Estados Unidos

A América e a pena de morte, segundo Lars von Trier

Para mim, a América é um mito. Não rodar [Dançando no Escuro] no local real no qual se passa a ação pode, às vezes, trazer algo mais. Por exemplo, adoro Amerika, de Kafka. Ele nunca foi lá, Kafka… Mas a América está inteira no seu livro.

(…)

Dançando no Escuro é minha visão de um filme americano. Afinal, minha visão da América advém das coisas que vi no cinema. É uma nação fraca, que tem de matar seus membros para preservar seu conceito moral. Eu sou radicalmente contra a pena de morte, que não consigo conceber como um castigo. Minha percepção do sistema judicial americano, mesmo sem ser perito e sem conhecê-lo profundamente, é que ele é injusto, num país dito cristão.

Lars von Trier, cineasta, no documentário Os 100 Olhos de Lars von Trier, de Katia Forbert, que aborda as filmagens de Dançando no Escuro. O filme, de 2000, situa-se nos Estados Unidos de 1964, mas foi rodado na Suécia. O livro de Kafka citado pelo diretor também é conhecido no Brasil como O Desaparecido. Abaixo, o encerramento de Dançando no Escuro, com a frase: “Dizem que é a última canção. Mas eles não nos conhecem. Só será a última canção se deixarmos que seja”.

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A Longa Caminhada de Billy Lynn, de Ang Lee

Mais que drama feito às lágrimas, Ang Lee prefere pequenos gestos sensíveis. Retira de muitas cenas o efeito esperado, fraqueza ou força, covardia ou heroísmo de alguém retraído como Billy Lynn (Joe Alwyn). Sobra mesmo a sensibilidade do soldado, ao qual outro, vivido por um inesperado Vin Diesel, conhecido brucutu, diz que ama.

Diz também para outros soldados, em momento-chave, na experiência em campo contra os inimigos, quando estão prestes a guerrear. Poderia, fosse outro filme, soar pesado, ou deslocado; com Ang Lee, em A Longa Caminhada de Billy Lynn, beira a perfeição. Esses homens confessam não o típico amor, mas o pedido para que vivam para os outros.

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É um ritual, ponto em que precisam confessar, mesmo que isso signifique corar o rosto rosado de Billy ou de qualquer outro adolescente que sabe algo sobre sexo, pouco ou nada sobre amor. Espaço último para se pensar em tal gesto, o do astro de Velozes e Furiosos, para somar outro tijolo à arquitetura de Lee em sua passagem pela história de Billy.

São três caminhos nessa narrativa costurada entre passado e presente: os momentos da guerra no Oriente Médio, os dias em família e as horas como estrela ao lado de um grupo famoso, em um estádio, para vender – servir, sobretudo – o produto americano. De garoto perdido, sem entender o que o cerca nos três casos, Billy converte-se em desejada marca.

A história americana está cheia dessas representações que, em determinados casos, nos momentos certos, podem valer mais que uma bandeira ou um hino: a imagem que reproduz o heroísmo – àqueles que assistem, distantes, do conforto de suas casas. “No lugar certo, na hora certa”, Billy foi captado pela imagem: ao ângulo, oferece o herói.

O rapaz por trás do vídeo seco, a certa distância, começa a ser descortinado: do atraso para se juntar aos colegas de farda, no início, à dificuldade para se comunicar com uma bela líder de torcida que primeiro pisca para ele, depois corre ao seu encontro, em esconderijo improvisado, para lhe roubar alguns beijos. A vergonha deixa ver a sensibilidade.

Quando se pensa em pessoas convertidas em marcas, ao modo do Tio Sam em seu “I want you”, difícil não pensar na história por trás da imagem dos homens que fincaram a bandeira americana em Iwo Jima, clicada por Joe Rosenthal. Virou filme, em 2006, pelas mãos de Clint Eastwood. Na tela, homens servem igualmente de marionetes à propaganda, à arrecadação de dinheiro, à roda do espetáculo.

Para Billy, tudo parece novo. A poucos metros, vê um universo de consumo e tradição traduzido em toneladas de comida, em pessoas que pagam para ver o espetáculo do futebol americano, em líderes de torcida que se chacoalham para empolgar, em uma limousine futurista que leva os soldados ao estádio no dia em que se convertem em estrelas. Em Guerra ao Terror, Kathryn Bigelow precisou apenas de uma sequência para resumir tudo isso: o soldado em frente a uma gôndola forrada de cereais, em um supermercado.

O espetáculo e sua suposta felicidade não encontram espaço no olhar de Billy. Contrapõem sua longa caminhada pela guerra, à mercê da incerteza de qualquer ataque, de qualquer olhar cruzado de pessoas desconhecidas, até aquele palco feito de luzes e festa. Sua forma não esconde, seu recuo (ou medo) não promete um produto embalado para filmes sobre heróis: ele não tem qualquer inclinação ao modelo esperado pelos patrocinadores do show ou pelos homens que ainda tentam transformar sua caminhada em filme.

À sua maneira, Lee faz um filme por trás de outro, daquele que louvaria o patriotismo, a história dos texanos no Iraque que revive o Álamo do imaginário comum: a caminhada real de um e outros rapazes nada chegados à interpretação, àquele papel de bravura, envelopados pelo telão cristalino, pela música explosiva, pela torcida, pelo piscar de olhos irresistível de alguma dama do Texas. Imagens americanas que, no Billy de olhos tristes, rebaixados, causam susto ou repulsa tamanha a agressividade.

O patriotismo é agressivo: parte de um e termina no colo de todos. Resume-se na fala do repulsivo empresário Norm (Steve Martin): após o gesto de bravura de Billy, a companhia dos soldados, segundo ele, deixa de pertencer apenas ao protagonista e aos colegas fardados. É agora de todos. Norm, contudo, não colocará o mesmo patriotismo à frente do dinheiro. Nem o espetáculo. Lee chega então àquilo que move o país em questão.

(Billy Lynn’s Long Halftime Walk, Ang Lee, 2016)

Nota: ★★★★☆

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Planeta dos Macacos: A Guerra, de Matt Reeves

Estrelas Além do Tempo, de Theodore Melfi

A alta tecnologia americana, nos anos 60, podia ser observada em máquinas que, de tão grandes, sequer passavam pela porta. Era o máximo da modernidade, da evolução, no interior da poderosa Nasa. A poucos metros dessas máquinas, no entanto, negros ainda não podiam dividir com os brancos o mesmo banheiro.

Esse exemplo de extremos está em Estrelas Além do Tempo, de Theodore Melfi: o que havia de mais sofisticado convivia com a intolerância e o atraso. Passado e futuro em uma visão um pouco passada, permeada por patriotismo de todos os lados: entre negros e brancos, entre aqueles que paravam para olhar o céu em busca do astronauta.

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O futuro está no alto, diz o filme. O drama é feito das relações de três mulheres – Katherine G. Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe) – com os homens engravatados da Nasa, também com as mulheres brancas de olhares tortos, mais tarde em encontros no mesmo banheiro.

O banheiro, por sinal, motivará o drama a certa altura da obra. Talvez a corrida espacial tenha sido um pouco atrasada devido a esse espaço íntimo. Como não podia frequentar o banheiro dos matemáticos brancos, Katherine tinha de percorrer uma boa distância para chegar a algum outro canto da base, ao espaço que pertencia aos negros.

Terá de dar explicações, depois, ao chefe (Kevin Costner), em tom exaltado, um pouco com desespero, para o susto dele – para mostrar como sofriam os negros (e as negras, nesse caso) na grande casa da modernidade, que levaria o homem ao espaço.

Não dá para esperar profundidade de um filme como tal. O jogo dramático é raso, as personagens dispensam complexidade. Pedir mais talvez seja exagero. A América colorida está ali, com os negros conformados com a necessidade de apoiar, sobretudo, a corrida pela soberania da nação: a importância de colocar o homem louro no espaço.

Apesar dos conflitos raciais, ou do triste resultado de anos de exclusão que não se retira do dia para noite (apesar dos avanços de valentões como Costner), o que unirá a todos, diz o filme, é o desejo de olhar ao alto, talvez para se observar o infinito e sonhar.

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Pode parecer bobo, e certamente é. Estrelas Além do Tempo, de tão calculado, deixa prever suas reviravoltas e pequenos dramas que respingam, a corrida final pelo cálculo matemático correto, até mesmo os tipos que espreitam, os brancos cheios de inveja contra a mulher negra que enfrentará uma sala de oficiais de alta patente para mostrar o quanto é boa com números e o quanto pode surpreendê-los.

O melhor filme já feito sobre a corrida espacial americana continua sendo Os Eleitos, de Philip Kaufman. Mais do que à aventura e mesmo às conquistas, a obra de Kaufman volta-se ao absurdo, às vezes ao patético que percorria as faces de alguns líderes e até mesmo as experiências desse momento histórico.

Engessado em sua falsa seriedade, Estrelas Além do Tempo é apenas um retrato idealizado, um produto visualmente belo e empacotado com mensagens de superação.

(Hidden Figures, Theodore Melfi, 2016)

Nota: ★★☆☆☆

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Moonlight: Sob a Luz do Luar, de Barry Jenkins

Manchester à Beira-Mar, de Kenneth Lonergan

O espectador acredita, até certa altura de Manchester à Beira-Mar, que Lee Chandler (Casey Affleck) não será capaz de chorar. Crê em um homem de pedra, direto, a executar serviços diários em uma cidade sob o gelo, distante de sua família.

Com bravura, Lee resiste às lágrimas, não ao drama. O poder da atuação de Affleck está justamente em fazer o público sentir em excesso a aparência do impenetrável, do drama gestado em fogo baixo, prestes a explodir, ou sob tal ameaça.

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O espectador, contudo, mais tarde torcerá pela fraqueza de Lee. Vale explicar: sua prisão é tamanha que o alívio só pode ocorrer pelo drama em tom maior, pelo abuso da lágrima, ou mesmo pelos pingos que se espera e nunca chegam. O diretor Kenneth Lonergan conduz assim seu sofrimento: o protagonista não se deixa derrubar nunca.

Da rotina sempre repetitiva Lee não espera nada. Mesmo seco, distante, ele está fugindo de algo. Os motivos voltam depois. Lee é obrigado a retornar à sua velha e pequena cidade após a morte do irmão (Kyle Chandler), vítima de um infarto. Revisita assim sua vida: as lembranças da mulher, do pequeno sobrinho, dos passeios a barco.

Poderia ser uma história de perda em tom maior. É a história de um homem que não consegue – ou quase nunca consegue – olhar para si mesmo, ou assumir a posição deixada pelo irmão falecido: ser um novo pai, ou irmão mais velho, para o adolescente Patrick (Lucas Hedges), cuja vida segue sentido oposto à do tio recém-chegado.

Lonergan embrenha-se em pequenos efeitos. Não tem pressa. Sua obra é feita de pequenas expressões, tão frias quanto os ambientes, da forma como as personagens evitam tocar no assunto central justamente porque são verdadeiras, ou porque tentam a todo custo tocar a vida real: elas falam sobre outras coisas, ou silenciam.

Lee sofre por não ser castigado. A dor de não pagar pela morte dos filhos pequenos, deixados para trás em uma noite de bebedeira, quando sua casa foi incendiada. À polícia, ele questiona se nada ocorrerá. Deseja saber qual será sua punição. E quando esta não vem, resolve colocar fim à própria vida.

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Recolhe-se a distância, desaparece, vaga como o fantasma faz-tudo em um condomínio. Torna-se “comum”, o zelador que presta seus serviços com fala recatada, com olhar baixo – as pequenas expressões que comprovam a grandeza do ator em questão, consciente, aqui, da importância do minimalismo.

Encarar o passado, para Lee, talvez seja o retorno ao seu próprio banco dos réus. Do qual, crê ele, deveria ter saído culpado. Sua vida parou e, a certa altura, o sobrinho confronta-o ao expor suas diferenças: enquanto o protagonista não passa de um zelador, o jovem tem sua banda, seu lugar no time de hóquei e duas namoradas.

É o que o menino argumenta ao tio: há uma vida de possibilidades a ser percorrida, à contramão da outra vida fantasma que emerge com o visitante, como se já estivesse encerrada, e como se todo o frio que os recobrem conferisse luz à sentença seguinte: para alguém como Lee, não resta mais nada senão seguir de olhos abertos.

Drama maior, por sua vez, que chega ao insuportável no encontro do protagonista com a ex-mulher, Randi (Michelle Williams). Pouco dizem um ao outro, quase nada, enquanto ela ainda solta um “eu te amo” e ele volta a se desviar. Lonergan aposta nesse drama em que se busca contornar o excesso, o que é da natureza do homem ao centro.

(Manchester by the Sea, Kenneth Lonergan, 2016)

Nota: ★★★★☆

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