filme B

Quem tem medo de seres amorfos?

Seres amorfos e perigosos vindos de outro planeta faziam sentido quando a ficção científica de baixo orçamento vivia dias criativos em plena Guerra Fria. Ao não darem forma a seus monstros, realizadores revelavam que o mal daquele tempo, o presente incerto em que viviam, refletia-se na meleca abominável que ataca os heróis.

Não se viam sinais de dubiedade nas personagens em cena. Às gosmas com vida, às coisas, ofereciam-se homens de família, personagens de caráter inabalável. E mesmo quando o vilão ou o perigo tomava alguma forma, ou tentava copiar a já estabelecida, não havia exatamente uma face a atacar. Estavam os monstros em todos os locais.

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Podem ser vistos, em diferentes exemplos, em filmes como Vampiros de Almas, A Bolha Assassina, na produção italiana Caltiki, o Monstro Imortal e, décadas depois, em O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter. Essas produções baseiam-se na invisibilidade – ou na visibilidade estranha – do antagonista, do outro, o alienígena.

Como doenças incuráveis, infiltram-se nas famílias, fingem o sono ou se revelam cópias perfeitas. Em Vampiros de Almas, por exemplo, passam de vegetais a réplicas dos seres que executaram. As famílias tradicionais americanas, para o susto dos honestos à frente, escondiam casulos no fundo de suas casas, suas vagens gigantes que davam à luz corpos de homens e mulheres da comunidade, agora possuídos.

Em A Bolha Assassina, o monstro amorfo ganha ainda mais destaque, sendo a meleca que cresce até ocupar um cômodo todo, ou uma casa. Os jovens heróicos duelam contra ela para salvar a pequena sociedade que representa, sabe-se, o país inteiro, em imagens que certamente ocuparam a mente de Orson Welles quando narrou A Guerra dos Mundos.

Passado à beira dos monumentos da civilização maia, Caltiki leva também à criatura que pouco a pouco ganha tamanho – na mescla entre ficção científica e filme de monstro, como o clássico A Múmia. Nas ruínas da civilização perdida, exploradores descobrem um ser que se alimenta da radioatividade de um cometa que espreita a Terra. Tudo se conjuga ao momento em que a bela família é desenhada, em que o pai estreito segue à casa, desesperado, contra a polícia, para salvar a mulher e o filho.

A moralidade dos protagonistas sem qualquer tempero faz com que os próprios humanos, ironicamente, disputem com as gosmas o espaço dos seres sem vida. Mas essa falta de forma verdadeira não retira deles a forma cinematográfica da época: o alinhamento à causa política, sobretudo nas produções americanas, quando os cidadãos honestos das pequenas cidades eram atacados pelos seres externos, os soviéticos travestidos de alienígenas.

O general enlouquecido de Doutor Fantástico, de Kubrick, falaria mais tarde sobre a necessidade de combater os fluídos do inimigo. Os monstros, com o som do líquido que dança em seu interior, são geleias com vida que engolem inocentes para se alimentar, para fazê-los parte da bolha que se rasteja rumo a lugar algum.

Confrontar a forma desconhecida, ou algo que não se vê, seria o mote também para Carpenter em seu O Enigma de Outro Mundo, nos anos 80, história já levada aos cinemas em O Monstro do Ártico, de 1951. Diferente do anterior, Carpenter entendeu que às personagens isoladas em meio à neve nada causaria medo maior que o invisível.

Em todos os casos, há uma doença, um contágio, algo a ser combatido antes que atinja toda a civilização. Nesse sentido, não está distante da ideia que move os filmes de zumbi: se algo dá vida aos mortos e estes não podem fazer nada senão atacar, não se trata também de um mal amorfo, no sentido de que não há vilão definido?

A ficção científica feita não raras vezes de baixíssimo orçamento precisava, por condições estruturais, de doenças, gosmas, geleias perigosas, mais do que de seres perfeitos em suas imperfeições, vilões que se servem de atributos humanos. O ser amorfo, comum a essas “pequenas” produções, apenas se ocupa de destruir, de se alimentar.

Foto 1: A Bolha Assassina
Foto 2: Vampiros de Almas

Veja também:
O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter

O benefício da ausência

Todos acham que é preciso muito dinheiro para fazer filmes. No fim, quanto mais dinheiro você tem, menos consegue fazer com ele. Para mim, sempre foi uma benção não ter dinheiro suficiente, porque aí eu precisava compensar isso com o trabalho de câmera, com ideias, com abstrações. É uma das coisas mais lindas que se podem fazer no cinema: inventar uma imagem quando não se pode pagar por ela.

Wim Wenders, cineasta alemão, no documentário Edgar G. Ulmer – o Homem Fora das Telas, de 2004, sobre o cineasta Edgar G. Ulmer (imagem), que trilhou uma carreira maldita em Hollywood, trabalhando sempre em produções de baixo orçamento.

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Veja também:
Pina, de Wim Wenders

Seis clichês de ficção científica em A Ameaça que Veio do Espaço

Alguns filmes clássicos de ficção científica conseguem reunir diversas características do gênero, levadas a inúmeros outros, feitos mais tarde. O divertido A Ameaça que Veio do Espaço, de 1953, explora situações que se tornariam clichês com o passar dos anos. Abaixo, o blog traz seis casos extraídos do filme de Jack Arnold.

1) O herói vê a nave cair

No início, o astrônomo John Putnam (Richard Carlson) vê uma bola de fogo cair no deserto do Arizona enquanto observava as estrelas. Na companhia da amada, Ellen Fields (Barbara Rush), ele segue ao local e descobre que se trata de uma nave alienígena. O ambiente, no entanto, é coberto por pedras após um terremoto.

a ameaça que veio do espaço

2) Ninguém acredita no herói

Nem cientistas nem a imprensa, ninguém acredita no herói. De capa de jornal à boca alheia, John torna-se, inicialmente, uma piada. Apenas a amada, mais tarde, convence-se de que talvez haja algo de estranho naquele acontecimento. Pelas estradas do deserto, eles começam a ver aparições da força alienígena e seu olho que tudo vê.

3) Alienígenas assumem a forma humana

O mesmo se veria no extraordinário Vampiros de Almas, de 1956, de Don Siegel: o alienígena (ou a força a alienígena) começa a tomar forma humana para se infiltrar na sociedade. As primeiras vítimas são dois eletricistas. Mais tarde, Ellen também será abduzida. Diferente do filme de Siegel, os alienígenas não querem dominar a Terra.

4) O protagonista é tolerante

Por ser tolerante e tentar entender a força alienígena, John é poupado pelos alienígenas. À frente, torna-se uma espécie de mediador entre humanos e extraterrestres. Desde o início, é óbvia a diferença entre John e os outros moradores da pequena cidade: ele representa a modernidade que custa a penetrar o local.

a ameaça que veio do espaço2

5) O xerife deseja exterminar o inimigo

Seu oposto é o xerife local, Matt Warren (Charles Drake). Não poderia haver oposição mais esperada: ao contrário de John, ele não é pacifista ou tolerante. Quando finalmente descobre a presença da força alienígena na cidade, convoca outros homens de chapéu e armas em riste para combater o mal. E, como John, está interessado em Ellen.

6) O alienígena precisa consertar sua nave para ir embora

Depois de assumir forma humana e furtar alguns utensílios, como fios de energia, fica clara a intenção do suposto vilão: consertar sua nave e ir embora. A queda no planeta Terra deu-se por acaso. A pequena passagem foi suficiente para descobrir seres hostis, estranhos, em mais um filme sobre a difícil convivência com o diferente.

Veja também:
Ex-Machina: Instinto Artificial, de Alex Garland