Duke Mantee

A Floresta Petrificada, de Archie L. Mayo

Durante uma pequena parte de A Floresta Petrificada, o protagonista de Leslie Howard age como se estivesse em outro lugar, com outras pessoas: fala em se imortalizar, em buscar um significado para a vida após a morte.

É um escritor e, como todos, está em um pequeno restaurante no meio do deserto americano. Andarilho, não tem destino, tampouco parece ter raízes ou algum futuro a agarrar. À altura em que fala sobre se imortalizar, está na mira da arma de um bandido e, como outros que circundam, é mantido refém naquela local esquecido.

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O espectador atento não demora a questionar o que realmente aborda o filme de Archie L. Mayo. Certamente não é uma fita de gângster, ainda que pareça. E também não é um drama sobre vítimas em horas de desespero.

A começar pelo título, é sobre o desejo de se tornar lenda, ou apenas deixar uma marca para além do estado de isolamento, do sentimento de nada, no meio do nada: algo que corrói alguns homens e os faz pensar na posteridade. Desejam, em algum ponto, tornarem-se pedras, contra o ambiente inóspito, no fim do mundo.

Isso explica por que o herói toca no assunto, enquanto parece não ter medo da morte; é assim que confronta o vilão, e o faz entender que pode, com seu sacrifício, tornar-se uma lenda maior que o outro. Do lado oposto está o bandido Duke Mantee, implacável, de olhos flamejantes, imortalizado por um certo Humphrey Bogart.

A começar pelo tipo dos atores, brota o abismo. Howard é calculado até na forma como levanta o copo para brindar à morte: maneira que encontra – pelas palavras, pela consciência – para confrontar Mantee. O vilão de cabelos espetados é estranhamente real, pertence àquela prisão ou gaiola cercada por areia, alguém que não dá a mínima às questões que moldam o desafiante com cérebro.

Essa diferença é apenas o pico do iceberg: um filme sobre pessoas encurraladas por si próprias, em local infernal. No deserto, Mantee surge para corroborar o estado das coisas: esses seres estão à beira da morte, ou às portas do novo começo.

Entre tantas personagens interessantes, há a Gabrielle de Bette Davis, moça de fala livre, juvenil, a abraçar o que pode ser um amor passageiro. Beija outro homem por diversão, ou simplesmente porque suas opções esgotaram-se. E quando vê o viajante e pensador, alguém a falar sobre a natureza humana – sobre tudo o que parece se mover em um local petrificado, de vento e areia –, deixa-se levar.

A direção aposta no pequeno ambiente, aprisiona cada vez mais. Quando Alan Squier (Howard) encara Gabrielle e revela seu amor, a câmera aproxima-se de ambos. Eles continuam sob a mira dos bandidos, ainda assim com tempo para declarações.

As vidas presas àquelas horas não têm começo ou fim, mas tem profundidade. Eis a grandeza do texto, da peça de Robert E. Sherwood: deixar saber muito a partir de representações. Estão por ali o casal burguês, o velho beberrão, a menina sonhadora, o americano infantil, soldados, bandidos e o intelectual.

A mistura de tudo leva ao impensável: todos têm algo em comum quando se veem em risco. A natureza humana – o medo, a ansiedade, a percepção de estar tão perto da morte quanto do esquecimento, no meio do deserto – expressa-se em cada um.

(The Petrified Forest, Archie Mayo, 1936)

Nota: ★★★★☆

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Antes de se tornar um astro e ter seu nome em primeiro lugar nos créditos, o que só ocorreu em O Falcão Maltês, Humphrey Bogart fez vários coadjuvantes importantes e lutou para ser reconhecido. Quem deu o empurrão foi seu amigo e ator Leslie Howard, que convenceu a Warner a lhe entregar o papel do temido vilão Duke Mantee, no ótimo A Floresta Petrificada, ainda em 1936. Começava então a nascer o grande ator.

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5) Paul Fabrini, em Dentro da Noite (1940)

Ao lado do irmão vivido George Raft, Fabrini adquire um caminhão, com o qual ambos trabalham. A obra de Raoul Walsh aborda a América injusta, próxima do cinismo do cinema noir. E, de quebra, tem Ida Lupino como vilã.

dentro da noite

4) Michael O’Leary, em Vitória Amarga (1939)

Nesse belo melodrama da safra de 1939, Bogart é o criado da moça rica vivida por Bette Davis. Ambos têm uma relação difícil: ela sabe que vai morrer e ele mostra seu amor de forma bruta. O filme é mais interessante quando estão juntos.

vitória amarga

3) George Hally, em Heróis Esquecidos (1939)

Dois homens retornam da Primeira Guerra Mundial e prosperam nos tempos da Lei Seca. À frente, o homem de James Cagney muda, enquanto Bogart assume a face do vilão. Não é sempre que dois atores desse porte dividem a mesma tela.

heróis esquecidos

2) Baby Face Martin, em Beco Sem Saída (1937)

Sem o amor da mãe e rodeado por alguns moleques malandros, o bandido interpretado pelo ator muda de rosto para retornar ao velho bairro e planeja um sequestro. E ainda encontra tempo para reencontrar um velho amor. No entanto, tudo está diferente.

beco sem saída

1) Duke Mantee, em A Floresta Petrificada (1936)

Todos falam de Mantee antes de sua aparição, naquele bar à beira de estrada. É uma lenda, bandido procurado pela polícia, que cruza o caminho das várias personagens e comprova, em poucos momentos, ser um dos grandes vilões do cinema.

a floresta petrificada

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