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Como Hitchcock descobriu o construtivismo soviético

Uma das pessoas mais interessantes com quem Hitchcock trabalhou no começo da carreira no cinema foi Ivor Montagu. Era aristocrata e comunista, coisas que Hitchcock não era, e um dos jovens intelectuais dos anos 1920 que começava a se interessar pela nova arte do cinema. Ele é creditado em O Inquilino por edição e gráficos. (…) Eles ficaram amigos e trabalharam juntos em mais quatro filmes, mas Montagu não é creditado nesses filmes. (…) Montagu foi produtor associado em O Marido Era o Culpado e nos dois filmes anteriores, 39 Degraus e Agente Secreto, e estava envolvido em produção diariamente.

A razão de destacar Montagu e associá-lo em particular com O Marido Era o Culpado é por Montagu ter sido o principal canal através do qual Hitchcock conheceu o trabalho da geração empolgante de diretores soviéticos de cinema mudo e suas teorias sobre cinema, outro exemplo da combinação característica do material e dos colaboradores britânicos com essa perspectiva sofisticada internacional. Montagu fora à Rússia nos anos de 1920, ele falava russo, traduziu os trabalhos de Eisenstein e Pudovkin e os publicou e levou Eisenstein e Pudovkin e os filmes deles para Londres. Desde então, Hitchcock reconheceu a importância das teorias deles. Em particular, sobre edição. Ele aprendeu e depois se comprazia com o fato de que o trabalho do diretor não era apenas encenar o filme e filmar, mas que poderia, numa variedade complexa de formas, filmar várias tomadas e detalhes diferentes e depois editá-los para obter a impressão de um ato que nunca aconteceu realmente diante da câmera. Você poderia criar a impressão da visão de um ato ou de uma emoção. E o termo principal aqui é “montagem” [montage], edição criativa, o que era fácil de lembrar, já que era “Montagu” com o final mudado.

Charles Barr, historiador, em declaração em vídeo presente nos extras do DVD A Arte de Alfred Hitchcock (Versátil Home Vídeo). Segundo Barr, a aprendizagem de Hitchcock sobre a montagem pode ser vista, em sua fase britânica, em O Marido Era o Culpado (também conhecido no Brasil como Sabotagem), como na famosa sequência em que um garoto carrega, sem saber, uma bomba embrulhada. Abaixo, Hitchcock e o ator Oskar Homolka nos bastidores de O Marido Era o Culpado.

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Correspondente Estrangeiro, de Alfred Hitchcock

Em Ritmo de Fuga, de Edgar Wright

Os movimentos de Baby, pela rua, enquanto busca café para sua equipe de ladrões, fornece dados suficientes sobre a personagem em questão: trata-se de alguém desconectado do universo comum, dos carros e dos prédios, dos manifestantes, do perigo que ronda. Torna assim sua passagem mais leve, ainda que precise crescer ao longa da jornada.

E crescer, no esperto Em Ritmo de Fuga, de Edgar Wright, significa passar para o outro lado, confrontar homens armados, assassinos, damas perigosas, tomar a estrada e fugir para lugar algum com a garota dos sonhos. Sim, o crescimento de Baby, personagem de Ansel Elgort, ainda embute um pouco de sonho – e não dispensa sua trilha sonora.

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A música, por sinal, embala o filme. A edição é pautada nela, do início ao fim, das arrancadas à lentidão do tom da mixagem, entre a vida e a morte de um capanga qualquer, após um banho de sangue. A trilha movimenta Baby e leva o filme ao ritmo que Wright deseja imprimir. Mas não só: há também a harmonia das cores, o universo que se desenha para Baby – ou que ele mesmo desenha -, assumidamente artificial.

Baby é o melhor no seu ofício. Ele dirige para criminosos. É a peça importante que fica do lado de fora do banco, aquela que sempre vê, com medo, um carro de polícia passar de um lado para outro – enquanto canta e dança, enquanto tenta encontrar a música para a ocasião.

Trabalha para o poderoso Doc, interpretado, não por acaso, por Kevin Spacey. Se Elgort sintetiza o menino que não se transformou em homem, com iPod, jaqueta esporte e óculos escuros, Spacey é alguém que já viveu tudo. O bandido sob a fachada do homem de negócios. Ou a do político, a do apostador de Wall Street, o camaleão.

Doc representa tudo o que Baby não deseja ser: é, como se prevê, alguém fadado ao figurino do empresário em jantares caros, o estrategista que, no fim da corrida, fica com a maior parte do dinheiro apenas para dar ordens. O mundo de homens como Doc – e também de alguns outros criminosos que passam pela tela – exclui trilha sonora. Escuro, apagado.

A história de Baby logo vem à tela. O rapaz ainda não conseguiu se despregar do espírito da mãe. Ainda é um bebê – mesmo que tal ligação possa parecer pura forçação de barra. Ainda pequeno, ele sofreu um acidente de carro enquanto seus pais discutiam. Do acidente ficou um zumbido que ele tenta ocultar com o iPod ligado o tempo todo. À tragédia recaem o mundo em cores, as músicas, o olhar de Baby.

Logo encontra a menina perfeita. Não poderia ser diferente. A garçonete de dentes um pouco saltados, com olhar e pinta de princesa, por sinal a atriz que interpretou Cinderela na versão mais recente, Lily James. E encontra os bandidos de sempre, os matadores que insistem em tornar seu universo mais real – entre um assassinato e outro, enquanto fogem.

Wright constrói um mundo harmonioso – de momentos engraçados e toques idiotas, no qual nenhuma peça está fora do lugar – com inegável maestria. Seu trunfo é ser infantil e ousado ao mesmo tempo. Como no engraçado Homem-Formiga, que ele escreveu, a ideia é voltar ao universo aparentemente indolor dos brinquedos. Ao trenzinho, no caso do super-herói, ou aos carrinhos que Baby e Doc gostam de manusear.

Citados pela crítica, os “toques de Tarantino” não fazem sentido. Em Ritmo de Fuga, ainda que com explosões de violência, não recorre à saturação do diálogo – só para ficar em uma (talvez a principal) característica do autor de Pulp Fiction. Wright prefere a disposição perfeita das peças no tabuleiro, o ritmo e a música ideais para a ocasião, o herói inesperado e os vilões que tentaram ser Jordan Belfort e não conseguiram.

(Baby Driver, Edgar Wright, 2017)

Nota: ★★★☆☆

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Homem-Aranha: De Volta ao Lar, de Jon Watts

Diferentes olhares sobre Berlim

No que há de mais superficial, Berlim – Sinfonia da Metrópole e Gente no Domingo são semelhantes. Ambos abordam a vida de pessoas comuns, seus movimentos, em pouco mais de um dia em Berlim, do amanhecer ao cair da noite.

Em relação à forma, são filmes desiguais: o primeiro, de Walter Ruttmann, é calcado todo no poder da montagem e no distanciamento das pessoas; o segundo, feito de outro fluxo, leva a um nível pessoal, à proximidade das personagens, à vida como parece ser.

berlim sinfonia da metropole

A obra de Ruttmann faz parte das vanguardas europeias da época, na década de 20. Tem início com a chegada à cidade, com o movimento do trem que não se vê, com a entrada na estação que anuncia a cidade: a placa escancara o nome de Berlim, a metrópole.

É um filme em movimento, no qual a cidade está viva antes mesmo de surgirem pessoas: obra sobre a modernidade e suas contradições, evidenciadas graças ao paralelismo do cinema, à edição frenética que impõe seu desafio aos olhos.

A cidade viva, Berlim, tem grandes prédios que se jogam ao público, tem o movimento, o túnel do trem que leva da escuridão à claridade rapidamente, os trilhos com suas curvas estranhas, a ideia de que o choque é possível antes de o trem desviar-se.

Como a música, tem seu ritmo próprio: a cidade é construída, nunca mostrada como realmente é. A metrópole pela visão de Ruttmann tem sua forma particular: é uma sinfonia feita de pequenos pedaços, de partículas vivas, de pessoas distantes.

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Não se ignora o poder das imagens isoladas, com suas crianças tristes ou felizes, com suas mulheres que mendigam pela rua, com a gente rica que espera os belos pratos de comida em um restaurante – quando até mesmo a culinária torna-se linha de montagem.

Por outro lado, é na edição, no choque entre imagens, que está a força da obra de Ruttmann: na maneira como busca seu próprio ritmo, sua sinfonia pessoal.

O autor divide o filme em capítulos e, em cada um, expõe sua crescente, da aparente quietude à evidente explosão, das pessoas que saem de suas casas, pouco a pouco, à velocidade da fábrica – para depois retornar às pessoas, às suas janelas abertas.

A conexão das imagens fornece a beleza da obra, como o paralelo entre homens que brigam na rua e cães excitados. A certa altura, o suicídio de uma mulher – em uma possível encenação, com o close da personagem e seus olhos esbugalhados – parece quebrar a rotina e fornecer o ápice da agitação fílmica.

gente no domingo

Se no filme de Ruttmann as pessoas são partículas como outras, em Gente no Domingo, de diferentes cineastas, a cidade dá-se pela aproximação a elas – ou simplesmente aceita servir de fundo, espaço mais ameno e belo, apaixonante em alguns momentos.

Lançado em 1930, o filme tem a assinatura de cinco diretores, todos no início de carreira: Edgar G. Ulmer, Fred Zinnemann, Rochus Gliese e os irmãos Curt e Robert Siodmak. Alguns deles ficariam famosos por trabalhos futuros em Hollywood. Entre os roteiristas está Billy Wilder, que também iria para os Estados Unidos e faria sucesso.

Sem atores profissionais, apenas com pessoas da cidade, o filme foi feito com total liberdade, a partir de 5 mil marcos que Robert havia ganhado de presente de seu tio. A ideia era mostrar um dia – e um pouco mais – na vida de alguns berlinenses.

Começa no sábado, com a rotina de alguns rapazes, com o convite para encontrar garotas no domingo, quando todos estão interessados em gastar o tempo com diversão. Desde o início, fica clara a intenção da obra em dispensar atuações.

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Nesse sentido, o filme deseja ser realista, e talvez antecipe um pouco da estrutura do cinema neorrealista do pós-guerra, além de nadar contra a maré das produções de estúdio feitas na Alemanha da época, cuja forma assemelhava-se à de Hollywood.

O filme tem sua sinfonia, antes, nas pessoas, em suas relações, em suas pequenas brigas e romances, em seus rostos que se paralisam – tornam-se fotografia – e depois retornam ao movimento. A sinfonia, aqui, precisa de certa “história”, ainda que parca.

No domingo, um rapaz e seu colega encontram uma moça e sua amiga. O segundo deixa a mulher em casa, dormindo. Partem para um dia no campo, à beira de um lago. Nadam, flertam, ouvem música e se divertem.

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Um dos rapazes capta a atenção das duas mulheres. Na água, tenta beijar a primeira e é repelido; entre as árvores, beija a segunda e é aceito. Ao rapaz, surgem dois tipos de amor, dois tipos de mulher naquele domingo como muitos outros.

Ao escapar, de repente, para outros jovens, ou mesmo para as pessoas que encaram a câmera, Gente no Domingo mostra seu interesse pela mágica cotidiana, enquanto as personagens próximas ao espectador não conduzem ao drama esperado.

É leve e, por isso, diferente da obra de Ruttmann, com sua industrialização, suas máquinas, seus manequins na vitrine, seus homens mecanizados. Difícil não sentir certo mal-estar com a beleza e força dessa Berlim, com os excessos da cidade grande.

Fotos 1 e 2: Berlim – Sinfonia da Metrópole
Fotos 3, 4, e 5: Gente no Domingo

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Cinco mortes inesquecíveis nos filmes de Jean-Luc Godard