Estadão

Dois irmãos, um cineasta

Fisicamente, somos dois, você está vendo. Mas, na verdade, somos um. Um só coração, uma só mente. Nosso cinema reflete um pensamento, uma sensibilidade. Pode parecer piegas, mas fazemos cinema para abraçar o mundo.

Jean-Pierre e Luc Dardenne, cineastas belgas, em entrevista ao crítico Luiz Carlos Merten, no jornal O Estado de S. Paulo (Caderno 2, 23 de fevereiro de 2017; leia texto completo aqui). Eles ganharam duas vezes a Palma de Ouro em Cannes – a primeira por Rosetta, em 1999, a segunda por A Criança (foto abaixo), em 2005.

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criança

Veja também:
Dois Dias, Uma Noite, de Jean-Pierre e Luc Dardenne
A Garota Desconhecida, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Bastidores: Uma Aventura na África

Huston contou certa vez que ia “tocando” African Queen sem muito entusiasmo. Alguma coisa não funcionava, até que Katharine Hepburn, a co-estrela, teve o clique. Ela começou a dar a réplica a [Humphrey] Bogart usando a entonação da ex-primeira dama Eleanor Roosevelt, ele aceitou o desafio e criou-se o clima de humor ausente no roteiro de James Agee. Sempre achei a história curiosa e elucidativa de como os melhores roteiros, afinal, são ferramentas que os diretores vão usar, e até subverter, que era como faziam os grandes, na era da dominação dos estúdios, em Hollywood.

Luiz Carlos Merten, crítico de cinema, em seu blog no portal do Estadão (abril de 2010; leia post completo aqui). Abaixo, na terceira foto, é possível ver o diretor John Huston com um rifle durante as filmagens, no Congo.

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uma aventura na áfrica

Veja também:
À Sombra do Vulcão, de John Huston
O Homem que Queria Ser Rei, de John Huston

Entrevista: Miguel Barbieri Jr.

Antes da entrevista, o crítico Miguel Barbieri Jr. havia acabado de sair de uma cabine (sessão voltada à imprensa), no cinema Reserva Cultural, na avenida Paulista. Assistiu, uma semana antes da estreia, o último filme de Philippe Garrel, Um Verão Escaldante. Para ele, um filme menor, que não agradou. Na mesma sessão estava Inácio Araújo, que depois elogiaria a produção na Ilustrada. Para Miguel, no entanto, não se tratava de grande coisa: o filme de Garrel, uma semana depois, chegaria às bancas acompanhado por apenas uma estrelinha na cotação da Veja São Paulo.

“Gostei de Amantes Constantes, mas não de A Fronteira da Alvorada”, disse, antes de degustar um croissant e dar uma entrevista para este site. Falador mas ponderado, Miguel ocupa a função de crítico na revista da Editora Abril há mais de 10 anos. Segundo um breve perfil no site da editora, vê mais de 400 filmes por ano e, em suas palavras, livre de preconceitos. Na hora de pregar os olhos na tela grande, um blockbuster do momento merece a mesma dedicação que uma produção premiada em Cannes.

Na profissão, Miguel vê de tudo e, com exceção do período em que está em férias, preenche sozinho as várias páginas da revista dedicadas ao cinema – o que ele chama de roteiro e nas quais diz “ter tudo”. Fala também das estrelinhas utilizadas pela revista para dar nota aos filmes, das incursões por caminhos variados até chegar à posição de crítico de cinema, da Mostra de São Paulo e da abundância de “especialistas” atualmente na internet. “Os veículos, acredito, sabem escolher os melhores profissionais”, afirma. “O leitor não é bobo.”

No livro Os Filmes da Minha Vida – Volume 3, você dá um longo depoimento sobre o que lhe formou enquanto crítico de cinema. Você diz que descobriu os filmes um pouco acidentalmente, com 13, 14 anos, por pura curiosidade. Você se tornou crítico por acidente ou já tinha isso na cabeça?

Quando eu tinha uns 14 anos, eu tinha um caderninho, no qual anotava minhas observações sobre filmes. Não sei se era uma crítica. Eu recortava algumas notícias e colocava ali. Não sei onde foi parar esse caderno. Havia críticas do Rubens (Ewald Filho) que guardava nele, também do Edmar Pereira, do Jornal da Tarde, do Rubem Biáfora, que escrevia no Estadão. Eu escrevia alguma coisa e colava a crítica deles. Já profissionalmente, eu nunca pensei em ser crítico porque nunca pensei em ser jornalista. Para você ter uma ideia, eu fiz Biológicas no colegial. Não sabia se queria ser médico, se queria ser biólogo. No terceiro ano do colegial, dei uma guinada total. Achei que pendia muito mais para artes, para cultura, até mesmo para psicologia. Embora tenha feito Biológicas, fiz, depois, um cursinho para Humanas. Prestei para publicidade, arquitetura… Quando temos 17 anos, não sabemos muito bem o que queremos, não é? E prestei jornalismo na PUC. Mas, na verdade, não queria fazer jornalismo, mas o foi o único lugar em que acabei entrando. No primeiro ano, na PUC, tinha aquilo que eles chamavam de básico, e você fica menos com sua turma de jornalismo – uma ou duas vezes por semana. Não sei se hoje ainda é assim, mas há 30 anos era. E, na época, nas aulas com o básico, comecei a fazer amizades com pessoas que não faziam jornalismo. Enfim, terminei por fazer a faculdade e descobri o fazer cinema também na faculdade, com um curta-metragem que ganhou prêmio, uma brincadeira que fiz com um amigo meu, que era estilista. Consistia em pegar algumas amigas da classe e fazer uma transformação. Era uma viadagem que tínhamos feito (risos) e que acabou dando certo. E acabamos ganhando um prêmio em Campinas. Gostei de fazer cinema e gostava muito de ir ao cinema, mas nunca pensei em casar as duas coisas, ou seja, jornalismo com cinema. O que eu queria mesmo era trabalhar com publicidade e, se tivesse feito isso, hoje estaria bem melhor de vida (risos). Terminando a faculdade, fui morar um ano em Paris, que é uma vitrine cinematográfica que não tem em lugar nenhum do mundo, não é? Nem em Nova York não tem. E, quando não tinha nada para fazer em Paris, onde fui para fazer um curso de vídeo e onde fiz um cursinho de arte e francês, ia muito ao cinema. Vi ciclos do Fassbinder, do Wim Wenders, cineastas que descobri lá, que estavam no auge. Era o início dos anos 1980. Quando voltei de Paris, fui trabalhar com publicidade, não fui ser jornalista logo de cara. Trabalhei dois anos com isso e parei. Não era meu caminho.

No mesmo livro, você fala de uma dificuldade que existia no Brasil, mesmo antes do vídeo, que era encontrar alguns filmes. Antigamente, ou o crítico ia ao cinema ou ele não via nada. Se perdesse a sessão, acabava não vendo mais o filme. Hoje, com a facilidade de encontrar as obras, é mais fácil ser crítico de cinema?

Hoje você tem muito mais acesso. Naquela época você tinha a televisão, onde era possível pegar reprises de alguma coisa, também os cineclubes, mas essa facilidade não existia. Cheguei a pegar o primórdio do vídeo e abri uma locadora (Over Vídeo, uma das primeiras locadoras de vídeo de São Paulo) com uma amiga minha em 1986, que durou até 1998. Foi uma grande experiência. E, ainda antes, comecei a descobrir filmes porque meu cunhado tinha um videocassete. As locadoras estavam surgindo aqui no Brasil. Na época, fiquei sócio da Vídeo Clube do Brasil. Por ali também vi muita coisa, sobretudo filmes dos anos 1980 e mais antigos. A qualidade era péssima, porque era tudo pirata. Via alguns do Coppola, mais antigos, também de Woody Allen.

E nessa experiência, do outro lado do balcão, quando indicava filmes você já fazia crítica de cinema?

(Pensa um pouco.) Não… Era uma relação diferente. O que me trouxe foi uma experiência para saber o que o público gosta. Isso eu trago muito, hoje, ao meu trabalho. Ou seja, sempre procuro escrever para quem está me lendo. E aí que cheguei e disse para mim mesmo que gostaria de ser crítico, já que havia me formado em jornalismo. Na época havia poucos nesse ramo. Hoje em dia, em uma cabine, pode ter até 100, 200 pessoas nas mais badaladas. Nesta semana (a entrevista foi feita no dia 25 de maio) teve a do Homens de Preto (a terceira parte da série) e estava cheia. Agora há blogs, sites, jornais variados. Mas na época em que comecei, você ia nas cabinas e tinha poucas pessoas. Tinha o Merten (Luiz Carlos Merten, crítico do Estadão), o Zanin (Luiz Zanin Oricchio, crítico do Estadão) e outros poucos, como o Inácio (Araújo, da Folha de S. Paulo). Em 1992, uma amiga minha, aquela que era minha sócia, era editora cultura do Diário Popular, hoje o Diário de São Paulo. E ele me disse que estava mandando embora o crítico de vídeo. Ela perguntou se eu queria assumir. Disse que não sabia, que nunca havia escrito crítica. Mas ela argumentou que eu já tinha visto muitos filmes e me deu alguns toques. Para ter uma ideia, eu escrevia, ia na casa dela, mostrava e ela fazia apontamentos. Então eu comecei…

Então, se não fosse a locadora, você não teria se tornado crítico de cinema?

Não só pela locadora, mas se não fosse o meio se abrir. Sempre achei que era uma panela. Havia o Rubens e alguns outros. Não tinha essa coisa mais ampla como é hoje. E não sei se isso é muito bom.

Acha que o excesso de gente escrevendo na internet banalizou o trabalho do crítico?

Acho. Perdeu um pouco o critério. Os veículos, acredito, sabem escolher os melhores profissionais. E o leitor também sabe ler aquele crítico com quem está acostumado. O leitor não é bobo. Para você ter uma ideia, no Diário eu fiquei de 1992 a 2000 e, depois, até 2012, na Vejinha. São dois lugares apenas onde eu trabalhei. Claro que fiz freela para outros lugares. Já fiz uma revista que teve dois ou três números apenas, mas não era um exercício de crítica. Quando entrei na Vejinha, percebi que o público era outro se comparado com o do Diário Popular. Tinha que escrever de uma outra maneira e, não digo indicar, mas saber para qual público eu estava falando. E isso foi a locadora que me deu, como experiência. Em um bate-papo no Cinesesc eu falei isso: não gosto do último filme de Godard, o Film Socialisme. Detesto. E o fato não é nem eu detestar, mas jamais poderia indicar esse filme para um leitor da Vejinha. Não é o perfil desse leitor. Se escrevesse na Cahiers du Cinema até poderia ser, mas não é o caso.

Acha que quem lê a Veja São Paulo busca mais entretenimento, programa com a família, não um filme do Godard?

Pode até ser uma visão errada minha, mas acho que não. Pelas cartas que eu recebo, pelo que eu escuto, é um gosto médio. E meu espaço, hoje, comparado àquele que eu tinha na época do Diário, é muito pequeno. Tem gente que gosta. Um colega, inclusive, disse usar meus textos para demonstrar exemplos de concisão. Nunca tinha percebido isso: em dez ou 15 linhas acabo escrevendo o que eu acho de determinado filme. Por incrível que pareça, hoje eu não sei se teria saco de escrever coisas tão grandes. Não digo capacidade, mas saco.

Sobre seu trabalho na Veja São Paulo, você vê muita coisa.

Vejo praticamente tudo.

Mas você vê porque é seu trabalho, sua obrigação. Se não fosse crítico, você assistiria tantos filmes assim?

Uma coisa que me irrita demais, ao ir ao cinema como espectador comum, é o público. Hoje em dia está infernal. Gente com celular. A luz do celular me irrita, gente conversando. Muita coisa me irrita. Uma vez ou outra, quando perco algum filme, tenho que ir ao circuito. Talvez eu selecionaria mais os filmes se não fosse crítico, mas gosto de ver tudo. Gosto de ver Homens de Preto, gosto de ver Missão Impossível. Também gosto de ver um Hasta La Vista, um Koreeda (Hirokazu Koreeda, cineasta japonês), um Philippe Garrel (cineasta francês).

Não acha seu espaço, na Veja São Paulo, um pouco limitado?

Na verdade, aquilo é um roteiro. E como roteiro e serviço acho o melhor que tem. Se você parar para pensar em qualquer outro veículo, você não tem algo tão bem esmiuçado, pelos menos em cinema. E detalhe: escrito por uma única pessoa. Sem querer falar mal de outros veículos, mas a Folha tem mais críticos e, se ver o roteiro, vai ver que tem quatro estrelas para um filme, três para outro, duas para outro – mas são críticos diferentes que estão escrevendo. Na Vejinha sou eu e minha opinião. Então, quem confia em mim, vai ler o que escrevo. O espaço é um roteiro de cinema e, por ser um roteiro, acho que tem tudo. Falamos de festivais variados, de mostras importantes. Me perguntam se, além das estreias, eu vou a essas mostras. Não dá. Tem várias, muita coisa. A única que tento acompanhar melhor é a Mostra Internacional de Cinema. Não dá para ir em muitos outros, como o É Tudo Verdade, Anima Mundi. É uma questão de tempo mesmo.

Sobre as estrelinhas, na revista, acho que isso sempre geram amor e ódio. Até hoje, se bem me lembro, só vi três filmes com cinco estrelas na Veja SP: O Segredo de Brokeback Mountain, o recente A Separação e Violência e Paixão, do Visconti.

Antes, acho que eu já havia dado cinco estrelas para As Invasões Bárbaras e alguma outra coisa que voltou ao circuito, algum clássico. A coisa das estrelinhas surgiu quando eu estava lá. Estou lá há 12 e isso deve ter surgido há uns 7 ou 8. De uma hora para outra resolveram colocar as estrelinhas. E ficou estabelecido que era de uma a cinco estrelinhas. A bombinha veio depois, com o filme da Eliana, inclusive, que é O Segredo dos Golfinhos. Aquilo era o fundo do poço, não tinha mais onde chegar. Pensei: gente, temos que dar uma coisa ainda menor.

Mais ou menos como ocorreu com o filme da Carla Perez.

Sim, o Cinderela Baiana. Se tivesse a bombinha, naquela época, com certeza. Cinco estrelas, segundo meus editores, devem vir acompanhadas de muito critério. Você não pode comparar um ótimo filme de hoje como um clássico, desses que voltam ao cinema, como Amarcord. Se você reparar em teatro, nunca tinha cinco estrelas. É o que falam: só se for Shakespeare com a Fernanda Montenegro. Ela fazendo Lady Macbeth (risos). De uns tempos para cá, eu estou, aos poucos, tentando. A Separação foi um caso assim. E tem outras coisas: meu editor mudou e a confiança em mim, nesses 12 anos, foi ficando cada vez maior. Quando entrei na Veja SP era mais complicado, não havia tanta confiança. Sou o crítico de cinema que mais tempo ficou na Vejinha. O Orlando Margarido ficou um tempo, a Neusa Barbosa também. Acho que eles gostam de mim. E adoro o que eu faço. Adoro ver filmes e faço com prazer. Acho também que sou uma pessoa sem preconceito, o que considero muito importante. Vou ver um filme do Garrel com o mesmo prazer que vou ver um Missão Impossível e Os Vingadores. A disposição é a mesma.

Quando está em casa e quer ver um filme que te satisfaz, o que você assiste?

Então, ultimamente tenho assistido algumas coisas. Revi Doutor Jivago, Ladrão de Casaca, Bonequinha de Luxo, O Iluminado, Nascido para Matar. Revi com uma vontade muito maior do que uma coisa nova. É muito difícil eu ter tempo para ver uma coisa que eu gosto. Para ter uma ideia, tenho dez filmes baixados no computador, filmes que não saíram no Brasil e provavelmente não vão sair. A única forma de ver esses filmes é baixando. Claro que não baixo filmes de coisas que estão passando, que saíram no Brasil ou vão sair. Nesses casos, vejo nas cabines ou, muitas vezes, recebo o DVD de algumas distribuidoras. Isso também é um problema, pois, como sou obrigado a ver tudo, acabo vendo sete ou oito filmes por semana. E tenho três ou quatro dias na semana, no máximo, para ver filmes. Tenho segunda, terça, geralmente de manhã. Quarta-feira eu não posso, devido ao fechamento da revista. Quinta, se saio tarde da redação na quarta, não dá, e resta a sexta. Se o horário de uma cabine não se encaixa, tenho que me virar, muitas vezes, com o DVD.

Na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, são mais 400 filmes em duas semanas. Acompanhar a Mostra não se tornou uma batalha inglória?

No ano passado já deram uma enxugada. O Leon (Cakoff, fundador do evento) já não estava muito bom. De 300 filmes, acho, caiu para 200 e poucos. O que acho que falta na Mostra é critério seletivo. Todo ano, na Veja SP, faço um quadro dando algumas dicas do que vai passar no evento. É claro que é um quadro de cartas marcadas, com os filmes mais esperados, com vencedores de Cannes, Berlim etc.

Que é exatamente aquilo que sairá depois no circuito.

É, de certa forma. Mas gosto também de descobrir algumas coisas. Nunca me esqueço da primeira coletiva da Mostra que cobri para a Vejinha. Levantei o braço e perguntei para o Leon: “Gostaria que você desses uns toques, do que acha legal ser indicado ao leitor”. Ele disse: “Isso é trabalho seu. Nosso trabalho é trazer os filmes, o trabalho de vocês é selecionar e dizer o que é bom e o que não é”. Depois disso, meu amigo… (risos) Mas era uma pessoa maravilhosa. Adoro o Leon. Ele que me convidou para fazer Os Filmes da Minha Vida e tenho grande gratidão por ele. O que eu faço, em tempos de Mostra, é ir ao escritório deles um mês antes, ver uma lista do que deverá vir, dou uma pesquisada e vejo se tem ganhadores de prêmios e filmes importantes. Para mim, a Mostra começa um mês antes. E, quando efetivamente começa, para trabalho tenho apenas uma semana, porque quando uma edição da revista sai o evento já está acabando. E todo ano eu fico muito perdido. Todo ano é a mesma coisa. Não sei se vejo filmes que vão estrear, para me adiantar. Não sei se vejo os clássicos que estão voltando, com cópias restauradas. No ano passado, gostaria muito de ter revisto Taxi Driver. Não vi e me dá raiva. E gosto de fazer um “seguidinho”: pegar um cinema e ficar por lá, em sessões seguidas. Três ou quatro filmes diretos.

Mas, de vez em quando, surge um Mistérios de Lisboa por ai e pode tomar o dia todo, não é?

Às vezes ocorre isso ou tem, no meio, aquele filme bosta e você se pergunta: “O que isso está fazendo aqui?” Portanto, acho que às vezes falta um critério de seleção. Não é só porque é um filme pervertido, underground, que precisa estar passando na Mostra. E, no ano passado, os organizadores fizeram uma coisa que não sei se farão esse ano: eles não trouxeram os filmes que passaram no Festival do Rio, o que acabou gerando certo desconforto. Mas a Mostra é o grande evento. São Paulo tem muita oferta, muita coisa. Não sei se pode ser comparada a Paris, mas talvez seja a segunda ou terceira cidade mais importante em termos de cinema. Veja, por exemplo, um cinema como o Frei Caneca, a diversidade de títulos que tem, que une desde blockbusters a filmes iranianos. O que o Leon e o Adhemar (Oliveira, criador do Espaço Unibanco e que também dá depoimento em Os Filmes da Minha Vida 3) fizeram por São Paulo foi algo sensacional, mas isso é aqui. Você sabe que eu faço Veja Rio e agora estou fazendo Veja Belo Horizonte. Para ter uma ideia, essa semana não havia os dez melhores filmes em Belo Horizonte. Não tinha filmes para completar os dez, todos com três estrelas. No Rio tem. O Rio é até meio chato, pois alguns filmes ficam eternamente em cartaz. Se bobiar, ainda está passando O Artista por lá. Em São Paulo sai mais rápido.

Rafael Amaral (07/08/2012)

Entrevista: Ivonete Pinto

Em uma viagem ao Irã, Ivonete Pinto teve a oportunidade, em um auditório lotado, de fazer uma pergunta ao cineasta Abbas Kiarostami. O conteúdo da questão dizia respeito a um conterrâneo do diretor de Cópia Fiel, Jafar Panahi, em prisão domiciliar a mando do regime de Mahmoud Ahmadinejad. Ivonete perguntou “o que ele, com toda sua força, iria fazer para tentar tirar Panahi da prisão”. E o público respondeu à sua maneira: aplaudiu não apenas a resposta de Kiarostami, que disse que jamais havia visto uma situação como aquela em seu país, mas também a pergunta da brasileira.

Do outro lado da trincheira, como entrevistada, a professora adjunta do curso de cinema e audiovisual da Universidade Federal de Pelotas e editora da revista Teorema não faz muitos rodeios para responder às perguntas da entrevista abaixo, concedida ao Cinema Velho.

Ler as entrevistas feitas com diversos cineastas e pensadores por Ivonete, na Teorema, é como embarcar em suas viagens, em questões que a mesma já definiu como “aula de cinema”. Em uma delas, com o também iraniano Mohsen Makhmalbaf, a jornalista passa por filmes que o mestre viu na infância, como Fahrenheit 451, de François Truffaut (justamente sobre uma ditadura que queima livros), ou mesmo por experiências vividas pelo diretor na realização de Close-Up, de Kiarostami, e no qual aparece como ele próprio.

Ivonete nasceu em Canela, no Rio Grande do Sul. Fez cinema como atriz e dirigiu dois médias em super oito. É jornalista, mestre em Comunicação pela PUC-RS e doutora em Cinema pela USP. Foi uma das fundadoras e a primeira presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Além de compor o grupo de fundadores, atualmente ela é vice-presidente da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema). Sobre seus filmes “de cabeceira”, a professora diz que não tem. “Mas tem filmes que sinto enorme prazer cada vez que revejo em sala de aula, com os alunos, como Os incompreendidos, O Desprezo e Deus e o Diabo na Terra dos Sol.”

Antes da entrevista, vale um pequeno parêntese sobre a Teorema, na qual ela atua como uma das editoras. Trata-se de uma rara publicação (ou seria única?) impressa no país dedicada totalmente ao cinema fora do eixo comercial, com análises e ensaios de profundidade. Perto de sua vigésima edição, a revista não é lá muito fácil de encontrar, mas vale a procura. Pelas páginas estão interessantes entrevistas feitas por Ivonete e artigos de críticos variados, sobre produções de cantos diferentes do mundo. Um bom exemplo, por isso, àqueles que perderam suas esperanças quanto ao nascimento de uma publicação de cinema de qualidade no Brasil.

Como surgiu a paixão pelo cinema? Alguma influência familiar ou próxima?

Nenhuma influência familiar. Talvez tenha surgido desde criança, pois acompanho o Festival de Gramado. Sou de Canela, vizinha de Gramado, e comecei a ver filmes muito cedo. Aos 17 anos, ao entrar na faculdade, comecei a fazer teatro com um grupo que logo começou a fazer cinema, ainda no super 8. Pessoas como o Werner Schünemann (ator e cineasta gaúcho) e o Rudi Lagemann (ator, cineasta e roteirista gaúcho) faziam parte do grupo.

Vivemos em um país onde está cada vez mais raro ver pessoas que realmente pensam e interpretam o cinema com brilhantismo nos veículos de comunicação e na internet. Ou mesmo que param para viver e interpretar artes em geral. Em contrapartida, o país nunca ofereceu tantas possibilidades de cursos e graduações. Existe algum paradoxo entre o ensino e a produção cultural?

Sim, é um paradoxo, mas por outro lado nunca se teve tanto acesso a tantos diferentes meios de veiculação de produtos audiovisuais. O crescimento do número de escolas de cinema é o reflexo deste novo cenário.

Parece cada vez mais difícil, também, surgir uma revista de peso e circulação nacional, com venda em bancas. Acha que existe alguma chance de uma revista nos moldes da Cahiers, por exemplo, dar certo no Brasil em circulação nacional?

Não sei. Não sei quem bancaria tal aposta. A Teorema, mal comparando, é uma revista que vende pouco, para um publico super segmentado, e sabemos que as pessoas esperam hoje encontrar tudo na internet, não querem gastar.

Procurei e não encontrei. A Teorema não está na internet? Acha que uma versão on-line não chegaria a mais pessoas?

Certamente chegaria, mas seria ainda outro esforço nosso. Nós, os seis editores, já bancamos a publicação, e colocar na internet requer outro investimento. Além do mais, temos nosso publico fiel, que tem, talvez, o fetiche do papel: gosta de guardar os exemplares para consultar depois ou simplesmente ter ali, à disposição.

O público da Teorema é formado apenas por críticos e cineastas ou existem outros públicos que estão descobrindo a revista? Como ela se mantém financeiramente?

No inicio, há 10 anos, tentamos viabilizá-la comercialmente, mas não valeu o esforço. Preferimos agora dividir os custos entre os editores e produzi-la como gostamos, sem nenhuma concessão a um público que não nos interessa. Além dos leitores que você citou, temos cinéfilos e estudantes de cinema e outras áreas afins.

Você chamou a entrevista que fez com o professor Michel Marie de “aula de cinema”. O que você aprende em conversas com esses grandes mestres? Poderia citar outros nomes com os quais teve o privilegio de conversar ou entrevistar e dizer o que eles pensam, em geral, do cinema brasileiro?

Dizer o que eles pensam daria um pouco de trabalho, não é… Melhor consultar as 19 edições. Claro que sempre aprendemos com nossos entrevistados, caso contrario não teria sentido. Destaco a entrevista com o professor Ismail Xavier (professor da ECA), com o Manoel de Oliveira (cineasta português), Ruy Guerra (cineasta), Amos Gitai (cineasta israelense) e Giba Assis Brasil (cineasta gaúcho).

O título da revista na qual você escreve serve também a um famoso filme de Pasolini, dos anos 1960. O que a obra significa para você? Os títulos (do filme e da revista) têm alguma ligação?

Sim, é uma homenagem ao clássico do Pasolini. Significa que é um filme que não envelheceu. Ao contrario, aquela figura estranha (personagem de Terence Stamp, que invade a vida de uma família e, aos poucos, destrói a todos) que chega e modifica tudo é sempre uma figura moderna no cinema.

Ainda sobre a época do filme de Pasolini, havia grande efervescência cultural, política e contestadora. Na França, os episódios de 1968 são muito conhecidos. Não acha que um pouco de contestação, como nessa época, ajuda na realização de filmes de protesto e de boa qualidade? Ou acha que política e arte não devem se misturar?

Não sei. A arte é sempre política de uma certa forma, não se pode reduzir o sentido de “política”. A questão é: tem quem sabe e quem não sabe “misturar”. Cinema panfletário é um horror, cinema político é outra coisa…

Consegue lembrar de algum filme político que transcendeu o tempo – e a política – sem soar panfletário?

A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo.

Quem melhor representa a crítica de cinema hoje no Brasil e que você costuma ler para enriquecer seu conhecimento?

Sempre que Ismail e Jean-Claude Bernardet (teórico e pensador) escrevem, é algo muito acima da média. Gosto do Inácio Araújo (crítico de cinema da Folha de São Paulo), do meu presidente Luiz Zanin (presidente da Abraccine, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema, e crítico do jornal O Estado de São Paulo). Do meu colega da Teorema, Éneas de Souza, do meu colega da Abraccine João Nunes (crítico do jornal Correio Popular). Os outros são críticos já mortos, que admiro.

Os grandes mestres do cinema, na atualidade, estão concentrados nos países orientais? Ou é difícil, ainda, fazer tal colocação?

Difícil…

Leia aqui a entrevista de Ivonete com Mohsen Makhmalbaf.

Rafael Amaral (28/03/2012)

Entrevista: Luiz Zanin Oricchio

O crítico Luiz Zanin Oricchio estudou psicologia e filosofia na USP, fez pós-graduação em psicanálise, clinicou, estudou fora do país e descobriu no cinema seu exercício diário. Como explica ele, são de dez a 15 filmes por semana. E tudo começou quando escrevia um livro de ficção. Mergulhou em Bertolucci e seu O Conformista. Sem querer, viu-se fazendo crítica de cinema.

É o que ele conta, entre uma pergunta e outra, na entrevista. Fala sobre a reação de um leitor a uma análise de Não Matarás, sua opinião sobre o investimento estatal e faz declarações esclarecedoras. “O cinema de mercado não deve ser culpabilizado. Ele não esconde o que quer: grana.” Zanin foi editor do Suplemento Cultura do Estadão por nove anos. Atualmente é repórter especial, colunista e crítico de cinema do jornal. É também presidente da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).

Em uma análise recente de O Artista, você termina seu texto questionando. Diz “e daí?”, o que dá a impressão de que filmes como este parecem mera diversão ou nostalgia. Você se deixa levar pelo coração quando analisa um filme?

Com o “e daí” quis dizer que o filme, apesar de muito legal, não deixava mais nenhum lastro em meu imaginário. Não tinha maiores consequências. O coração está sempre presente, enquanto bater. Mas não pretendo jamais fazer crítica unicamente “com a emoção”, isto é, descerebrada. Estilo meu, o que fazer?

O trabalho do crítico inclui, além de informação, a opinião. Você recebe muitas críticas por causa das coisas que escreve? Lembra-se de algum caso que lhe chamou a atenção, de algum filme que criticou ou mesmo elogiou e que não foi bem recebido pelos leitores?

Lembro de dezenas de casos assim. Num deles, escrevi um texto longo, falando de Não Matarás, do Kieslowski, e classificando-o como obra-prima. Alguns dias depois recebi uma carta (era tempo da carta, não havia e-mail) de um juiz de direito dizendo que eu lhe havia proporcionado uma das piores noites da vida dele. Respondi dizendo que sentia muito, etc, mas o grande cinema era assim. Podia desagradar. Mesmo porque (isso eu não disse) o filme questionava a própria profissão do meu leitor.

Quando começou a trabalhar no Estadão, acha que já tinha um conhecimento de cinema suficiente para tal cargo? Você se cobra muito?

Já tinha uma informação relativamente boa, e com o tempo a gente vai melhorando um pouco. Mas sempre acho muito insuficiente. Não sei se algum dia vou me satisfazer com meu trabalho. Mas se esse dia chegar, será a hora de parar.

Quantos filmes assiste por semana? Resta tempo para ficar com a família?

Os filhos, enteados no caso, estão crescidos. Minha mulher (Maria do Rosário Caetano) é jornalista e crítica de cinema também, o que resolve bastante as coisas. Fazemos muita coisa juntos, inclusive viagens de trabalho. Acho que, entre filmes no cinema e DVD, dá entre dez e 15 por semana. Em época de festival é muito mais. Chega a quatro ou cinco por dia. Mas não gosto dessas maratonas. Faço porque sou obrigado.

As grandes capitais do país representam, de certo modo, muita diferença em relação a outras cidades (muitas delas sem um único cinema e espaços para exibição). Acha que investimento estatal em salas de espetáculos em geral é uma saída para preencher esse vazio?

Acho que o Estado deveria investir em salas populares. É a única saída para o déficit que ainda temos em termos de cinema. O nosso circuito não chega a 2,7 mil salas. É muito pouco.

Com tanto enlatado chegando aos cinemas semanalmente, ainda é possível acreditar no cinema americano de estúdios?

Chega muito enlatado e chega também cinema de estúdio. Na verdade, eles dominam a máquina, em nível mundial.

Não acha que falta um pouco de ousadia aos cineastas da atualidade em relação aos temas abordados ou mesmo às formas utilizadas? Nos últimos anos vimos, tenho a impressão, poucas propostas e novos olhares para causar alguma mudança (lembro-me do movimento Dogma, do cinema iraniano, mas isso ainda nos anos 1990). Essa carência tem explicação?

Sempre há alguma ousadia, se você olhar e pesquisar bem. Mas são casos isolados. O cinema, de maneira geral, está muito conformista, muito voltado ao mercado. O público, também de maneira geral, anda muito acomodado, sem vontade de experimentar novas abordagens, novas linguagens, etc. Não é um problema só do cinema. É a nossa época.

Em uma análise recente de números da Ancine, você fez alguns apontamentos sobre obras brasileiras que fizeram grande bilheteria. Em geral, comédias sem muito cérebro. A televisão e a dita “estética da Rede Globo” têm culpa nessa procura do público?

O cinema de mercado não deve ser culpabilizado. Ele não esconde o que quer: grana. O problema, acho, é financiar esse tipo de cinema com recurso público. Acho um contra-senso.

Você escreve muito também sobre futebol. Por que acha que é tão difícil fazer um bom filme sobre futebol?

Se você quiser encenar um jogo, vai parecer falso. O jeito é ir atrás da história humana que existe por trás do jogo. Isso, o Ugo Giorgetti percebeu e realizou muito bem em seus dois Boleiros. Mas o futebol, como recurso narrativo, aparece em vários outros filmes, como Linha de Passe, por exemplo. Não é sobre futebol, mas o futebol está dentro. Acho que, pelo que representa em termos do nosso imaginário social, o futebol é ainda um filão a ser mais (e melhor) explorado. Mas há o mito de que filme de futebol não dá bilheteria…

Como aquele gol que o torcedor não esquece, existe a cena que o cinéfilo sempre resgata em mente. Qual é a sua?

Várias. Para ficar com uma, a corrida de Geraldo Del Rey em direção à praia no final de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, ao som da música de Sérgio Ricardo.

Se tivesse que de citar um filme que fez a “lâmpada” acender em sua cabeça, para que se tornasse crítico, qual citaria? Alguma história por trás dessa relação com a obra?

Antes de me tornar jornalista nunca pensei (nem a sério e nem de leve) em ser crítico de cinema. Era só cinéfilo e isso me bastava. Mas eu estava escrevendo um livro de ficção e percebi que um dos personagens tinha uma relação profunda com um filme que eu havia visto, na época fazia pouco tempo, e me deixara impressionado. Era O Conformista, de Bernardo Bertolucci, baseado no romance de Alberto Moravia. Sem querer, fazendo ficção, eu havia escrito uma crítica. Pode ser que a coisa tenha nascido aí.

Leia aqui uma das críticas que Zanin escreveu sobre O Conformista.

Rafael Amaral (29/02/2012)