Deborah Kerr

Bastidores: Júlio César

Marlon Brando é um rapaz engraçado, enérgico, egocêntrico, de 27 anos, nariz chato e cabeça redonda, braços e ombros enormes, e ainda dá a impressão de ser um estudante magrinho de Greenwich Village. É muito nervoso, resmunga suas falas e ensaia sozinho o dia inteiro. Muito respeitoso comigo, me arrastou para gravar dois discursos de Antônio em seu aparelho, onde ele escuta a própria voz e estuda gravações de Larry, Barrymore, Maurice Evans etc. para treinar a dicção. Creio que sua sinceridade pode levá-lo a uma atuação interessante? – seu inglês não é de todo mau e ele é obviamente muito ambicioso e inteligente. Contou-me que tem uma fazenda de gado e que, depois de mais dois anos filmando, vai estar completamente seguro financeiramente!! Faz parte de um teatro de estudantes em Nova York e é desesperadoramente sério a respeito de representar, mas acho que tem muito pouco humor e parece muito alheio a tudo, exceto ao desenvolvimento do próprio e evidente talento. Será bastante divertido observá-lo.

(…)

Agora estamos em nossos três últimos dias de filmagem, estou deixando a barba crescer e ficarei parecendo um assaltante, ou o 13º apóstolo. A cena da tenda ficou muito boa, embora eu ainda pisque e me remexa nas tomadas em close, e meus olhos vagueiem para os lados, como se procurassem um policial que estivesse vindo para me prender. James Mason é tão seguro e claro em sua representação facial que chego a ter inveja. Ele fez uma interpretação muito boa de Brutus e, quero crer, fará um grande sucesso nesse papel tão difícil. Se fizerem os cortes com argúcia, creio que eu consiga passar incólume, mas espero que não pensem que eu tenha feito uma interpretação teatral e veemente demais. Não vi nada das cenas de Brando, mas dizem que sua cena no Fórum ficou excelente.

John Gielgud, ator, em cartas para sua mãe, em 1952, sobre as filmagens de Júlio César, a versão de 1953 dirigida por Joseph L. Mankiewicz (“Reflexos do palco”, Revista Piauí, julho de 2010; leia aqui texto completo). No filme, Gielgud interpreta Cassius. Abaixo, Deborah Kerr, Marlon Brando e Greer Garson, todos do mesmo elenco.

julio césar

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Bastidores: Gilda

Nasce uma estrela

Na verdade, quem diria que estava destinada à fama mundial aquela menina esquelética que perambulava pelas ruas de Nápoles à espera que os soldados americanos lhe atirassem barras de chocolate? Foi sua mãe quem lhe abriu o caminho. Apaixonada por cinema, levou as duas filhas para Roma para lhes conseguir trabalho de extras em um dos filmes que os americanos produziam nos estúdios da Cinecittà. A estreia de Sophia foi como uma das escravas de Deborah Kerr em Quo Vadis e, logo em seguida, participou de outras 20 produções de Carlo Ponti, que se apaixonou pela figurante napolitana e a batizou de Sophia Loren ao invés do complicado sobrenome Scicolone do pai ausente.

Dulce Damasceno de Brito, sobre a famosa atriz italiana (em sua coluna Hollywood Boulevard, na revista SET, em Junho de 2003). Na foto abaixo, Loren aparece nos bastidores de A Condessa de Hong Kong, último filme de Charles Chaplin.

sophia loren

Bastidores: Os Inocentes

Fosse ela uma adúltera (A Um Passo da Eternidade) ou uma freira (O Céu é Testemunha, de John Huston), o espectador podia estar seguro de que ia ver na tela uma atriz capaz de expressar sentimentos viscerais da mulher. Talvez tenha sido este o grande legado de Deborah Kerr. Na sua grande fase, ainda anterior ao feminismo, ela humanizou a mulher no cinema, abordando seus sentimentos em relação ao amor e ao sexo em papeis (e filmes) que se tornaram inesquecíveis. A inválida de Tarde Demais para Esquecer, de Leo McCarey; a amante do pai hospitalizada pela jovem Jean Seberg em Bom Dia, Tristeza, de Otto Preminger; a governanta das crianças que podem estar possuídas de Os Inocentes, terror gótico de Jack Clayton; a missionária reprimida de A Noite do Iguana, que John Huston adaptou de Tennessee Williams; e o novo casal adúltero que ela formou com Burt Lancaster em Os Pára-Quedistas Estão Chegando, de John Frankenheimer, mostraram que essa grande dama não temia subverter a própria imagem, para melhor servir a seus personagens.

Luiz Carlos Merten, crítico de cinema, no jornal O Estado de S. Paulo (leia aqui). O texto foi publicado na ocasião da morte da atriz Deborah Kerr, em 2007.

os inocentes

A um Passo da Eternidade, de Fred Zinnemann

Alguns filmes tiveram mais impacto na época em que foram feitos. No caso de A um Passo da Eternidade, é possível compreender o sucesso e os suspiros que captou em 1953, quando foi lançado. Hoje, contudo, pode parecer até um pouco inocente.

Seu diretor, Fred Zinnemann, embarcou no roteiro de Daniel Taradash, a partir da obra de James Jones, para relatar a situação de um grupo de soldados nos dias anteriores à Segunda Guerra Mundial: o sentimento de um país próximo a cair no cinismo que a personagem de Burt Lancaster revela ao fim, ao mandar que retirem o corpo de seu amigo, um soldado americano morto pelo próprio exército, sem muito sentimento.

burt lancaster & deborah kerr - from here to eternity 1953

É um passo à frente em relação a outro vencedor do Oscar, Os Melhores Anos de Nossas Vidas: a celebração o tempo anterior e, ao mesmo tempo, posterior à guerra. Um tempo de traições, de posições sociais e sexuais ambíguas. Um tempo em que os americanos pareciam o próprio inimigo e assumiam suas feições.

É, em essência, a história de cinco pessoas: um sargento linha dura, um soldado idealista, um ítalo-americano falador, uma mulher nada realizada em seu casamento e uma prostituta apaixonada por um soldado e em busca de uma vida digna.

A obra de Zinnemann move-se para demolir o sonho americano em um meio militar, naquela instituição de homens bravos, que deveriam ser honestos, cavalheiros, fiéis.

Há uma sequência em que um soldado ordena ao outro, o idealista Robert E. Lee Prewitt (Montgomery Clift), que gire o corpo, depois gire novamente, e depois mais uma vez. Poderia haver forma melhor de mostrá-lo preso, às voltas em um mesmo ambiente, a executar sempre a mesma coisa? Uma loucura.

Justamente por ser um idealista, Prewitt pagará caro. Torna-se saco de pancadas. O capitão do grupo, Dana Holmes (Philip Ober), deseja-o na equipe de boxe. O capitão importa-se mais com o boxe do que com a mulher, a bela Karen (Deborah Kerr). Tem diversos retratos de homens fortes em sua sala, na parede, para observar ali o máximo da potência masculina. É a forma de Zinnemann apresentar seu prazer por homens – opção corajosa e inteligente a partir do texto de Taradash.

a um passo2

Karen, por sua vez, cederá aos encantos do durão Milton Warden (Burt Lancaster) e, na cidade, com camisa florida e longe da repressão, Prewitt também se deixará levar por outra beleza: a prostituta Alma (Donna Reed), conhecida em seu meio como Lorene.

O bordel é uma fuga. Mais: é um meio de liberdade e tolerância contra o intolerante exército de homens que giram no mesmo lugar, como pregos. O exército, para Zinnemann, é uma instituição de homens cegos na qual a vontade de justiça de Prewitt – sua forma de não se subordinar onde isso é uma obrigação – é uma revolta.

Portanto, um filme poderoso. Mas um filme que trabalha nos cantos, no que é sempre subliminar. Corajoso e um tanto rápido, às vezes até mesmo econômico na forma de comprimir tanto em tão pouco: uma história de muitas vidas que se esbarram a cada novo instante – até o momento final, único encontro entre as mulheres ao centro.

Simbólico por se passar poucos dias antes da Segunda Guerra Mundial, à qual os americanos seriam tragados. A morte do idealista é a chegada desse tempo nebuloso, de um cinismo que, é verdade, explode nesse filme de 1953.

00/00/1953. Film "From here to eternity" (Tant qu'il y aura des hommes) by Fred Zinnemann

O melhor amigo de Prewitt é Angelo Maggio (Frank Sinatra), garantia de alegria e, ao mesmo tempo, de desgraça em A um Passo da Eternidade. Essas características completam o homem de Clift, aparentemente vazio, de falas fortes e secas, com uma lágrima no rosto quando toca a corneta em um campo vazio, em um dia de luto.

É contido. Poderia ser mais lacrimoso e não é. Ainda bem. Zinnemann sabe que toda a tragédia já está por ali: no grito final do capitão, no rapaz sangrando pelo campo aberto, no beco em que Prewitt derruba o malvado Fatso (Ernest Borgnine) – grande, gordo e chegado à tortura, certamente para lembrar Mussolini.

O pior já estava entre eles: o exército. Cerca todos os lados, não deixa vazão. Quando Prewitt e seus companheiros recorrem à bebida, também ao bordel, o espectador deverá ficar aliviado. É a forma de escapar de toda aquela besteira, pela qual, como o bom americano que ainda tenta ser, deverá morrer. Uma porta à guerra. O resto é história.