Diane Keaton

Um Misterioso Assassinato em Manhattan, de Woody Allen

O contraponto à imaginação de Carol é a dúvida de Larry: enquanto ela acredita que o vizinho tenha matado a própria mulher, ele insiste que isso não passa de delírio. O suposto crime surge como possibilidade de mudança à vida do casal.

Como em Janela Indiscreta, mas sem a janela, e no campo da comédia. E com um casal com anos de vida a dois, em um mesmo apartamento, que esbarra em seu vizinho pelo corredor do prédio. Ela, falante, quer se aproximar do estranho, ao contrário dele, retraído e engraçado, que luta para seguir em sua vida pacata.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

um misterioso assassinato em manhattan

Em Um Misterioso Assassinato em Manhattan, o homem da relação é vivido pelo próprio diretor, Woody Allen, perfeito como alguém em dúvida, que esnoba as possíveis aventuras da vida, ou que simplesmente tem medo.

O comodismo da personagem transmite um pouco do próprio Allen, limitado a certos ambientes, criações, histórias de pessoas reais em seus apartamentos frios de Manhattan. Por outro lado, a trama empurra a obra sempre à ficção: é a história de um assassinato que talvez tenha ocorrido, ou apenas a insistência em ver em excesso.

Volta-se, assim, a Janela Indiscreta, à dúvida que paira por algum tempo. Ao observar os vizinhos pela janela, a personagem de James Stewart começa, aos poucos, a dar “vida” a cada uma delas, a lhes conferir “contornos”. A tal história.

No filme de Allen, tal necessidade cabe à personagem de Diane Keaton, sua parceria em trabalhos anteriores e marcantes. Como Carol, ela encontra no crime do vizinho a possibilidade de mudar a rotina: é sua fonte de felicidade, a grande descoberta.

Larry demora a acreditar nela. Até então, a mulher já invadiu o apartamento do assassino, já o seguiu pelas ruas de Nova York e talvez já tenha cruzado, em mente, todas as possibilidades que o teriam levado a matar a própria mulher – com pitadas de cinema, claro, o que remete a outro clássico: Pacto de Sangue, de Billy Wilder.

um misterioso assassinato em manhattan2

A certa altura, eles vão ao cinema assistir à obra-prima noir da década de 40. É sobre uma mulher esperta que se une a um corretor de seguros para matar o próprio marido. Nos crimes à tona, há sempre dinheiro e amantes, o que não escapa à obra de Allen.

À medida que avança, fica ainda melhor: o diretor acrescenta passagens que beiram o surreal – o que só aumenta a dúvida sobre o suposto delírio, o “ver em excesso” – e coloca outras personagens marcantes, como o amigo cheio de imaginação interpretado por Alan Alda e a escritora e cliente de Larry, vivida por Anjelica Huston.

Na melhor sequência do filme, todos conversam sobre o que teria levado o vizinho a matar a mulher. À exceção da própria Carol, todos se aproximam cada vez mais. É como se a história não mais lhe pertencesse. Começa a tomar novas dimensões.

O que, não por acaso, leva à arquitetura de uma investigação que esbarra no próprio cinema: inclui testes de atores, câmeras, sala de edição.

À frente, nova referência, de novo a uma grande obra, A Dama de Shanghai, de Orson Welles, com a reprodução da clássica cena da sala de espelhos. O cinema é reflexo, não realidade bruta. É “ver em excesso”, com crimes, aventuras e boas gargalhadas.

(Manhattan Murder Mystery, Woody Allen, 1993)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Pelos olhos de Hitchcock

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen

O pequeno Alvy Singer está paralisado. Seu problema atingiria outras personagens de Woody Allen, em filmes posteriores: o universo está se expandindo, o mundo vai acabar e talvez não valha a pena seguir vivendo. À observação do garoto, ao lado da mãe inconformada, o médico tem a resposta certeira: o jeito, então, é aproveitar a vida.

Alvy Singer é Woody Allen. É mais que uma relação entre criador e personagem. Qualquer um que saiba o mínimo sobre Allen reconhece logo seu pessimismo, sua desesperança em relação à espécie humana: o garoto travado tem, em sua infantilidade, em jeito estreito de encarar a vida, o reflexo do criador adulto.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

noivo neurótico noiva nervosa

Sem parecer piegas, ao fim de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa o diretor oferece o remédio ao amargor: enquanto assiste aos ensaios de sua primeira peça, Alvy vê seu antigo relacionamento dar certo, ao contrário do que ocorreu na “vida real”. A ficção permite tudo (ou quase), incluindo a felicidade do casal protagonista.

Ao longo do filme, em pequenas situações cômicas, a personagem faz a alegria do espectador com digressões e mau humor: por que viver em uma cidade, não em outra; por que não entrar na sala para assistir o filme de Ingmar Bergman que começou há dois minutos; por que se incomodar tanto com a presença de supostos intelectuais.

Enquanto se assiste à vida de Alvy Singer – e aqui tudo leva a ela –, Annie Hall (Diane Keaton) impõe-se. Apesar do título original, o filme não é necessariamente sobre ela. É sobre ele. A personagem feminina aponta aos feixes de irracionalidade do protagonista: representa os “ovos” que ele precisa empunhar para crer ser uma “galinha”.

É necessário explicar: trata-se da piada que vem à tona na cena final, quando Allen (ou Alvy) despede-se de Keaton (ou Annie) em uma esquina qualquer de Nova York. Segundo ele, pessoas apaixonadas, em relacionamentos, são como loucos com ovos nas mãos. Podem, dessa forma, acreditar em um universo paralelo, em galos e galinhas.

Todos os apaixonados seriam um pouco assim, como Alvy. Não enxergam. Sofrem enquanto vagam solitários, desesperados. Na busca por explicação, a personagem questiona pessoas pela rua, qualquer uma, sobre o que fazer em seguida.

É importante a opinião de terceiros, como é o caso do casal com a receita da felicidade: ela diz não ter qualquer ambição, revela ser uma pessoa vazia; ele diz o mesmo. O problema, diz Allen, é pensar muito, acreditar na expansão do universo.

noivo neurótico noiva nervosa2

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa é o trabalho mais premiado e celebrado do cineasta. Representa uma ruptura com seus filmes anteriores, flertes com o pastelão, com piadas de um universo nitidamente irreal, referências que vão da literatura russa à distópica.

O passo dado por Allen é ambicioso, ao cravar os pés na realidade sem perder a visão do absurdo, ao romper a barreira que separa o criador de seu público: várias vezes ele volta-se à tela, fala à câmera, clama entendimento sobre a própria vida. Em outros momentos, assiste ao próprio passado, às intermináveis brigas entre pai e mãe.

O momento em que Alvy conhece Annie é especial. Jogam tênis em uma estufa em Nova York, encapsulados pela modernidade, na frieza da metrópole, longe do sol excessivo de Los Angeles, tão repelido por Allen.

Ao deixarem a estufa, ela puxa conversa. Ele oferece carona, mas não tem carro; ela tem carro, mas age como se não tivesse. Encaminhados à união ideal, quem sabe, enquanto pensam em excesso, claro, como toda personagem interessante de Allen. Falam sobre qualquer coisa para não se renderem ao silêncio.

É um filme apaixonado e, à contramão, tomado pela racionalidade, pelo homem que não consegue escapar à sombra da mulher que ama, ao mesmo tempo obrigado a reconhecer seus “ovos”. Alvy é massacrado pela rotina e dependente dela – o que inclui o jeito meigo e inesquecível da companheira Annie Hall, ou Diane Keaton.

(Annie Hall, Woody Allen, 1977)

Nota: ★★★★★

Veja também:
13 filmes sobre relacionamentos em crise

Woody Allen entre a realidade e a ficção

Humphrey Bogart é um exemplo para Woody Allen. É o tipo durão que conquista as mulheres, capaz de arrancar lágrimas de Ingrid Bergman no tão celebrado encerramento de Casablanca. É o momento em que o cínico dobra-se: deixa ver seu lado romântico e sedutor.

No cinema, o público vê Allen. Seus olhos não despregam da tela, sua boca abre lentamente. Em Sonhos de um Sedutor, de Herbert Ross, ele é Allan, alguém que não consegue se despregar da ficção, fã incondicional de Bogart e de seus filmes.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

sonhos de um sedutor

É vítima dos sonhos, o que lhe distancia do aparente mundo verdadeiro – com amigos, amigas, jantares, encontros e tudo o que as “pessoas normais” costumam fazer.

Em outro filme estrelado por Allen nos anos 70, Testa-de-Ferro por Acaso, ele será vítima justamente da realidade, o oposto àquele universo povoado por um Bogart imaginário. Na obra de Martin Ritt, o ator é Howard Prince, caixa de um bar convidado a assinar alguns roteiros de televisão escritos por outros homens.

Trata-se do mundo do entretenimento dos anos 50, época da caça às bruxas levada à frente pelo senador Joseph McCarthy, contra simpatizantes do comunismo. Prince, por outro lado, nada tem de comunista: é um alienado, pequeno trabalhador, pequeno americano, apostador que não incomoda quase ninguém.

De olho no dinheiro que poderá ganhar ao emprestar seu nome, ele aceita o novo emprego e sua vida se transforma. Não poderá ser mais o mesmo ao assumir essa nova função: será tragado àquele universo de injustiças, e se tornará outro.

Ambos os filmes trazem meios divididos entre a realidade e a ficção. Sonhos de um Sedutor apresenta essa personagem confusa, engraçada, que projeta em Bogart – o imaginário ou o real, na tela – o que almeja ser.

testa de ferro por acaso1

Em seu apartamento de paredes forradas por velhos cartazes de filmes clássicos, ele conversa com o Bogart (Jerry Lacy) pelos corredores. A personagem dá-lhe dicas e, à frente, está ao seu lado quando o protagonista não sabe o que fazer com a mulher do melhor amigo (vivida por Diane Keaton), sua última conexão com o mundo real.

Allan, tão imerso na irrealidade dos filmes, vai pouco a pouco mergulhando na névoa que levará à sequência final. Em um aeroporto, o filme retorna a Casablanca, àquela despedida. A diferença é que Bergman virou Keaton e Bogart, Allen.

É uma homenagem ao cinema com traços de pastelão – como a primeira fase da carreira do cineasta, de filmes como Bananas e O Dorminhoco. Vale dizer ainda que o filme brinca com tipos da época, no início dos anos 70, como a menina que anuncia o suicídio, a ninfomaníaca nem tão viciada em sexo quanto parece e os usuários de droga.

O tempo de Testa-de-Ferro por Acaso é outro. A América é outra, mas, à revelia, Allen é sempre o mesmo. Ritt imprime um tom mais sério do que Ross. A primeira parte é mais engraçada. A segunda, em pequenos momentos, esbarra no drama.

testa de ferro por acaso2

Poucas vezes o Allen ator chegou tão perto desse gênero como no momento em que observa o velório de um amigo. Engraçado e famoso na televisão, o falecido é Hecky Brown (Zero Mostel), investigado por suposto flerte com o comunismo.

O roteiro e a direção são econômicos, com o clima dos tempos da Guerra Fria, quando qualquer um podia ser suspeito e quando, em meio à paranoia, até mesmo um alienado como Prince tornava-se herói ou vilão – a depender do ponto de vista. É o que há aqui de mais irônico: Prince será diferente justamente quando passa a perseguido.

Mesmo como comédia, retorna-se à época em que alguns artistas – como Ritt e seu roteirista, Walter Bernstein – caíram na lista negra, sob o olhar do Grande Irmão. As primeiras imagens apresentam o “jeito americano” de ser. Em seguida, traz um país de desacertos, de gente simples que deseja apenas ganhar uns trocados.

Como Sonhos de um Sedutor, não chega a ser um grande filme, mas tem momentos de grandeza. Ambos são feitos com liberdade, um sobre o cinema, o outro sobre a televisão. E, em qualquer época ou material, o Allen ator continua o mesmo.

(Play It Again, Sam, Herbert Ross, 1972)
(The Front, Martin Ritt, 1976)

Notas:
Sonhos de um Sedutor: ★★★☆☆
Testa-de-Ferro por Acaso: ★★★★☆

Foto 1: Sonhos de um Sedutor
Fotos 2 e 3: Testa-de-Ferro por Acaso

Veja também:
Trumbo – Lista Negra, de Jay Roach