Eva

16 filmes em que as mulheres não são submissas aos homens

Próximos a essas mulheres, os homens ficam pequenos. Alguns, pobres coitados, nem aparecem em tela. E, como se vê abaixo, o poder feminino no cinema é mais antigo do que se imagina. Com o passar das décadas, só tem aumentado – para a alegria de muitos e, em tempos de regresso às pautas conservadoras, tristeza de outros. Heroínas ou até vilãs, essas mulheres transpiram força. À lista.

O Anjo Azul, de Josef von Sternberg

Os alunos do professor vivido por Emil Jannings querem saber o que leva o mestre, todas as noites, ao cabaré distante. Sobre o palco está ninguém menos que Marlene Dietrich, a quem todos se ajoelham.

Pacto de Sangue, de Billy Wilder

A falsidade da peruca loura não tira a força nem torna Barbara Stanwyck caricata em seu filme mais famoso, na pele de Phyllis Dietrichson, que acaba com a vida de dois homens. Clássico absoluto.

Stromboli, de Roberto Rossellini

Em uma vila perto de um vulcão, uma mulher (Ingrid Bergman) enfrenta o olhar desconfiado da população e o machismo que impera no local, visto por ela como prisão difícil de escapar.

Mônica e o Desejo, de Ingmar Bergman

A protagonista, vivida por Harriet Andersson, confronta o pequeno rapaz com seu corpo exposto e sua liberdade. À frente, segue em sua cruzada contra todos, liberta, e chega a encarar a câmera.

O Quadragésimo Primeiro, de Grigori Chukhrai

A mulher, uma atiradora do exército bolchevique, vê-se isolada com um homem do grupo czarista. Surge ali um amor estranho, curioso, com o qual ela deverá se confrontar nesse filme interessante.

Eva, de Joseph Losey

Jeanne Moreau é a destruidora perfeita, a tentação em pessoa, mulher forte, capaz de colocar todos os homens a seus pés. A vítima é Stanley Baker, que tenta sobreviver a ela e às suas investidas.

As Quatro Irmãs, de Gillian Armstrong

Delicado e feminista, o trabalho de estreia da australiana Armstrong conta a história da independente – e nem sempre agradável – Sybylla Melvyn, que nada na contramão dos conservadores de sua época.

Reds, de Warren Beatty

A feminista Louise Bryant (Diane Keaton) é a verdadeira protagonista desse filme sobre tempos de transformação. Ao lado de John Reed, ela assiste à Revolução Russa e confronta os bons modos de seu país.

Corpos Ardentes, de Lawrence Kasdan

Essa espécie de remake de Pacto de Sangue consegue ter uma mulher tão forte quanto o anterior. Em um filme em que o calor é quase uma personagem, ela convence o amante a matar o marido.

Medeia, de Lars von Trier

Medeia resolve se vingar do marido, o guerreiro Jasão, quando descobre que ele vai se casar com a jovem filha do rei. Antes de ser posta em exílio, ela arquiteta um plano cruel contra o companheiro e sua família.

Thelma & Louise, de Ridley Scott

Duas amigas precisam fugir da polícia após matarem um homem. Essa viagem de transformação mistura comédia e aventura e dá vez a um filme encantador, com química invejável das protagonistas.

Instinto Selvagem, de Paul Verhoeven

O detetive vivido por Michael Douglas sabe que pisa em terreno perigoso, mas, tomado pelo desejo, prossegue. Com Sharon Stone à frente, em um jogo de manipulação, é provável que qualquer um faça o mesmo.

As Horas, de Stephen Daldry

Meryl Streep, Nicole Kidman e Julianne Moore são vistas em três histórias diferentes – e três tempos – sobre mulheres fortes que escolheram sobreviver, todas à luz de Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf.

Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres, de David Fincher

Rooney Mara brilha na pele da hacker Lisbeth Salander, personagem icônica de Stieg Larsson, unida a um jornalista para investigar o desaparecimento de uma garota. Resultado: ela rouba todas as cenas.

Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller

Tom Hardy até se esforça, mas o filme é de Charlize Theron, a Imperatriz Furiosa de braço mecânico. No meio do deserto, ela desafia um ditador ao fugir com suas ninfas e passa a ser perseguida.

Elle, de Paul Verhoeven

Teve gente que a considerou fraca e até chamaram o diretor de misógino. Mas a dama de Isabelle Huppert, abusada por um homem mascarado com quem volta a se encontrar, é forte e insubmissa.

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Mãe!, de Darren Aronofsky

Deus, vaidoso e permissivo, deixa os outros – Adão e Eva, Caim e Abel, ou mesmo a humanidade, a turba fora de controle – invadirem a casa isolada. A casa em que vive, construída, ou reformada, por sua mulher, Terra. O resultado dessa invasão, com toques de terror, descamba aos conflitos, à guerra, ao fogo. Ao fim.

Esse possível resumo de Mãe!, de Darren Aronofsky, deixa ver um pouco do mundo real e da crítica à religião. Desde o título, gravita em torno da mulher, da mãe, representante ao mesmo tempo dos sentimentos e do medo, dona de reações adversas, de alguma consciência contra a onda externa (inerente ao mal), ao mesmo tempo dona de perguntas bobas.

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A mulher, vivida por Jennifer Lawrence, não sabe o que ocorre por ali. Como se a Terra fosse o único abrigo possível, do qual emana a vida, ao mesmo tempo o alvo em potencial. A turba quer Deus, aqui chamado de poeta, ser estranho, distante, que nada deixa ver – ou pouco, como a vaidade, o cinismo, sob os trejeitos conhecidos de Javier Bardem.

A mulher em cena é como uma criança: não tem poder sobre os outros, nem sobre o marido nem sobre qualquer convidado. Seus pedidos não são atendidos. Como uma criança, resta gritar a alguém, pedir socorro, ver o mundo como algo invertido: o que aos adultos parece normal a ela – e ao público – parecerá aberração. Resta a ela pedir ajuda: “mãe!”

Mas os homens, do lado de fora, desejam apenas o pai. Talvez esteja aí a mensagem desse filme descontrolado, barulhento, escuro e trêmulo de Aronofsky: os homens precisam de líderes (carnais ou espirituais), precisam de palavras e imagens, de crenças, de livros para se apoiar, menos da mãe que oferece a vida e o acolhimento.

Homem e mulher vivem em uma casa isolada. Não há mais do que mata para fora de seus espaços. Os visitantes – primeiro um homem e uma mulher, depois os filhos – chegam sem avisar. Ninguém os conhece. Sabem do poeta, não de sua mulher. O homem, médico interpretado por Ed Harris, admira o trabalho do poeta e está à beira da morte; a mulher (Michelle Pfeiffer) entra sem pedir, escolhe um quarto, dá palpites.

A gravidez é a consequência natural. O terror está na dificuldade de a turba lidar com esse produto divino, com a vida, levada pela idolatria: tem nas mãos o filho de Deus e da Terra e, claro, termina por matá-lo, por comê-lo, por deixar seus pedaços sobre algum lugar supostamente santo aos olhos de todos. A mãe-Terra rebela-se.

Não há seres reais no filme de Aronofsky. São representações. A humanidade – tal como partes importantes de sua história – é confinada na casa. O espaço não está terminado. A mãe investe contra suas paredes, decora, enxerga em seu interior o batimento da vida, em vermelho, talvez um coração prestes a se trancar em cinzas.

Ao parar de bater, esse coração por trás da parede, a ser visto pela mulher que tenta segurar as estruturas e o que elas abarcam, aponta à chegada do fim. Inevitável também: tudo, prevê o espectador, terminará em mais barulho, mais violência, ao passo que as representações correm pela tela, como se gritassem: “vejam os erros, são tantos!”.

O diretor passa do mistério à irritação, do existencial à necessidade de pregar peças no público. Há muito e nada a entender, a descobrir, pois se o texto parece instigante e o criador ousado, o resultado declina a um cinema de baixa qualidade, feito de aproximação extrema, de tropeços e sacudidas, de barulho, de perguntas infantis.

Lançar uma personagem alheia à verdade soa golpe baixo. A última a saber, a primeira a sofrer. O todo arrasta-se a perguntas naturalmente sem respostas, para dizer, ao fim, que a humanidade não deu certo e que Deus, com outra mulher, tentará de novo. Precisa de sua inspiração para escrever poesia, para dar à luz seu filho devorado.

(Mother!, Darren Aronofsky, 2017)

Nota: ★★☆☆☆

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15 grandes rostos da nouvelle vague francesa

Além de cineastas e outros profissionais da sétima arte, a nouvelle vague trouxe uma galeria de grandes faces. Esses atores e atrizes também fizeram carreira em filmes fora do movimento, antes e depois dele. Alguns morreram prematuramente, outros continuam na ativa.

Estudiosos divergem sobre o início e o fim da nouvelle vague. Segundo a versão mais aceita, começaria em 1958 ou 1959, com Nas Garras do Vício ou Os Incompreendidos, e seguiria até os embates de Maio de 1968. Abaixo, ícones dividem espaço com atores menos lembrados, em lista para resgatar um momento único da História do Cinema.

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Anna Karina

A bela de Godard, mas também de Rivette e outros. Em Viver a Vida, fez história com lágrimas que remetem a Dreyer e sua Joana D’Arc. Também trabalhou sob a direção do mestre Valerio Zurlini no belo Mulheres no Front, de 1965.

viver a vida

Bernadette Lafont

Seu primeiro filme, o curta Os Pivetes, foi dirigido por François Truffaut, com quem voltaria a trabalhar em Uma Jovem Tão Bela como Eu. No primeiro, é a beleza distante, aos olhos dos meninos atrevidos. Mais tarde esteve no extraordinário A Mãe e a Puta.

os pivetes

Brigitte Bardot

Antes de Godard e O Desprezo, Bardot marcou época como a menina livre de E Deus Criou a Mulher, de Roger Vadim. Estavam escancaradas ali as portas do paraíso: Saint-Tropez, onde a mesma se banharia em ambas as obras, e onde seria seguida por diferentes homens.

o desprezo

Claude Jade

A primeira aparição da jovem atriz em Beijos Proibidos, de Truffaut, é talvez o ponto alto do filme. Ela aproxima-se do vidro e, do lado de fora, acena para Antoine Doinel. É o par perfeito para o jovem em dúvida, com quem voltaria a se encontrar nos filmes seguintes.

beijos proibidos

Corinne Marchand

Bastou apenas uma personagem para que Corinne ficasse marcada como uma das musas da nouvelle vague: a protagonista de Cléo das 5 às 7, de Agnès Varda, sobre os momentos de tensão que antecedem a retirada de um importante exame médico.

cleo das 5 as 7

Delphine Seyrig

O rosto misterioso de O Ano Passado em Marienbad. Mais: o rosto difícil de esquecer, o da mulher que vive com o enteado e recebe a visita de um velho amor em Muriel, outro de Alain Resnais. E como deixar de lado, entre outros, o incrível Jeanne Dielman?

o ano passado em marienbad

Françoise Dorléac

Outra atriz bela de poucos papéis, lembrada, sobretudo, por sua personagem em Um Só Pecado, de Truffaut, e que morreu cedo, em um acidente de carro, em Nice, em 1967. Pode ser vista também em Armadilha do Destino e Duas Garotas Românticas.

um só pecado

Jean Seberg

Apesar de ter trabalhado em grandes produções, a americana Seberg seria lembrada por sua personagem em Acossado, Patricia Franchini, que pelas ruas de Paris vende o New York Herald Tribune. A atriz contracenou antes com David Niven em Bom Dia, Tristeza.

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Jean-Louis Trintignant

Trabalhou ao lado de diversos cineastas, entre eles Vadim (E Deus Criou a Mulher), Claude Lelouch (Um Homem, Uma Mulher) e Eric Rohmer (Minha Noite com Ela). Fora do tempo da nouvelle vague, ainda contribuiria com outros mestres, como Kieslowski.

minha noite com ela

Jean-Pierre Léaud

Eternizado como Antoine Doinel nos cinco filmes que Truffaut dedicou à personagem. E não só: também esteve em filmes de Godard, como no divertido Masculino-Feminino e, pouco depois, no maoísta A Chinesa, de 1967. Esteve no recente e encantador O Porto.

os incompreendidos

Jean-Paul Belmondo

Podia ser um pequeno criminoso em Acossado e, no ano seguinte, 1961, o padre de Léon Morin, de Jean-Pierre Melville. Ator versátil, de expressão inesquecível, e de filmes nem sempre lembrados como Duas Almas em Suplício, de Peter Brook.

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Jean-Claude Brialy

Viveu o protagonista de Nas Garras do Vício, um dos filmes que lançaram a nouvelle vague. Voltaria em outro de Chabrol, logo depois, Os Primos, e em diversas produções marcantes como Uma Mulher é Uma Mulher e, mais tarde, O Joelho de Claire.

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Jeanne Moreau

Provavelmente o rosto feminino mais importante da época, a Catherine de Jules e Jim, papel que a imortalizaria. Viveu outras personagens intensas em grandes filmes como Eva, A Baía dos Anjos, A Noite e, pouco antes, em Amantes e Ascensor para o Cadafalso.

Jeanne Moreau

Maurice Ronet

Esteve no mesmo Ascensor para o Cadafalso ao lado de Moreau e, de novo com o diretor Louis Malle, interpretou a personagem principal em Trinta Anos Esta Noite. Com Alain Delon, dividiu a cena em outros bons filmes: O Sol por Testemunha e A Piscina.

Trinta Anos Esta Noite

Stéphane Audran

O olhar enigmático é sua marca registrada. Pode ser visto nos filmes de Claude Chabrol, com quem foi casada até 1980. E com ele fez grandes filmes, incluindo um pequeno papel em Os Primos, Entre Amigas e, mais tarde, A Mulher Infiel e O Açougueiro.

o açougueiro

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Jeanne Moreau, 85 anos

O aniversário da grande atriz é hoje, 23 de janeiro. Alguns trabalhos importantes: Ascensor para o Cadafalso, Os Amantes, A Noite, Jules e Jim – Uma Mulher para Dois, Eva, Trinta Anos Esta Noite, O Diário de Uma Camareira, Chamas de Verão e A Noiva Estava de Preto.

Jeanne Moreau

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Uma bela sequência de Ascensor para o Cadafalso, com Moreau sozinha, com o amante à mente, ao som de Miles Davis.