Fanny Ardant

8 Mulheres, de François Ozon

A tamanha artificialidade de 8 Mulheres quase não deixa ver o que há de real. Como no cinema clássico, embrenha-se nas cores, nas gracinhas, na aparência indolor – a despeito da realidade que se impõe na invasão das belas casas e das famílias aparentemente perfeitas, com dramas pouco a pouco revelados.

É importante lembrar que, como nos filmes clássicos, o visual está distante do realismo. Ao contrário, é falso a todo o momento. 8 Mulheres é embrulhado como casa de bonecas, com mulheres irretocáveis, criadas belas e sorridentes. O que há de real esconde-se justamente no falso: uma vida oculta sob o véu do sonho.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

A começar, sendo a primeira em cena, há Virginie Ledoyen, a menina bela, a filha que veste rosa, o sonho de qualquer pai e mãe. Mais tarde vêm à tona algumas revelações: ela está grávida, seu pai não é seu pai e o pai de seu filho é justamente o homem que a criou – agora morto, na cama, com uma faca cravada nas costas.

O filme gravita em torno desse crime. Em cena, a moça de figurino rosa é uma possível assassina. Há outras sete. Todas têm seus motivos para ter matado o homem sem rosto, que aparece apenas de costas. Logo vem a mãe da menina (Catherine Deneuve), misteriosa e cujas lágrimas não convencem; a avó (Danielle Darrieux), que de repente levanta da cadeira de rodas e começa a andar; a tia (Isabelle Huppert), que talvez goste mais de romances do que aparenta.

As personagens começam a se despir, pouco a pouco, à medida que o diretor François Ozon insere números musicais que, de propósito, convocam o espectador para outro universo: a contrapor o assassinato e as mentiras, o cineasta oferece o espetáculo quase hollywoodiano, forçando sempre a ver o brilho e a maquiagem, o indesejado.

A música chega a ser indigesta: de tão irônica, não fornece mais do que fuga passageira. Não produz qualquer sentimento, talvez por falar de sonhos, de amores, de tudo o que poderia ocupar aquele espaço – as cores estão prontas! – não fosse um espaço de crime e investigação, de mentiras e máscaras variadas.

Há também as criadas (Firmine Richard e Emmanuelle Béart), a irmã do homem morto (Fanny Ardant), que chega mais tarde, e sua filha (Ludivine Sagnier), uma adolescente que serve ao papel da típica coadjuvante curiosa, que faz perguntas e gosta de romances policiais. Como se verá mais tarde, ela oferecerá respostas.

A teia de situações é abertamente frágil. O filme é cômico. As mulheres – uma verdadeira coleção de estrelas do cinema francês, das mais velhas às mais jovens – brincam com o jeito feminino e não se importam em reverberar certo preconceito sobre um meio ocupado apenas por elas: a vontade de destruir as concorrentes.

A realidade, ainda que distante, ecoa no espectador, incomoda. Sob a embalagem colorida, na aparência da camada branca perfeita que recobre o carro do lado de fora, esse filme de estúdio tem mais a revelar do que se imagina. É uma brincadeira que, com algum esforço, pode ser levada a sério. Como um bom filme clássico feito de belas casas, belas mulheres, belas crianças, além de revelações incômodas.

(8 femmes, François Ozon, 2002)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Ato Final, de Jerzy Skolimowski

A vibrante Fanny Ardant

Ao descobri-la em minha tela de televisão, eu ficara seduzido por sua boca larga, seus grandes olhos negros, seu rosto em triângulo, mas logo reconheci e percebi em Fanny Ardant as qualidades que geralmente mais espero dos protagonistas dos meus filmes: vitalidade, valentia, entusiasmo, humor, intensidade, mas, também, no outro prato da balança: a inclinação pelo segredo, um lado feroz, uma suspeita de selvageria e, acima de tudo, algo vibrante.

François Truffaut, cineasta, sobre a atriz Fanny Ardant, com quem trabalhou em seus dois filmes derradeiros: A Mulher do Lado e De Repente Num Domingo. Trecho de um artigo da Unifrance Film Magazine (dezembro de 1981) e reproduzido no livro O Prazer dos Olhos: Escritos sobre Cinema (Jorge Zahar Editor; pg. 219). Abaixo, Ardant e Truffaut nos bastidores de A Mulher do Lado. A atriz e o cineasta tiveram um relacionamento que durou até a morte dele, em outubro de 1984.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

a-mulher-do-lado

Veja também:
Um Assunto de Mulheres, de Claude Chabrol

As mulheres de François Truffaut

As damas são parte fundamental do cinema de François Truffaut. Mulheres belas que enlouquecem por amor (Adèle Hugo), que fazem os homens enlouquecerem (Marion Vergano), que não encontram mais espaço para o amor (Mathilde Bauchard) e, ainda mais longe nessa exploração, que não conseguem inventá-lo (Catherine, a musa de Jules e Jim). Elas, diz Truffaut, são um universo inacessível e misterioso.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Catherine (Jeanne Moreau), em Jules e Jim – Uma Mulher para Dois

Jeanne Moreau

Colette (Marie-France Pisier) em Antoine e Colette

antoine e colette

Nicole (Françoise Dorléac) em Um Só Pecado

um só pecado

Clarisse/Linda Montag (Julie Christie) em Fahrenheit 451

fahrenheit-451

Christine (Claude Jade) em Beijos Proibidos

beijos proibidos

Marion Vergano (Catherine Deneuve) em A Sereia do Mississippi

a-sereia-do-mississipi

Ann Brown (Kika Markham) em As Duas Inglesas e o Amor

as-duas-inglesas-e-o-amor

Camille Bliss (Bernadette Lafont), em Uma Jovem Tão Bela como Eu

uma-jovem-tao-bela-como-eu

Julie Baker (Jacqueline Bisset) em A Noite Americana

a-noite-americana

Adèle Hugo (Isabelle Adjani) em A História de Adèle H.

a-historia-de-adele-h-1

Hélène (Geneviève Fontanel) em O Homem que Amava as Mulheres

o-homem-que-amava-as-mulheres1

Cecilia (Nathalie Baye) em O Quarto Verde

o-quarto-verde2

Sabine (Dorothée) em O Amor em Fuga

o-amor-em-fuga

Mathilde Bauchard (Fanny Ardant) em A Mulher do Lado

a-mulher-do-lado

Veja também:
12 diferentes fetiches explorados pelo cinema

De Repente Num Domingo, de François Truffaut

O último capítulo de François Truffaut é, primeiro, a volta ao passado, desfile de referências, destilar de traços sem compromisso senão com o próprio cinema. E cinema maior, raro, no preto e branco que emoldura o filme policial abarrotado de diversão.

O tom é de um policial ao modo série noire, com investigadores improváveis, amantes idem, no terreno que Truffaut havia explorado em A Noiva Estava de Preto. Com De Repente Num Domingo, seu trabalho é ainda mais livre, inclinado à comédia sem que se esqueça dos bons ingredientes do cinema policial.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

de-repente-num-domingo-1

Sua investigadora improvável nasce da pele da bela – então companheira do cineasta – Fanny Ardant. Como Barbara Becker, divide o tempo entre ser secretária de um homem um pouco mais velho, misterioso e autoritário (Jean-Louis Trintignant) em uma imobiliária e os palcos do teatro, em seu trabalho como atriz amadora.

Nos ensaios, a bela faz questão de enfatizar que se trata de teatro amador. E, para Truffaut, trata-se assim de delimitar o clima de desacertos, dos tropeços que virão: ver-se-á um mundo de amadores, de seres perdidos e engraçados, daí o descompromisso.

Em contrapartida, o visual é rigoroso, de novo com a fotografia de Néstor Almendros. Esse meio entre rigor visual e descompromisso temático produz um filme de sustos, uma beleza estranha mas não inédita ao cinema moderno. Truffaut chega à consciência de um grande autor: recorre ao máximo da beleza e da liberdade.

Não dá para ser injusto ou rasgar o passado: algo semelhante pode ser visto, por exemplo, em O Último Metrô ou mesmo em Beijos Proibidos. Estavam lá o palco e a agência de detetives – respectivamente – e também a queda inegável por personagens passageiras, enxeridas, seres que mergulham na tela sem pedir licença.

É o caso do rapaz que flerta, ainda no início, com a protagonista de De Repente Num Domingo – para ouvir, após a dispensa incontornável dela, que segue para outro lado, um “assim é a vida”. É a súmula do que vem pela frente, ou mesmo seu oposto: a aparência de que tudo não passa de um golpe do destino.

Basta, para alguém como ela, evocar tal expressão: filmes como este não recorrem a ela por acaso. A mescla de beleza e liberdade, que explode ao público, é justamente prima dessa expressão certeira e nada casual, como cada bofetada inesperada, cada diálogo ríspido, cada maneira propositalmente inverossímil da bela Ardant.

de-repente-num-domingo-2

Secretária, ela aceitará correr atrás das pistas – e de um verdadeiro criminoso, ou mesmo de uma rede criminosa – para livrar a cara do chefe, Julien Vercel (Trintignant). Ele é acusado de matar a própria mulher e seu amante, além de outros cadáveres que surgem pelo caminho. Tomada também pela necessidade ação, Barbara decide ajudar.

Ao escrever sobre Ardant, Truffaut lembraria uma característica que não deixa escapar em De Repente Num Domingo: “uma suspeita de selvageria”. Diferente, vale dizer, daquela intensidade trágica, típica dos amantes, em A Mulher do Lado. A “selvageria”, nesse caso, desloca-se ao domínio do inesperado e do cômico.

Vê-se, portanto, uma Ardant entre homens e mulheres, em um beco, a se prostituir com a naturalidade das melhores atrizes – porque o ofício de detetive, nesse caso, permite-lhe ser uma atriz melhor, e talvez não recorrer ao refúgio dos amadores.

Grande atriz dentro de outra, que enfrenta o domínio das louras, dos homens perigosos e de passagem, do chefe e futuro amante, sobre quem ainda restam dúvidas. Barbara, a última expressão de Truffaut, é a heroína perfeita ao cinema do mestre, que nasce das ruas, das frases pouco calculadas, à base do amadorismo e do acidente.

(Vivement dimanche!, François Truffaut, 1983)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
As Duas Inglesas e o Amor, de François Truffaut

A Mulher do Lado, de François Truffaut

À exceção da delicadeza, as mulheres de Bernard Coudray (Gérard Depardieu) são diferentes. De tão explícitas, essas diferenças fazem com que o espectador não tenha qualquer dúvida sobre o que o leva à casa ao lado, à vizinha que acaba de se mudar.

A história anterior é sugerida em A Mulher do Lado. Bernard conheceu Mathilde oito anos antes. Foram amantes, em um relacionamento difícil, de momentos explosivos. É a sugestão: ao que parece, um relacionamento fadado ao fracasso graças à intensidade.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

a-mulher-do-lado-1

Nas voltas da vida, e da história na qual nada se dá por acaso, essa mulher deveria terminar ali, ao lado, na casa disponível à locação. Azar de Bernard, que se vê novamente levado por ela, pela bela dama diferente, inegavelmente misteriosa.

A vida de Bernard é outra: mora com a mulher, Arlette (Michèle Baumgartner), e com o pequeno filho. Está estabilizado, tem um bom emprego. Vive bem. Da janela, a nova vizinha e antiga amante observa-o. O homem sente-se pressionado, torna-se vítima de escorregões, dos próprios sentimentos que retornam. Perde a naturalidade.

Se nos filmes de Eric Rohmer os amantes seguem naturais até o fim, mesmo sob os efeitos do acaso ou do destino, os de François Truffaut rendem-se sempre à intensidade. E são sempre diferentes – para não dizer suspeitos – quando se trata de sentimento.

Truffaut é o diretor da intensidade. Sempre sem exageros, levado pelo prazer da vida cotidiana, de absurdos e saídas inegavelmente cinematográficas. Como Jean Renoir, é como se Truffaut dissesse, não em palavras baixas, que a vida pode ser cinematográfica a cada instante, a cada movimento, de um lado para outro.

A Mulher do Lado é um de seus melhores filmes, sobretudo no que diz respeito à direção. O cineasta francês trabalha com uma história de amor arrebatadora em tom menor. Nas linhas iniciais há intensidade suficiente. Exageros não são necessários.

Mathilde, a mulher do lado, é interpretada pela hipnotizadora Fanny Ardant. Amante fria, tentadora, que observa da janela ao lado, dos espaços ao lado, que leva o telefone à boca justamente no momento em que o amante faz o mesmo na casa ao lado. A montagem articula com perfeição esses toques e sentimentos, essa difícil distância.

a-mulher-do-lado-2

Sofre-se com muito, mas como se fosse pouco. Não é. O ponto de vista é revezado: primeiro o espectador vê o amor pela ótica de Bernard, depois por meio de Mathilde. A narrativa oferece essa troca, para que se entenda a relação a dois, ao passo que o realizador não resiste em oferecer novos caminhos para o encerramento trágico.

Não poderão viver juntos nem separados. Quem indica isso, ao fim, é a terceira personagem mais importante. À frente de um clube de tênis frequentado pelos amantes, Odile (Véronique Silver) surge para unir as partes, ou para anunciar que tamanha tragédia exige serenidade: em seu tom há até certo sarcasmo e graça.

Pois ela sabe o que é o amor. E a tragédia, para essa mulher, é o projeto irrealizado: antes, quando jovem, tentou se matar por causa de um homem que a abandonou. Truffaut mostra que todo amor arrebatador também leva à morte (pelo menos quando se trata da ficção). Algumas de suas personagens não negam isso, como Adèle Hugo.

A graça em meio à história trágica pode ser vista nos primeiros instantes de A Mulher do Lado, quando a câmera afasta-se de Odile e revela seus problemas físicos. Ela superou seus problemas amorosos para contar, com a dificuldade do passo, aquela história de amantes rendidos pelo inesperado, violentos por amar demais.

(La femme d’à côté, François Truffaut, 1981)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Bob, Carol, Ted e Alice, de Paul Mazursky