Edward Dmytryk

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O Mestre, de Paul Thomas Anderson

O que se esquece, em O Mestre, é que se trata de uma obra sobre um homem em busca de seu lugar no mundo. Seu clima denso faz esquecer isso. E tal deslanche existencial é o que há de mais dramático em um filme que não se aproxima de gênero algum.

A história tem início logo após a Segunda Guerra Mundial, quando Freddie Quell (Joaquin Phoenix) busca algo para matar o tempo – ou simplesmente para justificar sua existência. Está à beira-mar. É um dos vários soldados de peito nu, viciado em sexo, capaz de despejar seus desejos em uma mulher de areia, a servir um bando de machos.

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Talvez seja não menos que um desajustado e alienado, cujo vazio caberá à perfeição aos meios e promessas de seu futuro mestre, o guru, escritor e cientista Lancaster Dodd, vivido por Philip Seymour Hoffman.

O cinema aparentemente “difícil” de Paul Thomas Anderson foge às regras, é autoral, elegante, e a insistência em forçar o espectador a se sentir em um círculo de loucura aponta não raro à sua originalidade. É, em diversos momentos, propositalmente difícil de ver.

Muitas de suas sequências não deixam espaço à previsão, feitas de frases inesperadas, sonhos incompreendidos, violência abrupta, sexo a correr ao fundo dessa busca por um sentido na vida. As pontas estão soltas e, conforme se aproxima do desfecho, Anderson procura unir uma a uma, com paciência e controle.

Não seria, nesse espiral de loucura, sobre o mergulho na fé? Ou seja, a fé cega? Freddie chega a Dodd em certa noite à deriva. Caminha à beira da água, à noite, quando descobre um barco cheio de luzes. É um sinal, um convite: a iluminação que, pouco depois, perde tamanho ao passo que o barco se movimenta pela água.

A escuridão opõe-se às luzes: uma representação visual da busca do protagonista por iluminação, e o encontro, por consequência, com a promessa de que é possível achar uma resposta. Logo, Freddie cai na teia de Dodd e passa a frequentar seu grupo.

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O filme de Anderson trata de uma seita próxima à Cientologia, aqui denominada “A Causa”. O homem de Hoffman encarna o suposto cientista, que diz aos outros o que desejam ouvir. E, incrível, a obra de Anderson em momento algum faz dele o charlatão esperado. Ao contrário: Dodd acredita em si mesmo.

Em momento poderoso, Freddie, viciado em sexo, volta seu olhar ao Dodd que dança rodeado de mulheres nuas: deixa-se o plano da crença religiosa, chega-se ao desejo da carne. Personagem indomada, cheia de potência, ele é simples e magnífico.

Em cena, o sentimento do soldado perdido, o da ressaca pós-guerra. Ele supre sua busca por sentido com violência e, impedido de consertar o que passou, sai atrás de pessoas dispostas a acolhê-lo. Mais que religião ou crença, Freddie quer um grupo.

(The Master, Paul Thomas Anderson, 2012)

Nota: ★★★★☆

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Dez filmes que mudaram a cara do cinema americano

Alguns cineastas foram fundamentais, nos anos 40 e 50, para colocar o cinema americano de cabeça para baixo. Na terra do Tio Sam, as mudanças demoraram mais para ocorrer, talvez por força do sistema de estúdios. No entanto, diferentes cineastas já apostavam em novas abordagens estéticas e temáticas. Abaixo, dez filmes resumem os novos ares do cinema americano da época, com gêneros e propostas distintas.

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Cidadão Kane, de Orson Welles

Tomar a história de William Randolph Hearst e dar forma a Charles Foster Kane é apenas o relevo. Por muitos motivos, Cidadão Kane ainda é o maior filme da história do cinema americano e talvez mundial. A utilização da profundidade de campo, a narrativa não linear, o constante contra-plongée, a resolução de diferentes situações em um mesmo quadro (ressaltada por André Bazin, citando a decupagem de Welles), entre outras características, explicam tamanha ruptura. Tudo para mostrar que uma vida não cabe em uma palavra: Rosebud.

cidadão kane

Sangue de Pantera, de Jacques Tourneur

Martin Scorsese chegou a declarar que o filme de Tourneur é tão importante quanto Cidadão Kane. Pode parecer exagero, mas aqui o cinema fantástico para vender pipoca deixa espaço ao psicologismo, com controle exemplar do suspense. É sobre uma mulher sem poder sobre si mesma, sobre seus instintos, e que se transforma em pantera. Marcaram época as parcerias do produtor Val Lewton com Tourneur.

sangue de pantera

Tramas do Entardecer, de Maya Deren

Filme surrealista de 1943, com estrutura rara ao cinema americano da época. É a história de uma mulher que retorna para casa, dorme e vive situações que podem ser sonhos ou não. Aparentemente sem sentido, a obra se apoia nesse mergulho à personagem e oferece uma experiência perturbadora e ainda poderosa.

tramas do entardecer

Amarga Esperança, de Nicholas Ray

Muito antes de Bonnie & Clyde, outro casal havia levado às telas o drama de jovens em fuga. Tem início em tom realista, com bandidos que fogem da prisão. Um deles, o protagonista, recebe os cuidados de uma garota após se envolver em acidente. Tem início a relação de ambos. Um dos renovadores do cinema americano, Ray mostra agilidade na direção. O encerramento inclui o olhar enigmático de Cathy O’Donnell.

amarga esperança

Matei Jesse James, de Samuel Fuller

Em seu primeiro filme, Fuller subverte a história de Jesse James ao apontar à dúbia relação entre ele e seu algoz, Robert Ford. Há, por exemplo, a sequência em que Fuller enquadra as costas de Jesse – pelo ponto de vista de Ford – enquanto a personagem toma banho, momento em que pede a arma ao companheiro. Para completar, Ford viverá à sombra da tragédia: nos palcos, ele terá de reencenar o crime e, de quebra, Fuller mostra o fascínio americano pelo espetáculo.

matei jesse james

Mortalmente Perigosa, de Joseph H. Lewis

Outra obra sobre amantes em fuga, saída perfeita para Lewis (autor, mais tarde, do extraordinário Império do Crime) evidenciar o fascínio de seu país pelas armas. Na trama, um rapaz bom com o gatilho apaixona-se por uma bela garota, atriz de circo, e acaba tragado ao mundo do crime. A sequência mais famosa inclui um plano-sequência de alguns minutos, com a câmera no interior do veículo do casal e o momento do assalto a banco, como também sua fuga – ponto alto do cinema americano da época.

mortalmente perigosa

O Pequeno Fugitivo, de Ray Ashley, Morris Engel e Ruth Orkin

François Truffaut declarava-se apaixonado por esse filme realista, no qual a infância é vista distante dos contornos comuns ao cinema clássico. Aqui, um garoto vaga sozinho, à beira mar, e faz contato com adultos – enquanto seu irmão deseja encontrá-lo. A infância é vista pela infância, sem interferência do protagonista mais velho, sem julgamentos, com liberdade e realismo, crua, ainda assim bela demais.

o pequeno fugitivo

Sindicato de Ladrões, de Elia Kazan

O protagonista não é o típico herói em busca de vingança. Também não é o anti-herói estabelecido por Bogart em O Falcão Maltês, de Huston. Tampouco um vilão. Suas palavras sobre consciência ajudam a defini-lo, ao passo que o destroem por dentro e o levam ao sacrifício. O filme de Kazan – resposta às críticas sobre sua deleção ao Comitê de Atividades Antiamericanas, na Caça às Bruxas – é um retrato social poderoso, com imagens de outro cinema.

sindicato de ladrões

Sementes de Violência, de Richard Brooks

À frente, a possível amizade entre um professor branco e um aluno negro e problemático – mas um aluno cuja evidente diferença leva-o à mudança. À época, com Brando e James Dean no radar dos estúdios, Sidney Poitier era o perfeito contraponto ao astro Glenn Ford e aos rostos do passado. O filme de Brooks começa ao som de “Rock Around the Clock” – primeira vez que o rock aparecia nas telas do cinema, o que conferia seu clima de mudança.

sementes de violência

Sombras, de John Cassavetes

Considerado pai do cinema independente americano, Cassavetes trabalhava como ator para financiar seus projetos pessoais. Como se vê em Sombras, sua primeira obra, a câmera (16mm) é intrusa, o clima é realista, sem retoques, e os atores seguem as ideias de Cassavetes sobre improvisação. Antes de os estúdios se renderem aos novos temas e plateias, na rabeira da revolução dos cinemas novos pelo mundo, Cassavetes já apontava ao novo caminho.

sombras

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Navios, barcos, botes, jangadas e outros (em 30 filmes)

Na rabeira do lançamento de Capitão Phillips, novo trabalho de Paul Greengrass, segue uma lista com filmes que incluem barcos e outros meios de transporte sobre a água. Em alguns deles, os barcos estão de passagens e não são fundamentais à história. Mas sempre vale lembrar e dar uma conferida. À lista.

Encouraçado Potemkin, de Sergei M. Eisenstein

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Marinheiro de Encomenda, de Charles Reisner e Buster Keaton

marinheiro de encomenda

Limite, de Mário Peixoto

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Tabu, de F.W. Murnau

tabu

O Atalante, de Jean Vigo

atalante

O Grande Motim, de Frank Lloyd

o grande motim

Um Dia no Campo, de Jean Renoir

um dia no campo

As Três Noites de Eva, de Preston Sturges

três noites de eva

Nosso Barco, Nossa Alma, de Noel Coward e David Lean

nosso barco nossa alma

Um Barco e Nove Destinos, de Alfred Hitchcock

um barco e nove destinos

As Oito Vítimas, de Robert Hamer

oito vitimas

Uma Aventura na África, de John Huston

uma aventura na áfrica

Os Homens Preferem as Loiras, de Howard Hawks

homens preferem as loiras

Monika e o Desejo, de Ingmar Bergman

monica e o desejo

A Nave da Revolta, de Edward Dmytryk

a nave da revolta

Sabrina, de Billy Wilder

sabrina

Exodus, de Otto Preminger

exodus

A Faca na Água, de Roman Polanski

a faca na água

Billy Budd, de Peter Ustinov

billy budd

Os Emigrantes, de Jan Troell

emigrantes

Amargo Pesadelo, de John Boorman

amargo pesadelo

Tubarão, de Steven Spielberg

tubarão

Fitzcarraldo, de Werner Herzog

fitzcarraldo

As Três Coroas do Marinheiro, de Raoul Ruiz

tres coroas do marinheiro

Forrest Gump, o Contador de Histórias, de Robert Zemeckis

forrest gump

Titanic, de James Cameron

titanic

Um Filme Falado, de Manoel de Oliveira

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Mestre dos Mares – O Lado Mais Distante do Mundo, de Peter Weir

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A Aventura de Kon-Tiki, de Joachim Rønning e Espen Sandberg

kon tiki

As Aventuras de Pi, de Ang Lee

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