espírito

A Maldição do Demônio, de Mario Bava

O espectador pode escapar aos cantos, a qualquer atrativo (e são vários) de A Maldição do Demônio, o primeiro filme inteiramente dirigido por Mario Bava. Dificilmente se despregará da atriz Barbara Steele, em duas personagens: a bruxa e, séculos à frente, a garota assombrada, seu espelho, moça de beleza única.

Há atrizes que não precisam de muito, dispensam grandes interpretações. É o caso de Steele, inocente ou demoníaca, prestes a ter o rosto preso a uma máscara forrada de pregos ou o corpo derretido na fogueira. Ao espectador, Bava expõe seu olhar: a câmera aprofunda-se na máscara com pontas em seu interior.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Seu começo e fim não são os melhores. Na moça, sexualidade e santidade caminham juntas: Bava apresenta seu crucifixo – a servir de arma contra o Diabo, seu reflexo – próximo aos seus seios fartos, no corpo que condena os homens a observá-lo.

Seu olhar amedrontado, como o de uma criança, seu rosto quadriculado, cada parte que compõe alguém que pode ser dúbia, que pode ser definida. Quando surge com dois cães, momento em que encontra os viajantes pela primeira vez, o espectador não sabe se vê a mulher frágil, fruto de uma dinastia apagada, ou o Diabo em pessoa.

É o principal enigma desse filme extraordinário – feito com poucos recursos, com muita imaginação. Os espaços do grande castelo – que de grande não tem nada – são frágeis, ocupados por quinquilharias. Assemelha-se ao castelo de Os Vampiros, filme de 1957 dirigido por Riccardo Freda e finalizado por Bava.

Bava lida com um mundo aos pedaços, em pequena produção, sem que precise se explicar ou parecer rico: fala justamente da aristocracia decadente que ainda precisa recorrer aos seus labirintos, às suas fotos empoeiradas de gente morta (e assustadora), às suas passagens secretas, às tumbas não tão distantes.

Sequer o monstro – ou os monstros – será definido. Trata-se de um filme de vampiros, demônios ou espíritos? Talvez tudo em uma única história. Importa mesmo o duelo com o sobrenatural. Não há dúvidas de que os médicos são céticos, o que explica o desejo de confrontar lendas e seguir mata adentro, pelo caminho perigoso.

O destino de ambos está selado. Terminam atacados por espíritos e bruxos. Os atores não empolgam. Há diálogos em excesso. O rosto de Steele, atraente, destoa dessas formas manjadas, em uma maquiagem igualmente defeituosa em determinada altura e, como diriam os fãs do macabro, a realçar o clima maldito que se pretende.

A abertura é poderosa. A bruxa, rodeada por algozes, é condenada à morte ao lado do homem que ama. Tem a máscara do Diabo martelada à face. Promete voltar. Séculos à frente, médicos acidentalmente liberam o monstro quando param à porta do castelo aos cacos, enquanto, curiosos, observam suas tumbas, cercados por cruzes, teias de aranha e morcegos. Bava sintetiza o terror. A bruxa retorna em busca de vingança.

O clã já está destruído. O pai desespera-se ao perceber que a pintura da parede mudou de forma. O filho e a filha (Steele) querem não acreditar nesse mal e logo são consumidos, carregados, aos socos e pontapés contra os monstros.

Bava é um mestre na composição do chamado “clima”, o que antecede a consumação do mal ou a exposição do monstro em questão. Uma sequência a destacar: a caminhada da menina, pela noite, rumo ao celeiro no qual está a vaca a lhe servir o leite. O vento, as sombras, as árvores. A câmera, colocada pouco abaixo do rosto da atriz, em contra-plongée, fornece seu pavor, seu vacilo, seus passos atentos por terreno arenoso.

A mesma menina verá, depois, a carruagem fantasma que sequestra um dos médicos, verá um corpo no rio, e seguirá com a turba ao castelo. A multidão, por sinal, retorna para dar fim à bruxa, no encerramento, sem que alguém precise se desgastar e matá-la. Trocam a máscara de pontas pela fogueira. De novo, a selvageria.

(La maschera del demonio, Mario Bava, 1960)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
O Alerta Vermelho da Loucura, de Mario Bava

A Carruagem Fantasma, de Victor Sjöström

À rua ou por cômodos pobres, as personagens trocam de roupas como trocam de estados: um figurino esfarrapado logo indica toda a podridão do universo em destaque em A Carruagem Fantasma, obra-prima de Victor Sjöström. Quando nega a ajuda de uma salvacionista, a personagem principal apela justamente ao figurino: rasga-o com alegria.

Das roupas esfarrapadas – ou dos esfarrapados, mendigos alcoólatras – segue-se ao espírito. Do realismo à mágica, não de um ao outro, mas juntos, unidos. As fusões de imagens, nessa história de idas e vindas no tempo, passada em noites de ano novo, cercada de mistério e tons místicos, levam ao encontro de humanos com fantasmas.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Ao centro há um homem bêbado que foi preso, que perdeu a mulher e as filhas pequenas, que perdeu, sobretudo, a consciência e a bondade. Pode parecer piegas. O cinema muda retira tal peso, a suposta vulgaridade conferida ao drama, ou ao dramalhão. O crítico e historiador Georges Sadoul não considera A Carruagem Fantasma o melhor feito de Sjöström. Aponta “sua predicação moralizante, salvadora e antialcoólica”.

Sadoul, sobre o Sjöström ator, diz que “assemelha-se aos filmes que realizou: um pouco pesado e talvez desajeitado, mas profundo, possante, viril, impregnado de uma profunda e diversificada humanidade”. Difícil discordar. O peso, nesse caso, não é demérito. Sjöström deixa senti-lo no homem errante, embriagado, gozador, alguém mau.

Ele é deixado pela mulher comum, correta, forte. Alguém boa demais para alguém transformado, possuído pelo inexplicável. Inclinado à selvageria da qual sofre o casal de outro grande filme do cineasta, O Fora-da- Lei e sua Mulher, em seu encerramento. O frio, o isolamento, a pobreza – os problemas repetem-se à sombra da carruagem que se aproxima.

É quando o cineasta sueco lança-se ao mágico: a carruagem tem a função de buscar o espírito dos mortos e é guiada pela própria Morte. Na verdade, o espírito de um homem converte-se nesse ser de foice e corpo coberto pelo tecido, de rosto escondido. Espírito que morre à meia-noite de ano novo e, a partir de então, passa um ano no ofício.

A história é relembrada pelo próprio protagonista, David Holm, interpretado por Sjöström. Os acontecimentos concentram-se naquela noite de ano novo, enquanto Holm conta a história do ano anterior, quando um amigo morreu, o mesmo que lhe relatou a lenda da carruagem. Nada é por acaso. As peças logo se encontram. O terror tem humanismo.

Holm não precisa ser explicado. O espectador não precisa vê-lo sendo preso, mas apenas encarcerado. Não precisa do momento de seu primeiro gole, ao se deixar levar pela bebida. Ou mesmo o problema de seu irmão, que, também alcoólatra, matou um homem. O universo de Holm esfarela à medida que, relembrada pela Morte, sua história avança.

Como adiantam as primeiras cenas, há uma figura feminina importante. Jovem santificada pelas imagens de Sjöström e pela ausência de maldade. Nesse meio de imperfeições, ela (Astrid Holm) adoece depois de conhecer Holm, por quem está apaixonada. Pobre menina bondosa que amou o homem errado e está disposta a salvá-lo, capaz de tentar uni-lo, mais tarde, à antiga mulher, que fugiu do campo à cidade.

A mesma moça costurou a roupa de Holm, deu-lhe abrigo. A surgir nos momentos problemáticos e dar ao ambiente algum equilíbrio, alguém a dialogar com a morte. Ela, quase um fantasma, deixa o próprio corpo; e Holm, destinado a se tornar o próximo na fila da carruagem, mas ainda obrigado a encará-la, revê a vida de tropeços.

A Carruagem Fantasma fica entre o social e o fantasmagórico, e por isso é difícil de definir. É também uma história de amor impossível, sobre seres que só podem se tocar – e se compreender, e ver a bondade e o erro – quando convertidos em espírito, ou Morte.

(Körkarlen, Victor Sjöström, 1921)

Nota: ★★★★★

Veja também:
O Fora-da-Lei e sua Mulher, de Victor Sjöström
O Fora-da-Lei e sua Mulher, um dos favoritos de Ingmar Bergman

O Vale do Amor, de Guillaume Nicloux

A experiência do deserto deixa marcas no corpo do casal de O Vale do Amor, de Guillaume Nicloux. É uma experiência que talvez envolva o espírito do filho morto do mesmo casal que há anos não se encontra, levado então àquela viagem.

São franceses nos Estados Unidos, sob o sol escaldante do Vale da Morte, na Califórnia, com rochas e trilhas de terra. Encontram-se ali por vontade do filho morto. Antes de se suicidar, ele deixou uma carta pedindo que os pais fossem ao local.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

o-vale-do-amor1

Na mãe, a marca permanece nas pernas. No pai, perto do encerramento, marcas são vistas nas mãos. Aos mais descrentes, esses sinais de um espírito podem ser vistos como reação alérgica àquele ambiente quente e distante. Nicloux não deixa respostas fáceis: a experiência mística mescla-se ao ambiente rochoso, à aparência física.

A história por trás do casal é contada aos poucos. Salienta-se: a história que viveu, o passado que não teve, o filho que não criou como deveria. Talvez não tenham sido pais exemplares. Restam do rapaz duas cartas endereçadas aos mais velhos, com instruções precisas sobre os dias e as passagens pelo Vale da Morte.

Tampouco se saberá por que o local escolhido é aquele. Por ali, Isabelle Huppert e Gérard Depardieu talvez sejam os próprios, atores estrangeiros tendo de viver um papel real, confrontar o passado, ou mesmo a experiência mística da qual desconfiam.

É ele, sobretudo, que mostra dúvidas sobre a presença do espírito do filho. O homem grande – muito maior que a raquítica Huppert – duvida que o rapaz retorne. Mais do que um encontro com espírito, o filme dá vez aos humanos, ao casal que não se via há muito tempo, à prova de que verdadeiros espíritos nascem do passado.

o-vale-do-amor2

Ele reclamará do calor o tempo todo. Foge ao ar condicionado do carro, desfila sem camisa pelos ambientes externos. Ela tentará contato com sua outra família, o tempo todo, contra o fraco sinal do celular. Ambos tentam se desviar do objetivo da viagem.

São os mais velhos, feitos de carne e osso, que custam a se entregar àquela experiência, àquele momento único. Com ou sem espíritos, eles tentam agir como manda o papel desejado: são turistas de um lado para o outro, entre o prazer do desconhecido e o problema de encarar, talvez, o velho espírito do passado: o filho.

Encará-lo significa tentar contornar problemas, aceitar erros e, quem sabe, seguir em frente. Décadas depois do fantástico Loulou, de Maurice Pialat, o casal de atores volta a se encontrar e ainda prova que há química de sobra. As diferenças físicas não importam aqui. São seres verdadeiros, carregados de um drama que às vezes excede.

(Valley of Love, Guillaume Nicloux, 2015)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Elle, de Paul Verhoeven
Os dez melhores filmes com Isabelle Huppert

Horror em Amityville, de Stuart Rosenberg

O pai esconde-se atrás da barba avolumada, do ar um pouco selvagem. Seu olhar profundo não deixa saber o que quer, e às vezes o público perde-se tentando entender se o efeito deve-se à limitação do ator ou à necessidade de uma composição ambígua.

Não chega a ser um problema em Horror em Amityville. Se nele resta dúvida, no papel da mulher não há qualquer problema: Margot Kidder é a mãe mais jovem do que parece, com saia xadrez, perturbada pelos fenômenos estranhos de sua nova casa.

horror em amityville1

O filme de Stuart Rosenberg repete algumas fórmulas: mistura um pouco de O Exorcista (nos rostos que levam ao filme de gênero, na explosão do medo nas personagens) com Psicose (sobretudo na trilha de Lalo Schifrin).

A casa na qual passa a viver a família Lutz foi palco de um assassinato no passado. Um ano antes de se mudar para lá, um homem matou a tiros seu pai, sua mãe e seus irmãos enquanto dormiam. Um espírito, ou mais de um, ainda continua por lá.

Esse espírito leva a acontecimentos estranhos: a certa altura, moscas ocupam um dos quartos enquanto o padre, sozinho, tenta escapar; mais tarde, o lodo do porão passa a sair pelo vaso sanitário, sinal de que a sujeira antes escondida será revelada.

Vêm à frente situações esperadas: portas que rangem, que estouram sozinhas, janelas que caem sobre a mão das vítimas, além de cadeiras que se movem.

horror em amityville2

Do lado de fora, a casa parece ter vida: suas janelas simulam grandes olhos. Esses espaços ganham luzes, e mais tarde a casa será tingida de vermelho pela câmera. Rosenberg prefere o exagero, a obviedade, enquanto alguns detalhes – como as folhas vermelhas da árvore – já dariam conta da representação do sangue.

Mesmo perturbado, às vezes fora de controle, George (James Brolin) ainda busca forças para se livrar dos espíritos e salvar sua família. Kathy (Kidder) demora a agir. Ao fim, descobre algo misterioso, enigma que certamente deixará perguntas ao espectador.

Horror em Amityville abre espaço ainda para personagens secundárias, novas tentativas de causar medo e que nem sempre funcionam. É o caso do padre vivido pelo veterano Rod Steiger, atacado mais de uma vez pelo espírito perseguidor.

A igreja não consegue salvar seus fiéis. O padre termina paralisado, sem visão. A família terá de encontrar meios próprios para se sobreviver. A dor desses seres artificiais nunca chega a atingir o espectador. Há pouco mais que gritos e correria.

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Bastidores: O Bebê de Rosemary

Christopher Lee (1922–2015)

A morte de Christopher Lee fez retornar a imagem do ator em suas personagens mais populares, em filmes de Tim Burton, Peter Jackson e George Lucas, além de sua famosa caracterização de Drácula. Abaixo, a imagem de um trabalho nem sempre lembrado, o curioso O Chicote e o Corpo, de Mario Bava, no qual Lee retorna como espírito para atormentar sua amante.

o chicote e o corpo