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Dez bons filmes recentes situados no universo feminino

As vidas e dramas de diferentes mulheres ganham destaque nos dez títulos abaixo. A lista volta-se a filmes com grandes personagens femininas e grandes atrizes para vivê-las. Todos recentes, passando pela abordagem do amor profundo pelo homem errado, pelo abuso sexual, pelo rompimento familiar, pelas tentativas de ser livre.

Amor Profundo, de Terence Davies

É provável que Davies tenha se inspirado nas grandes histórias de amor de David Lean, Desencanto e A História de uma Mulher, para esculpir tal obra. Em cena, Rachel Weisz tem uma de suas melhores interpretações como a mulher de um juiz que se envolve com jovem piloto (Tom Hiddleston) e entra em uma espiral de autodestruição.

O Julgamento de Viviane Amsalem, de Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz

O longo julgamento de uma mulher em busca do divórcio e, por extensão, uma crítica ao sistema jurídico machista e religioso de Israel. À medida que tenta se separar do marido, a mulher – e o espectador, claro – vê-se aprisionada ao tribunal de paredes brancas. Além de dirigir, Elkabetz assume a sofrida personagem central.

Carol, de Todd Haynes

O filme é contado pelo olhar de Therese (Rooney Mara), o olhar de descoberta voltado à personagem-título, vivida por Cate Blanchett. A jovem balconista ao encontro da mulher formada, nessa bela história de amor em que Haynes remete o espectador aos melodramas de Douglas Sirk, com a exposição da hipocrisia.

Um Belo Verão, de Catherine Corsini

A moça do campo (Izïa Higelin) vai viver na cidade e termina apaixonada por outra mulher. A da cidade (Cécile De France) não entende ao certo essa atração estranha, nesse filme ambientado nos anos 70, em meio ao movimento feminista francês. Por aqui, a mulher aparentemente emancipada ainda tem algo a descobrir.

Ninguém Deseja a Noite, de Isabel Coixet

A mulher imponente é Josephine, interpretada por Juliette Binoche, nos confins do planeta, em ambiente gelado, atrás do marido explorador. Ela termina encontrando Allaka (Rinko Kikuchi), grávida do mesmo explorador. À medida que o frio torna-se insuportável e a vida difícil, nasce uma aproximação entre elas.

Elle, de Paul Verhoeven

Mulher estuprada desenvolve uma estranha relação com seu abusador. Verhoeven retorna à grande forma ao apostar mais nos efeitos dessa relação, menos na busca pela identidade do criminoso ou no encerramento esperado. De quebra, oferece a Isabelle Huppert mais uma grande personagem, caso que merecia um Oscar.

Julieta, de Pedro Almodóvar

Passado e presente de uma mulher retornam à tela: da apaixonante Adriana Ugarte à culpada Emma Suárez, o público é levado a uma jornada de redescoberta, ao mesmo tempo em que a protagonista tenta reencontrar a filha. Almodóvar finca os pés outra vez no universo feminino e faz pensar em alguns de seus melhores trabalhos.

O Que Está por Vir, de Mia Hansen-Løve

Huppert de novo. E de novo em grande momento, em um filme que passou despercebido para muita gente e merece destaque. Ao redor de Nathalie (Huppert), tudo se transforma: o marido, os filhos, a mãe. Não dá para lutar contra o tempo, ela descobre, à medida que se aproxima de um ex-aluno e de seu círculo de amigos.

Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky

A mulher salva o dia, a família, assume as “broncas” da casa – enquanto o marido sai para fazer sua vida. É um pouco assim, desse drama, que Bodanzky dá vida a um dos filmes brasileiros mais bonitos dos últimos anos, com destaque para a dupla feminina, mãe e filha na tela, as talentosas Clarisse Abujamra e Maria Ribeiro.

A Vida de uma Mulher, de Stéphane Brizé

A triste trajetória de uma mulher que amou demais e sofreu em igual intensidade, vítima das traições do marido, das investidas, mais tarde, do filho interesseiro. De época, é também um filme realista, próximo às personagens, em que sua atriz central, a talentosa Judith Chemla, atravessa décadas da vida de uma mulher, entre altos e baixos.

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Os 20 melhores filmes de 2016

O ano que terminou deixou grandes filmes. Fechar a lista com 20 revelou-se tarefa difícil. Poderiam ser 30, até 40. Obras relevantes não faltaram. O cinema que desfila abaixo, do 20º ao primeiro colocado, espelha o que há de melhor no mundo recente da sétima arte.

Sim, faltaram algumas obras, não houve espaço para todas. Uma lágrima para Carol, Francofonia e Sully. Listas são sempre injustas. Recado: só entraram na lista filmes lançados comercialmente no Brasil em 2016.

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20) Elle, de Paul Verhoeven

O diretor que flagrou a cruzada de pernas de Sharon Stone volta ousado, com Isabelle Huppert em um de seus melhores momentos como uma mulher abusada que se aproxima do criminoso, homem de máscara preta que invade sua casa e talvez até lhe excite.

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19) As Montanhas se Separam, de Jia Zhangke

A relação entre três personagens – dois homens e uma mulher – em três tempos. Ou como essa relação de união e rompimento desencadeia tudo o que vem a seguir. Zhang-ke debruça-se novamente sobre as transformações da China – no passado, presente e futuro.

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18) A Passageira, de Salvador del Solar

A viagem de um taxista pelas ruas faz com que retorne ao passado militar no Peru: ele reencontra uma mulher que foi abusada por um coronel. O protagonista, vivido por Damián Alcázar, tenta reparar os erros do passado e volta a procurar a vítima.

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17) A Assassina, de Hou Hsiao-Hsien

Um dos principais nomes do novo cinema taiwanês, Hsiao-Hsien volta-se à tradição das artes marciais em obra misteriosa sobre uma assassina profissional (Qi Shu) e seus embates para levar à frente seu próximo trabalho: matar o próprio primo, por quem é apaixonada.

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16) Amor & Amizade, de Whit Stillman

A melhor adaptação de Jane Austen para o cinema. Comédia adulta cheia de ironia e classe. Realizador do ótimo Metropolitan, Stillman traz relacionamentos diversos, sempre a circular a personagem de Kate Beckinsale, a imponente Lady Susan Vernon.

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15) Spotlight – Segredos Revelados, de Tom McCarthy

Feito de diálogos, pulsante, sobre os inúmeros casos de abuso a crianças pelos padres da Igreja Católica. Começou em Boston, depois ganhou o mundo. O filme não recorre aos abusos. Prefere o trabalho de jornalistas, de porta em porta, atrás de informações.

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14) Certo Agora, Errado Antes, de Hong Sang-soo

Duas histórias com o mesmo ponto de partida: a chegada de um diretor de cinema a uma cidade para a apresentação de seu filme. Ele conhece uma garota, a relação não progride. Vem a segunda história: ele conhece a mesma garota, as palavras mudam, e o resultado é outro.

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13) O Abraço da Serpente, de Ciro Guerra

O índio observa o nada, a natureza, espera algo. Feito em belíssimo preto e branco, esse filme aborda a relação do homem com a natureza. Há também a crítica à exploração dos índios, inclusive pela Igreja Católica, na jornada para tentar encontrar a cura para um homem branco.

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12) A Bruxa, de Robert Eggers

Filme de terror que pede um mínimo de paciência, sem os sustos fáceis comuns ao cinema atual e ao gênero em questão. Sim, há um bode falante, um bebê que desaparece à base de um corte e mulheres levitando no plano final. Belo, de arrepiar.

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11) Belos Sonhos, de Marco Bellocchio

O título refere-se ao desejo da mãe dirigido ao filho enquanto dorme. Ao acordar com um barulho, no meio da noite, ele, ainda uma criança, descobre que ela está morta. Entre tempos que expõem sua infância e sua maturidade, ele terá de lidar com essa perda.

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10) O Valor de um Homem, de Stéphane Brizé

O grande Vincent Lindon é o homem ao centro, cujo valor é ressaltado, posto à prova, cuja forma – o corpo, mas também a alma – deverá ou não ser tomada pelo sistema. Ele busca um emprego e termina como vigilante em um supermercado, sufocado pelas regras.

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9) Sangue do Meu Sangue, de Marco Bellocchio

Muita gente disse que Bellocchio fez um filme de vampiros. Não é bem isso. Aborda dois tempos: no primeiro, padres tentam descobrir se uma mulher está possuída pelo diabo; no segundo, um velho homem (o vampiro) vê-se frente a frente com um novo tempo.

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8) Fogo no Mar, de Gianfranco Rosi

Documentário sobre os refugiados que tentam chegar à Itália pelo mar. Realizador do também ótimo Sacro GRA, Rosi prefere as palavras soltas e os movimentos de seus seres à narração ou qualquer manobra explícita da narrativa. Humano e inesquecível.

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7) Cemitério do Esplendor, de Apichatpong Weerasethakul

O diretor tailandês mergulha novamente no espaço de homens e espíritos em uma escola abandonada que serve como hospital. Abaixo dela, dizem, havia um antigo cemitério de reis, que estariam usando a energia dos soldados vivos, acima, tomados pelo sono.

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6) Os Campos Voltarão, de Ermanno Olmi

Olhar sobre o confinamento nas trincheiras, sob frio intenso, durante a Primeira Guerra Mundial. O mestre Olmi, realizador de obras como O Posto e A Árvore dos Tamancos, leva a homens amedrontados, à proximidade da morte, à bestialidade do autoritarismo.

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5) Boi Neon, de Gabriel Mascaro

As vaquejadas dão espaço às personagens desse filme extraordinário, feito de contrastes: o protagonista (Juliano Cazarré) investe em figurinos; a companheira de viagem (Maeve Jinkings) dirige o caminhão. A proximidade dos corpos, o sexo, os currais.

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4) O Botão de Pérola, de Patricio Guzmán

Após o extraordinário A Nostalgia da Luz (talvez superior), o diretor chileno mostra a relação entre a água, os nativos da Patagônia e os mortos da ditadura, dos quais restaram apenas os botões. Extraordinária reflexão sobre o oceano como espaço da memória.

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3) Aquarius, de Kleber Mendonça Filho

O apartamento de Clara (Sonia Braga) é um baú de memórias. Um espaço de vida que os especuladores de fala mansa não conseguem entender: guarda não só seu passado, com suas dores e momentos de descontração, mas também a memória dos outros.

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2) O Filho de Saul, de László Nemes

O ambiente é o pior possível, a tragédia pode ser vista em todos os cantos. Em um campo de concentração, o protagonista encontra um cadáver que pode ser de seu filho. A partir daí, corre contra o tempo – e arrisca a vida – para levar à frente o enterro.

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1) O Cavalo de Turim, de Béla Tarr e Ágnes Hranitzky

Pai e filha convivem sob o som do vento, do lado de fora, em uma casa afastada. O pai diz ouvir o som dos cupins, à noite, enquanto dorme, e a filha alerta que o cavalo – o único da família – deixou de comer. Algumas pessoas passam por ali, em uma carroça, outro homem também surge, enquanto os diretores compõem um dos filmes mais belos dos últimos anos, ou da década que ainda corre. Obra de mestre.

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As melhores atuações de 2016

Não dá para reclamar da safra. Nem de filmes nem de atuações. Foi um ano forte principalmente para as mulheres, para algumas veteranas que retornaram com grande força e foram – e seguem sendo – reconhecidas. Entre os homens há veteranos e rostos menos conhecidos. São figuras que conferem alma e grandeza a essas obras.

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Melhor atriz

A francesa Isabelle Huppert sangra, sofre, atrai homens e brinca com as personagens que desfilam ao seu lado. O sofrimento de Sonia Braga, a Clara de Aquarius, é de outra natureza: tem a ver com seu passado, com seu apartamento. Decidida a quebrar barreiras, mas sofrendo com o marido também livre, está a incrível Trine Dyrholm de A Comunidade – a melhor coisa do filme. Ao contrário dessa mulher experiente está a Rooney Mara de Carol. Para completar, a forte Amy Adams de A Chegada.

Amy Adams em A Chegada

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Isabelle Huppert em Elle

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Rooney Mara em Carol

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Sonia Braga em Aquarius

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Trine Dyrholm em A Comunidade

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Outros destaques: Cate Blanchett em Carol; Catherine Frot em Marguerite; Emmanuelle Bercot em Meu Rei; Kate Beckinsale em Amor & Amizade.

Melhor atriz coadjuvante

Algum tempo sem fazer algo relevante no cinema, Jane Fonda vem em uma pequena participação como a atriz decadente de Juventude. Em busca de um recomeço está a sentimental mas fechada Micaela Ramazzotti. Magaly Solier, em A Passageira, também move sua história, uma história que remete ao passado, aos tempos do militarismo no Peru. Passado, também, que serve a ótima Rinko Kikuchi. No caso de Shirley Henderson, o que se impõe é a imaginação, em uma terra de ogros, bruxas e reis.

Jane Fonda em Juventude

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Magaly Solier em A Passageira

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Micaela Ramazzotti em Loucas de Alegria

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Rinko Kikuchi em Ninguém Deseja a Noite

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Shirley Henderson em O Conto dos Contos

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Outros destaques: Cécile De France em Um Belo Verão; Jennifer Jason Leigh em Os Oito Odiados; Kate Winslet em Steve Jobs; Laura Linney em Animais Noturnos; Maeve Jinkings em Boi Neon.

Melhor ator

O Oscar nem sempre acerta. Michael Fassbender merecia o prêmio de melhor ator. E por que esqueceram o incrível Michael Caine? É um pai, como é também o ótimo Géza Röhrig de O Filho de Saul, no pior ambiente do mundo: um campo de concentração. Outro que se envolve com a mesma questão histórica é o veterano Christopher Plummer. Para completar o time, o protagonista de O Valor de um Homem, alguém simples que resolve enfrentar o sistema.

Christopher Plummer em Memórias Secretas

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Géza Röhrig em O Filho de Saul

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Michael Caine em Juventude

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Michael Fassbender em Steve Jobs

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Vincent Lindon em O Valor de um Homem

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Outros destaques: Alfredo Castro em De Longe Te Observo; Bryan Cranston em Trumbo – Lista Negra; Leonardo DiCaprio em O Regresso; Niels Arestrup em Diplomacia; Tom Hanks em Sully; Viggo Mortensen em Capitão Fantástico.

Melhor ator coadjuvante

Interpretar Deus não é fácil. Alguns atores topam o desafio no campo da comédia: podem ser um Deus emburrado e até malvado. Ao deus mercado, em Wall Street, há dois homens um pouco diferentes, que nunca se encontram. E há também um cineasta, mais sonhador que o amigo com quem divide alguns dias em uma casa de repouso em Juventude. Da Venezuela vem um ator surpreendente, Luis Silva, como o delinquente que vê sua vida mudar ao conhecer um homem mais velho.

Benoît Poelvoorde em O Novíssimo Testamento

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Christian Bale em A Grande Aposta

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Harvey Keitel em Juventude

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Luis Silva em De Longe Te Observo

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Steve Carell em A Grande Aposta

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Outros destaques: Aaron Taylor-Johnson em Animais Noturnos; John Goodman em Rua Cloverfield, 10; Lázaro Ramos em Mundo Cão; Mark Ruffalo em Spotlight – Segredos Revelados; Michael Shannon em Animais Noturnos; Tom Hardy em O Regresso.

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Elle, de Paul Verhoeven

As personagens de Elle, de Paul Verhoeven, vivem segundo as regras da aparência. Em certo sentido, limitadas como estão, vivem também movidas à vergonha: não suportam olhar para si mesmas, e por isso apelam às máscaras.

A personagem central, Michèle Leblanc, rompe essa barreira quando um homem mascarado rompe – mais de uma vez – a porta de sua casa, quando invade o ambiente para violá-la. O estupro concede ao filme outra camada. O que poderia ser o início de uma depressão, de medo constante, torna-se uma mudança estranha.

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Não significa que Michèle tenha prazer pelo estupro. Ao contrário, ela arma-se para estar pronta para o estuprador, em qualquer nova invasão – e esta, saberá o espectador ao longo de Elle, é uma certeza: ora ou outra o criminoso deverá retornar.

O que a faz romper o estado anterior – refletido na vida burguesa, a começar pelos amigos, pelos jantares, pelas festas que frequenta – é o estupro. Ela decide não se calar e passa a ser um incômodo: diz ao filho que seu primogênito não é dele, resolve confessar à melhor amiga que é o amante de seu companheiro, e talvez realmente ceda, em partes, à beleza do estuprador, mais próximo do que imaginava.

Ela rompe a camada à qual todas essas pessoas são levadas, na qual se veem protegidas, aquecidas por uma aparência de quietude – contra a vergonha também nítida em alguns. Não demora nada para que Michèle confesse: “a vergonha não é um sentimento suficientemente forte para nos impedir de fazer o que quer que seja”.

O filme de Verhoeven impõe, nessa mesma personagem, a dificuldade de culpá-la – ou mesmo de culpar seu autor. Há quem veja misoginia. Mas Michèle não pode ser explicada com facilidade, na maneira como se movimenta e busca (ou não) a vingança contra o agressor, ou contra todos que, como ele, escondem-se em máscaras.

Por isso, não é exatamente um filme sobre estupro: é sobre como essa mulher mobiliza todos ao redor, ou os testa, ou os confunde, para chegar ao ponto em que amputa a vergonha, a falsidade, ponto em que pode até mesmo sentir excitação pelo agressor.

Eis o problema: há uma estranha zona entre a violência e o prazer, pela qual a mesma protagonista passa a circular. E, não por acaso, a personagem está à frente de uma empresa de games repletos de violência – não por acaso, de monstros contra mulheres.

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A violência, de um lado, assimilada, como espetáculo guiado, que parece indolor; e, de outro, a violência da pele, do ato sexual, que oferece ao mesmo tempo um jogo – entre a protagonista e o agressor – e a inevitável constatação de um crime, algo a repudiar.

A violência do estuprador só pode se existir enquanto houver a vítima. Quer dizer, o medo, a mulher acossada, que talvez se deixe violentar. Quando essa mulher mostra aceitação – e, talvez, pitadas de prazer –, o agressor perde as forças e recua.

Na televisão, a imprensa deixa espaço para os extremos: o assassino que segue preso após matar diversas pessoas (o pai de Michèle) e o papa, que emite apenas sinais de bondade – às câmeras, pelo menos. Não há nada ao centro, entre esses extremos.

Filme complexo guiado com força por Verhoeven, que retorna ao universo feminino. A ajudar, uma grande atriz em grande momento. A pequenez de Isabelle Huppert não impede que imploda, a certa altura, contra os homens, ou todos que ainda ousam se esconder. Seu corpo grita, desde o início, quando é violada, e quando volta a ser.

A obra começa com a violação, com os olhos do cúmplice, o gato, que nada pode fazer senão assistir ao crime. Início com rompimento, barulho, mudança no curso da vida da protagonista, que decide agir contra a vergonha e adere à transformação.

(Idem, Paul Verhoeven, 2016)

Nota: ★★★★☆

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