Elle Fanning

Mulheres do Século 20, de Mike Mills

Três diferentes mulheres circundam um garoto. O menino tem de lidar com elas e nem sempre se sai bem. Com a mãe que lhe dá certa liberdade, mas que nem sempre entende seus momentos de ira; com a garota que ama, que invade seu quarto, mas que não quer fazer sexo com ele; e com a inquilina que pretende abrir sua mente.

A mãe (Annette Bening) é a primeira a ser apresentada em Mulheres do Século 20, dona de reações inesperadas, e que deixa claro se tratar de uma comédia. Dá muito ao filho e não sabe como controlá-lo quando o mesmo toma – e pede – mais independência.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

mulheres-do-seculo-20-1

Nesse filme de cores fortes, de forma cômica para suavizar os problemas e de assunto, no fundo, tão sério, o clima de mudança passa pelas mulheres, a começar pela mãe – a certa altura em uma festa típica aos jovens da época, no fim dos anos 70, e ainda obrigada a ser, em outros momentos, a boa e velha mãe de séculos passados.

Por atravessar gerações, o diretor e roteirista Mike Mills elege-a o ponto central da história. Acerta em cheio. E Bening nunca deixa a desejar quando apresenta qualquer dúvida ou fragilidade, menos ainda quando precisa – mais de uma vez, ou várias – ser o ponto de união e de consciência, a convocar as outras mulheres a ajudá-la.

A segunda é a mais jovem (Elle Fanning), adolescente que nunca teve um orgasmo apesar de já ter experimentado sexo com alguns rapazes – poucos ou não. Simboliza a ponta oposta à mulher formada, a mãe: é a menina que, como o jovem adolescente, não sabe aonde correr, não sabe amar, vítima da frieza e das emoções da pele.

Escala os andaimes da casa do menino, em reforma, para chegar ao seu quarto. Entra pela janela para dormir com ele. Apenas dormir. Jamie (Lucas Jade Zumann), como outros de sua idade agiriam, enfurece-se por não tê-la por completo em seus braços.

Pois o filme de Mills fala de amores deslocados, incompletos, de situações que não preenchem os sentimentos de todos, de pessoas que não se compreendem. Alguns estão dispostos a ter muito, outras tentam escapar, fugir, como a menina que passa pela janela.

mulheres do século 20

A terceira, a inquilina (Greta Gerwig), viveu o suficiente para se deparar com alguns tropeços. Teve câncer, venceu a doença, mas por causa dela descobriu que não podia ter filhos. E descobriu, de quebra, que o câncer teria sido causado por um remédio tomado pela sua mãe, antes, justamente para engravidar.

A maternidade percorre o filme todo. A primeira mulher, a mãe, pede que as outras a ajudem na formação do filho. Talvez não cheguem a ser novas e outras mães. Ela tem consciência de que nesse meio complexo apenas uma mulher não dará conta dos questionamentos de alguém que cresceu nos anos 70, sob os efeitos sociais de uma guerra, frente à libertação feminina, à introdução de tantas novidades da ciência.

O menino vive também a era pré-Aids, e pouco antes de Ronald Reagan chegar ao poder. Mesmo com narrações que antecipam o futuro, o filme prefere o passado, retrato estampado por essas mulheres do século 20: a representação de uma sociedade ainda feita de excessos e felicidade, de liberdade e pluralismo.

Mills não apela à nostalgia boba. Suas imagens do passado – as reais, em fotografias, ou mesmo as da ficção – dão a ideia de quanto se perdeu, e o que se perdeu, dos dias em que meninos e meninas ainda fugiam com o aval dos pais, ou com eles ao lado.

(20th Century Women, Mike Mills, 2016)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Demônio de Neon, de Nicolas Winding Refn

Demônio de Neon, de Nicolas Winding Refn

Pode haver algo mais falso e exagerado do que um filme sobre o mundo da moda, com tendência ao terror, realizado por um diretor como Nicolas Winding Refn? Não se trata de dizer que o mundo da moda não é indigesto, nem negar a beleza do filme.

É importante lembrar – e isso é evidente em Demônio de Neon – que apenas a beleza das imagens não garante, nem passa perto, da grandeza de um filme. Pois Refn apoia-se na beleza individual, na extensão de cada plano, sem escapar ao vazio.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

demonio-de-neon1

Sua fé cega nessa beleza – ou na falsa beleza – é tamanha que dela não escapa: o cineasta torna-se refém de um inócuo exercício de estilo, em uma obra sem articulação convincente entre situações, com o terror feito de tijoladas, abrupto, a ser deglutido quase à força pelo espectador que acompanha uma sucessão de beldades inexpressivas.

A ideia, desde o primeiro plano, é casar a moda à morte. Lá está a bela e jovem Elle Fanning deitada em um sofá, em um estúdio, sendo fotografada com sangue no pescoço. A fotografia antecipa o que vem a seguir: belezas mortas em um meio sufocante.

Fanning vive Jesse, aspirante a modelo que cai nas graças de um fotógrafo famoso, de um estilista famoso e do jovem que se apaixona por ela, o único ser comum nesse desfile interminável de seres ultrajantes, que tentam impressionar pelo inesperado.

E, claro, ter modelos canibais e assassinas, acredita Refn, é uma forma de se atingir o terror. Falta naturalidade no desenvolvimento da trama, qualquer passo para se compreender essas personagens. Inveja e desejo assassino são lançados ao léu.

demonio-de-neon2

A protagonista vive em um motel, é uma das várias garotas despejadas em Los Angeles – sem família, sem raízes, “sem talento para qualquer coisa”, como ela própria confessa – e que buscam oportunidades com razões óbvias: são belas e nada mais.

É o caso de se questionar: teria Refn produzido todo esse vazio de maneira deliberada, para parecer inócuo, para chegar às raias do insuportável? Ainda assim, falta um mínimo de articulação – o que é necessário mesmo a exercícios com tendências surrealistas, como prova o grande David Lynch e seu Cidade dos Sonhos.

O mundo da moda pode ser insuportável. Sem novidades. Bertrand Bonello conseguiu resultados muito superiores com o recente Saint Laurent. O exemplo do francês talvez ajude a iluminar o fracasso do dinamarquês: ainda que presos a uma redoma particular, a um universo próprio, aqueles seres não perdem nunca o contato com o real.

Falta um cinema pulsante, sobram imagens meramente belas ou repulsivas em Demônio de Neon. Refn vive do contraste. Sexo com cadáveres, banquetes canibais e banhos de sangue são insuficientes quando o material não lhes garante sentido maior. Se seguir assim, o melhor ao cineasta é investir em publicidade, ou desfiles de moda.

(The Neon Demon, Nicolas Winding Refn, 2016)

Nota: ★☆☆☆☆

Veja também:
13 grandes filmes sobre personagens em viagens existenciais

Super 8, de J.J. Abrams

A perda da mãe faz com que o mundo de Joe Lamb (Joel Courtney) fique um pouco mais bagunçado. De repente, sua pequena cidade é palco de um acidente estranho: homens do Exército param por ali, cheios de perguntas; de repente, enquanto tenta fazer um pequeno filme caseiro, o jovem vê-se apaixonado por Alice (Elle Fanning).

Aos poucos, ele percebe que crescer é também passar por cima de dramas passados, é assumir o protagonismo de sua vida, sua “direção”, e até mesmo encarar o grande monstro alienígena.

super 8a

O terreno de Super 8 é o dos anos 80, ou quase: jovens ainda na era analógica, com suas bicicletas surradas, com suas imaginações a mil – ainda distantes dos computadores e pequenos objetos que mais controlam do que libertam.

Para J.J. Abrams, fazer um filme sobre o cinema é retornar à infância, ou à passagem à adolescência: o cinema feito aqui é visto pelo olhar infantil, ao passo que reproduz, por isso mesmo, um universo quase sempre indolor.

É o mesmo universo aberto, nos anos 70 e 80, por Spielberg e Lucas, por uma geração que resolveu retornar ao efeito “pipoca” das matinês – devolver ao cinema sua posição de entretenimento, sem deixar de conferir a ele o caráter de arte.

Pode não se ver tanta arte no trabalho de Abrams. Ou é válido argumentar que ele esteja mais preocupado em divertir, ou infantilizar. É necessário cuidado: desde os primeiros instantes, com a sequência da grande placa que indica os dias sem acidentes de trabalho na empresa, vê-se um filme sobre o flerte com o mundo adulto.

Joe, na sequência seguinte, está fora de sua casa, no dia da morte de sua mãe, justamente fora do meio que o levaria facilmente à dor: ele vive seu luto em dias de inverno, enquanto um homem estranho bate à porta da família e é expulso.

super 8b

À frente, o espectador descobrirá quem é esse homem e como nada será por acaso nesse trabalho divertido e original. Nem mesmo o pequeno filme feito pelos jovens, entre eles Joe – e muito menos esse filme feito em formato super 8.

É por causa de sua realização, na noite em que os jovens filmam em uma estação de trem, que tudo tem início. Sem querer, eles presenciam – e filmam – um acidente. Não por acaso, o fato ocorre após a câmera ser ligada, após ter início a encenação entre jovens – como no local em que o cinema nasceu, há mais de um século, em A Chegada do Trem à Estação.

O feito da câmera é levar os jovens ao sonho: materializa o mundo visto por Abrams nos anos 80, no cinema. Há nele o Exército controlador, os homens mais velhos e malvados, o pai distante que precisa provar coragem, a menina por quem não é difícil se apaixonar – e, claro, a dor do filho que está crescendo.

Os ingredientes são conhecidos mas misturados: Joe tem aquele desejo de descoberta, de seguir em frente custe o que custar. Como em outros filmes do tipo, cuja inocência age a favor do herói, as crianças sempre sabem mais que os adultos.

super 8c

Nunca levado a sério, sempre na posição de criança, Joe tem as respostas. É a chave e o coração do trabalho de Abrams, seu próprio espelho.

O mais cínico deverá argumentar que o filme não traz novidades. Por outro lado, nem sempre se vê uma obra com tanta paixão – enquanto, para quem quiser ver, uma homenagem ao cinema.

Volta-se ao olhar ingênuo da sétima arte, quando alienígenas eram incompreendidos, nem sempre malvados, de passagem e perseguidos pelos homens mais velhos, os humanos. A comparação com E.T. – O Extraterrestre é irresistível.

A descoberta desse universo fantástico passa pela pequena câmera, passa pelo olho de Joe e de seus amigos: esse cinema nada mais é do que um gesto infantil, o que justifica os degraus da história, também o mundo mágico que brota da pequena câmera ligada.

Nota: ★★★☆☆