ficção científica

2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick

Os milhões de anos que separam o macaco da inteligência artificial – com o homem entre essas pontas – não foram capazes de anular algumas semelhanças. Na “aurora do homem”, os macacos em questão se dividem em grupos e brigam por uma porção d’água; à frente, na viagem ao infinito, homem e máquina duelam pelo controle de uma nave.

Lutam, nos dois casos, pelo controle do território. Antes, entre iguais – mas nem tanto. Depois, entre diferentes – mas nem tanto. Pelas falsas aparências é possível enxergar alguns dos elementos que justificam a grandeza de 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, autor do roteiro em parceria com o escritor Arthur C. Clarke.

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Os macacos dessa aurora selvagem se distanciam dos outros pelo poder que adquirem. Tomam o osso, o futuro, constituem uma linhagem que logo se vingará do grupo rival. Até mesmo política, é possível argumentar, faz-se ali: ganha forma o poder do grupo. E os vencedores tomam a pequena região em que está a porção d’água.

O osso é a arma, a primeira. O osso converte-se na estação espacial, na nave, antes na máquina que circula pelo espaço. O osso converte o macaco em homem, aos poucos, à medida que este aprende a matar: o objeto é ao mesmo tempo sua relação com a desgraça futura (a morte, o poder) e o sinal do “progresso” (a ferramenta, a máquina).

Na terceira parte de 2001, passada no espaço, Kubrick oferece a batalha entre homem e máquina: o astronauta confronta o computador que “não falha” após ameaçar desligá-lo. Como os andróides de Blade Runner, o computador HAL 9000 aprendeu a gostar da vida. Deseja viver mais. Não quer ser desligado. Deverá aniquilar os homens da nave.

Enquanto alguns macacos “evoluem” pelo poder que adquirem, o computador é reduzido, em sua derrota, ao nível do homem: será, em 2001, a personagem mais humana, de quem fica a voz, o tom calmo, a clemência, a dor – tudo expresso pela fala de Douglas Rain. Em um filme que prescinde de diálogos, estes serão a evocação máxima da vida.

Outra história, entre as já citadas, mostra o contato de homens, na Lua, com uma força alienígena, o monólito que retornará em outros pontos do filme. Os homens, na cratera lunar, observam o grande objeto preto e, como os macacos, ousam tocá-lo. A contemplação dá vez ao som forte, desagradável, que pode ser um sinal a outro planeta.

O monólito é o alienígena sem forma, a vida sem vida, a maneira que Kubrick encontrou – entre tantos acertos – para imortalizar a imagem do “outro”. Ou simplesmente deixar à criatividade de cada um a vida possível que, no objeto preto e grande, não se vê. Seu enigma é justamente não parecer nada, não inspirar nada. Enigma em si mesmo.

Aos macacos, dá o caminho: de baixo para cima, a câmera mostra a luz do sol no alto do mesmo monólito. É como se apontasse ao espaço, ao infinito. Ao encarar o alienígena, os macacos talvez encontrem ali o primeiro sinal de adoração a um ser superior, ou aquilo que, mais tarde, converter-se-ia em devoção religiosa, a uma determinada imagem.

O objeto preto retorna. O filme é uma volta completa pela existência: do macaco ao feto-estrela, do osso à nave, da aurora do homem ao crepúsculo em um cômodo que mescla móveis da monarquia francesa com traços futuristas, entre naves e taças de cristais. O monólito surgirá ali, imponente, sem nada senão seu enigma natural.

Da aurora ao renascimento, os seres em questão são transformados por essa força superior. O computador morre pelo caminho, com toda sua humanidade, por isso mesmo cruel e indiferente às vidas que o cercam. O homem persiste, renasce no feto-estrela. Não se sabe o que vem depois. Vê-se, diferente do que ocorre em todos os filmes de Kubrick, um encerramento otimista. A nova vida regressa a Terra.

(2001: A Space Odyssey, Stanley Kubrick, 1968)

Nota: ★★★★★

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Guerra dos Mundos, de Steven Spielberg

Sem perceber, os terráqueos são mais perigosos que os alienígenas. São eles que expelem o corpo estranho encravado no planeta Terra, visitantes que estavam por aqui, talvez há milênios, à espera da hora certa para atacar. Em um dia como qualquer outro, em Guerra dos Mundos, eles dão vez ao levante. Contra o pai de família, contra todos.

Há correria, explosões, ataques, raios e os veículos com três pernas guiados pelos mesmos alienígenas, sobre cidades e campos, detonando o que há pela frente. Os terráqueos, ainda assim, contam com uma natureza que não aceita o corpo estranho, que sofre por algum tempo e depois o cospe: os homens são uma doença silenciosa.

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Pois os alienígenas desejam tirar algo da Terra. Alimentam-se de pessoas e usam o sangue para irrigar a natureza, a nova vegetação que depois esfarela. Algo dá errado. Os visitantes perdem a vez, saem de cena. Os humanos, após alguns dias, terminam vencedores. Derrotam o outro graças à genética que não permite ao visitante sobreviver aqui.

Steven Spielberg, a partir do roteiro de Josh Friedman e David Koepp, da obra de H.G. Wells, fez um filme, para muitos, incompreendido. Difícil aceitar a ausência de clímax, de uma resolução em que o homem precisa derrotar esse “corpo estranho” pela força bruta, pelo heroísmo, não exatamente pelo que lhe é intrínseco.

Não se trata de encontrar o ponto fraco, de injetar um vírus na nave inimiga e atacar, com todo aparato bélico à disposição, os alienígenas. Não se trata, tampouco, de entender o outro. Boa parte de Guerra dos Mundos acertadamente se dá a distância, pelo olhar do protagonista, o pai, homem comum que corre com os filhos para sobreviver.

Essa corrida deixa ver o que ele tem de pior: sua natureza estampa a imaturidade de alguém ainda um pouco jovem, que gosta de carros turbinados, beisebol, com boné e jaqueta, que perdeu a mulher e os filhos e viu a família cair na mão de outro homem, o americano sério e adulto, pai de família esperado, imagem de segurança.

À frente está Ray Ferrier, interpretado por Tom Cruise. É outra aposta acertada: na tela como na vida, o astro recusa-se a envelhecer. É, na tela, feito da natureza que não recusa seus vínculos, suas necessidades, sua busca por proteção aos filhos. Corre ao mesmo tempo para protegê-los e levá-los de volta à mãe. É como se quisesse devolvê-los logo à mulher, o ponto final em que estarão salvos, e assim retornar à independência.

Em outra batalha alienígena, Spielberg não deposita fé nos humanos. Os visitantes não cabem nos nativos. Acordaram para pouco reinado, para sobreviver por alguns dias. O primeiro em cena, na primeira parte do filme, brota do asfalto. A rachadura corre entre as pernas de Ray. Chega aos prédios. Chega à igreja cujo cume despenca. O mal repousava ali, talvez por séculos, abaixo do símbolo religioso, sem ninguém perceber.

O vilão brota para atacar os homens. Sem preferência, atira contra todos, e todos na sua mira se convertem em pó. Não deixam sequer ver o sangue. A religião, salvaguarda, abrigava sob seus pilares, seu prédio, o inimigo implacável, desconhecido, apontado por alguns como qualquer coisa para ser explicado – o iraquiano, o invasor, ou apenas o outro.

Guerra dos Mundos é um grande filme sobre vagar às cegas. O que salva é o que não pode ser visto, o que não se explica por orações ou qualquer força que, dizem as lendas, moveriam montanhas. Ao mesmo tempo, os homens revelam repugnância ao derramar o fanatismo que enxergam nos outros – ou nos visitantes, ou nos iraquianos.

A vida na Terra pode ser letal em suas pequenas partes, em gotículas, em células. Spielberg celebra a ciência contra as respostas fáceis da religião, contra o esperado confronto final. Os alienígenas não são mais bondosos, tampouco os vilões de rosto definido. Na filmografia do cineasta, aproximam-se do monstro com garras que emerge do fundo do mar contra os homens da superfície: indiferentes à humanidade, essas criaturas deixam ver o inesperado – para o bem ou para o mal – naqueles que resolvem enfrentá-las.

(War of the Worlds, Steven Spielberg, 2005)

Nota: ★★★★☆

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Bastidores: Guerra dos Mundos

Quem tem medo de seres amorfos?

Seres amorfos e perigosos vindos de outro planeta faziam sentido quando a ficção científica de baixo orçamento vivia dias criativos em plena Guerra Fria. Ao não darem forma a seus monstros, realizadores revelavam que o mal daquele tempo, o presente incerto em que viviam, refletia-se na meleca abominável que ataca os heróis.

Não se viam sinais de dubiedade nas personagens em cena. Às gosmas com vida, às coisas, ofereciam-se homens de família, personagens de caráter inabalável. E mesmo quando o vilão ou o perigo tomava alguma forma, ou tentava copiar a já estabelecida, não havia exatamente uma face a atacar. Estavam os monstros em todos os locais.

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Podem ser vistos, em diferentes exemplos, em filmes como Vampiros de Almas, A Bolha Assassina, na produção italiana Caltiki, o Monstro Imortal e, décadas depois, em O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter. Essas produções baseiam-se na invisibilidade – ou na visibilidade estranha – do antagonista, do outro, o alienígena.

Como doenças incuráveis, infiltram-se nas famílias, fingem o sono ou se revelam cópias perfeitas. Em Vampiros de Almas, por exemplo, passam de vegetais a réplicas dos seres que executaram. As famílias tradicionais americanas, para o susto dos honestos à frente, escondiam casulos no fundo de suas casas, suas vagens gigantes que davam à luz corpos de homens e mulheres da comunidade, agora possuídos.

Em A Bolha Assassina, o monstro amorfo ganha ainda mais destaque, sendo a meleca que cresce até ocupar um cômodo todo, ou uma casa. Os jovens heróicos duelam contra ela para salvar a pequena sociedade que representa, sabe-se, o país inteiro, em imagens que certamente ocuparam a mente de Orson Welles quando narrou A Guerra dos Mundos.

Passado à beira dos monumentos da civilização maia, Caltiki leva também à criatura que pouco a pouco ganha tamanho – na mescla entre ficção científica e filme de monstro, como o clássico A Múmia. Nas ruínas da civilização perdida, exploradores descobrem um ser que se alimenta da radioatividade de um cometa que espreita a Terra. Tudo se conjuga ao momento em que a bela família é desenhada, em que o pai estreito segue à casa, desesperado, contra a polícia, para salvar a mulher e o filho.

A moralidade dos protagonistas sem qualquer tempero faz com que os próprios humanos, ironicamente, disputem com as gosmas o espaço dos seres sem vida. Mas essa falta de forma verdadeira não retira deles a forma cinematográfica da época: o alinhamento à causa política, sobretudo nas produções americanas, quando os cidadãos honestos das pequenas cidades eram atacados pelos seres externos, os soviéticos travestidos de alienígenas.

O general enlouquecido de Doutor Fantástico, de Kubrick, falaria mais tarde sobre a necessidade de combater os fluídos do inimigo. Os monstros, com o som do líquido que dança em seu interior, são geleias com vida que engolem inocentes para se alimentar, para fazê-los parte da bolha que se rasteja rumo a lugar algum.

Confrontar a forma desconhecida, ou algo que não se vê, seria o mote também para Carpenter em seu O Enigma de Outro Mundo, nos anos 80, história já levada aos cinemas em O Monstro do Ártico, de 1951. Diferente do anterior, Carpenter entendeu que às personagens isoladas em meio à neve nada causaria medo maior que o invisível.

Em todos os casos, há uma doença, um contágio, algo a ser combatido antes que atinja toda a civilização. Nesse sentido, não está distante da ideia que move os filmes de zumbi: se algo dá vida aos mortos e estes não podem fazer nada senão atacar, não se trata também de um mal amorfo, no sentido de que não há vilão definido?

A ficção científica feita não raras vezes de baixíssimo orçamento precisava, por condições estruturais, de doenças, gosmas, geleias perigosas, mais do que de seres perfeitos em suas imperfeições, vilões que se servem de atributos humanos. O ser amorfo, comum a essas “pequenas” produções, apenas se ocupa de destruir, de se alimentar.

Foto 1: A Bolha Assassina
Foto 2: Vampiros de Almas

Veja também:
O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter

Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve

O caçador de andróides, 30 anos antes, descobriu o amor improvável, acidental, enquanto trabalhava em uma investigação. O caçador que surge 30 anos à frente garante o amor a partir de uma companheira digital, em holograma, comprada para lhe fazer companhia. Os tempos mudaram. A tecnologia é tão natural quanto opressiva.

O rapaz, o novo caçador, chama-se K. A companheira que se desenha, nascida em luzes, pretende fazê-lo acreditar ser especial: pessoas assim, argumenta ela, precisam ter um nome de verdade. Ele aceita mudar. Passa a atender por Joe. É, em Blade Runner 2049, continuação do cult de 1982, um de seus avanços – talvez o principal – rumo à humanidade, à face que assume frente ao mundo ao redor.

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Precisa ser um homem, alguém com sentimentos: abre o olho, ou por ele é engolido à revelação, no início, para ver além da capa à qual foi legado. Não é máquina. É mais. Quer ser alguém para atravessar esse futuro sem saídas, de poeira, chuva ácida, radiação, de lixo e máquinas que impedem a visão que se deseja, ou com a qual se sonha.

Como o primeiro, ambientado em 2019, a continuação de Denis Villeneuve tem uma personagem que não sabe bem o que faz, onde está, e descobre suas origens. Quer dizer, o homem do filme anterior, imortalizado por Harrison Ford, apenas acreditava saber mais, ou dava as costas: sua indiferença aproximava-o dos detetives do cinema noir.

Designado ao trabalho, simplesmente executava. Caçava replicantes como parte de um dia a dia cercado por orientais, velharias, punks, belas modelos – tudo amontoado pela rua. O novo caçador sabe o que é: desde o início, como confere o público, vê-se o andróide aprisionado ao pequeno apartamento, às ordens, à namorada digital.

O amor em questão carrega certa teatralidade, certa “mão divina”. Oposto, às aparências, ao amor de Rick Deckard (Ford) por Rachael (Sean Young). Curiosamente, uma das sequências mais bonitas de 2049 mostra a moça feita em holograma fundida ao corpo de outra, uma prostituta, para conseguir tocar e satisfazer sexualmente o companheiro.

Novos tempos, novos prazeres e amores. De qualquer forma, não se nega o sentimento, a cegueira causada pelo holograma programado para dizer o que todo homem deseja ouvir. Característica humana: a crença de que é possível escapar à linha de montagem, de que é possível ser fruto de um ventre materno, reproduzido à base de uma história de amor.

O andróide de Ryan Gosling vive situação dramática: descobre a si mesmo, entre os cacos da civilização, para se sentir, mais tarde, grão de areia no universo. Descobre, nesse que pode ser o melhor filme de Villeneuve, que os humanos definem-se pela consciência da finitude, da pequenez, principalmente quando a tecnologia ajuda a ver tudo do alto ou a erguer castelos e pirâmides repletas de luzes, sobre os quais ainda resta um olho atento.

Com ele, na abertura da primeira ou da segunda parte, o convite é para entrar. Invadir o olho para ver a alma, e ver o humano. Na trama, K desloca-se ao seu interior, à história que acredita ter, a qual lhe toma ora ou outra de assalto, que acredita ter sido implantada e a qual, acredita depois, pode ter sido real. Verdadeira ou não, é o trampolim aos seus sentimentos, o que afasta o homem da máquina.

Apesar de belas sequências de ação, o que move Blade Runner 2049 é a jornada interior. Como no filme de 1982, Villeneuve está interessado em discutir se a cópia pode assumir o papel do original. Ou superá-lo. No anterior, os andróides procuravam seu criador para tentar frear a morte; 30 anos mais tarde, o replicante sai em busca do homem que acredita ser seu pai e, por ele, encontrar respostas sobre sua origem.

As perguntas lançadas pelo filme de Ridley Scott, em 1982 e em versões posteriores, seguem inquietantes. Villeneuve persiste nesse olho aberto, cheio de cores, no qual é preciso mergulhar, o do jovem caçador de andróides que se alimenta do amor para preencher o vazio, que encontra a desilusão, o erro, para enfim sentir o material do qual é feito.

(Idem, Denis Villeneuve, 2017)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Blade Runner, o Caçador de Andróides, de Ridley Scott