ficção científica

Kubrick segundo Fellini

Kubrick é um grande cineasta e admiro muitíssimo a sua capacidade – guiado pelo sentido que ele tem da imagem, pelo seu grande senso visionário – de variar continuamente de gênero, permanecendo ele mesmo, de Spartacus à ficção científica, da guerra à comédia, ao grande romance inglês. Em comparação a ele, acho que tenho limites bem definidos.

Federico Fellini, cineasta italiano, em entrevista publicada no livro A Arte da Visão – Conversa com Goffredo Fofi e Gianni Volpi (Martins Fontes, pg. 49). Abaixo, Stanley Kubrick nas filmagens de Nascido para Matar.

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O tempo e a linguagem em A Chegada

O tempo, segundo os alienígenas recém-chegados à Terra, é circular, diferente do tempo dos humanos, que é linear. O conflito central de A Chegada, de Denis Villeneuve, parte dessa oposição: o círculo não deixa ver início ou fim, e os tempos convivem embaralhados, sobrepõem-se, e é possível enxergar o futuro mesmo sem tê-lo vivido.

O universo da protagonista, a linguista Louise Banks (Amy Adams), é, desde a primeira imagem, quadriculado, representação visual para o tempo dos humanos. O símbolo que representa o tempo dos alienígenas é arredondado, ou seja, oposto. Durante todo o filme, Villeneuve explora essas diferenças a partir das imagens.

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Quando naves pousam na Terra, uma delas nos Estados Unidos, Banks é chamada pelo Exército Americano para tentar decifrar a linguagem dos visitantes e estabelecer contato. O que descobre é que os alienígenas querem ajudar os humanos a utilizar uma linguagem aparentemente mais evoluída. Todos os seres são produtos de suas línguas, de como se comunicam, das palavras que aprenderam a utilizar.

Em contato com eles, Banks enxerga o futuro, a filha que terá, a dor que sentirá mais tarde. A tragédia de sua vida desenha-se aos seus olhos, como se fosse vidente, como se tivesse uma iluminação. Ao aprender a linguagem dos alienígenas, aprende a ver como eles, a ser um pouco como eles – encontra, em suma, o círculo, para além de uma linguagem linear para um tempo linear. Segundo os visitantes, a língua é uma arma.

E por “arma” entende-se, ao que parece, ferramenta, não um instrumento para matar. Forma de evolução, de ligação, não de separação. Aos alienígenas – também a Banks – não demora para que a desunião à qual as criaturas apontam se voltar contra as próprias, já que ao homem é necessário viver em um estado de guerra constante.

Espaços quadriculados contra formas arredondadas

A primeira imagem de A Chegada revela a casa da protagonista. A fotografia escura de Bradford Young antecipa o clima frio levado a todo o filme, como se a vida dos terráqueos estivesse sempre às sombras, feita por névoa. Os homens dessa escuridão ainda precisam evoluir, não chegaram às luzes. Ainda se vive à penumbra.

O teto da casa é feito de linhas que, ao movimento da câmera, apontam ao horizonte do lado de fora. O lar é o espaço de proteção, com amostras da vida que passou por ali, como a mesa na qual estão uma garrafa, copos e itens que remetem à refeição; ao lado, a luneta mostra a tendência à ciência; do lado de fora, a árvore como amostra da vida e da passagem do tempo. A linha entre a água e as montanhas corta a paisagem.

Chama a atenção o efeito quadriculado conseguido pelas linhas da janela e da porta. É o universo dos seres humanos, aqui representados pela mulher, a primeira a fazer contato e talvez compreender a língua dos alienígenas, a ver um novo começo. As formas quadriculadas, com pontas, confrontam a forma imposta pela linguagem dos visitantes: os círculos. Ambos os lados, homens e alienígenas, cresceram e sobreviveram com linguagens opostas, o que tornará o diálogo difícil.

À primeira vista, a narração de Banks conta uma história passada; na verdade, é futura, descobrirá mais tarde o espectador. Sua primeira frase dá a dica: “Eu pensava que este era o começo de sua história”, diz, em narração. “A memória é algo estranho. Ela não funciona como eu imaginava. Estamos tão presos ao tempo, à sua ordem.”

Em seguida, por meio de elipses (saltos temporais), o espectador é levado a conhecer a relação dela com a filha. Vai do crescimento da criança ao drama de sua morte. Talvez todo o filme leve a um alerta alienígena sobre a dificuldade dos humanos de lidar com a morte, por isso o medo, por isso a necessidade de se armar para produzir guerras.

A morte é produto do tempo, e os homens são produtos de sua linguagem. Logo, a linguagem linear impõe o começo e o fim – justamente o que se vê nessa sequência marcada por elipses, na qual se assiste ao crescimento – à vida – e à doença – à morte – da filha de Banks. O sentido linear da vida é apresentado logo de saída, portanto em curto tempo.

Espaços quadriculados continuam a surgir. No caminho para a sala de aula, Banks passa pela área de convivência na qual os estudantes assistem à televisão, ambiente feito de retas e pontas; na sala de aula, o quadro ao fundo da heroína emite sinais quadriculados; em seu escritório, tem-se o mesmo efeito com as janelas e estantes.

Por outro lado, a linguagem dos círculos, a dos alienígenas, é sugerida, aos poucos, nesses ambientes. Após perder a filha, a protagonista caminha por um corredor circular, à forma de um arco; o mesmo vale para o espaço dos alunos no auditório em que dá aula. Perto do fim, vale perceber como o lago em frente à casa forma visualmente um círculo que envolve Banks e sua filha ainda pequena, à beira da água.

O nome dado à menina, Hannah, por sinal é um palíndromo, ou seja, o mesmo quando lido de trás para frente. É a forma encontrada pela mãe para quebrar a linearidade e que, mais uma vez, leva a pensar no círculo, sem início ou fim.

No interior da “concha”

A entrada na “concha” (como as naves são chamadas) dá um indicativo interessante da passagem do estado quadriculado do mundo humano ao arredondado do alienígena: vale notar que as bordas do corredor escuro que dá acesso à sala de contato são redondas, apesar das linhas que as unem. Villeneuve revela a transição.

Do corredor sem gravidade, Banks e sua equipe seguem ao local de contato. Outra questão interessante é posta a seguir pelo cineasta: ao entrarem no novo espaço, são vistos ao contrário, como se caminhassem pelo teto. A indicação visual dá a ideia, de novo, de que a ordem natural e humana não cabe nesse ambiente até então inalcançável.

Outra vez, e como nas questões de linguagem, a disposição no espaço alienígena é oposta à humana. Ou, à falta da gravidade, simplesmente não necessita das noções de altura, ou de profundidade. A vida tem outras regras. Ao que parece, o aprendizado e a mensagem levados aos humanos, em A Chegada, remete à reinvenção.

O espectador é confrontado pela inversão. Villeneuve desorienta. O público aprendeu a ver o universo das imagens segundo a ordem do mundo real. Na sala alienígena, a língua é outra, as regras são outras, tal como a forma de ver o mundo para além de qualquer amarra.

Com os homens na sala escura há um pássaro na gaiola. Difícil não pensar nesse animal aprisionado, na arquitetura de sua prisão, e não retornar ao plano da abertura, à sala da casa da protagonista, banhada à escuridão, de formas quadriculadas.

Os visitantes, heptapods, são grandes e escuros. Não têm face, apenas pernas e tronco. Mantêm-se atrás de uma película, no espaço de onde emana a luz. Espaço cada vez mais branco ao longo do filme. A película que divide também une: é sobre ela que os seres de outro planeta expõem seus círculos, sua linguagem, a partir de uma fumaça.

À frente, levada outra vez à concha, Banks será inserida, enfim, no branco. Momento em que estabelece total contato com os visitantes – não mais na antecâmara que simula uma caverna, mas recoberta pela luz e em pleno diálogo com aquela figura grande e estranha. Sua jornada àquele espaço é sua constatação dos erros de seus pares, os homens, antes e durante essa trajetória, ainda que seja possível corrigir alguns tropeços.

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Aniquilação, de Alex Garland

A missão no interior de um espaço alienígena leva inevitavelmente ao encontro do farol. A estrutura pertence aos humanos, estava ali antes da chegada dos visitantes. A estrutura representa a necessidade de equilíbrio, caminho, certezas – itens que, não por acaso, faltam em Aniquilação.

É pela luz do farol, ou pela sua presença, que os marinheiros encontram a terra firme – ou se desviam dela. Os alienígenas procuram no farol um ambiente para a nova vida que impõem: essa luz que aumenta pouco a pouco, aqui chamada de brilho, é um falso farol, uma propagação que institui, ao que parece, o oposto: a aniquilação.

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Não há muitas certezas no filme de Alex Garland. O espectador tem a impressão de que falta algo, de que a necessidade do mistério passa dos limites: em algum ponto, a opção por não responder às perguntas do público será capaz de irritá-lo. A reboque, o filme diz pouco, quase nada, sobre a heroína que não se esforça para agradar.

Em cena, Natalie Portman é a bióloga Lena. Termina no brilho após seu marido retornar da mesma zona alienígena. O homem, vivido por Oscar Isaac, reaparece, certo dia, sem alma, com respostas evasivas. Quando é levado a uma base do governo, a mulher vai junto e logo se integra a uma nova missão. Ao contrário da anterior, formada por homens, a seguinte será composta apenas por mulheres.

Outra questão curiosa, por sinal: os homens fracassaram. As mulheres retornam ao local para talvez descobrir essas causas. Ou mais: para chegar ao ponto em que os homens não chegaram. A certeza é que tudo se transforma – fisicamente ou não – nessa redoma brilhante, de paredes que parecem ter sido moldadas à água e sabão.

O interior do brilho revela novas vidas partindo de antigas, outras misturas, mutações impensadas: animais mesclam-se a vegetais, plantas crescem seguindo formas do corpo humano. Nem as almas escapam da fusão ao outro: os gritos de uma mulher morta continuam na boca da criatura assassina. O que antes separava agora une.

Talvez a aniquilação à qual o título refere-se dependa dessa fusão. Os alienígenas apropriam-se do espaço dos homens, “copiam” as formas de vida encontradas, provocam mutação: o sangue humano prega-se à forma do visitante, redoma que sorve a si mesma, momento em que Lena talvez deixe de ser completamente humana.

As perguntas persistem. Garland, também autor do roteiro, do livro de Jeff VanderMeer, oferece, sobretudo, a invasão ao impensável, à matéria desconhecida, onde as descobertas da ciência são contestadas. E, como se vê, não basta o mistério. Sozinho, não sacia.

(Annihilation, Alex Garland, 2018)

Nota: ★★☆☆☆

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2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick

Oito ficções científicas sobre jornadas ao desconhecido

O contato do homem com o desconhecido – o que pode ser definido como uma força alienígena – é tema recorrente em filmes de ficção científica, como se confere na lista abaixo. Em muitos casos, o que se vê é o descortinar de si próprio, mais que o do outro, o alienígena que tem o espaço invadido e nem sempre é vilão.

Planeta Proibido, de Fred M. Wilcox

Sob a carcaça do típico filme de ficção científica dos anos 50 há questões inquietantes: no espaço, em um planeta distante, homens tentam criar uma sociedade capaz de realizar suas vontades apenas com o poder da mente, envolvendo paz e justiça. Mas, como se sabe, as realizações nem sempre acompanham os desejos.

2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick

Três momentos, três histórias, um salto na evolução que liga o fim ao início. Há muitas maneiras de descrever essa obra-prima sobre o homem rumo ao contato com uma força superior. Em viagem final, dois astronautas confrontam um computador fora de controle, em um duelo pelo controle da própria nave.

Contatos Imediatos do Terceiro Grau, de Steven Spielberg

O homem em questão, vivido por Richard Dreyfuss, fica fascinado pela presença alienígena que cruza os céus, pelas luzes que sobrevoam seu veículo a certa altura. Sai atrás dessa força na companhia de uma mulher cujo filho foi abduzido. Está disposto a deixar tudo para trás para embarcar na grande nave e ir embora.

Stalker, de Andrei Tarkovski

Três homens – um stalker, um cientista e um escritor – entram em uma região fechada pelo governo, chamada de Zona. Nesse espaço – no qual o verde contrasta a imagem sépia do que fica de fora – há outro espaço, o quarto, no qual os desejos humanos podem ser realizados. À beira desse espaço, os homens veem-se paralisados.

O Segredo do Abismo, de James Cameron

Antes de “conquistar o mundo” com Titanic e Avatar, e pouco depois do primeiro Exterminador do Futuro e do segundo filme da série Alien, Cameron assinou esse filme sobre um grupo de mergulhadores que descobre uma força alienígena no fundo do oceano. Há espaço ainda para a intriga entre humanos e uma história de amor.

Contato, de Robert Zemeckis

Uma ficção científica em que a possibilidade de se encontrar uma crença sobrepõe o ceticismo. E uma frase sempre lembrada dá o tom do filme: “seria um desperdício de espaço se não houvesse vida fora da Terra”. Os humanos recebem uma mensagem alienígena. A cientista vivida por Jodie Foster tenta respondê-la.

A Chegada, de Denis Villeneuve

Dessa vez é uma linguista quem deve se aproximar dos alienígenas. Certo dia, diferentes naves com formato de concha surgem no planeta. Os americanos recorrem ao conhecimento da personagem de Amy Adams, cujo avanço ao interior da nave, cada vez maior, faz com que descubra a si mesma, como também seu futuro.

Aniquilação, de Alex Garland

A bióloga interpretada por Natalie Portman vai a uma região sob efeitos alienígenas, afastada, chamada de Brilho. Do local, seu marido militar retornou perturbado. O que ela descobre é que, em contato com o ambiente, seres vivos sofrem mutações e a vida obedece novas regras. Do mesmo diretor de Ex_Machina: Instinto Artificial.

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