Espaço

Bastidores: Stalker

Pareceu-me muito importante que o filme respeitasse a regra das três unidades: de tempo, espaço e ação. Se, em O Espelho, eu estava interessado em introduzir cenas de documentários, sonho, realidade, esperança, conjeturas e recordações sucedendo-se umas às outras naquela confusão de situações que colocam o herói em confronto com as inelutáveis questões da existência, em Stalker eu queria que não houvesse nenhum lapso de tempo entre as tomadas. Meu desejo era que o tempo e seu fluir fossem revelados, que tivessem existência própria no interior de cada quadro; para que as articulações entre as tomadas fossem nada mais que a continuidade da ação, que não implicassem nenhum deslocamento temporal, e para que não funcionassem como um mecanismo para selecionar e organizar dramaticamente o material – eu queria que o filme todo desse a impressão de ter sido feito numa única tomada. Uma abordagem simples e ascética como essa parece-me rica em possibilidades. Para ter um mínimo de efeitos exteriores, eliminei tudo que pude do roteiro. Por uma questão de princípio eu quis evitar que o espectador fosse distraído ou surpreendido por mudanças inexploradas de cena, pela geografia da ação e por um enredo muito elaborado – eu queria que a totalidade da composição fosse simples e silenciosa.

Andrei Tarkovski, cineasta, realizador de Stalker, em seu livro Esculpir o Tempo (Editora Martins Fontes, pgs. 234 e 235). Abaixo, Tarkovski durante dois momentos das filmagens de sua obra, lançada em 1979.

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Gravidade, de Alfonso Cuarón

A instabilidade não precisa ser explicada. O cenário é o espaço e a vida ali é impossível. A personagem, uma mulher solta entre a escuridão, cápsulas apertadas, fios soltos sobre estações espaciais, precisa sobreviver a esse espaço em Gravidade, de Alfonso Cuarón.

Falta oxigênio em alguns momentos. Para retornar ao planeta, ela salta de estrutura em estrutura, estação em estação, e todas as máquinas ao lado se dissolvem com extrema facilidade. A mulher, ou o humano em questão, luta para desviar, para escapar, enquanto o filme revela-se existencial a partir de seu visual claustrofóbico.

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Ryan Stone (Sandra Bullock), a mulher em cena, é uma astronauta em primeira missão, chamada aqui de doutora. Sua pesquisa, no espaço, não fica muito clara. E não importa. Sua nave é atingida por detritos gerados pela explosão de um satélite. Outros astronautas são mortos. Na sua companhia – e não por muito tempo – fica Matt Kowalski (George Clooney), em última missão, mais tarde o guia espiritual da heroína.

Não há espaço alto ou baixo no filme de Cuarón. É difícil ter referências sobre distâncias ou quedas. A experiência visual consiste em deixar o público sem caminhos, sem lados, em uma história sem heróis e vilões, no curto espaço de tempo que separa vida e morte.

O filme é sobre uma mulher em busca da gravidade, da vida, dos próprios passos. O que ajuda na profundidade de seu drama: Ryan Stone conta ao companheiro Kowalski, a certa altura, que perdeu sua filha pequena. A menina sofreu uma queda e morreu. A morte, descobre ela, pode parecer – ou apenas parecia, até então – banal.

No espaço, Stone escolhe viver. Ou nascer. O visual de Cuarón leva a pensar mais na vida do que na morte. E a mulher que tinha tudo para ser um homem – “meu pai queria um menino”, confessa ela – insiste em ser mulher. Uma mãe, sobretudo, que precisa viver para chegar a Terra e contar a história maravilhosa pela qual passou.

Contar histórias. Parece ser essa a busca total, o significado da vida. É como Kowalski faz o espaço parecer simples: ele conta histórias a todo o momento, e não consegue terminar uma delas quando são atingidos pelos detritos espaciais, ainda no início do filme. O homem experiente, o elo mais forte da cadeia, morre e deixa que a história siga com a mulher, o elo mais fraco que precisa lutar pela vida, provar força.

Gravidade questiona o motivo de tanta luta por sobrevivência. Para o homem, o astronauta experiente, morrer parece fácil; para a mulher – que, naquele espaço, naquela profissão, está nascendo – há medo, tristeza, falta de oxigênio. Carrega peso e, ao mesmo tempo, fragilidade. Stone é perfeita para o filme porque não tem experiência na função.

Na corrida pela vida, os mais fortes chegam primeiro. Tentam vencer o tempo, a falta de ar, tentam chegar ao local quente e acolhedor, barrar o frio. Precisam ser gestados. Já existem antes de nascer, antes de caminhar com as próprias pernas, no encontro com a gravidade.

Não há simulador que dê conta dessa corrida pela vida, descobre a mulher em cena. O papel do astronauta experiente é lhe dar caminhos, servir à figura paterna, resgatá-la da escuridão e do esquecimento pela corda que liga o corpo de ambos. Ele dá o primeiro passo rumo à salvação, à aventura que será levada à frente por ela.

Em boa parte do filme, o espectador está sozinho com a heroína. Ao fim, o prazer é vê-la sustentar o próprio peso, à medida que a câmera de Cuarón, de baixo para cima, registra o corpo em movimento, o estranhamento ao sentir a gravidade. A natureza, à frente, é o desafio seguinte. A aventura está apenas começando. Viver é sobreviver.

(Gravity, Alfonso Cuarón, 2013)

Nota: ★★★★★

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Seis grandes filmes que discutem a origem da vida e do universo

A origem da vida não deu trabalho apenas a cientistas e religiosos. O cinema abordou essa aurora – como o fim do mundo – em diferentes filmes e épocas. No entanto, apenas alguns longas conseguiram ser mais que apenas científicos ou religiosos, distantes daqueles típicos documentários feitos para a televisão. É o caso das seis obras da lista abaixo. São trabalhos complexos para pensar nas origens e no papel do homem no mundo ao redor – sem respostas fáceis.

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2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick

A estrela-feto, ao fim, dá uma ideia da ambição de Kubrick: um filme que vai da aurora do homem – com a violência – ao crepúsculo, com os cenários do interior de grandes naves, esculturas alienígenas, um robô enlouquecido e o homem rumo ao renascimento.

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Fata Morgana, de Werner Herzog

O diretor alemão empenhou-se em questionar o lugar do homem no mundo e sua relação com a natureza. Fata Morgana (nome que remete a uma miragem) tem um pouco de ficção científica, com os mais variados locais ao redor do globo, entre criação e destruição.

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Globo de Prata, de Andrzej Zulawski

Astronautas caem em um planeta que pode ser a Terra, renunciam à ciência e, mais tarde, aderem ao misticismo. O grande diretor polonês mostra o caminhar da civilização ao contrário: do moderno ao primitivo, passando pela guerra e por outro homem crucificado.

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Baraka, de Ron Fricke

Não é um documentário convencional. Não há qualquer narração. O que vem à tona é o mundo em imagens extraordinárias, de pontos diferentes do planeta: culturas distantes, animais exóticos, paisagens assustadoras. Um resumo da vida e de suas estranhas particularidades.

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Nostalgia da Luz, de Patricio Guzmán

Os astrônomos que trabalham no Deserto do Atacama, no Chile, buscam explicações para a origem da vida a partir das estrelas. Nesse mesmo deserto, mulheres buscam os restos mortais de vítimas da ditadura. Tipos diferentes de morte questionam essas pessoas.

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A Árvore da Vida, de Terrence Malick

Uma típica família americana divide a cena com a origem do universo, passando do cosmos à água, dos primeiros e pequenos seres aos dinossauros. Sinais religiosos não faltam. A obra de Malick é ousada, carregada de belas imagens, inúmeras simbologias.

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Solaris, de Andrei Tarkovski

A viagem ao desconhecido leva o homem ao encontro dos sentimentos. É o oposto do que aponta uma das personagens, a certa altura de Solaris: “Em sua busca sem fim pela verdade, o homem está condenado ao conhecimento. Todo o resto é capricho”.

O protagonista foi ao planeta distante para esquecer, talvez, tudo o que lhe aflige: na Terra, ele queimou fotografias velhas, entre elas a da ex-mulher. Em Solaris, reencontra a mulher viva, que passa a conviver com ele e até mesmo a questioná-lo.

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Eis o eixo central da obra de Andrei Tarkovski, lançada em 1972 e considerada, como lembra o crítico Roger Ebert, a resposta soviética a 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. Muitas comparações foram feitas sobre os filmes.

Solaris, o planeta, é um oceano em movimento sem fim, sobre o qual trafega a estação à qual é lançado – ou se lança – o astronauta e protagonista, que diz ser um psicólogo, interpretado pelo quase sempre rochoso Donatas Banionis.

Vai ao planeta em busca do conhecimento. Termina vítima do espelho. É obrigado a olhar a seu interior, a ter contra si, materializada, a própria mulher morta. Ao que parece, o próprio planeta dá vida aos desejos profundos de cada personagem.

Tais encarnações traem os seres, fazem-nos parecerem loucos aos humanos supostamente racionais, na Terra, que assistem às imagens captadas em Solaris.

O planeta tem vida própria. Seu poder em reviver os desejos dos outros é a resposta aos astronautas que lançaram radiação em seu interior. O ambiente reproduz o futuro caótico, de sujeira pelo chão, de máquinas cobertas por plástico, de faíscas pela parede, de seres como espíritos por corredores aterrorizantes e futuristas.

Como os outros, o psicólogo Kris Kelvin (Banionis) entra em um labirinto: em muitos momentos, o espectador duvida das situações, e questiona se tudo não passa de sonho. Solaris é antes um enigma, uma história com os contornos de Fausto, de Goethe, sobre homens que rumam ao inferno para tentar encontrar a alma daquele planeta.

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Parte do filme é ambientada na Terra. A abertura apresenta a natureza, a vegetação entre a água cristalina, a caminhada de Kris em direção à neblina, ao incerto. Todo esse ambiente, mais tarde, poderá ser não mais que o interior da personagem.

Tarkovski questiona o real. Nesse sentido, a mulher que Kris encontra, mesmo não sendo sua verdadeira mulher, é uma réplica perfeita. E, vivida por Natalya Bondarchuk, ela toma consciência disso, sai em busca de vida própria, da autenticidade.

O duplo, aqui, não é meramente um alienígena: acaba por ser a reprodução dos outros humanos, o espelho que Kris talvez tenha tentado queimar, deixar para trás. Todo astronauta torna-se, cedo ou tarde, um solitário, uma partícula a nadar na eternidade do espaço. No caso de Kris, tudo e nada se resumem à imagem do oceano de Solaris.

Meio incerto, pastoso, sem forma. Meio em que nada se explica, mas que lança contra os homens os piores pesadelos. Ainda que a tecnologia esteja por ali, esses homens veem-se como seres degradados pelos sentimentos, vítimas de estranho misticismo.

O retorno a Terra, ao fim, é a comprovação (quando a câmera sobrevoa a casa) de que Kris não escapará de Solaris. Tamanhos são indefinidos: é o homem que vive dentro do novo planeta ou é este que passa a viver na personagem? A obra-prima de Tarkovski usa estruturas enormes, metálicas, para fazer ver o essencial: o interior.

(Solyaris, Andrei Tarkovski, 1972)

Nota: ★★★★★

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Bastidores: Guerra nas Estrelas

Eu era um grande fã de Flash Gordon e esse tipo de coisa, um protetor muito forte do espaço, e então eu disse: “Isto é muito natural”. Um, vai proporcionar às crianças uma fantasia, e dois, talvez transforme alguém em um Einstein jovem e as pessoas vão dizer: “Por quê?”. O que nós realmente precisamos fazer é colonizar a próxima galáxia, esquecer os problemas de 2001 e entrar de fato no lado romântico da coisa. Ninguém vai colonizar Marte por causa da tecnologia, eles vão fazê-lo porque acham que talvez sejam capazes – é o aspecto romântico o que importa.

George Lucas, cineasta, em entrevista à revista Rolling Stone (agosto de 1977).

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