empregada

Roma, de Alfonso Cuarón

As pessoas – a dona da casa, sua mãe, seus filhos e, principalmente, a empregada – distanciam-se o tempo todo. Por isso, Roma pode ser descrito como um filme sobre a distância que separa pessoas de outros universos, de situações que esbarram em fatos históricos, do advento tecnológico simbolizado pelo avião que corta o céu.

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A empregada, sobretudo, é quem sente e percebe, quem agarra as crianças como se fossem dela e, ao mesmo tempo, com a aparente consciência de que talvez não seja totalmente parte da família. Ainda tem o quarto em local separado, vive o papel da criada fiel destinada a servir, a quem não há espaço no sofá enquanto todos assistem à televisão.

A distância, em Roma, de Alfonso Cuarón, é o motor do drama, pois define a condição da protagonista. Da sua verdadeira família, uma distância física; da família dona da casa na qual trabalha, uma distância que paira nas relações diárias, no constante retorno à cozinha ou ao fundo, ao espaço à parte reservado aos outros.

A opção pelos planos de longa duração, pelo movimento panorâmico da câmera e, mais ainda, pela profundidade de campo, salienta o deslocamento e a tentativa de vencer as distâncias. Cuarón aposta na relação com os espaços, na vida que corre e foge do quadro, em não raros momentos, para aparecer em seguida.

A criada é Cleo (Yalitza Aparicio). A cada ida ao portão, segura o cachorro. Pelo corredor, ainda nos primeiros instantes, lava o azulejo de aspecto envelhecido. Abertura emblemática, por sinal: sobre o chão corre a água com sabão, que dá brilho, ideia de mistura, que ao mesmo tempo reflete o céu pelo qual passa, pequeno, não incólume, o avião.

As crianças abraçam a criada como uma mãe ou irmã. Não se duvida da profundidade dessa relação. É natural. Os problemas logo aumentam na grande casa. O pai decide ir embora. O abandono perdura, e não será o único: à frente, Cleo envolve-se com um rapaz, engravida, e se vê sozinha. Em seu deslocamento para encontrá-lo, em região rural marcada pela lama e pelo discurso de políticos que prometem melhorias, é hostilizada pelo mesmo, que pratica artes marciais e, mais tarde, retorna em momento-chave.

O avião, distante, simboliza a transformação, a saída, à contramão das pessoas que continuam por ali, no bairro de classe média cuja entrada ao interior da grande casa simula o apaziguamento. As mudanças físicas, ao fim, serão pequenas: móveis são retirados, pessoas trocam de quartos, mas a câmera ainda registra o mesmo, do mesmo ponto.

Em mais de um momento, Cleo acompanha a patroa e as crianças em suas viagens. Em uma delas, assiste ao início de um incêndio a partir da casa de campo. As labaredas sobem pela mata, sobre as árvores; um homem dá o alarme, grita por ajuda; um dos convidados, vestido de bicho-papão, vê-se entre a mata, a flagrar o caos e as chamas.

O preto e branco de Cuarón, que também assina a fotografia, em momentos concede espaço ao mágico, ou ao absurdo. A impressão de que as personagens estão nos locais certos nas horas certas não faz com que caia na inverossimilhança comum a filmes que ousam casar o íntimo ao social, o humano ao histórico. Roma, nesse drible, é exemplar.

No cinema, Cleo diz ao companheiro que está grávida. O filme, na tela, reproduz a aventura, o final feliz, o fechamento idealizado e a felicidade que o próprio Cuarón recusa. Em suma, a distância: eis um mundo real que implode seu aparente absurdo, de deslocamentos que precisam ser sentidos, movimentos que cruzam obstáculos.

Culmina na sequência da praia. Cleo entra no mar agitado, mesmo sem saber nadar, para salvar as crianças. O resgate termina com uma confissão, a ideia de que preservar a vida dos outros permite exorcizar seus demônios, enfim encarar a verdade sobre o filho que perdeu. A vida de Cleo e o filme todo serão resumidos nessa ação: é no limite que se deixa entender, confessa, compartilha a dor, ainda fiel à sua missão.

(Idem, Alfonso Cuarón, 2018)

Nota: ★★★★★

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Cinco grandes filmes de 2015 dirigidos por mulheres

Alguns dos melhores filmes de 2015 foram dirigidos por mulheres. Por outro lado, alguns dos piores também, como Cinquenta Tons de Cinza (Sam Taylor-Johnson) e Invencível (Angelina Jolie). A lista abaixo se volta às obras relevantes.

Em comum, o drama familiar: histórias sobre reencontros, perdas, marginalidade, descobertas e, com o Brasil contemporâneo como pano fundo, uma pequena revolução com o reencontro entre mãe e filha. Apesar de alguns títulos serem de 2014, todos foram lançados nos cinemas brasileiros em 2015.

Casadentro, de Joanna Lombardi Pollarolo

A cineasta explora os espaços de uma casa enquanto suas personagens encontram dificuldades de comunicação. Passa-se em um dia calmo, quando a senhora Pilar (Élide Brero) recebe a filha e a neta para seu aniversário. Aos poucos, ganha peso o drama que envolve gerações, ao mesmo tempo em que as empregadas vivem em um mundo particular.

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De Cabeça Erguida, de Emmanuelle Bercot

Depois do agradável Ela Vai, a também atriz Bercot traz essa história poderosa sobre marginalização na adolescência. Ao centro está o jovem Malony (Rod Paradot), em busca do pouco amor da mãe, da companhia do pequeno irmão e cujo destino pode estar nas mãos de uma juíza (Catherine Deneuve). Filme de abertura do Festival de Cannes.

de cabeça erguida

As Maravilhas, de Alice Rohrwacher

As transformações da sociedade italiana são captadas pelo olhar sensível, às vezes distante, da menina Gelsomina (Maria Alexandra Lungu). Após assistir à gravação de um programa de televisão na região rural em que vive, ela sonha em participar de um concurso que pretende resgatar as “maravilhas” da Itália.

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Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert

Provavelmente o filme brasileiro mais comentado do ano, radiografia poderosa das mudanças sociais ocorridas na última década. O cenário é a casa grande, espaço de patrões e empregados, palco para o inesperado: a menina, filha da criada, que vem para bagunçar as então estabelecidas relações de poder. Indicado do Brasil para concorrer ao Oscar.

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O Segredo das Águas, de Naomi Kawase

Dois adolescentes passam por intensas transformações familiares, enquanto deixam aflorar o desejo, enquanto tocam a natureza. E ainda dividem um segredo: logo na abertura, a garota vê o rapaz próximo à cena de um crime, à praia, onde o cadáver de um homem foi encontrado. Mais uma bela obra da japonesa Kawase, autora de Suzaku e Floresta dos Lamentos.

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