Denis Villeneuve

O tempo e a linguagem em A Chegada

O tempo, segundo os alienígenas recém-chegados à Terra, é circular, diferente do tempo dos humanos, que é linear. O conflito central de A Chegada, de Denis Villeneuve, parte dessa oposição: o círculo não deixa ver início ou fim, e os tempos convivem embaralhados, sobrepõem-se, e é possível enxergar o futuro mesmo sem tê-lo vivido.

O universo da protagonista, a linguista Louise Banks (Amy Adams), é, desde a primeira imagem, quadriculado, representação visual para o tempo dos humanos. O símbolo que representa o tempo dos alienígenas é arredondado, ou seja, oposto. Durante todo o filme, Villeneuve explora essas diferenças a partir das imagens.

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Quando naves pousam na Terra, uma delas nos Estados Unidos, Banks é chamada pelo Exército Americano para tentar decifrar a linguagem dos visitantes e estabelecer contato. O que descobre é que os alienígenas querem ajudar os humanos a utilizar uma linguagem aparentemente mais evoluída. Todos os seres são produtos de suas línguas, de como se comunicam, das palavras que aprenderam a utilizar.

Em contato com eles, Banks enxerga o futuro, a filha que terá, a dor que sentirá mais tarde. A tragédia de sua vida desenha-se aos seus olhos, como se fosse vidente, como se tivesse uma iluminação. Ao aprender a linguagem dos alienígenas, aprende a ver como eles, a ser um pouco como eles – encontra, em suma, o círculo, para além de uma linguagem linear para um tempo linear. Segundo os visitantes, a língua é uma arma.

E por “arma” entende-se, ao que parece, ferramenta, não um instrumento para matar. Forma de evolução, de ligação, não de separação. Aos alienígenas – também a Banks – não demora para que a desunião à qual as criaturas apontam se voltar contra as próprias, já que ao homem é necessário viver em um estado de guerra constante.

Espaços quadriculados contra formas arredondadas

A primeira imagem de A Chegada revela a casa da protagonista. A fotografia escura de Bradford Young antecipa o clima frio levado a todo o filme, como se a vida dos terráqueos estivesse sempre às sombras, feita por névoa. Os homens dessa escuridão ainda precisam evoluir, não chegaram às luzes. Ainda se vive à penumbra.

O teto da casa é feito de linhas que, ao movimento da câmera, apontam ao horizonte do lado de fora. O lar é o espaço de proteção, com amostras da vida que passou por ali, como a mesa na qual estão uma garrafa, copos e itens que remetem à refeição; ao lado, a luneta mostra a tendência à ciência; do lado de fora, a árvore como amostra da vida e da passagem do tempo. A linha entre a água e as montanhas corta a paisagem.

Chama a atenção o efeito quadriculado conseguido pelas linhas da janela e da porta. É o universo dos seres humanos, aqui representados pela mulher, a primeira a fazer contato e talvez compreender a língua dos alienígenas, a ver um novo começo. As formas quadriculadas, com pontas, confrontam a forma imposta pela linguagem dos visitantes: os círculos. Ambos os lados, homens e alienígenas, cresceram e sobreviveram com linguagens opostas, o que tornará o diálogo difícil.

À primeira vista, a narração de Banks conta uma história passada; na verdade, é futura, descobrirá mais tarde o espectador. Sua primeira frase dá a dica: “Eu pensava que este era o começo de sua história”, diz, em narração. “A memória é algo estranho. Ela não funciona como eu imaginava. Estamos tão presos ao tempo, à sua ordem.”

Em seguida, por meio de elipses (saltos temporais), o espectador é levado a conhecer a relação dela com a filha. Vai do crescimento da criança ao drama de sua morte. Talvez todo o filme leve a um alerta alienígena sobre a dificuldade dos humanos de lidar com a morte, por isso o medo, por isso a necessidade de se armar para produzir guerras.

A morte é produto do tempo, e os homens são produtos de sua linguagem. Logo, a linguagem linear impõe o começo e o fim – justamente o que se vê nessa sequência marcada por elipses, na qual se assiste ao crescimento – à vida – e à doença – à morte – da filha de Banks. O sentido linear da vida é apresentado logo de saída, portanto em curto tempo.

Espaços quadriculados continuam a surgir. No caminho para a sala de aula, Banks passa pela área de convivência na qual os estudantes assistem à televisão, ambiente feito de retas e pontas; na sala de aula, o quadro ao fundo da heroína emite sinais quadriculados; em seu escritório, tem-se o mesmo efeito com as janelas e estantes.

Por outro lado, a linguagem dos círculos, a dos alienígenas, é sugerida, aos poucos, nesses ambientes. Após perder a filha, a protagonista caminha por um corredor circular, à forma de um arco; o mesmo vale para o espaço dos alunos no auditório em que dá aula. Perto do fim, vale perceber como o lago em frente à casa forma visualmente um círculo que envolve Banks e sua filha ainda pequena, à beira da água.

O nome dado à menina, Hannah, por sinal é um palíndromo, ou seja, o mesmo quando lido de trás para frente. É a forma encontrada pela mãe para quebrar a linearidade e que, mais uma vez, leva a pensar no círculo, sem início ou fim.

No interior da “concha”

A entrada na “concha” (como as naves são chamadas) dá um indicativo interessante da passagem do estado quadriculado do mundo humano ao arredondado do alienígena: vale notar que as bordas do corredor escuro que dá acesso à sala de contato são redondas, apesar das linhas que as unem. Villeneuve revela a transição.

Do corredor sem gravidade, Banks e sua equipe seguem ao local de contato. Outra questão interessante é posta a seguir pelo cineasta: ao entrarem no novo espaço, são vistos ao contrário, como se caminhassem pelo teto. A indicação visual dá a ideia, de novo, de que a ordem natural e humana não cabe nesse ambiente até então inalcançável.

Outra vez, e como nas questões de linguagem, a disposição no espaço alienígena é oposta à humana. Ou, à falta da gravidade, simplesmente não necessita das noções de altura, ou de profundidade. A vida tem outras regras. Ao que parece, o aprendizado e a mensagem levados aos humanos, em A Chegada, remete à reinvenção.

O espectador é confrontado pela inversão. Villeneuve desorienta. O público aprendeu a ver o universo das imagens segundo a ordem do mundo real. Na sala alienígena, a língua é outra, as regras são outras, tal como a forma de ver o mundo para além de qualquer amarra.

Com os homens na sala escura há um pássaro na gaiola. Difícil não pensar nesse animal aprisionado, na arquitetura de sua prisão, e não retornar ao plano da abertura, à sala da casa da protagonista, banhada à escuridão, de formas quadriculadas.

Os visitantes, heptapods, são grandes e escuros. Não têm face, apenas pernas e tronco. Mantêm-se atrás de uma película, no espaço de onde emana a luz. Espaço cada vez mais branco ao longo do filme. A película que divide também une: é sobre ela que os seres de outro planeta expõem seus círculos, sua linguagem, a partir de uma fumaça.

À frente, levada outra vez à concha, Banks será inserida, enfim, no branco. Momento em que estabelece total contato com os visitantes – não mais na antecâmara que simula uma caverna, mas recoberta pela luz e em pleno diálogo com aquela figura grande e estranha. Sua jornada àquele espaço é sua constatação dos erros de seus pares, os homens, antes e durante essa trajetória, ainda que seja possível corrigir alguns tropeços.

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Oito ficções científicas sobre jornadas ao desconhecido

O contato do homem com o desconhecido – o que pode ser definido como uma força alienígena – é tema recorrente em filmes de ficção científica, como se confere na lista abaixo. Em muitos casos, o que se vê é o descortinar de si próprio, mais que o do outro, o alienígena que tem o espaço invadido e nem sempre é vilão.

Planeta Proibido, de Fred M. Wilcox

Sob a carcaça do típico filme de ficção científica dos anos 50 há questões inquietantes: no espaço, em um planeta distante, homens tentam criar uma sociedade capaz de realizar suas vontades apenas com o poder da mente, envolvendo paz e justiça. Mas, como se sabe, as realizações nem sempre acompanham os desejos.

2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick

Três momentos, três histórias, um salto na evolução que liga o fim ao início. Há muitas maneiras de descrever essa obra-prima sobre o homem rumo ao contato com uma força superior. Em viagem final, dois astronautas confrontam um computador fora de controle, em um duelo pelo controle da própria nave.

Contatos Imediatos do Terceiro Grau, de Steven Spielberg

O homem em questão, vivido por Richard Dreyfuss, fica fascinado pela presença alienígena que cruza os céus, pelas luzes que sobrevoam seu veículo a certa altura. Sai atrás dessa força na companhia de uma mulher cujo filho foi abduzido. Está disposto a deixar tudo para trás para embarcar na grande nave e ir embora.

Stalker, de Andrei Tarkovski

Três homens – um stalker, um cientista e um escritor – entram em uma região fechada pelo governo, chamada de Zona. Nesse espaço – no qual o verde contrasta a imagem sépia do que fica de fora – há outro espaço, o quarto, no qual os desejos humanos podem ser realizados. À beira desse espaço, os homens veem-se paralisados.

O Segredo do Abismo, de James Cameron

Antes de “conquistar o mundo” com Titanic e Avatar, e pouco depois do primeiro Exterminador do Futuro e do segundo filme da série Alien, Cameron assinou esse filme sobre um grupo de mergulhadores que descobre uma força alienígena no fundo do oceano. Há espaço ainda para a intriga entre humanos e uma história de amor.

Contato, de Robert Zemeckis

Uma ficção científica em que a possibilidade de se encontrar uma crença sobrepõe o ceticismo. E uma frase sempre lembrada dá o tom do filme: “seria um desperdício de espaço se não houvesse vida fora da Terra”. Os humanos recebem uma mensagem alienígena. A cientista vivida por Jodie Foster tenta respondê-la.

A Chegada, de Denis Villeneuve

Dessa vez é uma linguista quem deve se aproximar dos alienígenas. Certo dia, diferentes naves com formato de concha surgem no planeta. Os americanos recorrem ao conhecimento da personagem de Amy Adams, cujo avanço ao interior da nave, cada vez maior, faz com que descubra a si mesma, como também seu futuro.

Aniquilação, de Alex Garland

A bióloga interpretada por Natalie Portman vai a uma região sob efeitos alienígenas, afastada, chamada de Brilho. Do local, seu marido militar retornou perturbado. O que ela descobre é que, em contato com o ambiente, seres vivos sofrem mutações e a vida obedece novas regras. Do mesmo diretor de Ex_Machina: Instinto Artificial.

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Os 20 melhores filmes de 2017

Até a metade, o ano não parecia ser dos melhores. Fala-se aqui, claro, do cinema. Mas algo mudou e grandes obras começaram a estrear, incluindo a primeira posição da lista abaixo – da qual muita coisa ficou de fora. Esse apanhado prova que o cinema atual respira bem. Grandes diretores continuam a fazer filmes e surpreender. Que venha 2018!

20) Manifesto, de Julian Rosefeldt

Cate Blanchett pula de cenário em cenário, de vida em vida, para dar voz a diferentes manifestos artísticos nesse filme original e sem saídas fáceis. Ao fundo repousa um mundo estranho, futurista, de salas lustradas ou de espaços em cacos, de gente bela ou miserável.

19) Últimos Dias em Havana, de Fernando Pérez

O que resiste é a amizade. E é sobre seu fim, a certeza de se ir embora – da vida ou de um país. Em cena, dois homens dividem a mesma casa em Havana, Cuba. Um fala muito, o outro quase nada. Um sonha em ir para os Estados Unidos, o outro tem aids e está acamado.

18) Eu, Daniel Blake, de Ken Loach

Davi contra Golias, o homem comum contra o Estado. Uma trajetória tocante que venceu a Palma de Ouro em Cannes. Ao centro, o simpático e às vezes difícil Daniel Blake, que não pode voltar a trabalhar e cuja vida é dificultada pelas autoridades, que insistem em não lhe ajudar.

17) Guerra do Paraguay, de Luiz Rosemberg Filho

O lendário diretor integrou o grupo de realizadores do cinema marginal. Trabalha aqui com o preto e branco, elenco e recursos mínimos. Conta a história de um soldado que retorna cheio de patriotismo da vitória no Paraguai e se depara com uma diligência guiada por mulheres.

16) Uma Mulher Fantástica, de Sebastián Lelio

O cotidiano da transsexual Marina Vidal fica de cabeça para baixo quando seu companheiro morre. É apenas o início do filme. O que vem a seguir é uma jornada por reconhecimento próprio contra a família do homem, que insiste em ignorá-la e tratá-la com preconceito.

15) Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky

Retrato da vida de uma mulher presa às exigências da família – à medida que assiste às fugas e à boa vida do marido e à morte da mãe. Bodansky recheia sua história, outra vez, com sensibilidade. Em cena, o brasileiro que se descobre impotente, entre gerações diferentes demais.

14) Dunkirk, de Christopher Nolan

O espetáculo de guerra de Nolan. O filme é pulsante, empolga, não deixa cair no desinteresse em momento algum. Divide-se em três tempos: a semana de um rapaz que tenta escapar da França, o dia de um homem que ajuda os soldados no mar e as horas de um piloto contra os inimigos.

13) Nocturama, de Bertrand Bonello

Inédito nos cinemas, o filme foi direto para a Netflix. Os jovens em cena se reúnem para promover o caos: em um dia como qualquer outro, espalham bombas em Paris e sequer explicam suas reais motivações. Em seguida, juntam-se em uma loja de departamentos, à espera do fim.

12) Afterimage, de Andrzej Wajda

Outra luta de Davi e Golias, a do artista contra o sistema comunista polonês após a Segunda Guerra Mundial. Aos olhos do Estado, a arte de Wladyslaw Strzeminski não interessa: parece intelectual ou burguesa demais a esses tempos de “arte política”. Último filme do mestre Wajda.

11) Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve

O que parecia impossível aconteceu: Villeneuve fez um novo Blade Runner sem que parecesse cópia do primeiro e, de quebra, sem deixar de lado as características do anterior. O diálogo entre ambos é pleno. Ainda assim, o cineasta vai em frente e faz um filme com sua assinatura.

10) Na Praia à Noite Sozinha, de Hong Sang-soo

Um dos mais belos trabalhos do coreano Sang-soo. Com muito diálogo e aparência de improviso, além do uso constante do zoom, o diretor trilha caminho autoral. Trabalha de maneira rápida, é incansável. E mais outros dois filmes do cineasta devem desembarcar em breve no Brasil.

9) O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues

A situação do protagonista tem algo onírico: ele perde-se pela floresta, é perseguido por mulheres que o torturam e assombrado por animais empalhados. O homem torna-se refém e presa nessa obra original do português João Pedro Rodrigues, com coprodução brasileira.

8) Z: A Cidade Perdida, de James Gray

Outro grande filme esquecido pelas premiações. Os homens do establishment hollywoodiano insistem em ignorar Gray, talvez o melhor cineasta americano em atividade. Aqui, ele conta a história real do explorar Percival Fawcett, em busca de uma cidade perdida.

7) Na Vertical, de Alain Guiraudie

A França profunda deixa ver os lobos. Nada pode ser previsto nesse filme do diretor de Um Estranho no Lago. A misè-se-scene de Guiraudie é direta, às vezes fria, dispensa firulas. Seu protagonista, um roteirista de cinema, torna-se pai e se vê sozinho com seu bebê.

6) O Apartamento, de Asghar Farhadi

A vida de um casal transforma-se ao mudar para outro apartamento. A cena inicial resume muito: o antigo prédio em que vivia apresenta tremores. No prédio seguinte, o casal passa a morar no apartamento em que residia uma prostituta, onde a nova moradora é agredida.

5) A Vida de uma Mulher, de Stéphane Brizé

Filme triste e realista, em época passada, ainda sob a regra dos bons modos. À frente, a vida da mulher é feita mais dos momentos tristes, menos dos felizes. Ela é vítima dos homens que a cercam: primeiro o marido, depois o filho. Ela resiste. Brizé é cruel e delicado.

4) Toni Erdmann, de Maren Ade

Os pontos altos dessa comédia ocorrem em situações inesperadas. A cineasta apresenta a difícil relação entre pai e filha, e como a segunda é levada a se transformar – a se despir, o que inclui o gesto literal – para seguir em frente. O momento em que canta é um achado.

3) Além das Palavras, de Terence Davies

Nova incursão pela vida de uma mulher. Personagem verdadeira, a poetisa Emily Dickinson passa da educação religiosa à vida de festas e alguma clausura. Sempre cercada pelas pessoas e, claro, pelas palavras. Davies é um daqueles mestres que merece mais reconhecimento.

2) Paterson, de Jim Jarmusch

A poesia, outra vez. O poeta urbano, escondido, à frente do volante de um ônibus. Os dias, para ele, só podem escapar da repetição – e das repetições sinalizadas pelos gêmeos – a partir da escrita, da possibilidade de ser poeta. Possivelmente o melhor filme do independente Jarmusch.

1) Corpo e Alma, de Ildikó Enyedi

A medalha de ouro fica com esse pequeno grande filme sobre o amor entre pessoas aparentemente diferentes, em lugar difícil de imaginar: um abatedouro de bovinos. Ali, ele observa a moça que tenta se desviar. Ambos passam a sonhar o mesmo sonho e relatam essa experiência a cada novo dia. Algo mágico, para dizer o mínimo.

E outros dez que merecem menções honrosas: Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé; Martírio, de Vincent Carelli; Moonlight: Sob a Luz do Luar, de Barry Jenkins; A Tartaruga Vermelha, de Michael Dudok de Wit; Manchester à Beira-Mar, de Kenneth Lonergan; Mimosas, de Oliver Laxe; Joaquim, de Marcelo Gomes; Eu Não Sou Seu Negro, de Raoul Peck; Fragmentado, de M. Night Shyamalan; e O Filho de Joseph, de Eugène Green.

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Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve

O caçador de andróides, 30 anos antes, descobriu o amor improvável, acidental, enquanto trabalhava em uma investigação. O caçador que surge 30 anos à frente garante o amor a partir de uma companheira digital, em holograma, comprada para lhe fazer companhia. Os tempos mudaram. A tecnologia é tão natural quanto opressiva.

O rapaz, o novo caçador, chama-se K. A companheira que se desenha, nascida em luzes, pretende fazê-lo acreditar ser especial: pessoas assim, argumenta ela, precisam ter um nome de verdade. Ele aceita mudar. Passa a atender por Joe. É, em Blade Runner 2049, continuação do cult de 1982, um de seus avanços – talvez o principal – rumo à humanidade, à face que assume frente ao mundo ao redor.

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Precisa ser um homem, alguém com sentimentos: abre o olho, ou por ele é engolido à revelação, no início, para ver além da capa à qual foi legado. Não é máquina. É mais. Quer ser alguém para atravessar esse futuro sem saídas, de poeira, chuva ácida, radiação, de lixo e máquinas que impedem a visão que se deseja, ou com a qual se sonha.

Como o primeiro, ambientado em 2019, a continuação de Denis Villeneuve tem uma personagem que não sabe bem o que faz, onde está, e descobre suas origens. Quer dizer, o homem do filme anterior, imortalizado por Harrison Ford, apenas acreditava saber mais, ou dava as costas: sua indiferença aproximava-o dos detetives do cinema noir.

Designado ao trabalho, simplesmente executava. Caçava replicantes como parte de um dia a dia cercado por orientais, velharias, punks, belas modelos – tudo amontoado pela rua. O novo caçador sabe o que é: desde o início, como confere o público, vê-se o andróide aprisionado ao pequeno apartamento, às ordens, à namorada digital.

O amor em questão carrega certa teatralidade, certa “mão divina”. Oposto, às aparências, ao amor de Rick Deckard (Ford) por Rachael (Sean Young). Curiosamente, uma das sequências mais bonitas de 2049 mostra a moça feita em holograma fundida ao corpo de outra, uma prostituta, para conseguir tocar e satisfazer sexualmente o companheiro.

Novos tempos, novos prazeres e amores. De qualquer forma, não se nega o sentimento, a cegueira causada pelo holograma programado para dizer o que todo homem deseja ouvir. Característica humana: a crença de que é possível escapar à linha de montagem, de que é possível ser fruto de um ventre materno, reproduzido à base de uma história de amor.

O andróide de Ryan Gosling vive situação dramática: descobre a si mesmo, entre os cacos da civilização, para se sentir, mais tarde, grão de areia no universo. Descobre, nesse que pode ser o melhor filme de Villeneuve, que os humanos definem-se pela consciência da finitude, da pequenez, principalmente quando a tecnologia ajuda a ver tudo do alto ou a erguer castelos e pirâmides repletas de luzes, sobre os quais ainda resta um olho atento.

Com ele, na abertura da primeira ou da segunda parte, o convite é para entrar. Invadir o olho para ver a alma, e ver o humano. Na trama, K desloca-se ao seu interior, à história que acredita ter, a qual lhe toma ora ou outra de assalto, que acredita ter sido implantada e a qual, acredita depois, pode ter sido real. Verdadeira ou não, é o trampolim aos seus sentimentos, o que afasta o homem da máquina.

Apesar de belas sequências de ação, o que move Blade Runner 2049 é a jornada interior. Como no filme de 1982, Villeneuve está interessado em discutir se a cópia pode assumir o papel do original. Ou superá-lo. No anterior, os andróides procuravam seu criador para tentar frear a morte; 30 anos mais tarde, o replicante sai em busca do homem que acredita ser seu pai e, por ele, encontrar respostas sobre sua origem.

As perguntas lançadas pelo filme de Ridley Scott, em 1982 e em versões posteriores, seguem inquietantes. Villeneuve persiste nesse olho aberto, cheio de cores, no qual é preciso mergulhar, o do jovem caçador de andróides que se alimenta do amor para preencher o vazio, que encontra a desilusão, o erro, para enfim sentir o material do qual é feito.

(Idem, Denis Villeneuve, 2017)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Blade Runner, o Caçador de Andróides, de Ridley Scott