direção de cinema

Bernardo Bertolucci (1941–2018)

(…) durante muito tempo abordei cada plano como se fosse o último, como se fossem me tirar a câmera assim que eu o tivesse filmado. Eu tinha, portanto, a sensação de roubar cada plano, e nesse estado de espírito é impossível refletir em termos de “gramática” ou até mesmo de lógica. Ainda hoje, não preparo nada com antecedência, não faço nenhuma decupagem prévia. Geralmente tento sonhar durante o sono com os planos que vou filmar no dia seguinte no set. Com um pouco de sorte, consigo. Senão, quando chego ao set de manhã, peço para ficar um pouco sozinho e passeio no cenário com meu visor. Olho através dele e tento imaginar os personagens se mexendo e dizendo suas falas. É um pouco como se a cena já estivesse lá, mas invisível ou impalpável, e que eu tentasse adivinhá-la, materializá-la.

Bernardo Bertolucci, cineasta, em declaração a Laurent Tirard em Grandes Diretores de Cinema (Editora Nova Fronteira; pgs. 153 e 154).

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Ermanno Olmi (1931–2018)

Ermanno Olmi (1931–2018)

No início, não penso na câmera. Penso no que deve ser apresentado: o lugar, a iluminação, as pessoas. Construo a ficção que preciso e quando sinto que ela corresponde às minhas necessidades, vou para a câmera para ser conduzido pela cena, sem estabelecer de antemão que “aqui” vou fazer um close-up, um plano geral ou um movimento de câmera. Não decido nada com antecedência. Quase sempre trabalho com a câmera na mão, na altura de meus olhos, e se preciso movimentá-la procuro fazer como se ela fosse parte de meu corpo.

Ermanno Olmi, cineasta, em declaração reproduzida no livreto que acompanha o DVD brasileiro do filme O Emprego (Bretz Filmes).

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A Lenda do Santo Beberrão, de Ermanno Olmi

Cinco grandes filmes de 2015 dirigidos por mulheres

Alguns dos melhores filmes de 2015 foram dirigidos por mulheres. Por outro lado, alguns dos piores também, como Cinquenta Tons de Cinza (Sam Taylor-Johnson) e Invencível (Angelina Jolie). A lista abaixo se volta às obras relevantes.

Em comum, o drama familiar: histórias sobre reencontros, perdas, marginalidade, descobertas e, com o Brasil contemporâneo como pano fundo, uma pequena revolução com o reencontro entre mãe e filha. Apesar de alguns títulos serem de 2014, todos foram lançados nos cinemas brasileiros em 2015.

Casadentro, de Joanna Lombardi Pollarolo

A cineasta explora os espaços de uma casa enquanto suas personagens encontram dificuldades de comunicação. Passa-se em um dia calmo, quando a senhora Pilar (Élide Brero) recebe a filha e a neta para seu aniversário. Aos poucos, ganha peso o drama que envolve gerações, ao mesmo tempo em que as empregadas vivem em um mundo particular.

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De Cabeça Erguida, de Emmanuelle Bercot

Depois do agradável Ela Vai, a também atriz Bercot traz essa história poderosa sobre marginalização na adolescência. Ao centro está o jovem Malony (Rod Paradot), em busca do pouco amor da mãe, da companhia do pequeno irmão e cujo destino pode estar nas mãos de uma juíza (Catherine Deneuve). Filme de abertura do Festival de Cannes.

de cabeça erguida

As Maravilhas, de Alice Rohrwacher

As transformações da sociedade italiana são captadas pelo olhar sensível, às vezes distante, da menina Gelsomina (Maria Alexandra Lungu). Após assistir à gravação de um programa de televisão na região rural em que vive, ela sonha em participar de um concurso que pretende resgatar as “maravilhas” da Itália.

as maravilhas

Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert

Provavelmente o filme brasileiro mais comentado do ano, radiografia poderosa das mudanças sociais ocorridas na última década. O cenário é a casa grande, espaço de patrões e empregados, palco para o inesperado: a menina, filha da criada, que vem para bagunçar as então estabelecidas relações de poder. Indicado do Brasil para concorrer ao Oscar.

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O Segredo das Águas, de Naomi Kawase

Dois adolescentes passam por intensas transformações familiares, enquanto deixam aflorar o desejo, enquanto tocam a natureza. E ainda dividem um segredo: logo na abertura, a garota vê o rapaz próximo à cena de um crime, à praia, onde o cadáver de um homem foi encontrado. Mais uma bela obra da japonesa Kawase, autora de Suzaku e Floresta dos Lamentos.

o segredo das águas

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