Edward Norton

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro González Iñárritu

O ator ao centro de Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) precisa provar algo a si mesmo. Não será fácil. Ele precisa escapar daquele emaranhado de gente, o labirinto dos bastidores do teatro.

Esse mesmo ator tem um problema, ou vários, e convive com todos, até jogá-los pouco a pouco na tela: ele não é o homem no controle, como parece dizer a imagem inicial, na qual, de costas, ele levita de olho na janela. Pronto para voar?

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Antes, esse ator precisa passar por alguns obstáculos: ser mais do que os outros imaginavam, ou do que ele acreditava. O filme Alejandro González Iñárritu é sobre Riggan Thomson. Algumas pessoas que passam por ele – entre desprezo e gestos de amor – repetirão seu nome completo. É necessário falar tudo: Riggan Thomson.

Antes, quando era um astro de Hollywood, o “ator do momento”, cabeça de um antigo filme de super-herói, Riggan estava no alto. As coisas mudaram, o mundo é outro. E agora ele precisa – talvez para escapar desse labirinto, para voar – provar seu talento. Leva aos palcos da Broadway um texto de Raymond Carver.

Para ele, talvez essa seja a maneira de se exorcizar, de se livrar do demônio do super-herói Birdman: buscar uma saída contra a voz grossa que o ataca, que invade seu camarim e sua mente, que o faz crer no impossível.

Com o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, Iñárritu compõe um filme incomum, obra de mistura, às vezes mística na maneira como mostra o simples. Leva quase sempre à miséria do protagonista, às suas fraquezas, às maneiras de destruir o velho super-herói e demonstrar força, ou para se matar no palco e chegar à virtude.

A arte, como aponta o título, pode converter ignorância em virtude. Riggan tem seus motivos para chegar ao extremo, à ignorância, e talvez fazer dela o material ideal à arte, ao gesto final, no palco, ao público.

Fica a sensação de que todo o filme é feito a partir de um único plano-sequência, com exceção de alguns cortes no início e no fim. Nesses momentos, é como se o universo estivesse gerando Riggan, ou demonstrando seus delírios de grandeza, sua iluminação.

O ator troca insultos com a filha (Emma Stone), viciada em drogas, que talvez esteja se reabilitando; é intimidado pela amante (Andrea Riseborough), supostamente grávida; tem de lidar com um ator difícil (Edward Norton) e que pode trazer bons números à peça, além da atriz novata (Naomi Watts); trava discussões e sempre acaba cedendo aos desejos do produtor (Zach Galifianakis); e, de quebra, reencontra a ex-mulher (Amy Ryan). Todas essas personagens ajudam a entender o labirinto do herói.

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Nele, perde-se para se encontrar, perde-se para descobrir a saída, para entender o mundo real: o ambiente em que é possível se tornar um sucesso nas redes sociais quando se adere a um gesto inesperado, como correr de cueca por Nova York.

É dessa forma, no universo com o qual Riggan não está acostumado, que o mesmo confronta a filha. A certa altura, ela terá de lembrá-lo de que tudo talvez não passe de uma enganação, de capricho, e que ele não é mais que uma personagem.

O herói está preso em seu próprio mundo, enquanto o filme de Iñárritu não deixa de fazer uma crítica aos demônios do grande cinema de franquias, também aos vícios do homem do teatro, suas loucuras e refúgios. Riggan tem de confrontar esses demônios enquanto vai da paixão à graça em segundos, sempre entre extremos.

Difícil definir a obra de Iñárritu, entre sombras e o desejo de chegar ao alto, à janela, à sacada – e talvez sair voando, contra a asfixia gerada pela fraqueza, sempre camuflada pela representação, pelo palco.

(Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance), Alejandro González Iñárritu, 2014)

Nota: ★★★★☆

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Clube da Luta (15 anos)

Os méritos de Clube da Luta não são explícitos. A obra de David Fincher mistura muita coisa, e às vezes parece confusa. Aborda esquizofrenia e critica a sociedade de consumo, com as fugas do americano médio, encurralado em sua vida comum.

A lembrança maior está nas pancadas, nas explosões, nas frases do estranho Tyler Durden (Brad Pitt): em tudo o que é violento demais.

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Lançada em 1999, a obra foi atacada pelos moralistas de plantão, a exemplo de outros filmes que se tornaram cult com o passar dos anos. É o caso de Laranja Mecânica, de Kubrick, que chegou a ser banido dos cinemas da Inglaterra.

Em seus 15 anos, o filme de Fincher continua forte, assustador. Fincher, como costume, mergulha no lado obscuro da sociedade americana, como faria outras vezes.

Antes de Tyler, o espectador conhece a personagem de Edward Norton, protagonista e narrador, homem sem nome. Ele tem seus problemas: sofre com insônia, vaga como um zumbi em seu trabalho e tem o típico chefe de terno e gravata, da empresa que se embrulha em números.

Tyler surge na vida do protagonista em alguns flashes, em imagens rápidas. Surge aos poucos, entre um quadro e outro, e se o espectador piscar corre o risco de não vê-lo. E quando surge em definitivo, oferece ao novo amigo os sabonetes que leva na mala. Tyler – forte o suficiente para dar de ombros à sociedade – é exatamente o que o outro desejaria ser: alguém com coragem de escapar, ou confrontar o sistema.

A personagem de Edward Norton precisa de Tyler. É a forma que encontra para colocar fim a seu belo apartamento de produtos comprados pela internet, para acabar com aquela vida de catálogo, embalada por um trabalho desejável.

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E quando surge a luta? Pouco depois das incursões do protagonista por reuniões motivacionais, de pessoas doentes. Cada dia está em um novo local: às vezes ao lado de homens com câncer nos testículos, às vezes com tuberculosos.

Assim, ele começa a dormir bem à noite. A mensagem do filme de Fincher é contundente: a personagem busca a desgraça nessas reuniões do mesmo modo que todos, nesse mundo moderno e vazio, buscam a desgraça na televisão, nos filmes, em todos os cantos nos quais todos são bombardeados pela indústria do espetáculo.

A personagem sem nome precisa dessa desgraça: primeiro nas reuniões, depois na luta do clube fundado com Tyler, e ainda depois no grupo terrorista que deseja colocar um fim àquele sistema desonesto – a começar por um punhado de prédios nos quais se celebra a vida americana de terno e gravata.

“Filme perigoso”, disseram alguns, limitados à mera superfície: o filme sobre homens lutando em buracos escuros. As lutas são reais, vale lembrar, e não tem a violência gráfica que tanto invade as salas de cinema na atualidade. Gostar do filme não significa gostar de suas personagens. Como em Laranja Mecânica, vale mais a crítica.

Nota: ★★★★☆