo Brasil

Bastidores: Central do Brasil

Aos poucos, fomos entendendo que o aperto dos vagões superlotados, bem como de seus acessos e dos cubículos de suas casas, nos levou a apertar o quadro do cinema usando lentes mais fechadas. Como se todos estivessem espremidos em seus próprios mundos.

Quando Dora (Fernanda Montenegro) se aproxima de Josué (Vinícius de Oliveira) e os dois avançam na direção do centro do Brasil, as lentes generosamente vão abrindo seus ângulos como se a abrangência panorâmica dessas lentes abrisse também o coração dos personagens.

Walter Carvalho, diretor de fotografia de Central do Brasil, na Folha de S. Paulo (Caderno Ilustrada, 30 de outubro de 2018; pg. C4; leia aqui).

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Veja também:
Como os jump cuts salientam o tema de Na Estrada

As Boas Maneiras, de Marco Dutra e Juliana Rojas

A lenda do lobisomem – monstro da cidade pequena que devora belas mulheres, que leva alguns tiros e se refugia no mato, de olhos estourados de brilho – retorna em As Boas Maneiras, da dupla Marco Dutra e Juliana Rojas. Lobisomem à brasileira, bom dizer, que termina na cidade grande, entre prédios de vidro, próximo da ponte estaiada que corta a metrópole, ambiente que destoa do Brasil antigo.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

O social está sempre presente no cinema em questão. O fantasma – mas não era lobisomem? – atinge o espectador ao impor o real, como se da ficção, ainda que por momentos, fosse preciso escapar. Nem o lobisomem nem qualquer monstro livra o público do verdadeiro fantasma, não necessariamente um vilão: a nação pobre e suas contradições.

A protagonista é Clara (Isabél Zuaa), mulher negra de pouca fala que começa a trabalhar no apartamento da típica dondoca da classe alta, bela menina grávida cuja moradia mescla sinais do novo e do velho Brasil: expõe-se ali, nos primeiros instantes, no olhar que mistura deslumbramento e medo, uma das chaves para entender o filme.

A cabeça do gado empalhada explica muito, a exemplo da mobília de aspecto antigo. Chocam-se com vidros imponentes, com paredes claras, altas, a forma quadriculada. A lareira eletrônica é o jeito de se retornar, pelo falso, ao aconchego da presença do fogo para se aquecer, um entre outros itens chiques por aqui.

Clara torna-se criada de Ana (Marjorie Estiano). Por motivos diferentes, ambas estão sozinhas. Por motivos curiosos, possíveis, terminam juntas, em relação de amor que funciona às escuras, principalmente quando Ana anda pela casa, sonâmbula, e revela o monstro que carrega dentro de si: ela está grávida de um lobisomem.

A menina branca talvez não seja tão rica. Talvez não pague suas contas. Talvez seja mais um dos falsos ricos que se revestem de aparente poder e se revelam pelos detalhes, pelo gosto pelo brega, pela ligação com os sinais da velha terra, a de bois e vacas, a do campo que ainda tentam fazer viver no seio cosmopolita.

Mas o filme não se volta a esses seres com julgamentos fáceis ou preconceito. Ao contrário, As Boas Maneiras funciona como representação de um certo Brasil selvagem que resiste na grande cidade, nas relações de classe que se impõem, no drama dos criados obrigados a conviver com os monstros de seus patrões – sob o sinal das “boas maneiras”.

O título remete à obediência, justamente o que não se pode esperar do lobisomem, do monstro que toma forma no corpo do homem, aqui no do menino, e que ataca simplesmente para matar a fome. O menino, ele próprio confessa, prefere comer à noite. É o filho lobisomem da menina rica, depois criado por Clara, a criada obrigada a fugir.

O filme não deixa ver ironias com facilidade, prefere quase sempre o terror. Ora o terror explícito, de gênero, ora o terror social, o mesmo que dá as caras em outros filmes brasileiros recentes, sob o vulto de supostos fantasmas que retornam para cobrar seus patrões. Quase sempre são negros pobres em outra face da escravização, a da falsa civilidade que tranca criados no fundo de grandes casas ou apartamentos duplex.

O monstro não poderia ser outra coisa senão uma forma de revolta, o que explica o último quadro. Criatura fruto de mãe solteira, que não deveria ter nascido porque a mesma deveria ter abortado, o que justifica a mudança para a cidade grande. Criatura, sobretudo, fruto da “relação proibida” entre criada e patroa, também uma relação homossexual.

O título não engana. Ao contrário, explica. Ou ironiza, joga questões, já que de boas maneiras essas personagens sempre tentam viver. O lobisomem brasileiro, neste caso, não remete à comédia ou ao absurdo dos contistas do interior, mas à tragédia de duas nações que vivem em uma só. A criatura nasce desse choque, desse improvável contato.

(Idem, Marco Dutra e Juliana Rojas, 2017)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Hereditário, de Ari Aster

Os 100 melhores filmes dos anos 90

Há um filme ou mesmo uma cena capaz de definir uma década? Nos anos 90, há Pulp Fiction e a sequência de dança de John Travolta e Uma Thurman. Ou uma cadeira de rodas em chamas, a circular o Cristo invertido, em plena Guerra da Bósnia, em Underground – Mentiras de Guerra. Ou a chuva sobre Tim Robbins, enfim livre, em Um Sonho de Liberdade. Ou um homem com a perna levantada, prestes a dar um passo, ultrapassar uma fronteira, em O Passo Suspenso da Cegonha.

Há, ao longo de dez anos, uma coleção de momentos marcantes. Nos anos 90 não é diferente: é a década de Tarantino, do retorno triunfal de Robert Altman e Terrence Malick, da revelação do cinema iraniano ao mundo todo, como também a do mestre polonês Kieslowski (que logo morreria). A década do movimento Dogma 95 e da revelação dos orientais Tsai Ming-liang, Jia Zhangke e Naomi Kawase. Não restam dúvidas sobre a grandeza da década, como confirma a lista abaixo.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

100) Temporada de Caça, de Paul Schrader

99) Amateur, de Hal Hartley

98) Contato, de Robert Zemeckis

97) O Paciente Inglês, de Anthony Minghella

96) Uma Garota Solitária, de Benoît Jacquot

95) Despedida em Las Vegas, de Mike Figgis

94) Além da Linha Vermelha, de Terrence Malick

93) Depois da Vida, de Hirokazu Kore-eda

92) Bom Trabalho, de Claire Denis

91) Magnólia, de Paul Thomas Anderson

90) Baraka, de Ron Fricke

89) Ghost in the Shell: O Fantasma do Futuro, de Mamoru Oshii

88) E a Vida Continua, de Abbas Kiarostami

87) Medo e Delírio, de Terry Gilliam

86) Dois Córregos – Verdades Submersas no Tempo, de Carlos Reichenbach

85) Xiao Wu – Um Artista Batedor de Carteira, de Jia Zhangke

84) A Estrada Perdida, de David Lynch

83) O Ferrão da Morte, de Kôhei Oguri

82) Quando Tudo Começa, de Bertrand Tavernier

81) Cidade das Sombras, de Alex Proyas

80) Maridos e Esposas, de Woody Allen

79) O Passo Suspenso da Cegonha, de Theodoros Angelopoulos

78) Mal do Século, de Todd Haynes

77) Videogramas de uma Revolução, de Harun Farocki e Andrei Ujica

76) Exótica, de Atom Egoyan

75) A Isca, de Bertrand Tavernier

74) Leolo, de Jean-Claude Lauzon

73) O Sucesso a Qualquer Preço, de James Foley

72) eXistenZ, de David Cronenberg

71) O Vício, de Abel Ferrara

70) Festa de Família, de Thomas Vinterberg

69) Na Companhia de Homens, de Neil LaBute

68) Fogo Contra Fogo, de Michael Mann

67) A Igualdade é Branca, de Krzysztof Kieslowski

66) Felicidade, de Todd Solondz

65) Violência Gratuita, de Michael Haneke

64) Vive L’Amour, de Tsai Ming-liang

63) Violento e Profano, de Gary Oldman

62) Sonatine, de Takeshi Kitano

61) De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick

60) Gosto de Cereja, de Abbas Kiarostami

59) Um Homem Com Duas Vidas, de Jaco Van Dormael

58) Mistérios e Paixões, de David Cronenberg

57) Suzaku, de Naomi Kawase

56) Central do Brasil, de Walter Salles

55) À Beira da Loucura, de John Carpenter

54) Conto de Inverno, de Eric Rohmer

53) Alma Corsária, de Carlos Reichenbach

52) Forrest Gump – O Contador de Histórias, de Robert Zemeckis

51) Todas as Coisas São Belas, de Bo Widerberg

50) A Eternidade e um Dia, de Theodoros Angelopoulos

49) Segredos e Mentiras, de Mike Leigh

48) JFK – A Pergunta que Não Quer Calar, de Oliver Stone

47) Água Fria, de Olivier Assayas

46) Tudo Sobre Minha Mãe, de Pedro Almodóvar

45) Vale Abraão, de Manoel de Oliveira

44) O Processo do Desejo, de Marco Bellocchio

43) O Espelho, de Jafar Panahi

42) O Pagamento Final, de Brian De Palma

41) Felizes Juntos, de Wong Kar-Wai

40) Los Angeles – Cidade Proibida, de Curtis Hanson

39) A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforo, de Aki Kaurismäki

38) Corvos, de Dorota Kedzierzawska

37) Flores de Xangai, de Hou Hsiao-Hsien

36) Rosetta, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

35) Mulheres Diabólicas, de Claude Chabrol

34) O Sonho Azul, de Tian Zhuangzhuang

33) Os Imorais, de Stephen Frears

32) Lanternas Vermelhas, de Zhang Yimou

31) Um Sonho de Liberdade, de Frank Darabont

30) O Rei de Nova York, de Abel Ferrara

29) Fargo, de Joel Coen

28) Ondas do Destino, de Lars Von Trier

27) Adeus ao Sul, de Hou Hsiao-Hsien

26) Vício Frenético, de Abel Ferrara

25) Basquete Blues, de Steve James

24) A Liberdade é Azul, de Krzysztof Kieslowski

23) A Lista de Schindler, de Steven Spielberg

22) Sátántangó, de Béla Tarr

21) O Tempo Redescoberto, de Raoul Ruiz

20) Um Olhar a Cada Dia, de Theodoros Angelopoulos

19) Naked, de Mike Leigh

18) A Dupla Vida de Véronique, de Krzysztof Kieslowski

17) O Fim de um Longo Dia, de Terence Davies

16) Amores Expressos, de Wong Kar-Wai

15) Underground – Mentiras de Guerra, de Emir Kusturica

14) O Jogador, de Robert Altman

13) Van Gogh, de Maurice Pialat

12) O Piano, de Jane Campion

11) Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood

10) O Silêncio dos Inocentes, de Jonathan Demme

A jovem Clarice Starling é colocada para investigar os ataques de um assassino em série e, para solucionar o caso, vê-se envolvida com outro assassino, o temido Hannibal Lecter. Assustador e hipnótico, quase não deixa retomar o fôlego. Vencedor de cinco Oscar.

9) Close-Up, de Abbas Kiarostami

Homem passa-se por um diretor de cinema, o conhecido Mohsen Makhmalbaf, em história baseada em caso real. O mestre Kiarostami convida o verdadeiro impostor a reviver o caso, em mais um grande filme iraniano que retorna o foco para o próprio cinema.

8) Pulp Fiction – Tempo de Violência, de Quentin Tarantino

Cães de Aluguel foi apenas a antessala para esse filme explosivo e original, que valeu a seu jovem diretor – cuja trajetória mítica ora ou outra aponta ao balconista de vídeo-locadora – a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Violento, rápido e embalado por uma narrativa não linear.

7) A Fraternidade é Vermelha, de Krzysztof Kieslowski

A terceira e melhor parte da incrível Trilogia das Cores. É também o último filme de seu diretor, que morreria pouco depois. Na trama, uma modelo atropela um cão. Em sua busca pelo dono, ela termina na casa de um juiz ranzinza que tem o hábito de espionar os próprios vizinhos.

6) Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese

Talvez seja a última obra-prima de Scorsese. Um de seus filmes mais completos, no qual se lança em terreno que conhece bem: a máfia. Tem Ray Liotta no papel do jovem apaixonado pelo mundo do crime, De Niro à vontade como um chefão e assassino, além do demoníaco Joe Pesci.

5) Um Dia Quente de Verão, de Edward Yang

Um filme sobre a memória, sobre um grupo de jovens envolvidos com gangues, mas também descobrindo o primeiro amor. Yang faz um belo retrato da juventude sem esquecer as dores familiares. Um dos pontos altos é a sequência da chacina noturna, filmada com pouca luz.

4) A Bela Intrigante, de Jacques Rivette

O que procura todo artista? A obra perfeita? A necessidade de dividi-la com o público? Rivette questiona tudo isso na relação de um pintor com sua musa. É também um filme sobre o corpo, sobre a criação artística, com longas cenas nas quais a câmera limita-se a captar o tempo.

3) Short Cuts – Cenas da Vida, de Robert Altman

Mais uma vez debruçado sobre uma penca de personagens, Altman entrega um filme com vidas cruzadas. Começa com helicópteros fazendo uma pulverização sobre Los Angeles e termina com um terremoto. Mistura comédia à tragédia a partir das histórias de Raymond Carver.

2) Através das Oliveiras, de Abbas Kiarostami

O terceiro filme de uma trilogia iniciada com Onde Fica a Casa do Meu Amigo? e cuja parte do meio é E a Vida Continua. Em cena, um rapaz tenta se declarar e se aproximar da mulher que ama durante a realização de um filme. É a única oportunidade para revelar seus sentimentos.

1) Crash – Estranhos Prazeres, de David Cronenberg

Pode-se esperar qualquer coisa de Cronenberg, menos um universo de pessoas normais, ou próximas a isso. Em Crash, sua obra-prima, ele une com perfeição o universo do desejo carnal à tara pela velocidade, pelo risco, pela morte. Em cena, um rapaz vê-se enredado a um grupo que tem como prazer a reconstituição de famosos acidentes de carro e o risco que oferecem. Carne e máquina, ao gosto de Cronenberg.

Veja também:
Os 100 melhores filmes dos anos 30
Os 100 melhores filmes dos anos 70
Os 100 melhores filmes dos anos 80

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert

Perto do fim de Mãe Só Há Uma, o protagonista lança a frase que define a obra de Anna Muylaert: “Eu não escolhi ser sequestrado”. Poderia acrescentar ainda mais: ele não escolheu se interessar por homens ou mulheres. Permitiu se descobrir.

Pois o filme – um grito de liberdade, como define a cineasta – mostra uma vida, ou parte dela, pautada por descobertas, não por simples escolhas. O adolescente ao centro, Pierre (Naomi Nero), beija homens e mulheres, meninos e meninas.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

mãe só há uma1

Vale pensar: as descobertas surgem antes, as escolhas depois. Ou seria o oposto? No começo do filme, Pierre faz sexo com uma menina no banheiro da casa na qual ocorre uma festa adolescente. Usa roupas íntimas femininas durante o ato sexual.

Enquanto vive com a mãe de criação, Pierre limita algumas de suas descobertas e desejos ao banheiro de casa. São momentos em que usa calcinha e se fotografa, em que passa batom, em que depila o peito. Menino de classe média, ele não tem a liberdade restringida. Tem sua banda, frequenta baladas, relaciona-se com que quiser.

À frente, o protagonista descobre que foi roubado na maternidade. Sua verdadeira mãe é outra. Essa transformação leva-o à revolta nem sempre expressa pelo grito, pela fúria; ao contrário, Pierre quase sempre volta a face para baixo, não encara os outros.

Surge a outra família, contrária aos modos “anormais” de Pierre. Surge o problema e, devido à mudança, curiosamente o espaço para outras afirmações do menino.

Não mais com a família pela qual foi moldado, ele encontra espaço para ser quem deseja ser: é na nova família que poderá usar as roupas femininas que deseja – seja por vontade ou por confronto. Em qualquer dos casos, Pierre afirma quem realmente é.

mãe só há uma2

A nova família leva o garoto a suas regras, ou às escolhas que acredita já ter feito para ele. Erra. Essa família, nunca tratada como vilã, ou como a anormal da situação, será reproduzida por um pai carinhoso mas autoritário (Matheus Nachtergaele), que não entende a escolha do filho por roupas femininas, pelos vestidos que expõe.

É na sequência do jogo de boliche em família, perto do fim, quando Pierre diz a frase aqui citada, que essas diferenças tornam-se insuportáveis: o garoto estabelece o ponto fora da curva, a contestar a imagem da família conservadora e heteronormativa.

Poderoso pela discussão que trata (e como trata), Mãe Só Há Uma também se realiza visualmente, com cenas poderosas em seu naturalismo e contestação dos supostos bons modos, do “modelo” de sociedade, com leveza e câmera na mão.

Como no anterior Que Horas Ela Volta?, Muylaert leva o drama a conta-gotas, gestado às vezes em silêncio, para mais tarde dar vez à saída de Jéssica (Camila Márdila) da casa dos patrões de sua mãe, ou, em Mãe Só Há Uma, à investida de Pierre (e não Felipe, nome dado pelos pais biológicos) contra sua nova família.

O encerramento abrupto pode até parecer um problema. No entanto, Muylaert não pretende “resolver” esse drama, dar-lhe acabamento que apazigue. O término faz com que o filme siga com o espectador. Os conflitos continuarão.

(Idem, Anna Muylaert, 2016)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert
Cinco filmes recentes que abordam identidade de gênero