Édgar Ramírez

Sete bons filmes recentes que discutem o extremismo político

Dos turbulentos anos 60 com ações da esquerda à inclinação de adolescentes à extrema direita no mundo atual, os filmes da lista abaixo trazem – apesar de diferentes contextos e estéticas – um tema em comum: o extremismo político. Nada difícil, como provam as obras abaixo, chegar a conflitos que resultam em violência e morte.

O Grupo Baader Meinhof, de Uli Edel

Retrato pulsante da Alemanha nos anos 60 e 70, quando o grupo Baader Meinhof – a partir do nome de seus “cabeças” Andreas Baader e Ulrike Meinhof – chacoalhou o país com suas posições extremas, o que levou a ataque terroristas e mortes. O filme vai da formação do grupo aos problemas com a prisão e os tribunais.

Carlos, de Olivier Assayas

Outro retrato passado na mesma época do Baader Meinhof, sobre o revolucionário marxista Carlos, conhecido como “o Chacal”. Interpretado com garra por Edgar Ramírez, a personagem-título é cheia de ambiguidades, não dando espaço ao julgamento apressado. Destaque para a sequência do sequestro do avião.

Tangerinas, de Zaza Urushadze

Ao contrário de tanta gente, um velho homem decide permanecer em sua terra, em conflito, na Geórgia dos anos 90. Certa dia, vê-se trancado em casa ao lado de dois combatentes de lados opostos dessa guerra: um georgiano e um checheno. Sob o olhar apaziguador do protagonista, esses seres têm de conviver no mesmo espaço.

Os Caubóis, de Thomas Bidegain

O diretor Bidegain é mais conhecido pelos roteiros que escreve, entre eles alguns sucessos de Jacques Audiard, como O Profeta e Ferrugem e Osso. Seu trabalho pode ser descrito como uma releitura do clássico Rastros de Ódio, de John Ford, sobre um pai desesperado para reencontrar a filha, que teria fugido com o namorado de origem árabe.

Clash, de Mohamed Diab

Presos no pequeno espaço de um camburão, destinados a ver a confusão egípcia, por horas, apenas pelo espaço da janela, membros da Irmandade Muçulmana e manifestantes a favor dos militares terminam se confrontando. O filme é ágil, interessante, claustrofóbico e não dá espaço para o espectador aliviar-se.

Nocturama, de Bertrand Bonello

O movimento dos adolescentes, no início, antecipa o pior: eles preparam um ataque terrorista na França. Explodem espaços públicos, carros, prédios e em seguida se refugiam em uma loja de departamento. Bonello reproduz o mal-estar em figuras apáticas que, mais que matar, e sem muita explicação, querem levar ao caos.

A Trama, de Laurent Cantet

O extremismo político é visto aqui em um espaço de convivência comum, nos encontros de jovens que participam de uma oficina literária. A professora propõe a criação de um enredo. Entre os participantes, um adolescente mostra inclinação às ideias da extrema direita francesa, o que o torna alguém indesejável ao resto do grupo.

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Carlos, de Olivier Assayas

O espectador tenta entender se o terrorista Carlos, ou Ilich Ramírez Sánchez, sente medo durante suas ações e se está pronto para morrer.

Não é possível invadir o homem ao longo da minissérie dirigida por Olivier Assayas. Para provocar, o diretor joga com o oposto: vê-se o Carlos conquistador, furioso, nu entre paredes, gordo em momentos de ociosidade, nunca quem se deseja ver.

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Carlos, com mais de cinco horas, narra as aventuras desse homem belo e estranho. Ele (Edgar Ramírez) chega a ser sincero com suas vítimas, a negociar com quem não deveria, a fugir como se tivesse medo. Seu pouco humanismo constrói-se à base da ação, um pouco aos trancos.

A série não deixa momentos para respirar. É feita de luzes fortes, levando suas personagens – Carlos incluso – à luta nas ruas, às corridas, aos aeroportos e embaixadas. O protagonista denomina-se um soldado e talvez sonhe em ser um líder.

No fundo, como denunciam os olhos, não gosta de receber ordens. Quando pode dá-las, como na sequência do sequestro do avião, também está disposto a negociar, com dólares e cabeças importantes, a continuidade da empreitada.

Essa capacidade coloca-o às vezes como político estrategista, não como o guerrilheiro enérgico que parece. As palavras de Carlos anunciam isso muito cedo, somadas ao seu jeito de enfrentar os outros – inclusive seus pagadores – e assim estabelecer o mito.

Parece capaz de tudo, imbatível e sem floreios. Se necessário, troca de máscaras. E se precisa recuar, como no desfecho do sequestro do avião, aparentemente o faz para sobreviver. Levanta dúvidas sobre suas intenções, sobre o medo da morte (ou não), sobre se manter vivo para conservar o mesmo mito – e talvez ao contrário de Che, que aceitou morrer na selva e invadiu o imaginário de alguns como novo Cristo.

Ainda que não demonstre ter tal vaidade, seus olhos, de novo, denunciam-no: talvez tenha certa paixão oculta, talvez seja mais cerebral do que outros, mortos por se deixarem levar pelas fraquezas do coração. Está entre o grito da revolução e o olhar fixo à mala de dinheiro – U$ 200 mil – enviada pelo líbio Gaddafi.

Não esconde a satisfação ao dar entrevista a um poeta, na terceira e última parte de Carlos. Na ocasião, a pergunta que abre não poderia ser outra: o entrevistador deseja saber se o revolucionário tem medo da morte. E continuam a falar sobre ideologia, religião, crenças. “Sigo apenas uma religião”, pontua. “O marxismo.”

Conforme evolui a mutação, ou a necessidade de sobreviver, Carlos muda: diz estar aberto ao islamismo. Tem um relacionamento longo com uma guerrilheira que se sente secundária, Magdalena Kopp (Nora von Waldstätten), e termina nos braços de outra bela mulher, com quem se esconde após a queda do bloco socialista.

Guerrilheiros como Carlos passam de solução a problema: o mundo mudou, os comunistas perderam a guerra. É o que lembra um amigo, já perto do fim, quando são convidados a deixar a Síria. A certa altura, ninguém mais quer Carlos, e o mito soçobra, dá vez ao pai de família.

Ao escolher uma revolução sem fronteiras, Carlos torna-se vítima da condição de homem sem pátria. Em seus dias de glória, vagava de um lado para outro como vagam hoje os empresários: de aeroporto em aeroporto, de país em país. O guerrilheiro custa a entender que o mundo é outro. E apenas o refúgio servir-lhe-á.

Assayas ocupa cada minuto de suas cinco horas com segurança invejável, de forma rápida e hipnótica. Para não correr riscos, anuncia, a cada episódio, que se trata de ficção. Mesmo que todas as personagens e situações fossem falsas, restaria ainda a recriação de um tempo feito por figuras raras e indefiníveis como Carlos.

(Idem, Olivier Assayas, 2010)

Nota: ★★★★★

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Os dez piores filmes de 2016

Ver filmes ruins não é perda de tempo. Alguns, de tão ruins, ajudam a entender por que outros são grandes. Obras ruins também merecem espaço em aulas de cinema, pois apontam o que se deve evitar, do roteiro à direção, de quesitos técnicos às atuações. A lista abaixo prova que 2016 não foi muito diferente de anos anteriores: sobraram trabalhos ruins e, pior, bons cineastas e atores envolvidos com eles.

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10) Tudo Vai Ficar Bem, de Wim Wenders

Wenders tem mais altos que baixos. De vez em quando comete erros difíceis de entender, o que o faz parecer um diretor de encomenda para o dito filão “filme de arte”. O primeiro erro é trazer à frente James Franco, ator sem a mínima condição de manter o drama que o papel exige. O resto segue ladeira abaixo.

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9) Demônio de Neon, de Nicolas Winding Refn

Refn começou a carreira com filmes realistas. Depois mudou, assumiu novos contornos, a violência gráfica, a falsa beleza de um mundo degradado. Ainda que alguns momentos impressionem, é pouco mais que oco este Demônio de Neon. Sobre o mundo da moda e seus seres artificiais, a fita termina um pouco como eles.

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8) Esquadrão Suicida, de David Ayer

A premissa é um pouco semelhante à dos Vingadores: reunir um bando de seres com superpoderes e colocá-los para quebrar o mundo. Ou parte dele. Mas o jogo aqui fica por conta dos “caras maus”, os vilões que surgem como a última esperança do governo americano. Uma gororoba embalada por muito barulho e pirotecnia.

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7) Pequeno Segredo, de David Schurmann

Há um bom tempo o Brasil não coloca um candidato tão fraco na corrida ao Oscar. Não, pelo menos, desde Lula, o Filho do Brasil. Há quem argumente que o filme tem sequências bonitas. Mas o que fazer quando estas estão isoladas e a regra é recorrer a puro sentimentalismo?

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6) O Caçador e a Rainha do Gelo, de Cedric Nicolas-Troyan

Outro caça-níquel visível, outra vez a mobilizar bons atores a troco de nada. Aventura juvenil sem emoção, de trama sem profundidade, figurinos cafonas, mais uma vez bebendo na fonte de franquias como O Senhor dos Anéis. Nem Jessica Chastain salva a produção.

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5) A Vingança Está na Moda, de Jocelyn Moorhouse

Difícil entender por que alguns bons atores aceitam fazer parte de filmes como esse, do livro de Rosalie Ham. Por outro lado, vale supor que o resultado final não poderia ser calculado. A comédia não tem inspiração, traz bocejos. O filme arrasta-se até o fim. E dura a eternidade.

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4) Caçadores de Emoção, de Ericson Core

Refilmagem do filme de Kathryn Bigelow de 1991. A trama geral é a mesma: agente infiltra-se em uma gangue para desbaratá-la e se envolve com esportes radicais. Bons atores como Edgar Ramírez e Ray Winstone são mal aproveitados. A ação não convence. Não chega a ser nem um entretenimento razoável.

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3) Independence Day: O Ressurgimento, de Roland Emmerich

Só há uma explicação para o retorno à franquia, 20 anos depois: é puro caça-níquel. O pior é que consegue superar o primeiro no quesito ruindade. Will Smith (lembrado com uma foto na Casa Branca) deu-se bem ao fugir dessa empreitada, mas terminou em Esquadrão Suicida.

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2) O Maior Amor do Mundo, de Garry Marshall

Uma comédia romântica sobre mães sem qualquer graça. A estrela em declínio Julia Roberts é uma coadjuvante de luxo e volta aqui a trabalhar com o diretor de Uma Linda Mulher, Garry Marshal, em seu último trabalho. O riso fica por conta do constrangimento.

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1) Os Dez Mandamentos, de Alexandre Avancini

As belas egípcias parecem socialites saídas das festas do Grupo Doria. As atuações são canhestras, ajudadas pelo uso abusivo de câmera lenta. O ritmo não reserva instantes de paciência, nem a transição correta entre situações e tempos. E tudo isso, dizem, gerou a maior bilheteria do cinema brasileiro – ainda que muitas salas estivessem praticamente vazias durante as exibições. Milagre? Essa é outra história.

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De Coração Aberto, de Marion Laine

A vida de um casal de cirurgiões cardíacos passa por uma transformação quando dois acontecimentos surgem pelo caminho: a impossibilidade dele em continuar a operar pacientes, devido ao alcoolismo, e a gravidez dela.

No universo dos médicos em De Coração Aberto, no interior de um hospital público na França, as paredes são brancas, os profissionais mostram disciplina, cobrem o corpo da cabeça aos pés e nem sempre parecem os mesmos do lado de fora.

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Contra os sinais de uma vida organizada, o filme de Marion Laine traz os gestos inesperados e livres do casal Mila (Juliette Binoche) e Javier (Édgar Ramírez), com suas festas e doses de amor louco.

O problema é que Javier julga-se um coadjuvante: não tem poder sobre a mulher (ela quer abortar, ele quer o filho), não pode voltar a fazer o que sabe de melhor (operar) e, de quebra, descobre a impossibilidade de viver naquele país.

Apesar da presença radiante de Binoche como a futura mãe que não se entende, Ramírez é o centro do filme: uma amostra de animalidade em sua barba a fazer, seus cabelos longos, suas explosões de fúria, sua bebedeira, sua vontade de estar com os animais quando o mundo, do lado de fora, mostra-se organizado demais.

De Coração Aberto poderia ser apenas mais um filme sobre o conflito de um casal. Laine, contudo, vai além e mostra como suas personagens tentam – e muitas vezes fracassam – chegar dentro do outro.

Chega-se na mesa de cirurgia, onde o coração está exposto, ou quando Mila vê seu futuro filho por meio do ultrassom. Desajustada àquela nova realidade, ela não sabe se chora ou ri – e o filme, nesse ponto, é resumido. Os sentimentos nunca são fáceis de definir e, quase sempre, amor e ódio misturam-se.

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O filho, a vontade de ir embora, as bebedeiras e outros detalhes tornam a vida de Mila e Javier cada vez mais difícil. Ele foge. Ela tem uma recaída e sofre um acidente.

Em uma pequena passagem, quando ele joga um crânio de enfeite contra a parede do apartamento, Laine antecipa visualmente uma tragédia que depois surgirá. E o filme guarda outros mistérios, geralmente em detalhes. Um deles é a foto que Javier prega na parede e que antecipa a imagem do pai com a filha ainda não nascida.

Muitas perguntas ficam sem respostas nesse filme inicialmente físico, sobre amantes – despreocupados, depois problemáticos – que desejam apenas viver pela noite e fazer o que vier à mente. A vida parece fácil, nada tem a ver com o trabalho no hospital.

Depois de tantas voltas, é justamente ao hospital que retornam. O fim une tudo e, enfim, o hospital não é mais um palco ao trabalho, mas o último espaço possível ao encontro dos amantes, quando o corpo não responde e quando a alma ainda parece guardar instantes de vida em um paraíso perdido, com a família perfeita e feliz.

Perde-se de um lado, ganha-se de outro. Caminhar a esse encerramento aberto e difícil nunca é uma perda de tempo.