E.T. – O Extraterrestre

A vida passa, os brinquedos ficam

Os brinquedos são como as crianças. A pequena aventura, para eles, será enorme. Atravessar uma porta ou uma janela, na primeira parte de Toy Story, exige uma operação de guerra. Aos poucos, nas partes seguintes, conseguem ir mais longe, descobrem um pouco mais sobre o tamanho deste mundo estranho e nem sempre justo.

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A aventura, da primeira à terceira parte, inclui um caubói heroico e bem humorado, um astronauta com problemas existenciais, além de um bando de brinquedos com suas próprias peças e particularidades. O grupo, o mais heterogêneo possível, inclui formas distintas, do esguio de botas grandes ao corpo de batata.

Nas três partes, o objetivo final é o mesmo: voltar para o dono, um menino que cresce e, depois, resolve se desfazer de seus brinquedos, companheiros de vida. A maturidade cobra seu preço: o universo dos mais velhos não será o dos brinquedos, aos quais não existe idade, aos quais o tempo conversa-se à base das pilhas trocadas.

O herói insistente é Woody, o cowboy, o velho boneco perdido no tempo; seu escudeiro é Buzz Lightyear, astronauta que demora a descobrir que é um brinquedo, que acredita ser um super-herói de verdade, e que aponta ao futuro, ao homem moderno que se desfaz das botas e do chapéu para, com seu globo de vidro, conquistar estrelas.

Woody deve retornar ao dono. Como caubói, restitui a ordem, imprime segurança: cabe a ele, quase sempre, o comando do grupo, enquanto Buzz solta frases de efeito e se eleva como estátua imponente. Não estranha que o representante do passado sempre pareça mais autêntico em suas dúvidas, sua livre camaradagem, sua insistência infantil.

A jornada de Woody é a jornada da criança para fora de seus domínios, para a descoberta de um universo maior: na primeira parte, precisa sobreviver à casa do vizinho, um menino chegado à tortura e destruição de bonecos; na segunda, escapar do adulto que o sequestra e pretende vendê-lo a um museu; na terceira, fugir com os amigos de uma creche à qual, por acidente, foi doado, enquanto luta com outros brinquedos.

A primeira história é sobre descobrir que se pode ser substituído. Ninguém é dono do coração de ninguém para sempre. Woody, então o preferido do dono, é confrontado pela novidade, o astronauta. A segunda é sobre descobrir as próprias origens: ao ser raptado, Woody depara-se com sua história passada, seus companheiros do velho oeste.

A essa altura, algumas ideias da terceira parte começam a surgir: os brinquedos questionam, com pesar, o fato de seus donos estarem crescendo. Inevitável: em algum momento eles serão trocados, doados ou jogados na lata do lixo. A terceira parte confirma o sentimento: a criança torna-se adolescente, os brinquedos continuam iguais.

Mais que descobrir que podem ser descartadas, as pequenas personagens encaram a própria morte: no lixão, ao caírem em um buraco, entre pedaços de inservíveis, veem o fogo, o fim, momento em que estendem a mão ao parceiro ao lado. Têm apenas os amigos de plástico nesse calabouço que em tudo destoa do quarto colorido.

Ao insistir no retorno ao dono (o pai), Woody recusa-se a envelhecer e resume a trilogia. As animações de John Lasseter e Lee Unkrich defendem a importância de ver o mundo de baixo para cima, espaço secreto e compreendido apenas por crianças e seres mágicos convidados a habitá-lo – o que não se fazia tão bem desde E.T.: O Extraterrestre.

O convite à fantasia em algum ponto defende o próprio cinema: a aventura possível em que o cowboy encontra o astronauta, em que símbolos tantas vezes associados aos adultos são miniaturizados, jogados em um quarto, a serviço das crianças, enquanto se passam por inanimados para, em seguida, ganhar vida e ação.

Os brinquedos obedecem a um código próprio: na presença do dono, não podem falar e se movimentar. São brinquedos. Vivem para o pai, lançados ao alto, batidos contra alguma estrutura dura, ao risco de quebrar. São manipulados e presos por anos a um cômodo ou velho baú. Toy Story, no fundo, é mais triste do que parece.

(Idem, John Lasseter, 1995)
(Idem, John Lasseter, 1999)
(Idem, Lee Unkrich, 2010)

Notas:
Toy Story:
★★★★☆
Toy Story 2: ★★★★☆
Toy Story 3: ★★★★☆

Foto 1: Toy Story
Foto 2: Toy Story 3

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Os dez melhores filmes de Steven Spielberg

Como Chaplin e Hitchcock, Spielberg teve seu nome convertido em grife. Vem antes do título do filme. Suas obras têm se alternado entre a fantasia e o chamado “mundo real”, entre fugas ao impossível e contornos históricos que passam pela Segunda Guerra Mundial, pelo Holocausto, pela Guerra Fria. Um diretor cheio de paixão, inseparável da indústria, com faro raro para o bom entretenimento.

10) Munique (2005)

O 11 de Setembro deixa marcas no cinema de Spielberg. Aqui, a caçada dos judeus aos responsáveis pelos atentados nas Olimpíadas de Munique. Cinema político e forte.

9) A Cor Púrpura (1985)

Do livro de Alice Walker. Um filme sobre a prisão de uma mulher, sobre a dificuldade de romper um círculo vicioso, sobre a separação de irmãs e a descoberta do tamanho do mundo.

8) Caçadores da Arca Perdida (1981)

O primeiro dos filmes de Indiana Jones (Harrison Ford), um dos heróis mais famosos do cinema. Trilha sonora, sequências de ação, tiradas do texto – tudo funciona à perfeição nessa aventura.

7) Encurralado (1971)

O primeiro Spielberg. Feito para a televisão, o filme foi depois ampliado e ganhou fama. À cena, um homem é perseguido por um caminhão cujo condutor nunca é mostrado.

6) Império do Sol (1987)

A guerra pelo olhar da criança. O filme tem sequências incríveis e muito de sua beleza deve-se à fotografia de Allen Daviau, também nos créditos de A Cor Púrpura e E.T.: O Extraterrestre.

5) Guerra dos Mundos (2005)

Os alienígenas são aqui destruidores que descem ao mundo em raios e revivem suas máquinas escondidas no solo. Tom Cruise é o pai que precisa proteger os filhos.

4) Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977)

Da montanha de purê de batata à montanha real, o protagonista descobre seu passaporte para escapar deste mundo sem muita graça. As luzes atraem. Logo vai embora.

3) Tubarão (1975)

Após os ataques à cidade pacífica, pequena, de políticos pequenos, a fera convida três homens a confrontá-la em alto mar: o reacionário, o moderado e o liberal.

2) A Lista de Schindler (1993)

Spielberg no Holocausto, em filme belíssimo, de imagens realistas e sufocantes. Primeira colaboração do diretor com Janusz Kaminski e a chegada definitiva ao “cinema adulto”.

1) E.T.: O Extraterrestre (1982)

Seu ponto mais alto, seu filme que ficará à posteridade. A evocação do olhar infantil, a aproximação ao estranho. Tudo funciona. Ao fim, difícil não chegar às lágrimas.

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Steven Spielberg: o fracasso do mundo adulto

As separações são doloridas. Nelas, Steven Spielberg não economiza o drama: as pessoas choram, tentam se agarrar às outras, e terminam sozinhas, ou mal acompanhadas. Em A Cor Púrpura, a separação entre duas irmãs jovens é feita pelo marido de uma delas, um homem mau; em A.I.: Inteligência Artificial, é o menino robô que vê a mãe adotiva ir embora, após deixá-lo no meio da floresta, a alguns metros da fábrica em que nasceu.

A mundo adulto invariavelmente machuca nos filmes em que Spielberg resolve observá-lo pelo olhar da criança ou do ser infantilizado. Por consequência, é comum tentar encontrar paralelos entre os filmes e a vida do diretor: muito se disse de sua infância distante do pai e da proximidade à mãe protetora, depois do jovem nerd que mobiliza a indústria para colocar seus sonhos em marcha e dar vida a alguns dos filmes mais famosos do cinema.

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Spielberg ainda assim se desafiou: até certa altura, até chegar a A Lista de Schindler, estava em busca do novo. Vieram, nos anos 80, filmes como A Cor Púrpura e Império do Sol. Encarar o Holocausto, em seguida, seria a oportunidade perfeita para colocar os pés no terreno adulto: a tragédia do povo judeu era, ao mesmo, o retorno às origens, ao mesmo tempo a revisão do plano que, tão real quanto simbólico, representou o momento em que os homens ditos racionais promoveram uma carnificina em massa.

O diretor que antes dirigiu filmes como E.T.: O Extraterrestre precisou elevar a câmera. Chegou ao limiar do homem adulto, à experiência de enxergar alguns dos problemas humanos pelo olhar das testemunhas do Holocausto, seja entre judeus, seja entre alemães.

O protagonista de E.T. vive em universo particular, em sua altura possível: para ele e para outros que o cercam, como a criatura, a câmera mantém-se baixa, na altura do olhar das crianças. Spielberg desenha esse universo a partir dessa estatura, à medida que as crianças descobrem o desconhecido, o outro, o estranho, o extraterrestre.

Boa parte do cinema de Spielberg estabelece contato semelhante, ou mesmo ousa unir o impensável: contra os adultos que não entendem os diferentes, que logo tratam de usar a força física e impor seus cientistas para estudá-los, a criança prefere a união. Não espanta que os adultos ao centro de A Cor Púrpura e Contatos Imediatos do Terceiro Grau comportem-se em um pouco como crianças. Ainda não despertaram para a realidade.

Celie, a mulher negra aprisionada de Whoopi Goldberg, só se tornará adulta após deixar os livros de Dickens e mergulhar na vida real proporcionada pelas cartas da irmã. Após essa leitura, retira coragem para confrontar o marido que fez dela uma filha ou uma mãe, uma criada para cuidar da casa e lhe servir sexualmente, nada mais.

O rompimento com esse universo fechado, de dor constante, representa algo semelhante à viagem final do protagonista de Contatos Imediatos, na pele de Richard Dreyfuss: fascinado pelas luzes, pela música, pela montanha que serve de pouso aos alienígenas, o mundo dos homens não lhe serve mais. Embarca na nave, vai embora.

Em alguns filmes de Spielberg, a experiência do mundo adulto não tem grande valia: o homem de Dreyfuss continua uma criança a olhar às estrelas, à espera do impossível, capaz de entender o outro que os adultos ao lado não compreendem. Mais que analisá-lo a partir de um laboratório, quer viver com eles uma nova experiência.

Nem por isso as crianças não podem ser complexas. Império do Sol é sobre uma criança fascinada por aviões, a despeito da guerra, da crueldade, do ambiente em que vive. Nesse campo de concentração, o garoto observará aviões japoneses levantarem voo rumo à destruição, ao retorno impossível, ao sacrifício pela bandeira.

Ao contrário de Império, no qual os laços de sangue são momentaneamente extintos e as personagens precisam sobreviver à base da confiança no estranho, O Resgate do Soldado Ryan estabelece o sangue e a pátria como motores do drama: é, talvez, o filme mais otimista de Spielberg. A bandeira é a mãe-pátria que abre o filme, é quem manda alguns filhos socorrerem o outro, todos da mesma família.

Ao longo de A Lista de Schindler, a personagem-título transforma-se e termina salvando muitos judeus. Reluta em aceitar o papel de salvadora. Em Munique, outra mãe-pátria lança seus filhos ao campo de batalha, mas no campo de cartas embaralhadas, no mundo político de atentados terroristas e falas baixas da Guerra Fria.

Como aponta o crítico Serge Daney, a mãe natureza, pelo mar, manda sua criatura para aniquilar os jovens livres no início de Tubarão. Ora Spielberg prefere o ponto de vista do perseguidor, da criatura, ora o do pai, aquele que conhece pouco da cidade, das politicagens locais, e que precisa assegurar a vida de todos – sobretudo a dos filhos.

O pai impotente (Roy Scheider) não consegue cercar a praia, não é capaz de segurar os rebentos, e se vê obrigado, determinada altura, a se lançar em mar aberto para caçar o bicho gigante que coloca a população em polvorosa. O filho mais velho, depois, em Guerra dos Mundos, consegue finalmente se despregar do pai (Tom Cruise): acredita na necessidade de se ligar aos militares, ir ao combate, dessa vez contra feras alienígenas.

Os adultos fracassaram. O universo de Guerra dos Mundos está contaminado, aos cacos, nem os alienígenas conseguirão se adaptar a ele. O problema repete-se em A.I.: Inteligência Artificial: o aquecimento global fez os oceanos subirem. Cidades ficaram cobertas por água. Impedidos de ter filhos, pais e mães passaram a comprar filhos robôs, inteligências artificiais – muitos deles tentando substituir um filho perdido.

Se Soldado Ryan pode ser o mais otimista dos trabalhos de Spielberg, aquele em que os laços de sangue são preservados sob a imagem da bandeira americana, Inteligência Artificial é o mais pessimista. Um filme sobre o amor incondicional de um robô que se torna humano, mas que insiste, como Pinóquio, em se tornar “criança de verdade”, de carne e osso. Toda sua jornada será movida ao amor que sente pela mãe.

Os adultos, de novo, agem contra a criança. Ela é deixada à própria sorte, na companhia de seu urso falante, depois ao lado de um andróide gigolô (Jude Law) a quem o amor é apenas parte de uma programação, reflexo de um futuro de relações puramente artificiais. Apesar de programado para amar, David (Haley Joel Osment) desenvolve sentimentos verdadeiros: sua jornada é filtrada pela crença nos contos de fada. É o que o torna humano.

O menino reluta em aceitar sua condição, sua natureza, a linha de montagem na qual se encontram outros idênticos a ele, do pai (William Hurt) que o fez à imagem do filho que também perdeu. Enquanto avança em sua jornada e descobre o mundo adulto e todos os seus problemas, quer apenas encontrar a fada azul e ser criança de verdade.

Foto 1: E.T.: O Extraterrestre
Foto 2: A Lista de Schindler
Foto 3: A.I.: Inteligência Artificial

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A criança Steven Spielberg

O adulto Steven Spielberg

A criança Steven Spielberg

A garotada faz filmes desde que nasce, sem saber. Eu me deito no chão com minha lente e tento ver a cena, com os atores, com os elementos do cenário. É como coreografar uma dança – é isso que as crianças fazem com seus bonecos, seus super-heróis, suas Tartarugas Ninja, colocando Michelangelo e Leonardo cara a cara, inventando os movimentos deles… Só que eles crescem e viram médicos e professores e eu… cresci e continuei fazendo a mesma coisa.

Steven Spielberg, cineasta, em entrevista à jornalista Ana Maria Bahiana em A Luz da Lente – Conversas com 12 Cineastas Contemporâneos (Editora Globo; pg. 159). Abaixo, Spielberg nos bastidores de E.T.: O Extraterrestre e O Bom Gigante Amigo, respectivamente.

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