declaração

Bernardo Bertolucci (1941–2018)

(…) durante muito tempo abordei cada plano como se fosse o último, como se fossem me tirar a câmera assim que eu o tivesse filmado. Eu tinha, portanto, a sensação de roubar cada plano, e nesse estado de espírito é impossível refletir em termos de “gramática” ou até mesmo de lógica. Ainda hoje, não preparo nada com antecedência, não faço nenhuma decupagem prévia. Geralmente tento sonhar durante o sono com os planos que vou filmar no dia seguinte no set. Com um pouco de sorte, consigo. Senão, quando chego ao set de manhã, peço para ficar um pouco sozinho e passeio no cenário com meu visor. Olho através dele e tento imaginar os personagens se mexendo e dizendo suas falas. É um pouco como se a cena já estivesse lá, mas invisível ou impalpável, e que eu tentasse adivinhá-la, materializá-la.

Bernardo Bertolucci, cineasta, em declaração a Laurent Tirard em Grandes Diretores de Cinema (Editora Nova Fronteira; pgs. 153 e 154).

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Bergman segundo Scorsese

Nos anos 1950, havia certos filmes e cineastas que tinham um impacto dramático nos espectadores, nas possibilidades do cinema, no que podiam fazer e até onde podiam ir. Havia Kurosawa, com Rashomon (1950) e Os Sete Samurais (1954). Havia Fellini, com Noites de Cabíria (1957) e A Estrada da Vida (1954). Havia Satyajit Ray com a trilogia Apu. Havia os filmes russos como Quando Voam as Cegonhas (1957). E havia Bergman. É impossível superestimar o efeito que esses filmes tinham nas pessoas. Não que Bergman tenha sido o primeiro artista a confrontar temas sérios. Mas ele havia trabalhado com uma linguagem simbólica e emocional que era séria e acessível. Ele era jovem, impunha um ritmo incrível, mas tratava de memória, de velhice, da realidade da morte, da realidade da crueldade, e fazia tudo de forma tão vívida, tão dramática. A conexão de Bergman com o público era um pouco como a de Hitchcock – direta, imediata.

Martin Scorsese, cineasta, em entrevista a Stig Björkman (íntegra da entrevista feita em 2010 para o documentário …Mas o cinema é minha amante, publicada no catálogo da mostra Ingmar Bergman, de 2012, do Centro Cultural Banco do Brasil; pg. 197).

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Bastidores: Era Uma Vez em Tóquio

(…) no começo da década de 70, quando eu estava em Nova York pela primeira vez e já tinha feito dois ou três filmes, um dia um amigo me perguntou se já tinha visto os filmes de certo diretor japonês. Seu nome era impronunciável e eu nunca tinha ouvido falar dele. Mas meu amigo insistiu e me disse: “você vai gostar dele”. Então eu fui a uma sessão vespertina de um filme chamado Era Uma Vez em Tóquio. Este é o filme da minha vida. Claro que não esperava muito, mas a partir da primeira cena, fui atingido como nunca antes numa sala de cinema. Sentei-me com os olhos abertos, a boca escancarada, e chorei durante a maior parte do filme – mas nem percebi. Não conseguia acreditar no que via. Ali estava a história mais simples que tinha visto na vida. A história de uma família: um pai, uma mãe, seus filhos crescidos e netos. Havia ali casamentos e funerais; eles trabalhavam, comiam, conversavam, caminhavam. Nada espetacular, nada que nem de longe lembrasse uma história. Mas era mais cativante que as melhores aventuras que tinha visto até então. Fiquei ali, sentado, até o fim da última sessão do dia. Vi aquele filme quatro vezes seguidas, e ao final, eu sabia bem o nome do cineasta e tinha certeza de que não me esqueceria dele pelo resto da minha vida: Yasujiro Ozu. Ele me mostrou o que eu nem sabia que poderia existir. Algo como um paraíso perdido no cinema, onde as coisas finalmente são nada mais que elas próprias. Onde não existe medo algum, apenas a vida como ela é.

Wim Wenders, cineasta, em depoimento ao ciclo Os Filmes da Minha Vida, da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, publicado no livro Os Filmes da Minha Vida 3 (Imprensa Oficial; pgs. 24 e 25). Abaixo, a atriz Setsuko Hara é dirigida por Ozu nas filmagens de Era Uma Vez em Tóquio.

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Robert Altman segundo Paul Thomas Anderson

Parece caseiro e feito à mão. Centenas já tentaram ser Robert Altman – ou Altmanescos – mas lhes falta um certo ingrediente: não são ele. Não existe ninguém como ele. Ele pode ser imitado e pode influenciar, mas é impossível de ser alcançado ou capturado – é imprevisível e o rio que segue é só dele. É obstinado e generoso, petulante e reconfortante, e tem o melhor sorriso que um diretor de cinema pode ter. Um homem de Kansas City que lutou em guerras, tatuou cachorros, escreveu músicas e socou produtores.

Não se pode chamar muitos diretores de artista. Mas Bob é. Diretores podem ser um grupo malévolo e intragável, mas quando surge o nome de Bob – todos param e mudam o tom. Todos respeitam o Bob. Todos se curvam em reverência.

Paul Thomas Anderson, cineasta, no prefácio do livro Altman on Altman (o prefácio está traduzido e incluso no catálogo da mostra As Muitas Vidas de Robert Altman, do qual o trecho acima foi retirado; pg. 30).

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Ermanno Olmi (1931–2018)

No início, não penso na câmera. Penso no que deve ser apresentado: o lugar, a iluminação, as pessoas. Construo a ficção que preciso e quando sinto que ela corresponde às minhas necessidades, vou para a câmera para ser conduzido pela cena, sem estabelecer de antemão que “aqui” vou fazer um close-up, um plano geral ou um movimento de câmera. Não decido nada com antecedência. Quase sempre trabalho com a câmera na mão, na altura de meus olhos, e se preciso movimentá-la procuro fazer como se ela fosse parte de meu corpo.

Ermanno Olmi, cineasta, em declaração reproduzida no livreto que acompanha o DVD brasileiro do filme O Emprego (Bretz Filmes).

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