Donald Sutherland

Nicolas Roeg (1928–2018)

Se você não está prestando muita atenção em um dos filmes de Nic, você não sabe o que está acontecendo, porque muito pouca informação é levada ao diálogo. Nesse sentido, os filmes de Nic têm essa linha direta com o cinema mudo. Eu adoro quando um filme conta sua história através de imagens e ninguém diz alguma coisa. Se fosse Game of Thrones, no final a mulher teria se voltado para Julie Christie e dito: “Você está se sentindo bem?” “Estou me sentindo um pouco doente esta manhã, espero não estar grávida.” Teria sido assim em Breaking Bad também.

Mas se você olhar e vê-la, você entende que o marido dela era mediúnico. Nic está tentando falar sobre coisas que não podem ser ditas. Se você fala sobre elas, elas soam banais, e você as rejeita tanto quanto Donald Sutherland rejeita tudo o que sabe ser verdadeiro naquele filme. Ele é o cético que diz ao longo do filme: “Não, isso é besteira, estas são velhas estúpidas, elas estão se aproveitando de você”. E, claro, o que está sempre falando é que ele é o único com a premonição, o único que está tendo essas visões terríveis e que está em total negação. Se você verbalizar essas coisas, ou você as torna muito banais ou inacreditáveis. Considerando que, se você mostrá-las e deixar o público experimentá-las, você terá a noção do que está por aí.

(…)

O trabalho de Nic durará. Daqui a cem anos, veremos os filmes de Nic. Nós não vamos estar olhando para os filmes de blá blá, que ganhou o Oscar no ano passado. Não importa quem elas são, porque são todas iguais, essas pessoas. Elas são apenas pessoas que foram promovidas por Harvey Weinstein durante uma semana.

Bernard Rose, diretor, em entrevista ao documentário Nicolas Roeg – It’s About Time, em 2014 (leia aqui em inglês; a tradução é do site). Em seu depoimento, Rose refere-se ao filme Um Inverno de Sangue em Veneza. Abaixo, o diretor Nicolas Roeg nas filmagens de A Longa Caminhada.

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Três filmes de terror de 1973 que superam O Exorcista

Em 1973, William Friedkin fez seu filme mais famoso, comum em listas do gênero horror: O Exorcista, da obra de William Peter Blatty. Até hoje é referência, ainda que suas qualidades não estejam à altura do barulho que causou. Abaixo, como livre provocação, seguem três filmes melhores que o de Friedkin e também de 1973.

Inverno de Sangue em Veneza, de Nicolas Roeg

Casal viaja para Veneza após perder a filha. O marido (Donald Sutherland) trabalha com restauração de arte sacra e a mulher (Julie Christie) acompanha-o nessa jornada que envolve mistérios e talvez espíritos. Pela cidade de vielas escuras e barcos, eles passam a crer que o espírito da filha está por ali. O melhor filme de Roeg.

O Homem de Palha, de Robin Hardy

Filme extraordinário sobre um policial (Edward Woodward) que vai a uma ilha isolada para investigar o desaparecimento de uma garota. Conservador, ele depara-se com uma população liberal, com hábitos estranhos, e logo percebe que sua vida está em perigo. Christopher Lee rouba a cena como um lorde local.

Lisa e o Diabo, de Mario Bava

Um dos melhores filmes do mestre do horror italiano tem Telly Savalas como o Diabo e a sensual Elke Sommer como sua presa. Impressiona o tom delirante empregado por Bava. Os produtores reeditaram a obra para lançá-la nos Estados Unidos, onde ganhou o título A Casa do Exorcismo, para tentar pegar rabeira no sucesso de Friedkin.

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A Maldição do Demônio, de Mario Bava

Klute, O Passado Condena, de Alan J. Pakula

O que atrai Bree Daniels à prostituição é a possibilidade de interpretar e assim mostrar força. Nesse jogo, pensa ela, talvez com razão, não vence quem paga, o cliente, mas quem convence ter desejo e faz do corpo o produto perfeito, das palavras a arma que os homens talvez não encontrem, na vida comum, com tanta facilidade.

A moça que não leva o nome ao título do filme poderia ocupá-lo facilmente. Klute, O Passado Condena é mais dela, menos da personagem-título, o investigador interpretado por Donald Sutherland (alguém que entrega sempre o oposto, a não interpretação). Bree vive sob a máscara da grande cidade; tenta ser atriz e só consegue sê-la como prostituta.

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O beco em que se encontra ultrapassa a trama de assassinato que percorre o filme de Alan J. Pakula: é sobre prostituição, sobre a arte de viver para interpretar nesse ofício, não sobre um assassino em série que mata garotas de programa. É também sobre o espírito liberal de seu tempo, um filme nitidamente da Nova Hollywood, sujo, despojado, sempre a perder o controle sobre as personagens e deixar pontas soltas, a escapar da suposta trama.

É aqui que a prostituta chega ao divã. Não se sabe se é o primeiro filme em que uma prostituta procura uma psicóloga para se compreender melhor. E a resposta da outra, sendo então a figura paga para ouvir, colocando Bree como contratante, não a contratada, é a mais sincera possível: não há poção mágica para resolver problemas psicológicos.

O problema de Bree é explicado nessa mesma sessão de psicoterapia: mesmo com o empoderamento de sua interpretação, ela tem reservas em relação ao corpo. Ao oferecimento do objeto. Ainda assim, confessa que passou a gostar “porque não me fez sentir sozinha”. A aparição do investigador Klute muda tudo: Bree não poderá comprá-lo com o corpo. Sua interpretação terá de ser ainda mais convincente.

Klute chega a Bree enquanto procura por um homem desaparecido. A prostituta teria recebido algumas cartas obscenas do procurado. A investigação leva a crer na existência de outro homem, um assassino, também responsável por matar outras duas garotas de programa. Não é difícil concluir que Bree é a próxima da lista.

Pakula mantém o tom seco a cada nova cena. Em alguns momentos, enquadra as personagens do alto, como se estivessem sob vigia. Os créditos de abertura remetem à ideia de vigilância, com o gravador e as vozes, com as confissões – na verdade, interpretações – da protagonista, ao telefone. “As inibições são boas, pois é tão bom superá-las”, declara.

Das inibições sofre Bree ao se apaixonar por Klute. O filme não chega à confissão desse amor. Sua heroína nega-se até o fim. Na investigação que auxilia, com o investigador, ela sente-se correta demais, do lado limpo da história. Confessará, no plano final, em narração, que sua fuga poderá durar pouco. Poderá retornar a Nova York rapidamente. Não se escapa de seu meio natural quando se é autêntica.

Em seu meio, precisa se sentir suja. Pakula entrega a Jane Fonda uma de suas grandes cenas, talvez a maior de sua carreira, o momento em que, perdida, caminha entre pessoas, em uma festa, na qual beija um homem qualquer – com prazer, ou interpretando, não se sabe -, para depois, entre música alta, terminar ao lado de seu cafetão (Roy Scheider).

Não se pode negar a própria natureza. O assassino teria negado a sua. O homem engravatado, o poderoso sob a luz da janela de vidro, a ver e agarrar a cidade grande do alto do prédio, precisa se esconder. Vive outro tipo de interpretação. Nega a própria natureza e se destrói, ou destrói as mulheres que o fazem ver seu pior lado.

Klute é um grande filme sobre esconderijos. O gravador, na abertura e ao longo do filme, vem a confirmar a necessidade de expor esses esconderijos. Confissões, gravadas ou não, aos amantes de ocasião (clientes) e à psicóloga. “Por uma hora, sou a melhor atriz do mundo, a melhor trepada do mundo”, afirma Bree, a atriz, à sua ouvinte, na sessão de psicoterapia.

(Klute, Alan J. Pakula, 1971)

Nota: ★★★★☆

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Gente como a Gente, de Robert Redford

A família americana de Gente como a Gente tem suas representações. Há o filho atormentado e culpado, o pai bondoso de palavras certas, a mãe feita às aparências. Cada um gera diferentes reações no espectador.

Chegam ao psiquiatra, à confissão, à exteriorização de um problema quando alguns gostariam de ocultá-lo. Essa intromissão de Robert Redford, a partir da obra de Judith Guest, conquistou corações, mentes e alguns importantes prêmios no início dos anos 80.

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gente como a gente

À sua maneira, mostra a chegada da classe média ao divã, a revelações que lhe parecem caras. Gente como a Gente tem diversos defeitos e custa a decolar: aposta em emoções contidas como o próprio clima, deixa um ar de passagem e a verdadeira tragédia, por sua vez, é lembrança.

Como descreveu Pauline Kael, “folhas de outono e emoções de inverno”. A família ao centro caminha em círculos: uma classe pronta a discutir sobre Bolsa de Valores, coisas caras e felicidade familiar. Algo deve mudar e parte do filho, Conrad Jarrett (Timothy Hutton), atormentado e culpado pela morte do irmão, aos poucos explicada.

O pai aparentemente correto, meio impotente, é interpretado por Donald Sutherland. Difícil não se render à sua pequenez, porque ela, diz Redford, reduz tudo a algo bom. É apaziguador, descontraído, repreendido pela mulher, Beth, quando diz a uma amiga – em uma das festas chiques que frequentam – que o filho é analisado por um psiquiatra. Não poderia haver algo mais íntimo àquelas pessoas ao pé de escadarias verdes.

A família perdeu as rédeas após a morte do filho mais velho, louro, representação imediata do descendente esperado. O melhor na natação, o preferido da mãe e espelho ao mais jovem. Sem essa imagem, a família tenta criar outra, mas dá vez às máscaras. Conrad, verdadeiro protagonista, tem outra observação: tudo vai mal a começar por ele, suicida que ainda sente falta do hospital onde estava internado, no qual as máscaras eram descartadas.

Mais tarde, o pai resolve se voltar, também, ao psiquiatra. E Beth, vivida por Mary Tyler Moore, por consequência passa à odiada do espectador. É a mãe que não consegue amar o filho como amava o outro. Surgem estranhamentos e, à medida que o rapaz impõe um abraço, é ela que desmorona, perde o rumo.

gente como a gente

As dores dessa família separada estão em um filme de gente comum, como o próprio título evidencia. O sol pouco aparece, os jovens – dirigidos com talento por Redford – correm do frio e de si próprios e os amigos da família conversam em público o que só pode, acreditam, ser dito em público. Redford, com o texto de Alvin Sargent, expõe controle, mas fracassa ao tentar penetrar essas pessoas.

Acerta ao se aproximar de Conrad, ainda que ajudado pelos esperados flashbacks, nos encontros com o médico (Judd Hirsch) que se torna amigo e, claro, confidente. Ao colo do menino recai a humanidade que se espera dos pais. Aos poucos, Calvin (Sutherland) tenta despertar de seu sono, deixa lágrimas ao fim, quando é tarde demais para se tornar o centro de Gente como a Gente.

Curioso o momento em que Calvin sugere ir ao cinema com Beth, mas termina em uma das festas que costumam frequentar. O casal não escapa ao esperado. O cinema pode ser real demais para ambos.

(Ordinary People, Robert Redford, 1980)

Nota: ★★★☆☆

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